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O isolamento que antes era uma escolha, agora se tornava uma questão de sobrevivência. O rádio de pilha sobre o balcão da cozinha emitia um chiado metálico, a voz do locutor cortada pela estática das massas de ar polar.

…repetimos, a frente fria se intensificou. O volume de neve nas últimas seis horas superou as expectativas. Recomendamos que os moradores de áreas isoladas racionem combustível e mantenham-se em um único cômodo aquecido…

Namjoon desligou o aparelho com um clique seco. Ele sentiu a presença de SN antes mesmo de ouvir seus passos. O clima da noite anterior ainda estava impregnado no ar, uma eletricidade estática que fazia os pelos de seus braços se arrepiarem.

— Você ouviu? — ele perguntou, sem se virar.

— Sim.

— Não faz sentido tentarmos aquecer a casa toda. Vamos concentrar tudo aqui na sala. É o único lugar com a lareira e acesso direto à cozinha. Se o gás do aquecedor do segundo andar acabar, não teremos como repor.

O acordo foi selado em silêncio. Durante as horas seguintes, eles agiram como uma unidade militar. Subiram e desceram as escadas, trazendo edredons, travesseiros, lanternas e kits de primeiros socorros. O esforço físico servia como uma válvula de escape para a tensão sexual que quase os sufocara na madrugada.

Para garantir que o fogo não morresse, eles precisavam de mais lenha. O porão do chalé era um labirinto de vigas baixas e cheiro de mofo. Namjoon carregava os troncos maiores, enquanto SN tentava ajudar com os gravetos e pedaços menores de madeira seca.

Em um movimento brusco para alcançar uma tora no fundo de uma prateleira empoeirada, a mão de SN bateu em uma quina de metal enferrujado.

— Ai! — o chiado de dor escapou de seus lábios.

Namjoon largou a lenha no chão com um baque surdo e, em dois passos, estava ao lado dela. O instinto de proteção, aquele que ele tentou enterrar sob camadas de mágoa, saltou para a superfície com uma força avassaladora.

— Deixa eu ver — ele ordenou, a voz saindo mais rouca do que pretendia.

Ele segurou o pulso dela com firmeza, mas seus dedos eram gentis. O corte era pequeno, um vinco vermelho na palma da mão que começava a minar sangue, mas a ardência era clara. SN, no automático, franziu as sobrancelhas e projetou o lábio inferior em um biquinho involuntário — o mesmo biquinho que ela fazia anos atrás quando algo não saía como planejado ou quando se machucava levemente.

Namjoon sentiu um solavanco no peito. Aquela expressão era sua ruína. Por um segundo, a postura de “homem ferido e frio” vacilou. Ele olhou da ferida para os lábios dela, e o desejo de simplesmente puxá-la para si e beijar aquela expressão foi quase incontrolável. Ele engoliu em seco, sentindo o nó na garganta.

— É só um corte, Namjoon. Eu estou bem — ela murmurou, mas não puxou a mão. O contato da pele dele, quente e protetora, era um contraste violento com o frio do porão.

— Está sujo de poeira e ferrugem — ele rebateu, tentando recuperar a autoridade na voz, embora seus olhos estivessem fixos no biquinho dela, que ela ainda mantinha. — Vamos subir. Preciso limpar isso antes que inflame.

Ele não soltou o pulso dela enquanto subiam. Na sala, agora desorganizada com colchões e mantas espalhadas pelo chão, ele a fez sentar no sofá. Namjoon buscou o antisséptico, sentando-se entre as pernas dela para ter melhor acesso à mão ferida.

A proximidade era perigosa. O joelho dele roçava a coxa dela, e o silêncio da casa, agora sem o som do aquecedor, tornava cada respiração audível.

— Vai arder — ele avisou, os olhos focados na palma dela, evitando encarar o rosto que ele sabia que ainda carregava aquela expressão de “garotinha indefesa” que o desarmava por completo.

Ele pressionou o algodão. SN deu um solavanco e soltou um gemido baixo, o biquinho se acentuando enquanto ela fechava os olhos. Namjoon parou o movimento. Ele olhou para ela, e a distância entre suas bocas era mínima. O cheiro de poeira do porão e o aroma de sândalo dele se misturaram.

A barreira estava rachando. A tempestade lá fora era implacável, mas a que estava prestes a explodir dentro daquela sala prometia ser muito mais devastadora.

A máscara de Namjoon não caiu por completo, mas a rachadura foi profunda o suficiente para deixá-lo em pânico. O biquinho de SN e o toque da pele dela foram como um veneno que ele já conhecia, um que o fazia querer baixar todas as armas e simplesmente protegê-la do mundo. E, para ele, o amor sempre foi perigoso demais.

Sentindo o muro desmoronar, Namjoon reagiu da única forma que um homem ferido sabe: com brutalidade defensiva.

Ele largou a mão dela de forma abrupta, quase a empurrando, e se levantou com uma pressa que beirava a raiva. O antisséptico foi jogado de volta na maleta de primeiros socorros com um barulho seco.

— Dá para você parar com isso? — ele disparou, a voz saindo cortante e desnecessariamente alta.

SN o olhou sem entender, o lábio inferior ainda levemente projetado.

— Parar com o quê?

— Com essa pose. Com esse jeito de quem precisa ser salva — ele disse, vestindo a máscara de um homem rude, quase babaca. — Você não pode mais descer no porão. Na verdade, você não vai tocar em mais nada que seja “perigoso” ou pesado. Você já provou que é um desastre e eu não tenho tempo para ficar fazendo curativos toda vez que você decide ser útil. Fique aqui na sala e não saia do lugar.

Ele nem esperou ela responder. Deu as costas e desceu para o porão novamente, seus passos pesados fazendo as tábuas de madeira rangerem como se estivessem gritando sua frustração.

Lá embaixo, na penumbra do porão, Namjoon socou uma viga de madeira. “Idiota. Patético,” ele xingava a si mesmo. Ele a queria. Queria tanto que doía. Ver aquele corte pequeno o fez querer carregar o mundo nas costas por ela, e esse era exatamente o sentimento que ele jurou nunca mais sentir. Ser rude era a sua única armadura. Se ele fosse um babaca, talvez ela se afastasse. E se ela se afastasse, ele não correria o risco de ser destruído de novo.

Enquanto isso, na sala, SN fervia de raiva.

— Babaca… arrogante… — ela resmungava sozinha, as mãos nos quadris.

Ela não era de obedecer ordens, muito menos ordens dadas com aquele tom. Se ele queria agir como um ditador, ele que ficasse com o porão. Ela decidiu que não ficaria parada. A sala estava um caos de edredons, caixas e suprimentos. Com uma eficiência teimosa, ela começou a organizar tudo. Arrastou o colchão para perto da lareira, empilhou as conservas em uma ordem lógica e criou um pequeno “canto de sobrevivência” funcional. Cada movimento era um protesto silencioso contra a grosseria dele.

Cerca de uma hora depois, Namjoon subiu as escadas carregando o último carregamento de lenha. Ele parou na entrada da sala, o suor brilhando em sua testa apesar do frio.

Ele a observou em silêncio. SN estava de costas, terminando de dobrar uma manta grossa sobre o colchão. O espaço, que antes parecia apertado e caótico, agora estava acolhedor e estranhamente íntimo. “Ela ainda faz isso,” ele pensou, sentindo um aperto no peito. “Ela transforma qualquer lugar em um lar. Mesmo quando eu sou um monstro com ela, ela cuida do espaço onde eu vou dormir.” O ódio que ele tentava sustentar estava sendo dissolvido pela visão doméstica e resiliente dela.

SN se virou e, ao notar que ele a observava, fechou o rosto imediatamente. O olhar dela estava carregado de indignação.

— Terminei de arrumar a sala onde você vai dormir, “chefe” — ela disse, carregando cada palavra com um sarcasmo ácido. — Fique tranquilo, não toquei em nada afiado e não quebrei nenhuma unha. Não quero atrapalhar sua agenda de ser um completo idiota.

Ela passou por ele em direção à cozinha para lavar as mãos, fazendo questão de dar um esbarrão firme no ombro dele ao passar.

Namjoon não disse nada. Ele apenas fechou os olhos, sentindo o rastro do perfume dela e o peso da solidão que, ironicamente, ficava maior agora que eles estavam dividindo o mesmo metro quadrado.

O dia foi uma guerra de atrito. Namjoon tentou manter sua fachada de autossuficiência na cozinha, mas o cheiro de queimado logo denunciou sua derrota. SN interveio com um suspiro de impaciência, assumindo as panelas enquanto ele bufava, encostado no batente com os braços cruzados, observando-a com uma mistura de fome e irritação. Na hora da refeição, ele reclamou do sal — uma mentira descarada apenas para ver as bochechas dela corarem de raiva.

— Se está ruim, não coma — ela retrucou, puxando o prato dele, mas ele o segurou com força, os dedos se roçando por um segundo longo demais.

— Eu não disse que não ia comer. Só disse que você perdeu a mão — ele mentiu, sabendo que aquela era a melhor refeição que tinha em meses.

A tarde seguiu em um silêncio tenso. Cada um em um canto da sala, fingindo ler livros cujas páginas mal viravam. Sempre que um olhar escapava para o outro, eles desviavam rapidamente, como se tivessem sido queimados.

Mas então, a noite caiu, e com ela veio o verdadeiro inverno.

Mesmo com a lareira estalando e camadas de lã, o frio do Canadá era uma fera que roía os ossos. Quando finalmente se deitaram no colchão improvisado diante do fogo, mantiveram uma distância segura, dois estranhos compartilhando um espaço de sobrevivência.

Namjoon ouviu. O som rítmico e seco dos dentes de SN batendo. O corpo dela, encolhido sob as cobertas, tremia de forma incontrolável. Ele tentou ignorar. Tentou dizer a si mesmo que ela era adulta e que ele não era mais seu protetor. Mas o som do queixo dela batendo quebrou sua última resistência.

Ele se moveu. Lentamente, ele se aproximou por trás, passando o braço pesado pela cintura dela e colando o peito quente nas costas geladas de SN.

SN fechou os olhos com força, sentindo as lágrimas inundarem sua visão. O choque térmico do corpo dele contra o dela foi seguido por um choque emocional. A memória muscular de estar em seus braços, a saudade do toque que um dia foi seu lar, a atingiu como uma avalanche.

Namjoon encaixou o rosto na curva do pescoço dela, inspirando o aroma de lavanda e frio que ainda emanava de sua pele. Ele queria beijar aquele ponto exato. Queria morder, marcar, reivindicar o que um dia foi seu. Sua ereção pulsava contra as coxas dela, um lembrete de que seu corpo não sabia mentir como sua boca.

Até que ele ouviu o primeiro soluço.

O corpo de SN relaxou, mas não pelo calor. Ela estava desmoronando. Namjoon sentiu a umidade das lágrimas dela e, tomado por uma preocupação que atropelou seu orgulho, a virou de frente para ele.

— SN? O que foi? Onde dói? — ele perguntou, a voz agora despida de qualquer grosseria.

Ela olhou para ele, o rosto molhado, o nariz vermelho e aquele biquinho de dor que sempre o destruía.

— Você… você tem que se afastar — ela disse entre soluços, tentando empurrar o peito dele sem força nenhuma. — Você não pode fazer isso. Não pode ser um babaca o dia todo e depois me abraçar como se ainda me amasse. Eu não mereço isso… eu não mereço o seu cuidado.

Namjoon não se afastou. Pelo contrário, ele a puxou para ainda mais perto, prendendo as pernas dela entre as suas e escondendo o rosto dela em seu pescoço.

— Cala a boca, SN — ele murmurou, mas não havia raiva na voz, apenas uma exaustão profunda. — Só… fica aqui. Você está congelando. Eu não estou fazendo isso por você, estou fazendo por mim. Eu não conseguiria dormir ouvindo você tremer desse jeito.

Ele começou a acariciar as costas dela com movimentos lentos, tentando acalmar o ritmo do choro. Ele não disse “eu te perdoo” e ela não disse “eu te amo”, mas no silêncio daquela sala, o calor começou a vencer o gelo.

Aos poucos, a respiração de SN foi ficando pesada. O choro deu lugar a suspiros profundos até que ela finalmente adormeceu, exausta de lutar contra a tempestade externa e interna.

Namjoon permaneceu acordado por muito tempo. No escuro, iluminado apenas pelo brilho moribundo da lareira, ele observou o rosto dela em repouso. A mão dele subiu para afastar uma mecha de cabelo de sua testa.

“Você é uma mentirosa, e eu sou um covarde,” ele pensou, sentindo o peso do corpo dela sobre o seu. “Mas aqui, no escuro, nada disso importa.”

Ele sabia que, ao amanhecer, as máscaras voltariam. Ela voltaria a ser a mulher que fugiu e ele voltaria a ser o homem que foi deixado. Mas ali, sob o cobertor, com o cheiro dela preenchendo seus pulmões, Namjoon se permitiu a única verdade que possuía: ele ainda era dela. Inteiramente dela.

Ele fechou os olhos, abraçando-a com uma possessividade silenciosa, e pela primeira vez em quatro anos, o Natal não parecia algo que ele precisava sobreviver.

11 Comentários

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  1. IASMINE
    Feb 1, '26 at 9:45 am

    “Você é uma mentirosa, e eu sou um covarde,” ele pensou, sentindo o peso do corpo dela sobre o seu. “Mas aqui, no escuro, nada disso importa.”

    A batalha espiritual fortíssima

  2. IASMINE
    Feb 1, '26 at 9:44 am

    “Você é uma mentirosa, e eu sou um covarde,” ele pensou, sentindo o peso do corpo dela sobre o seu. “Mas aqui, no escuro, nada disso importa.”

    A batalha espiritual fortíssima entre eles pqp

  3. VingançaNamutted
    Jan 3, '26 at 8:52 pm

    Q saudade do que eu nm vivi, gente

  4. VingançaNamutted
    Jan 3, '26 at 8:51 pm

    Sim,Namjoon, totalmente sua

  5. VingançaNamutted
    Jan 3, '26 at 8:50 pm

    Me aquece, Nam

  6. VingançaNamutted
    Jan 3, '26 at 8:50 pm

    Hora de quebrar o gelo, Namjoon

  7. Isa
    Jan 3, '26 at 6:24 pm

    “e pela primeira vez em quatro anos, o Natal não parecia algo que ele precisava sobreviver. ”

    ME SINTO ATACADA E DEPRIMIDA

  8. Thamiris Gomes
    Jan 2, '26 at 1:02 am

    “Você é uma mentirosa, e eu sou um covarde,” ele pensou, sentindo o peso do corpo dela sobre o seu. “Mas aqui, no escuro, nada disso importa.”

    é sempre assim

  9. Thamiris Gomes
    Jan 2, '26 at 12:58 am

    Namjoon não disse nada. Ele apenas fechou os olhos, sentindo o rastro do perfume dela e o peso da solidão que, ironicamente, ficava maior agora que eles estavam dividindo o mesmo metro quadrado.

    Mais que inferno,que não se pegam logo e acabam com isso

  10. Anônimo Convidado
    Jan 1, '26 at 10:19 pm

    “Você é uma mentirosa, e eu sou um covarde,” ele pensou, sentindo o peso do corpo dela sobre o seu. “Mas aqui, no escuro, nada disso importa.”

  11. Karine
    Jan 1, '26 at 10:15 pm

    Ele se moveu. Lentamente, ele se aproximou por trás, passando o braço pesado pela cintura dela e colando o peito quente nas costas geladas de SN.

    Uuuiii

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