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O peso do colchão afundando devagar foi o primeiro sinal que atravessou a névoa espessa do sono de S/N.

Ela tentou se mover, mas uma pontada aguda nas costelas roubou o ar de seus pulmões com violência. Seus olhos se abriram em sobressalto, as pupilas dilatando na penumbra do quarto desconhecido. Uma sombra alta e estranha pairava ao lado da cama, iluminada apenas pelo feixe de luz que entrava da fresta da porta entreaberta.

O pânico foi instantâneo. O instinto forjado em anos de esquivas sob o teto do pai fez seu corpo enrijecer por inteiro. Antes que ela conseguisse puxar os lençóis ou emitir qualquer som, uma voz idosa e mansa soou no ar, quebrando a tensão sufocante.

— Calma, menina. Não faça movimentos bruscos. Sou médico.

S/N piscou, o peito subindo e descendo em arfadas desordenadas. Seus olhos se acostumaram à penumbra e encontraram um homem de cabelos grisalhos, vestindo camisa social sem gravata, com uma maleta de couro aberta sobre a cadeira ao lado. Um estetoscópio repousava ao redor do pescoço dele.

Logo atrás, encostado no batente da porta com os braços cruzados sobre o peito e a silhueta recortada contra a claridade do corredor, estava Jungkook. Ele não dizia uma palavra. Seus olhos escuros e impassíveis estavam cravados nela, monitorando cada milímetro de sua reação.

— Onde… onde eu tô? — a voz de S/N saiu como uma lixa seca, irreconhecível.

— Na casa do rapaz que me tirou da cama no meio da madrugada — o médico respondeu com gentileza profissional, aproximando dois dedos do pulso dela para checar a pulsação antes de puxar suavemente a barra da manga larga da blusa. — Respire fundo para mim, por favor.

S/N tentou puxar o ar, mas a dor muscular nas costas a fez travar os dentes em um silvo doloroso. As mãos do médico eram ágeis e experientes: ele apalpou as costelas, examinou o inchaço arroxeado no antebraço e ergueu com cautela a barra da calça de moletom para avaliar a extensão dos hematomas na tíbia e no joelho.

— Não há ossos fraturados, felizmente — o homem mais velho declarou, voltando-se para a maleta e retirando duas caixas de comprimidos e uma bisnaga de pomada anti-inflamatória. Ele anotou algo com uma caneta em um bloco pequeno e ergueu os olhos, fitando diretamente Jungkook na porta. — O tecido muscular sofreu traumas consideráveis e o inchaço vai piorar nas próximas quarenta e oito horas. Mas o que realmente me preocupa é o quadro geral dela.

Jungkook descruzou os braços devagar, os ombros ficando ligeiramente tensos.

— Como assim? — ele perguntou, a voz grave e baixa preenchendo o quarto.

— Desnutrição evidente, pressão arterial muito baixa e sinais claros de exaustão crônica — o médico foi enfático, o tom severo de quem não amenizava diagnósticos. — O corpo dela está operando no limite das reservas biológicas há semanas, talvez meses. Se ela não comer direito, não repousar e continuar sob estresse severo, vai desmaiar na rua ou sofrer um colapso em questão de dias. Prescrevi analgésicos fortes para a dor e vitaminas para estabilizar a glicose. Dois comprimidos a cada oito horas, sempre após alguma refeição.

O médico guardou seus instrumentos na maleta, fechou a trava metálica com um estalo seco e se aproximou da porta. Ao passar por Jungkook, pousou uma mão breve em seu ombro, murmurando uma despedida curta antes que o som de seus passos e o bater suave da porta principal anunciassem sua partida.

O silêncio voltou a reinar no apartamento.

S/N permaneceu estirada sob os lençóis de algodão acetinado, o choque agora assentando de forma esmagadora em sua consciência. A névoa da exaustão começava a se dissipar, deixando para trás a realidade nua e crua: ela estava no quarto de hóspedes de uma cobertura imensa, deitada na cama de um desconhecido cuja força ela temia e cujo beijo ainda parecia queimar em sua memória, vestindo as roupas dele — que afundavam seu corpo franzino em tecidos escuros impregnados por aquele perfume amadeirado.

Ela sentou-se na cama de supetão.

A queimação nas costas cobrou o preço do movimento brusco com uma fisgada aguda, fazendo-a dobrar o tronco para a frente e morder o lábio inferior para não gemer.

— Eu disse para não levantar — a voz de Jungkook cortou o ar antes que ela pudesse colocar os pés descalços no chão de taco claro.

Ele entrou no quarto segurando uma bandeja de madeira escura. Nela, havia uma tigela funda de sopa fumegante de legumes e frango desfiado, um copo d’água alto e duas pílulas brancas dispostas em um pequeno pratinho de cerâmica. Ele colocou a bandeja sobre o criado-mudo e puxou a cadeira que o médico usara, sentando-se de frente para ela.

A barreira defensiva de S/N ergueu-se de imediato, espinhos afiados brotando em cada palavra.

— Eu preciso sair daqui — ela disse, puxando o edredom para cobrir as pernas, a voz rouca lutando para soar firme. — Minhas aulas começam logo. Minhas coisas… minhas coisas estão no dormitório da faculdade. Eu já peguei a chave do quarto ontem. Não tenho o que fazer aqui.

Jungkook nem sequer piscou. Ele pegou a tigela de sopa e a colher, estendendo-as na direção dela com a paciência metódica de quem não tinha pressa alguma.

— Come — ele ordenou.

— Eu não quero a sua comida — ela rebateu, empurrando a borda do edredom para o lado e tentando forçar o peso do corpo sobre as pernas.

No segundo em que seus pés tocaram o chão e ela tentou sustentar a própria estatura, o joelho esquerdo falhou de forma miserável. A dor na tíbia e nas costelas combinou-se em uma pontada cortante, e seu corpo pendeu para a frente.

Antes que ela colidisse contra o piso, a mão firme de Jungkook disparou. Os dedos dele envolveram o antebraço de S/N com precisão, segurando-a sem esforço e puxando-a de volta para a borda do colchão macio. Ele empurrou os ombros dela para trás até que suas costas encontrassem o apoio dos travesseiros na cabeceira da cama.

Ele colocou a bandeja diretamente no colo dela, bloqueando qualquer nova tentativa de fuga.

— Você não consegue dar três passos sem dobrar o joelho — ele disse, a voz descendo para um tom rasgado, carregado de autoridade. — Vai pra faculdade fazer o quê? Desmaiar no corredor? Chamar atenção de todo mundo com essa cara destruída e essa perna arrastando?

— Isso é problema meu! — o orgulho de S/N estalou, as lágrimas de humilhação e cansaço queimando no canto dos olhos. — Você não tem que cuidar de mim! Não tem que me trancar aqui dentro como se fosse meu dono! Eu passei a vida inteira cuidando de mim mesma, me virando sozinha sem precisar de favor de ninguém!

Jungkook inclinou o corpo para a frente, apoiando os cotovelos nos próprios joelhos, reduzindo o espaço entre eles até que S/N conseguisse enxergar cada detalhe da rigidez de sua mandíbula e o reflexo prateado do piercing em seu lábio.

— Cuidando de si mesma? — ele soltou um arfar ríspido, as palavras saindo duras, diretas como socos. — É isso que você chama de se virar sozinha? Apanhar dentro de casa até ser jogada no chão de joelhos? Deixar dois covardes arrebentarem suas costas com cabo de vassoura enquanto você finge que tá tudo sob controle?

O golpe verbal atingiu o âmago de S/N. O peito dela se contraiu, o ar faltando na garganta diante daquela verdade crua e sem filtros exposta na sua cara.

— Como você achava que ia continuar aguentando aquilo? — ele continuou, a voz densa, sem qualquer traço de deboche ou arrogância, apenas uma seriedade fria e perturbadora. — Quanto tempo mais você achou que ia durar trabalhando em dois lugares, dormindo três horas por noite e voltando pra um quarto onde você tem que trancar o armário com cadeado de ferro pra não te roubarem? Você achava mesmo que ia vencer aquele inferno na base da teimosia?

S/N abriu a boca para rebater, para gritar que ele não tinha o direito de julgar uma realidade que não conhecia. Mas a força simplesmente esvaiu-se de seus pulmões.

O cansaço que ela vinha acumulando há anos — o peso sufocante de trabalhar exausta na cafeteria, de vigiar os passos do irmão ladrão, de prender a respiração a cada passo do pai bêbado pelo corredor — despencou sobre ela como uma muralha de concreto. A máscara de autossuficiência ruiu em pedaços.

Os lábios de S/N tremeram. Ela abaixou a cabeça, encarando a sopa fumegante em seu colo, e as lágrimas quentes escorreram silenciosamente por suas bochechas, pingando sobre o tecido da blusa dele.

— Eu não tinha escolha… — a voz dela saiu pequena, despedaçada, despida de qualquer armadura. — Eu não tenho ninguém. Se eu não aguentasse, quem ia aguentar por mim? Se eu falhar na faculdade, se eu perder a bolsa, eu não tenho pra onde voltar. Eu volto pra sarjeta. Eu tenho medo… tenho pavor de não conseguir vencer isso sozinha e ficar presa naquela vida pra sempre.

O quarto mergulhou em uma quietude pesada, onde apenas o som da respiração entrecortada dela quebrava o silêncio.

Jungkook permaneceu imóvel. A expressão endurecida de seu rosto amenizou-se quase imperceptivelmente. Ele fitou as mãos pequenas dela tremendo sobre a borda da bandeja, as costas curvadas sob o fardo de um desespero que ninguém da idade dela deveria carregar.

Devagar, ele estendeu o braço. Seus dedos roçaram o queixo de S/N, erguendo o rosto dela com uma firmeza que não feria, obrigando-a a encará-lo nos olhos.

— Você não vai voltar pra sarjeta — ele disse, pausadamente, cada palavra pesando com a solidez de uma promessa que ele não pretendia quebrar. — Mas não vai sair desse apartamento hoje. Nem amanhã.

S/N tentou desviar os olhos, mas o aperto suave dele em seu queixo manteve seu olhar preso ao dele.

— Eu preciso ir para o dormitório… — ela sussurrou, a teimosia tentando um último suspiro fraco.

— O dormitório vai continuar lá — Jungkook cortou, soltando o queixo dela e apontando para a tigela de sopa. — Suas caixas estão no corredor e a sua vaga tá garantida. Mas daqui você só sai quando esses hematomas desincharem, quando essa costela parar de doer e quando você conseguir andar por aquele campus sem parecer um fantasma que vai quebrar com o vento.

Ele pegou a colher de metal e a pressionou na mão trêmula de S/N, fechando os dedos frios dela ao redor do cabo.

— Agora toma essa sopa e bebe esse remédio. Você vai ficar em repouso. E dessa vez, nem adianta tentar discutir comigo.

S/N olhou para a colher em sua mão, depois para a expressão resoluta do homem à sua frente. Pela primeira vez na vida, não havia espaço para fugir, nem forças para lutar contra quem a mantinha em pé. Sem dizer uma palavra, ela levou a primeira colherada de sopa à boca, enquanto Jungkook permanecia sentado ali, vigiando cada movimento em silêncio.

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