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Dá o play

A manhã não trouxe luz, apenas uma claridade fosca e opressiva.

Namjoon estava de pé diante da janela da sala desde as cinco da manhã. O vidro, que antes oferecia a visão da floresta, agora era um paredão branco e sólido. A neve havia subido tanto que bloqueava completamente a parte inferior da casa. Ele não via as árvores, não via o céu; via apenas o próprio reflexo cansado e a névoa da fumaça do cigarro que ele segurava entre os dedos.

Ele odiava fumar. Havia parado anos atrás, mas mantinha um maço de emergência para momentos de crise. E aquele era, sem dúvida, o ápice de todas elas.

Por que agora?, ele pensava, tragando o ar tóxico e quente. Por que ela tinha que aparecer logo aqui, no lugar que eu escolhi para esquecer que ela existe?

Ele pensou na mentira que contara na noite anterior. A menção ao nome de Lim Ji-yeon fora como um soco. Ele se sentia patético por ter usado um namoro de fachada para tentar feri-la, mas a confirmação de que SN o observava de longe — mesmo que através de fofocas de tabloides — era uma droga viciante. Ele queria que ela sofresse. Queria que ela sentisse um décimo do vazio que ele sentiu quando encontrou aquele colar sobre a mesa.

— Você é um mentiroso de merda, Kim Namjoon — sussurrou para o seu reflexo, apagando o cigarro no cinzeiro de cristal.

Ele se afastou da janela e sentou-se na poltrona de couro perto da lareira, que agora apenas mantinha brasas vivas. Pegou um livro pesado de filosofia, mas as palavras pareciam borrões. Seus ouvidos estavam sintonizados no andar de cima, esperando pelo primeiro som de movimento dela.

No segundo andar, SN finalmente desistiu de lutar contra o lençol. Suas pálpebras pesavam, mas seu cérebro não parava de repetir a conversa da cozinha. “A vida não para porque alguém decidiu sair pela porta dos fundos”. As palavras de Namjoon ecoavam como um veredito.

Ela se levantou e caminhou até a janela do quarto. Diferente do andar de baixo, ela ainda conseguia ver as copas dos pinheiros gigantescos, curvados sob o peso da neve, e o redemoinho branco que ainda caía do céu. Era um cenário lindo e mortal. Eles estavam, oficialmente, enterrados vivos.

Ela tomou um banho quente, deixando a água escaldante avermelhar sua pele, tentando lavar o cheiro de sândalo e uísque que parecia ter grudado em sua memória. Ao se vestir, escolheu um suéter de gola alta cinza e calças grossas. Ela não queria ser vista, mas a fome agora era uma dor física que não podia mais ser ignorada com barras de proteína.

Ao descer as escadas, o silêncio da casa era quase sólido.

SN parou no último degrau. Namjoon estava ali, exatamente como ela imaginara: sentado na poltrona, mergulhado na leitura, com os óculos de leitura que ele costumava usar apenas quando estava realmente concentrado — ou fingindo muito bem.

A cena era terrivelmente doméstica e familiar, o que a tornava ainda mais dolorosa.

Ela caminhou em direção à cozinha, tentando manter a postura, mas a presença dele parecia distorcer o oxigênio da sala.

Namjoon não levantou os olhos do livro, mas sua voz cortou o ar antes que ela chegasse ao corredor.

— A neve bloqueou as saídas do primeiro andar — ele disse, a voz monótona, sem a agressividade da noite anterior, mas com uma frieza cortante. — O rádio diz que a limpeza das estradas só começa quando a tempestade cessar. Provavelmente amanhã à noite, se tivermos sorte.

SN parou, olhando para as costas da poltrona onde ele estava.

— Entendi — ela respondeu de forma curta. — Vou preparar algo para comer. Você quer?

Houve uma pausa longa. O som da página do livro sendo virada foi o único ruído.

— Há ovos e bacon na geladeira — ele respondeu, ignorando a oferta dela e focando apenas na logística. — O gás é encanado, então o fogão ainda funciona. Mas a luz… a luz não deve durar muito mais. Os cabos lá fora estão cedendo.

SN assentiu, embora ele não pudesse ver. Ela entrou na cozinha e começou a mexer nas panelas. O barulho do metal e o cheiro da comida fritando começaram a preencher o chalé, quebrando um pouco daquela atmosfera de funeral.

Enquanto quebrava os ovos, ela se perguntou quanto tempo levaria para aquela civilidade forçada desmoronar de vez. Eles eram como dois estranhos em um elevador quebrado, mas com o peso de dois anos de amor e quatro anos de mágoa pressionando as paredes.

Ela terminou de cozinhar e colocou dois pratos na bancada, mesmo que ele tivesse agido com desdém. A necessidade de cuidar dele ainda era um instinto que ela não conseguira extirpar, por mais que ele a odiasse.

— Está pronto — ela chamou, a voz ecoando pela sala.

Namjoon fechou o livro com um baque surdo. Ele se levantou, mas em vez de ir para a cozinha, caminhou até a mesa de jantar e ficou parado ali, olhando para ela através da penumbra da casa.

— SN — ele chamou, o tom de voz mudando de neutro para algo mais sombrio. — Por que você voltou para este lado do oceano? Ji-a não te convenceria a vir para o Canadá na cabana de Yoongi se você não estivesse procurando por algo.

SN sentiu o impacto da pergunta como se o chão tivesse cedido. Ela travou com a espátula na mão, o coração batendo contra as costelas em um ritmo frenético. O conflito interno era uma tempestade tão violenta quanto a que ocorria lá fora: uma parte dela queria gritar que nunca tinha realmente ido embora, que sua alma ainda estava presa naquele apartamento em Seul; a outra parte, a que fora moldada pela reabilitação e pelo segredo, ordenava que ela mantivesse o silêncio.

Ela respirou fundo, tentando estabilizar as mãos. Serviu uma xícara de café, sentindo o calor da porcelana contra as palmas gélidas, e caminhou até onde ele estava.

— Eu sempre estive aqui, Namjoon — ela disse, a voz baixa, mas carregada de um peso que o fez congelar. — Eu nunca voltei para a Coreia. Eu moro no Canadá desde que saí de Seul.

Ele não sabia. Na cabeça de Namjoon, ela tinha viajado o mundo, vivido aventuras e voltado para o continente apenas agora. Saber que ela estivera “perto”, mas ainda assim mantendo o silêncio absoluto, foi como uma nova facada.

Ela se sentou à mesa, posicionando o prato diante de si, mas a fome que sentia minutos antes tinha desaparecido completamente. Ela encarou os ovos no prato como se fossem algo alienígena.

— Eu vim estudar astronomia — ela completou, a voz quase um sussurro. — Era o único lugar onde o silêncio fazia sentido.

A palavra “Astronomia” agiu como um gatilho na mente de Namjoon, disparando uma sucessão de imagens que ele tentara, sem sucesso, apagar por quatro anos.

Flashbacks — Seul

As memórias vieram em ondas desordenadas. Ele se viu no terraço do prédio antigo onde moravam, deitados sobre um cobertor áspero, apontando para constelações que mal conseguiam ver por causa da poluição luminosa da cidade.

— Aquela ali é a Cassiopeia — ela dizia, guiando a mão dele pelo ar. — Para mim, são só pontos de luz — ele ria, virando o rosto para beijar a têmpora dela. — Mas se você está olhando, eu também olho.

Ele lembrou do pedido de namoro, feito sob um céu de inverno raramente limpo, e da noite em que, com os dedos trêmulos, ele colocou o colar no pescoço dela. O metal estava quente pelo calor do corpo dele.

— É o meu tempo, SN — ele sussurrou contra a pele dela. — Ele agora pertence a você.

E, inevitavelmente, as memórias mais carnais o atingiram. O sexo sob a luz das estrelas que entrava pela claraboia do quarto. O som da pele batendo contra a pele, o suor frio, a urgência de quem achava que o mundo poderia acabar a qualquer momento, desde que estivessem unidos. Namjoon lembrou da sensação das unhas dela cravadas em suas costas e de como, naqueles momentos, o universo inteiro parecia caber dentro do corpo dela.

De volta ao presente.

Namjoon apertou o braço da poltrona com tanta força que o couro rangeu. A menção às estrelas não era apenas sobre a carreira dela; era sobre tudo o que eles tinham sido. Ele sentiu uma onda de desejo misturada com ódio percorrer seu corpo.

Ele se levantou da poltrona e caminhou até a mesa, sentando-se à frente dela. A distância agora era apenas a largura da madeira escura.

— Astronomia — ele repetiu, a palavra soando amarga. — Engraçado. Você escolheu estudar as coisas que estão mais longe de nós. Coisas que você pode observar, mas nunca tocar.

Ele inclinou o corpo para frente, obrigando-a a desviar os olhos do prato e olhar para ele.

— Foi por isso que você me deixou, SN? — a pergunta saiu rouca, despida de qualquer civilidade. — Eu era real demais? Eu estava perto demais? Era mais fácil lidar com estrelas mortas do que com um homem que te dava tudo?

SN sentiu o nó na garganta apertar tanto que a respiração se tornou um exercício consciente de sobrevivência. Ela apertou o tecido da própria calça por baixo da mesa, as unhas cravando na coxa para que a dor física distraísse a dor emocional. Ela não podia desabar ali. Não na frente dele.

Engolindo o choro com um esforço hercúleo, ela limpou o canto do olho rapidamente e forçou um sorriso trêmulo. Era uma tentativa desesperada de mudar o rumo de uma conversa que estava prestes a destruí-la.

— Seu… seu pai está bem? — a voz dela saiu pequena, mas carregada de uma ansiedade que Namjoon não conseguiu decifrar de imediato.

Namjoon recuou o tronco, a expressão de fúria sendo substituída por uma confusão genuína. Ele franziu o cenho, os olhos varrendo o rosto dela em busca de algum sarcasmo, mas encontrou apenas uma vulnerabilidade crua.

— Meu pai? — ele repetiu, a voz confusa. — Ele está bem, SN. Morando em Ilsan, cuidando do jardim dele como sempre. Mas o que… o que isso tem a ver com qualquer coisa agora?

SN soltou um suspiro longo, os ombros caindo como se um peso de toneladas tivesse sido retirado de suas costas. Ela piscou várias vezes, e o alívio em seu rosto foi tão óbvio que deixou Namjoon ainda mais intrigado.

— Ah… que bom — ela murmurou, quase para si mesma. — Na época… ele tinha sofrido aquele acidente, não foi?

Namjoon sentiu um calafrio percorrer sua espinha. A memória voltou como um flash violento: o carro do pai sendo atingido por um caminhão em um cruzamento de Seul. O veículo ficou destruído, um amontoado de metal retorcido que ninguém acreditava que alguém pudesse sair vivo de dentro. Mas, por um milagre, o pai dele teve apenas escoriações e uma perna quebrada.

— Sim — Namjoon respondeu devagar, a voz perdendo a aspereza. — Foi três dias antes de você… três dias antes do Natal.

Ele se lembrou de como estava em choque, de como SN tinha sido seu porto seguro naquelas 72 horas de hospital e incertezas. Ela tinha segurado a mão dele, garantido que ele comesse, que ele descansasse. E então, três dias depois, com o pai dele já fora de perigo e em recuperação, ela simplesmente evaporou.

Na mente de Namjoon, o acidente nunca foi o motivo. Para ele, o fato de ela ter ido embora justamente quando a família dele passava por um trauma apenas provava o quão “fria” ela era.

Mas, ao olhar para ela agora, vendo o jeito como ela segurava a xícara de café com as mãos ainda trêmulas, ele percebeu que havia algo naquela linha do tempo que ele não conhecia.

— Por que está perguntando isso agora, depois de quatro anos? — ele perguntou, a voz mais baixa, quase suave, o que era muito mais perigoso do que os gritos. — Você foi embora quando ele ainda estava no hospital, SN. Eu achei que você não se importasse.

SN olhou para ele, e por um segundo, a verdade quase saltou de sua boca. A verdade sobre as ameaças, sobre o medo de que sua presença na vida dele estivesse trazendo má sorte, ou algo ainda mais sombrio que a fizera acreditar que se afastar era o único jeito de protegê-lo. Mas ela apenas balançou a cabeça, voltando a se fechar em sua concha.

— Eu só… eu precisava saber se ele tinha se recuperado bem — ela mentiu, desviando o olhar para o prato de comida fria.

O silêncio voltou a reinar, mas desta vez não era um silêncio de ódio. Era um silêncio de dúvida. Namjoon a observava, o cérebro trabalhando em mil rotações. O acidente, o sumiço, a astronomia, o colar no pescoço de outra… as peças do quebra-cabeça estavam ali, mas pareciam pertencer a jogos diferentes.

A tensão entre eles mudou de forma. Não era mais apenas o ressentimento do abandono; era a percepção de que ambos estavam vivendo versões completamente diferentes da mesma história.

Nesse momento, como se a própria casa estivesse reagindo ao peso do que não era dito, as luzes do chalé piscaram violentamente. O som do gerador lá fora tossiu e parou.

As luzes se apagaram de vez.

O chalé mergulhou em uma escuridão quase absoluta, restando apenas o brilho azulado da neve contra as janelas e o resto do fogo na sala.

— Ótimo — Namjoon murmurou no escuro, sua voz vindo de algum lugar muito perto dela. — Agora estamos realmente sozinhos.

7 Comentários

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  1. Thamiris Gomes
    Jan 2, '26 at 12:19 am

    coitados deles,sofreram só

  2. Thamiris Gomes
    Jan 2, '26 at 12:20 am

    Agora é só aproveitar o escuro

  3. Isa
    Jan 3, '26 at 5:47 pm

    [quote]— Eu vim estudar astronomia — ela completou, a voz quase um sussurro. — Era o único lugar onde o silêncio fazia sentido. ”

    Lindo ,lindo….

  4. VingançaNamutted
    Jan 3, '26 at 8:42 pm

    É sofrimento ,minha filha

  5. VingançaNamutted
    Jan 3, '26 at 8:43 pm

    A revelação finalmente

  6. VingançaNamutted
    Jan 3, '26 at 8:44 pm

    Queria mt esse homem

  7. IASMINE
    Feb 1, '26 at 9:05 am

    Gente o que aconteceu com ela? Meu deus quem ameaçou aaaaa

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