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O colar de prata sempre parecia mais gelado quando o inverno chegava.

Não era por causa do metal barato ou do mecanismo de relógio antigo escondido dentro do pingente oval. Era o peso da responsabilidade. Kim Namjoon nunca foi um homem de acreditar em misticismo ou sorte, mas ele acreditava em intenção. E aquele objeto, que passara das mãos de seu pai para as de sua mãe, e depois para as dele, tinha uma intenção bem clara: permanência.

— Quando você souber que é ela, você entrega — sua mãe dissera anos atrás, com aquela praticidade que beirava a frieza. — O tempo não se move por conta própria, Namjoon. Ele só faz sentido quando você decide parar em algum lugar.

Namjoon decidiu parar em SN.

Eles ficaram juntos por dois anos. Um período curto para alguns, mas uma vida inteira para quem, como eles, mergulhou de cabeça. Com seis meses de namoro, as caixas dela já estavam espalhadas pelo apartamento dele. Com um ano, ele já não lembrava como era tomar café sem ouvir o som dos pés dela arrastando pelo corredor. Foram um ano e meio dividindo o mesmo teto, as mesmas contas, os mesmos lençóis e os silêncios que, na época, pareciam confortáveis.

Ele achava que a conhecia. Achava que o fato de ela roubar suas camisetas de algodão e ele saber exatamente quantos cubos de gelo ela gostava no uísque era o suficiente.

Ele estava errado.

A véspera de Natal daquele ano não teve avisos. Não houve uma briga épica com gritos e pratos quebrados. Não houve o clássico “precisamos conversar”. Na noite anterior, eles pediram comida chinesa, reclamaram do frio e assistiram a um documentário qualquer até pegarem no sono no sofá. Ele a carregou para a cama, sentindo o calor do corpo dela contra o seu, e adormeceu com o rosto enterrado no pescoço dela.

Quando ele acordou, às 6:12 da manhã, o lado dela da cama já estava frio.

O silêncio na casa não era o silêncio de alguém que está dormindo. Era o silêncio de um lugar vazio. Namjoon sentou-se na cama, o coração acelerando sem motivo aparente.

— SN? — chamou, a voz rouca pelo sono.

Ninguém respondeu.

Ele caminhou pelo apartamento, os pés descalços sentindo o chão gélido. Na cozinha, a cafeteira estava desligada. A mesa estava limpa, exceto por um único objeto posicionado exatamente no centro: o colar.

O pingente oval brilhava sob a luz fluorescente da cozinha. Ao lado dele, não havia uma carta de dez páginas, nem uma explicação racional. Apenas o vazio.

Namjoon sentiu um soco no estômago. Ele correu para o quarto e abriu o armário. As roupas dela haviam sumido. Os sapatos, a bolsa de viagem que ela odiava, os produtos de skin care no banheiro… tudo limpo. Ela não tinha apenas ido embora; ela tinha sido cirúrgica. Ela apagou sua presença física da vida dele em questão de horas, enquanto ele dormia a poucos metros de distância.

Ele pegou o celular. As mãos tremiam. Ligou uma, cinco, dez vezes. Caixa postal. Mandou mensagens que nunca foram entregues. O desespero, aquela coisa ácida que sobe pela garganta, começou a dominá-lo.

Ele foi até a casa dos pais dela às oito da manhã, ignorando o decoro. O pai dela o recebeu com um olhar que Namjoon nunca esqueceria: uma mistura de pena e uma barreira intransponível.

— Ela foi embora, Namjoon — o homem disse, sem deixá-lo passar da porta. — Para outro país. Ela pediu para não ser procurada.

— Como assim “pediu para não ser procurada”? Nós moramos juntos! — Namjoon gritou, a voz falhando. — Ela não pode simplesmente sumir! O que eu fiz?

— Ela disse que não há nada para explicar. Acabou. Respeite isso.

A porta se fechou na cara dele. Naquele dia, o mundo de Namjoon não acabou com um estrondo, mas com o clique de uma fechadura.

Quatro anos depois.

O tempo passa de um jeito estranho quando você está quebrado. Para o mundo, Namjoon era um homem de sucesso. Sua carreira estava no auge, ele era respeitado, admirado. Mas, por dentro, ele era um deserto.

Ele desenvolveu uma aversão física ao mês de dezembro. Quando as primeiras luzes de Natal começavam a aparecer em Seul, ele sumia. Desligava-se de tudo. O trauma daquele abandono inexplicável havia criado uma cicatriz que não parava de latejar. Ele tentou outros relacionamentos, mas como você se entrega a alguém quando a última pessoa em quem você confiou saiu da sua vida como um fantasma?

O colar? Estava guardado no fundo de um cofre. Ele não conseguia olhar para o objeto sem sentir o gosto amargo do café frio daquela manhã de Natal.

A mudança veio através de Min Yoongi.

Yoongi era o namorado de Ji-a, que é a melhor amiga de SN. Por quatro anos, Ji-a guardou o que sabia. Até que Ji-a finalmente revelou a verdade. O motivo real por trás da fuga de SN. Algo doloroso, que aconteceu na época, mas que agora, sob o peso do tempo, exigia uma resolução.

Yoongi não era de dar conselhos sentimentais. Ele preferia a ação.

— Escuta, Nam — Yoongi disse, jogando as chaves de um chalé em Ontário sobre a mesa de centro. — Meu chalé no Canadá está vazio. Ji-a e eu íamos para lá, mas decidimos de última hora que não vamos mais. Você odeia o Natal, odeia o barulho de Seul nesta época. Vá para lá. Se esconda. O lugar é isolado, tem lenha, tem comida. Só me prometa que vai levar suprimentos extras até o dia 23, porque uma tempestade de neve das grandes está vindo.

Namjoon encarou as chaves. A ideia de isolamento total em um país estrangeiro parecia o paraíso.

— Tem certeza de que não vai precisar? — Namjoon perguntou, a voz rouca.

— Tenho. Só vá, Namjoon. Você precisa de silêncio.

Ao mesmo tempo, em uma pequena cidade universitária a três horas da cabana que o Yoongi mencionara, Ji-a terminava de convencer SN.

— Por favor, SN. O chalé do Yoongi precisa de alguém lá. As tubulações vão congelar se ninguém ligar o aquecimento central, e o caseiro está doente. Yoongi e eu desistimos da viagem em cima da hora, mas já compramos tudo. Tem comida, tem aquecimento, tem paz. Você está exausta desse observatório. Vá para lá, passe uma semana olhando as estrelas sem o telescópio da universidade.

SN hesitou. Ela não voltava para a Coreia há anos. O isolamento no Canadá era sua armadura, mas ultimamente, a solidão estava pesando mais do que a liberdade.

— Ninguém vai estar lá? — ela perguntou, a voz baixa, marcada por um cansaço que o sono não resolvia.

— Ninguém — mentiu Ji-a, sem desviar o olhar. — Só você e a neve.

A viagem para o norte de Ontário foi o prelúdio do que estava por vir.

Namjoon dirigiu um SUV alugado por estradas que desapareciam sob o branco imaculado. Ele carregava duas malas: uma de roupas pesadas e outra de livros. Em sua mente, ele já visualizava os dias de isolamento, a lareira acesa e o vazio que, pela primeira vez em quatro anos, talvez não doesse tanto se ele estivesse em outro continente. Ele parou em um mercado local no dia 23, comprando uísque, pão, conservas e carne. Seguiu o conselho de Yoongi. A tempestade não era apenas uma previsão; era uma presença visível no horizonte cinzento.

SN, por outro lado, pegou um trem e depois um táxi que se recusou a subir a última colina devido ao gelo na pista. Ela teve que caminhar os últimos oitocentos metros, arrastando sua mala pequena sob um céu que começava a despejar flocos pesados e densos. Ela não levava muito. Apenas o essencial. E o mesmo silêncio que a acompanhava desde aquela madrugada em Seul.

O chalé era uma construção robusta de madeira e pedra, encravada entre pinheiros colossais.

Namjoon chegou primeiro. Ele abriu a casa, sentindo o cheiro de madeira seca e frio acumulado. Ligou o aquecimento, acendeu a lareira e serviu-se de um copo de uísque. Ele se sentou na poltrona de couro voltada para a janela panorâmica, observando a neve começar a cair com uma fúria renovada. Pela primeira vez em muito tempo, ele sentiu que podia respirar. Estava seguro. Estava sozinho.

Vinte minutos depois, o som de algo batendo na porta da frente cortou o silêncio.

Namjoon franziu o cenho. O vento? Talvez um galho?

Ele se levantou, caminhando até a entrada. O chalé deveria estar isolado. Ninguém deveria estar ali.

Do lado de fora, SN lutava contra o vento que tentava derrubá-la. A neve já cobria seus ombros. Ela alcançou a varanda, protegendo-se sob o beiral de madeira, e tentou enfiar a chave que Ji-a lhe dera na fechadura. A chave girou, mas a porta já estava destrancada.

Ela empurrou a madeira pesada com o ombro, entrando no calor repentino do ambiente enquanto tentava recuperar o fôlego.

— Maldição… que frio… — ela sussurrou para si mesma, batendo os pés para tirar a neve das botas.

Ela não olhou para cima de imediato. Ela estava ocupada demais tentando fechar a porta contra a força do vento. Quando finalmente conseguiu trancar a entrada e o silêncio voltou a reinar, ela sentiu uma presença.

A luz da lareira projetava sombras longas no corredor.

SN levantou a cabeça, ajeitando o cachecol que cobria metade de seu rosto.

A poucos metros de distância, parado no meio da sala com um copo na mão e a expressão congelada em um choque absoluto, estava Kim Namjoon.

O tempo, que ele tanto acreditava ser um símbolo morto dentro de um pingente, de repente voltou a correr. O impacto visual foi como uma colisão física. Não havia palavras. Não havia som além do estalar da madeira queimando na lareira e do uivo lá fora, avisando que a tempestade tinha acabado de fechar a única saída.

Namjoon não se moveu. Ele nem sequer piscou. Era como se estivesse vendo um fantasma.

SN sentiu o ar sumir de seus pulmões. O passado não estava mais do outro lado do oceano; ele estava ali, de pé, vestindo um suéter escuro e carregando nos olhos a mesma dor que ela tentou enterrar nas estrelas do Canadá.

Nenhum dos dois disse nada.

O silêncio agora não era mais de ausência. Era o silêncio antes do desmoronamento.

5 Comentários

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  1. IASMINE
    Feb 1, '26 at 8:20 am

    O silêncio agora não era mais de ausência. Era o silêncio antes do desmoronamento.

    Meu deus aaaaaaaaaaaa os amigos foram essenciais demais

  2. VingançaNamutted
    Jan 3, '26 at 8:30 pm

    Não desista de mim, eu imploro

  3. Isa
    Jan 3, '26 at 4:56 pm

    Naquele dia, o mundo de Namjoon não acabou com um estrondo, mas com o clique de uma fechadura.
    Aaaaah, que dó deram a porta na cara dele

  4. Isa
    Jan 3, '26 at 4:52 pm

    Tô deprimida já passei por algo parecido, mas vou continuar lendo, porque já não tenho saúde mental mesmo, vou acabar com o resto….

    1. VingançaNamutted
      @IsaJan 3, '26 at 8:30 pm

      Namjoon,my love

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