Capítulo 3 -Mentiras de Inverno
por FanfiqueiraA madrugada no chalé tinha um peso diferente. O vento lá fora havia diminuído de um uivo para um lamento constante, mas o frio parecia ter encontrado frestas invisíveis na madeira. No andar de cima, SN encarava o teto, sentindo cada centímetro de seu corpo protestar contra a fome e a ansiedade.
Ela tentou ignorar o vazio no estômago, mas a lembrança dos suprimentos escassos na mala a assombrava. Se a tempestade durasse três dias, ela não sobreviveria a base de barras de proteína.
Com cuidado, ela se levantou. Não acendeu as luzes. A última coisa que queria era sinalizar que estava desperta. Ela abriu a porta do quarto milímetro por milímetro, prendendo a respiração quando a dobradiça soltou um estalo baixo.
O corredor estava mergulhado em uma penumbra azulada, cortada apenas pelo reflexo pálido da neve nas janelas altas. Ela desceu as escadas de madeira descalça, sentindo a textura áspera sob os pés, testando o peso em cada degrau para evitar os rangidos que já havia memorizado na subida.
Lá embaixo, a sala era um cenário de sombras e brasas. A lareira ainda emitia um brilho alaranjado e moribundo, projetando o contorno dos móveis nas paredes. O sofá, onde Namjoon deveria estar dormindo, parecia um vulto escuro. Ela não olhou naquela direção. Manteve os olhos fixos na entrada da cozinha, movendo-se como um fantasma.
A cozinha estava gélida. O cheiro de café frio e pinho pairava no ar. Com movimentos coreografados pela necessidade de não ser ouvida, SN abriu o armário. Encontrou um pacote de pão de forma. Tateou a bancada até achar uma faca e o pote de geleia que Namjoon havia deixado ali.
Ela não ousou acender a luz do exaustor. Usava apenas a claridade mínima que vinha da sala. Seus dedos tremiam levemente enquanto ela espalhava a geleia no pão, os sentidos em alerta máximo. Cada vez que o vento batia em uma vidraça, seu coração dava um solavanco.
Só um sanduíche, ela pensou, sentindo-se uma intrusa em uma vida que já foi sua. Como e subo. Ele nem vai saber que eu estive aqui.
Ela deu a primeira mordida, encostada no balcão de mármore frio, fechando os olhos por um segundo. A comida parecia o único ponto de realidade em meio ao pesadelo. Mas, quando abriu os olhos e se virou para guardar o pote, seu sangue congelou.
Namjoon não estava no sofá.
Ele estava encostado no batente da porta da cozinha, a poucos metros dela.
Ele não usava o suéter pesado de antes; estava apenas com uma camiseta preta de algodão, as mangas curtas revelando os braços fortes. Ele tinha uma mão no bolso da calça de moletom e a outra segurando a moldura da porta.
A luz baixa das brasas da sala batia nele por trás, deixando seu rosto na penumbra, mas o brilho nos olhos dele era inconfundível. Ele não parecia alguém que tinha acabado de acordar. Ele parecia alguém que estava observando a caça há muito tempo.
— A geleia de amora ainda é a sua favorita — ele disse.
A voz dele, profunda e rouca pelo silêncio da noite, atravessou a cozinha como um trovão silencioso. SN quase derrubou a faca. Ela ficou imóvel, o pedaço de pão ainda na mão, sentindo-se exposta, pequena e terrivelmente consciente da distância mínima entre eles.
Namjoon deu um passo para dentro da cozinha, saindo das sombras.
— Você sempre teve o hábito de assaltar a geladeira às três da manhã quando estava nervosa — ele continuou, a voz desprovida de sarcasmo agora, substituída por uma observação clínica que doía muito mais. — Algumas coisas não mudam, não é? Mesmo no Canadá.
SN engoliu em seco, tentando recuperar a dignidade que o flagra lhe roubara.
— Eu não queria te acordar — ela murmurou, a voz falhando. — Eu só… eu estava com fome.
Namjoon parou a dois passos dela. Perto o suficiente para ela sentir o calor do corpo dele lutando contra o ar gelado da cozinha. Ele olhou para o sanduíche pela metade e depois para o rosto dela, descendo para o pescoço, onde uma vez ele depositara beijos e promessas.
— Você se mexe como se estivesse fugindo de uma cena de crime, SN — ele disse, com um tom de voz que beirava o perigo. — O que te assusta tanto? O fato de estarmos sozinhos… ou o fato de você saber que não tem mais para onde correr?
SN sentiu o rosto esquentar, uma mistura de humilhação por ter sido pega e a necessidade desesperada de retomar o controle da situação. Ela deixou o sanduíche sobre o balcão, forçando os ombros a relaxarem. Se Namjoon queria jogar o jogo das observações clínicas, ela usaria a única arma que tinha: a vida que ela acreditava que ele havia construído sem ela.
Ela forçou um sorriso — um gesto que não chegou aos olhos, parecendo mais uma máscara de cortesia distante.
— Desculpe, o hábito é difícil de perder — ela disse, a voz agora mais firme, tentando ignorar a proximidade dele. — E quanto a você? Achei que estivesse em uma fase diferente da vida. Estar sozinho em um chalé isolado no Natal não parece o tipo de programa que se faz quando se tem alguém.
Namjoon inclinou a cabeça, os olhos estreitados, esperando o golpe que ele sabia que viria.
— E sua namorada? A… Lim Ji-yeon, certo? — SN continuou, fingindo uma curiosidade casual, embora cada sílaba do nome da atriz queimasse sua língua. — As agências assumiram, vi vocês em algumas fotos. Ela deveria estar aqui com você. Ela parece o tipo de pessoa que prefere resorts de luxo a chalés nevados, mas ainda assim… é estranho passar o Natal longe dela, não?
O silêncio que se seguiu foi denso. Namjoon não desviou o olhar. Por dentro, ele sentiu uma fisgada de satisfação sombria: então ela estava olhando. Ela sabia o nome. Ela tinha visto as fotos.
O que SN não sabia — e o que ele jamais confessaria — era que Lim Ji-yeon era apenas um escudo. Um acordo mútuo entre agências e amigos de longa data. Namjoon tinha chegado a um nível de desespero tal que, um ano após o sumiço de SN, ele orquestrou aquela farsa. Ele pediu que Ji-yeon usasse o colar em público, acreditando ingenuamente que, se SN visse o objeto mais sagrado deles no pescoço de outra, ela apareceria. Ela ligaria gritando, exigindo explicações, ou pelo menos mandaria um sinal de vida.
Mas o silêncio dela tinha sido absoluto. E o plano dele, uma humilhação silenciosa que ele guardava para si mesmo.
— O relacionamento terminou há alguns meses — Namjoon mentiu, a voz saindo tão natural e fria que ele quase se convenceu. — Agendas incompatíveis. O clichê de sempre. Ela está em Paris agora, eu acho.
Ele deu um passo ainda mais próximo, invadindo o espaço pessoal dela até que SN pudesse sentir a vibração da voz dele no próprio peito.
— Por que o interesse, SN? — ele perguntou, a voz caindo para um tom perigosamente baixo. — Passou os últimos anos acompanhando a minha vida social enquanto fingia que eu não existia?
SN sentiu o coração martelar contra as costelas. Ela queria gritar que o vira entregar o colar da mãe dele para uma estranha, mas a reabilitação a ensinara a não ceder aos impulsos. Ela não podia demonstrar que aquilo a destruíra.
— É difícil não ver quando se está em todo lugar, Namjoon. Eu só… achei que você estivesse feliz. Que tivesse seguido em frente com alguém do seu nível.
— Eu segui — ele mentiu de novo, a palavra saindo como uma facada. Ele sustentou o olhar dela, uma batalha de vontades no escuro da cozinha. — A vida não para porque alguém decidiu sair pela porta dos fundos sem dizer adeus. Eu aprendi que algumas pessoas são apenas capítulos, não o livro inteiro.
SN sentiu a alfinetada, mas manteve a expressão neutra, embora por dentro sentisse a mesma vontade de beber que a assombrara anos atrás. Ela se virou para a pia, fingindo limpar uma migalha inexistente.
— Fico feliz por você, então — ela mentiu de volta, a voz quase inaudível. — Bom, o sanduíche foi o suficiente. Vou voltar para o quarto.
Quando ela tentou passar por ele, Namjoon não se moveu. Ele permaneceu como uma barreira de pedra no batente da porta. Por um segundo, SN achou que ele a tocaria — que ele quebraria aquela distância insuportável — e ela não sabia se teria forças para recuar.

— Se estiver com fome amanhã, não precisa agir como uma ladra na sua própria sombra — ele disse, a voz agora mais dura, afastando-se para deixá-la passar. — Eu não mordo, SN. Pelo menos não mais.
Ela passou por ele sem olhar para trás, subindo as escadas o mais rápido que suas pernas permitiam. Trancou a porta do quarto e encostou a testa na madeira, o coração ainda disparado.
Lá embaixo, Namjoon fechou os olhos e soltou o ar que estava prendendo. Suas mãos tremiam. Ele caminhou até a bancada e viu o sanduíche que ela não terminou. A mentira sobre Ji-yeon ainda pairava no ar, um fantasma que ele mesmo criou. Ele a odiava por estar ali, e se odiava ainda mais por saber que, se ela pedisse, ele contaria toda a verdade sobre o colar e a farsa em um segundo.
Mas o orgulho era a única coisa que ainda o mantinha aquecido naquele inverno.
Eu deixaria ele me morder
N morde mais?Jura?Q pena
[quote]— Se estiver com fome amanhã, não precisa agir como uma ladra na sua própria sombra —
Que humilhação,por causa de um pão de forma
kkkkkk
“Fingindo limpar uma migalha de pal inexistente” pq tão eu?Kkkk
Pão * gnt, pelamor de Deus
Ai, amo suspense
Ele lembrando q geleia de amora ainda é a minha fav, o amor mora nos pequenos detalhes
Kkkkkkk o clima insustentável, considerando os fatos talvez eu ia ficar no mesmo desespero dela kkkkk