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O asfalto de Seul parecia uma fita cinzenta e interminável sob o céu nublado do meio-dia. O motor do carro esportivo de Jimin roncava baixo, um som mecânico e controlado que contrastava violentamente com a tempestade estática que ainda devastava o interior de sua mente. Ele pilotava com apenas uma das mãos no volante, os dedos adornados de prata apertando o couro com uma força milimetricamente calculada para não despedaçá-lo. Ao seu lado, no banco do passageiro, o mundo humano seguia seu ritmo frágil e alheio à eternidade.

A empresa que gerenciava a carreira de Jimin — a imponente e influente Eclipse Entertainment — ficava a apenas vinte minutos de sua cobertura em Gangnam, mas cada segundo naquele tráfego parecia esticar-se como um elástico prestes a romper.

De repente, um suspiro profundo quebrou o silêncio do habitáculo.

Min-jee piscou consecutivas vezes, sacudindo a cabeça de leve. A névoa cinzenta que Jimin havia plantado em sua mente com sua sugestão hipnótica estava se assentando, deixando apenas as bordas maleáveis e editadas da realidade que ele escolhera para ela. O torpor físico ainda pesava em seus membros, mas a consciência humana, sempre faminta por lógica, começou a buscar pontos de apoio. Ela ajeitou a postura no banco de couro vermelho, sentindo um incômodo sutil na base do pescoço.

Ao erguer os olhos em direção ao espelho de cortesia no quebra-sol, Min-jee estancou. Seus dedos subiram automaticamente até o pescoço, tocando o tecido macio e estampado de um lenço de seda azul-escuro que estava perfeitamente amarrado ao redor de sua garganta, ocultando os dois furos precisos e a pele levemente arroxeada.

— Quando… quando isso veio parar aqui? — ela murmurou, a voz ainda um pouco rouca, a testa franzida em pura confusão. Ela olhava para o acessório como se ele tivesse se materializado do nada.

Jimin não desviou os olhos da estrada. Sua expressão era uma máscara esculpida em gelo, o maxilar tenso, a aura fria e impenetrável. No entanto, quando ele falou, sua voz assumiu uma cadência artificialmente mansa, o tom exato que usava para desarmar fãs e repórteres.

— Eu te dei, gatinha — ele disse, soltando um curto riso anasalado, desprovido de qualquer calor real. — Você estava reclamando do vento frio no corredor quando saímos, esqueceu? Achei que combinava com o seu conjunto.

As palavras dele agiram como um gatilho na mente sugestionada de Min-jee. A mentira encaixou-se perfeitamente na lacuna de sua memória, moldando as lembranças flutuantes. Suas bochechas imediatamente ganharam um tom carmim e um sorriso tímido, quase deslumbrado, floresceu em seus lábios. Ela acariciou o tecido de seda, sentindo o coração acelerar novamente.

— Ah… obrigada — ela sussurrou, desviando o olhar para a janela, embora sua mente estivesse mergulhada no eco das sensações intensas que guardara daquela tarde. — Eu nem sei o que dizer. Na verdade, tudo o que aconteceu hoje… a intimidade que nós tivemos… — Min-jee humedeceu os lábios, a voz tornando-se um sussurro confessional, carregado de um desejo antigo e reprimido. — Eu queria tanto que isso tivesse acontecido antes, Jimin. Eu sempre olhei para você na agência e…

Ela continuou falando, expondo sua vulnerabilidade humana, despejando palavras sobre o quanto ele era magnético e como ela se sentia a mulher mais sortuda do mundo por ter quebrado aquela barreira intocável.

Mas Park Jimin simplesmente não a ouvia.

O som da voz de Min-jee era apenas um ruído de fundo, um zumbido distante que seu cérebro imortal descartava sem a menor cerimônia. A mente de Jimin estava presa, acorrentada e sangrando naquele beco escuro e sujo de Seul.

Humano estúpido. O sangue dele cheira a álcool e remédios, patético. Estou voltando para o distrito.

A cadência fria e afiada da voz de S/N ecoava em seus tímpanos como um sino fúnebre. O amor de sua existência. A mulher por quem ele chorara lágrimas de sangue durante três séculos. A criatura que ele transformara em uma divindade intocável em suas telas de pintura estava viva. Sempre estivera viva.

O que mais machucava Jimin, o que fazia o uísque que ele tomara parecer ácido puro em seu estômago, não era apenas o fato de ela ser uma vampira. Era a percepção geométrica da traição. Ao longo das décadas, ele a encontrara. Ele se lembrava perfeitamente de cada detalhe. Em Xangai, nos anos 1920, ela usava um qipao de seda verde; em Londres, nos anos 1970, casaco pesado e botas de couro. Em todas as vezes, ela olhara diretamente nos olhos dele. Ela vira o desespero dele, vira as lágrimas contidas, ouvira ele pronunciar seu nome com a voz embargada de luto.

E ela simplesmente escolhera ignorá-lo.

Ela olhara através dele como se ele fosse um nada, um estranho insignificante, uma inconveniência em seu caminho eterno. Ela mentira com o olhar. Ela sustentara o teatro da reencarnação e do esquecimento apenas para vê-lo sangrar no chão, recolhendo os pedaços de um coração morto, enquanto ela se afastava na noite para caçar humanos e zombar de sua tolice.

— …então eu posso dizer para o diretor de fotografia que você se atrasou por causa de um problema mecânico no carro, tudo bem? — A voz de Min-jee cortou momentaneamente o fluxo de seus pensamentos, trazendo-o de volta à superfície por uma fração de segundo.

— Faça isso — Jimin respondeu, mecânico, enquanto manobrava o carro esportivo para dentro da garagem subterrânea privativa da Eclipse Entertainment.

Ao desligar o motor, a transição foi instantânea. Jimin fechou os olhos por um breve segundo, inspirou o ar condicionado do veículo e, ao abri-los, a criatura torturada e violenta que destruíra a própria cobertura foi trancada a sete chaves no porão de sua alma. Quando ele abriu a porta do carro e pisou no concreto da garagem, ele já era, mais uma vez, o idol impecável. Park Jimin, o fenômeno global. A postura ereta, os ombros largos sob a jaqueta de couro, o olhar sereno e misterioso que desarmava qualquer câmera.

Min-jee o acompanhou a passos rápidos, tentando manter o ritmo elegante dele enquanto subiam pelo elevador privativo que dava acesso direto aos andares da diretoria e dos estúdios de gravação.

Quando as portas pantográficas do elevador se abriram no quinto andar, o cenário mudou para o luxo minimalista e corporativo da Eclipse. Paredes de vidro fumê, iluminação embutida de LED branco, funcionários de terno correndo com pranchetas e tablets, e o som abafado de batidas pop ecoando de alguma sala de ensaio. Jimin caminhava com sua elegância predatória habitual, recebendo reverências e cumprimentos assustados de subordinados que se espremiam contra as paredes para dar passagem ao artista principal da casa.

Min-jee começou a se afastar, murmurando que iria até a sala de produção para alinhar a nova agenda da sessão de fotos, claramente ansiosa para cumprir a ordem hipnótica de protegê-lo. Jimin apenas assentiu com um leve aceno de cabeça, continuando seu trajeto em direção ao corredor principal dos estúdios.

Foi exatamente ali, a três passos da entrada do estúdio de mixagem, que o mundo de Jimin sofreu outro solavanco.

Ele estancou. Seus sapatos de couro pesado arrastaram-se no piso de porcelanato brilhante, produzindo um ruído agudo que quebrou a harmonia do ambiente.

Jimin tencionou cada músculo do corpo. Suas narinas inflaram sutilmente. Os vampiros possuíam uma assinatura sensorial única; o sangue estagnado, a ausência de calor térmico real e a densidade da aura sobrenatural eram tão claros quanto uma luz de neon para qualquer outro de sua espécie. Era uma regra biológica do submundo: um imortal sempre sabe quando está diante de outro. É impossível camuflar a ausência de vida.

E foi essa percepção que atingiu o estômago de Jimin como um fragmento de estilhaço.

No beco. Na noite anterior.

Ele visualizou a cena em câmera lenta em sua mente. Ele estava a menos de três metros de S/N. Ele a observara caminhar, ouvira sua voz, vira o movimento cirúrgico e veloz de seu deslocamento sobrenatural. Mas, antes de ela usar a velocidade pura… ele não havia sentido absolutamente nada. Para todos os seus sentidos aguçados de predador, a mulher que estava no beco exalava a assinatura biológica perfeita de uma humana comum. Não havia o peso da imortalidade, não havia a estática da aura vampírica. Se ela não tivesse se deslocado daquela forma impossível, Jimin teria colocado as mãos no fogo de que ela era apenas mais uma reencarnação mortal.

Uma confusão mental violenta e sufocante começou a girar em sua cabeça.

Como? — o pensamento martelava em seu crânio, fazendo suas pupilas oscilarem. — Como eu posso ter sido tão imprudente? Como eu não percebi a natureza dela antes? Nenhuma das outras vezes… em Xangai, em Londres… eu estive perto dela! Eu a toquei! Por que meus sentidos falharam? O que ela é? Que tipo de feitiçaria ou ocultamento é esse?

A autocrítica era punitiva. Jimin sentiu uma onda de asco de si mesmo. Ele passara trezentos anos se orgulhando de sua evolução como predador, de sua força, de sua percepção aguçada que o tornava um dos oficiais mais letais de sua era e um imortal respeitado no presente. E, no entanto, a mulher que ele mais amava — e que agora mais odiava — estivera andando embaixo de seu nariz, completamente invisível aos seus sentidos de vampiro. Ele fora um tolo. Um amador cego por um sentimento morto.

CONTINUAÇÃO …

8 Comentários

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  1. Iasmine
    May 21, '26 at 9:22 pm

    A autocrítica era punitiva. Jimin sentiu uma onda de asco de si mesmo. Ele passara trezentos anos se orgulhando de sua evolução como predador, de sua força, de sua percepção aguçada que o tornava um dos oficiais mais letais de sua era e um imortal respeitado no presente. E, no entanto, a mulher que ele mais amava — e que agora mais odiava — estivera andando embaixo de seu nariz, completamente invisível aos seus sentidos de vampiro. Ele fora um tolo. Um amador cego por um sentimento morto.

    Mas como? Pq? São tantas perguntas

  2. Iasmine
    May 21, '26 at 9:21 pm

    Ele visualizou a cena em câmera lenta em sua mente. Ele estava a menos de três metros de S/N. Ele a observara caminhar, ouvira sua voz, vira o movimento cirúrgico e veloz de seu deslocamento sobrenatural. Mas, antes de ela usar a velocidade pura… ele não havia sentido absolutamente nada. Para todos os seus sentidos aguçados de predador, a mulher que estava no beco exalava a assinatura biológica perfeita de uma humana comum. Não havia o peso da imortalidade, não havia a estática da aura vampírica. Se ela não tivesse se deslocado daquela forma impossível, Jimin teria colocado as mãos no fogo de que ela era apenas mais uma reencarnação mortal.

    Ue como que ela conseguiu mascarar isso?

  3. Iasmine
    May 21, '26 at 9:20 pm

    — Eu te dei, gatinha — ele disse, soltando um curto riso anasalado, desprovido de qualquer calor real. — Você estava reclamando do vento frio no corredor quando saímos, esqueceu? Achei que combinava com o seu conjunto.

    Mas é sinico esse vampiro

  4. Iasmine
    May 21, '26 at 9:19 pm

    — Quando… quando isso veio parar aqui? — ela murmurou, a voz ainda um pouco rouca, a testa franzida em pura confusão. Ela olhava para o acessório como se ele tivesse se materializado do nada.

    Nem te conto, um segredo

  5. Marcela
    May 21, '26 at 6:22 pm

    [quote]— …então eu posso dizer para o diretor de fotografia que você se atrasou por causa de um problema mecânico no carro, tudo bem? — A voz de Min-jee cortou momentaneamente o fluxo de seus pensamentos, trazendo-o de volta à superfície por uma fração de segundo.

    Avisa que ele tava trocando o óleoo

  6. Marcela
    May 21, '26 at 6:17 pm

    [quote]O que mais machucava Jimin, o que fazia o uísque que ele tomara parecer ácido puro em seu estômago, não era apenas o fato de ela ser uma vampira. Era a percepção geométrica da traição. Ao longo das décadas, ele a encontrara. Ele se lembrava perfeitamente de cada detalhe. Em Xangai, nos anos 1920, ela usava um qipao de seda verde; em Londres, nos anos 1970, casaco pesado e botas de couro. Em todas as vezes, ela olhara diretamente nos olhos dele. Ela vira o desespero dele, vira as lágrimas contidas, ouvira ele pronunciar seu nome com a voz embargada de luto.

    Ela sabia bem quem era ele, e se fazia de doida
    Essa quenga

  7. Marcela
    May 21, '26 at 6:15 pm

    [quote]— Ah… obrigada — ela sussurrou, desviando o olhar para a janela, embora sua mente estivesse mergulhada no eco das sensações intensas que guardara daquela tarde. — Eu nem sei o que dizer. Na verdade, tudo o que aconteceu hoje… a intimidade que nós tivemos… — Min-jee humedeceu os lábios, a voz tornando-se um sussurro confessional, carregado de um desejo antigo e reprimido. — Eu queria tanto que isso tivesse acontecido antes, Jimin. Eu sempre olhei para você na agência e…

    Alguém avisaaa??
    A pobi se iludindo

  8. Marcela
    May 21, '26 at 6:09 pm

    [quote]Min-jee piscou consecutivas vezes, sacudindo a cabeça de leve. A névoa cinzenta que Jimin havia plantado em sua mente com sua sugestão hipnótica estava se assentando, deixando apenas as bordas maleáveis e editadas da realidade que ele escolhera para ela. O torpor físico ainda pesava em seus membros, mas a consciência humana, sempre faminta por lógica, começou a buscar pontos de apoio. Ela ajeitou a postura no banco de couro vermelho, sentindo um incômodo sutil na base do pescoço.

    A mulher ainda em NÁRNIA kkkkkk

Nota

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