Capítulo 2 – O Reflexo do Engano
por FanfiqueiraO choque foi uma barreira física. Por vários segundos, o único som no chalé era o estalar da lenha na lareira e a respiração errática de SN, que ainda lutava para processar a imagem à sua frente.
Namjoon não se moveu. Os nós dos seus dedos estavam brancos ao redor do copo de uísque. A luz âmbar do fogo dançava em suas feições, endurecendo as linhas de seu rosto, que parecia mais esculpido e muito mais frio do que ela se lembrava. Não era o Namjoon que sorria com covinhas enquanto lia poesia; era um homem que parecia ter sido forjado no gelo daqueles quatro anos.
— Namjoon… — a voz dela saiu num fiapo, quase engolida pelo uivo do vento lá fora.
Ele não respondeu. Apenas a observava com uma intensidade que beirava a hostilidade.
SN sentiu o pânico subir pela garganta. Ela deu um passo para trás, a mão tateando cegamente a maçaneta gelada atrás de si. A realidade da situação a atingiu como um soco: Ji-a mentira. E ela estava encurralada no lugar que mais temia no mundo: a presença dele.
— Eu… a Ji-a disse que o chalé estaria vazio — ela começou a falar rápido demais, as palavras tropeçando umas nas outras. — Ela disse que o Yoongi tinha cancelado, que precisavam de alguém aqui para… para o aquecimento. Me desculpe. Eu não sabia. Eu jamais teria vindo se soubesse.
Namjoon finalmente se moveu. Ele colocou o copo sobre a mesa lateral com um clique seco e definitivo. Ele deu um passo à frente, entrando na luz.
— “Jamais teria vindo” — ele repetiu. A voz dele era um barítono baixo, carregado de um sarcasmo que a fez estremecer. — É a sua especialidade, não é? Fugir.
— Eu não estou fugindo, eu só estou… me desculpando. — Ela girou a maçaneta com força, tentando abrir a porta que acabara de trancar. — Eu vou embora. Agora mesmo. Eu pego um táxi na estrada principal ou…
— Não seja idiota — Namjoon cortou, a voz subindo de tom. — Olhe para trás de você, SN.
Ela olhou pelo vidro da pequena janela na porta. O que há dez minutos era um entardecer cinzento, agora era um borrão branco total. A neve caía em cortinas sólidas, e o vento soprava com tanta força que as árvores ao redor do chalé pareciam se curvar em agonia. A estrada, que já era precária, havia sumido sob metros de gelo e neve acumulada.
— Eu posso caminhar — ela insistiu, a voz embargada pelo desespero. Ela preferia enfrentar a hipotermia a enfrentar o olhar dele.
Ela puxou a porta. O vento empurrou de volta com uma violência tal que a jogou um passo para trás. O frio entrou como uma lâmina, apagando instantaneamente o calor da sala.
Antes que ela pudesse tentar de novo, a mão de Namjoon surgiu sobre a dela, batendo a porta com força. O baque ecoou por todo o chalé.
Ele estava perto demais. O cheiro dele — uma mistura de sândalo, uísque e o frio da neve — invadiu os sentidos dela, despertando memórias que ela passara mil e quinhentos dias tentando enterrar. SN ficou imobilizada entre a porta e o corpo dele.
— Você não vai a lugar nenhum — ele sussurrou perto do ouvido dela, a voz vibrando com uma fúria contida que a fez arrepiar. — Você morreria em dez minutos lá fora. E eu não vou carregar mais essa culpa nas costas.
Ele se afastou, mas a tensão não diminuiu. Namjoon passou a mão pelo cabelo, visivelmente tentando se controlar. Ele caminhou até o centro da sala, de costas para ela.
— O Yoongi me disse a mesma coisa — ele falou, agora mais calmo, mas ainda letal. — Disse que o chalé estava vazio. Que ele e a Ji-a não viriam. Ele sabia que eu viria para cá se achasse que estaria sozinho.
— Eles nos armaram uma emboscada — SN murmurou, encostando a cabeça na madeira fria da porta.
— Uma emboscada de quatro anos de atraso — ele rebateu, virando-se para encará-la. — Tire o casaco. E as botas. Você está molhando o chão todo.
O comando foi direto, sem espaço para discussões. SN obedeceu mecanicamente. Seus dedos estavam tão gelados que ela mal conseguia desabotoar o casaco de lã. Ela sentia o olhar de Namjoon sobre cada movimento seu, um peso físico que tornava tudo mais difícil.
Ela tirou as botas e ficou ali, de meias, sentindo-se vulnerável e pequena naquela sala que parecia ter encolhido.
— Tem um quarto no andar de cima — Namjoon disse, gesticulando para a escada de madeira. — É o único com aquecimento funcionando além desta sala. Eu vou ficar no sofá.
— Namjoon, nós não podemos…
— Nós não vamos fazer nada — ele a interrompeu, os olhos fixos nos dela. — Não vamos conversar. Não vamos relembrar os velhos tempos. Nós vamos esperar essa tempestade passar, o que deve levar uns dois ou três dias, e depois você some da minha vida de novo. Da mesma forma que fez da primeira vez. Sem explicações, sem adeus.
O tom dele era de um desdém tão profundo que SN sentiu uma pontada no peito, uma dor física que a lembrou do porquê de ter ido embora. Ela queria gritar que não fora tão simples, que havia motivos, que ela também sofrera. Mas as palavras ficaram presas na sua garganta.
— Tudo bem — ela disse, a voz baixa. — Dois dias.
— Ótimo.
Namjoon voltou para sua poltrona e pegou o copo de uísque, ignorando a presença dela com uma eficiência cruel.
SN pegou sua mala e subiu as escadas, sentindo o peso de cada degrau. Quando chegou ao quarto, ela fechou a porta e encostou-se nela, deixando o corpo escorregar até o chão. Ela cobriu o rosto com as mãos, tentando não chorar. O silêncio do chalé era preenchido apenas pelo som da tempestade lá fora, selando os dois naquele isolamento forçado.
Lá embaixo, Namjoon virou o resto do uísque de uma vez, sentindo o líquido queimar sua garganta. Ele olhou para o fogo, os olhos perdidos. Ele tinha passado anos imaginando o que diria se a visse de novo. Tinha ensaiado discursos de ódio, pedidos de perdão, perguntas infinitas.
Mas agora que ela estava ali, a apenas alguns metros de distância, a única coisa que ele sentia era o peso do colar no fundo da sua mochila e a percepção aterrorizante de que, apesar de tudo, o tempo nunca tinha realmente parado. Ele apenas estivera esperando o inverno certo para cobrar o seu preço.
SN permaneceu sentada no chão do quarto, as costas pressionadas contra a madeira da porta. O silêncio do chalé era interrompido apenas pelo estalar da lenha no andar de baixo e pelo uivo lá fora. Mas, em sua mente, o barulho era outro. Era o som de uma notificação de celular que, dois anos atrás, havia destruído o que restava de sua sanidade.
Flashback — Ontário, dois anos atrás.
O ar no observatório era rarefeito e frio, exatamente como ela gostava. O trabalho com as estrelas era a única coisa que mantinha SN funcional após a morte de seu pai. Ela só conseguia pensar no homem que ela abandonara em Seul sem olhar para trás, convencida de que Namjoon ficaria melhor se ela desaparecesse.
Ela estava ajustando as lentes do telescópio quando Maya, uma colega de trabalho e fã fervorosa de K-pop, entrou na sala bufando, os olhos grudados na tela do celular.
— Eu não acredito! — Maya exclamou, sem notar o estado frágil de SN. — Namjoon finalmente assumiu! Estão todos os fóruns explodindo. Ele está namorando aquela atriz, a Lim Ji-yeon.
O nome de Namjoon agiu como uma descarga elétrica no peito de SN. Ela tentou ignorar, mas Maya girou o celular em sua direção.
— Olha como eles combinam. É oficial, a agência confirmou.
SN sentiu a visão turvar. Na tela, uma foto de uma “foto viralizada” onde tinha a tal mulher e o Namjoon com uma matéria onde ambos assumiram o relacionamento. Mas não foi o sorriso dele que paralisou SN. Foi o que brilhava no pescoço da atriz.

O pingente oval. O relógio antigo. O colar de prata que pertencia à mãe de Namjoon.
O objeto que ele dissera ser o símbolo da permanência. O objeto que ela, com o coração em pedaços, havia deixado sobre a mesa da cozinha como um ato de sacrifício, acreditando que ele o guardaria como uma lembrança sagrada de algo que não pôde ser.
Mas ali estava ele. No pescoço de outra. Entregue como se fosse uma joia qualquer.
— Eu… eu não estou me sentindo bem — SN sussurrou, as pernas vacilando. — Preciso ir para casa.
Ela não esperou resposta. Saiu do observatório quase correndo, o ar gélido do Canadá queimando seus pulmões. No caminho para o seu pequeno apartamento, ela parou em uma loja de conveniência. Não comprou comida. Comprou três fardos de cerveja e uma garrafa de uísque barato.
Naquela noite, ela não chorou. Ela apenas bebeu. Bebeu até que o rosto de Namjoon na tela do celular ficasse borrado. Bebeu até que a imagem daquela atriz usando seu colar fosse substituída pela escuridão total do apagão alcoólico.
Aquele foi o início da queda. Foram meses de garrafas escondidas sob a cama, de turnos perdidos no trabalho e de uma apatia que assustou até os colegas mais distantes. A dor criou um buraco que só foi fechado meses depois, em uma clínica de reabilitação na costa leste, onde ela aprendeu a trocar o álcool pelo isolamento absoluto.
Na cabeça dela, Namjoon não era apenas uma página virada. Ele era o homem que havia dado o símbolo máximo de sua família para uma estranha meses após ela ir embora. Ele a tinha substituído com a facilidade de quem troca de roupa.
Dias atuais — O Chalé.
SN soluçou baixo, apertando os joelhos contra o peito. A ironia era cruel: ela estava presa em uma tempestade com o homem que ela odiava por ter esquecido rápido demais, e que a odiava por ter ido embora.
Ela se forçou a levantar, limpando as lágrimas com as costas das mãos. Precisava ser prática. Precisava de distância.
Caminhou até sua mala de mão e a abriu sobre a cama de colcha pesada. Começou a inventariar o que tinha levado: dois pacotes de biscoitos integrais, algumas barras de proteína, uma garrafa de água pela metade e seu diário.
Não é o suficiente para dois dias, pensou, fechando os olhos com força.
Para comer, ela teria que descer. Teria que enfrentar a cozinha que agora pertencia a ele. Teria que cruzar o caminho daquele homem que, lá embaixo, provavelmente ainda carregava o cheiro do uísque que quase a destruiu.
Ela olhou para a porta fechada. O plano era simples: não sair, não falar, não olhar. Se pudesse desaparecer nas paredes daquele quarto até que a neve parasse, ela o faria.
Mas o estômago roncou, e o frio do quarto — onde o aquecimento parecia lutar uma batalha perdida contra a fresta da janela — lembrava que o inverno, assim como Namjoon, não tinha piedade de quem tentava fugir.
Me identifiquei kkkkkkk claramente isso seria minha refeição
Eu cm fome de comida e de Namjoon,n vou sobreviver a esse inverno,ai!
Eu é q n iria ficar cm fome