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O tempo em Seul tem uma densidade própria. Para Karine, as duas semanas que se seguiram ao incidente na ciclovia pareceram um borrão de gramática coreana, o vapor das máquinas de café e o latejar discreto de uma cicatriz que insistia em coçar sob a calça jeans. O outono estava se aprofundando, tingindo as árvores de um laranja que parecia queimar sob a luz fria do entardecer.

Para Kim Namjoon, o tempo era uma sucessão de batidas de metrônomo e páginas de rascunho riscadas. A imagem da garota com o caderno — a estrangeira que não queria ser salva, apenas respeitada em seu espaço — permanecia guardada em uma gaveta lateral de sua mente. Ele não a buscava conscientemente, mas ela aparecia toda vez que ele escrevia sobre “limites” ou “colisões suaves”.

Eles não sabiam, mas Seul estava brincando com eles. A cidade, com seus milhões de habitantes e labirintos de concreto, estava desenhando linhas paralelas que insistiam em se aproximar, mas nunca em se tocar.

Era uma terça-feira cinzenta. Karine saiu do curso de idiomas com a mente exausta. As partículas e/esao ainda dançavam em sua cabeça como formigas confusas. Ela precisava de silêncio, o tipo de silêncio que só existe em livrarias de livros usados, onde o tempo parece retido pelo cheiro de mofo e sabedoria.

Ela caminhou até uma pequena loja em Seochon, uma ruela onde os carros mal passavam. A porta de madeira rangeu. Karine passou as mãos pelas lombadas gastas, buscando um dicionário de termos arcaicos ou talvez apenas um livro de poesias que ela pudesse tentar decifrar. Ela parou na seção de arte, os dedos tocando a capa de um livro sobre as cerâmicas da dinastia Joseon.

— Este é bom — murmurou para si mesma, sentindo a textura da capa.

Ela ficou ali por vinte minutos, imersa. Quando o relógio marcou 16h10, ela suspirou, guardou o livro (que era caro demais para o seu orçamento de estudante) e saiu, enrolando o cachecol no pescoço.

Exatos três minutos depois, a mesma porta rangeu.

Namjoon entrou, abaixando um pouco a cabeça para não bater no batente baixo. Ele usava um casaco longo de tons terrosos e óculos de armação fina. Ele não precisava de Minho dentro da loja; o dono era um senhor de oitenta anos que mal enxergava e não se importava com ídolos globais.

Namjoon caminhou direto para a seção de arte. Seus pés pararam exatamente onde Karine estivera. Seus olhos pousaram no mesmo livro de cerâmicas. Ele notou que o livro estava levemente fora do alinhamento, como se alguém tivesse acabado de manuseá-lo. Ele o pegou. O papel ainda guardava um resquício quase imperceptível de calor humano, um rastro de alguém que também buscava a beleza na simplicidade.

Ele abriu na página que Karine estava lendo. Olhou para a foto de um vaso de lua branco.

— Bonito — ele sussurrou.

Ele sentiu uma estranha melancolia, uma sensação de que tinha acabado de perder um ônibus importante. Ele olhou para a porta de vidro embaçada, vendo apenas vultos passando lá fora. Entre aqueles vultos, uma mecha de cabelo castanho desaparecia na esquina, mas ele não viu. Ele apenas comprou o livro, sentindo que estava levando para casa um pensamento compartilhado com um desconhecido.

No dia seguinte, a cafeteria do Sr. Park estava um caos. Karine corria entre as mesas, equilibrando pedidos de iced americano e lattes espumosos. Era seu turno de fechamento, e a exaustão começava a pesar em seus ombros.

— Karine-ssi, limpe a mesa da janela, por favor! — gritou o Sr. Park.

Ela pegou o pano e o borrifador. A mesa da janela era a mais reservada, protegida por uma planta alta. Enquanto passava o pano na madeira escura, ela encontrou algo: um guardanapo de papel dobrado. Nele, havia um desenho rápido de um pequeno caranguejo e uma frase em coreano, escrita com uma caligrafia elegante e um pouco apressada: “Até a poeira brilha se o sol bater no ângulo certo.”

Karine parou. O coração deu um salto bobo. Ela conhecia aquela profundidade. Era o tipo de frase que a fazia querer abrir seu próprio caderno.

— Quem estava sentado aqui, Woobin? — ela perguntou, enquanto ele passava com uma bandeja.

— Um cara alto. Estava de boné e máscara. Meio desajeitado, quase derrubou o vaso de plantas quando levantou — Woobin riu. — Por que?

— Nada… só uma frase.

— Ele saiu faz trinta segundos. Se correr, talvez o alcance para devolver o lixo dele — brincou Woobin.

Karine olhou para a porta. Através do vidro, ela viu um homem alto atravessando a rua, de costas para ela. Os ombros eram largos, a postura era de alguém que carregava o mundo, mas caminhava como se quisesse ser invisível. Ela deu um passo em direção à porta, mas o sino da entrada tocou e um grupo de cinco clientes entrou, exigindo sua atenção.

O homem do outro lado da rua — Namjoon — parou por um segundo, sentindo uma vontade súbita de olhar para trás. Ele tinha esquecido o guardanapo onde anotara uma ideia para uma letra. Ele pensou em voltar, mas o sinal abriu e o fluxo de pessoas o empurrou para frente.

Ele suspirou, ajeitando a máscara. “É só um guardanapo”, pensou. Ele não sabia que Karine o guardaria no bolso do seu avental como se fosse um tesouro secreto.

Duas semanas e dois dias.

O Rio Han é o pulmão de Seul, e naquela noite de sexta-feira, ele respirava um ar gelado. Karine tinha ido até lá para caminhar. Ela evitava a ciclovia por trauma, preferindo os degraus de pedra perto da água. Ela estava com fones de ouvido, ouvindo uma playlist de jazz melancólico que a ajudava a processar a saudade de casa.

Ela se sentou em um banco, olhando para as luzes da ponte Banpo refletidas na água. O mundo parecia vasto e ela se sentia pequena, uma partícula coreana perdida em uma frase complicada.

A cerca de cinquenta metros dali, escondido pela sombra de um pilar de concreto, Namjoon estava encostado no corrimão. Ele também olhava para o rio. Ele estava sem fones; para ele, o som da água batendo na pedra era a melhor música que existia.

Ele pegou o celular. Abriu a nota que escrevera na noite do acidente. “Eu tento tentado aprender onde eu termino e onde o mundo começa.”

Ele olhou para o lado e viu uma figura solitária sentada em um banco. A luz de um poste batia de lado, revelando o perfil de uma garota. O modo como ela abraçava os próprios joelhos, o modo como ela olhava para o horizonte… era familiar.

“É ela?”, ele pensou, o coração acelerando em um ritmo que ele não conseguia controlar.

Ele deu um passo à frente, saindo da sombra.

Nesse exato momento, o celular de Karine vibrou. Era Ji-a.

Karine! Onde você está? Esqueci a chave do apartamento e estou presa aqui fora morrendo de frio! Socorro!

Karine riu, levantando-se imediatamente.

— Já estou indo, Ji-a! Não morra, chego em dez minutos!

Ela se virou e começou a correr em direção à estação de metrô.

Namjoon parou. Ele viu a garota correr, o cachecol voando atrás dela como uma bandeira de despedida. Ele não a chamou. Ele era Kim Namjoon; ele não podia simplesmente gritar para uma estranha no meio da noite. O risco era alto demais, a incerteza era grande demais.

Ele ficou parado, observando-a desaparecer na multidão que subia as escadas.

A rotina seguiu seu curso implacável.

Na segunda-feira seguinte, Karine teve uma aula extra e saiu da universidade mais tarde. Ela caminhou pela calçada em frente ao museu de arte, distraída, chutando as folhas secas. Ela parou em frente a um enorme mural de vidro que refletia a rua. Ela parou para ajeitar o cabelo, usando o vidro como espelho.

Do outro lado do vidro, dentro do museu, Namjoon estava parado.

Ele estava observando uma escultura moderna, uma peça de metal retorcido que falava sobre conexões perdidas. Ele estava a menos de dez centímetros de Karine, separados apenas por uma camada de vidro temperado e dois mundos de diferença.

Karine olhou para o próprio reflexo. Ela não viu o homem do outro lado, pois a luz interna do museu estava mais baixa que a iluminação da rua. Namjoon, no entanto, viu.

Ele viu o rosto dela sobreposto à escultura. Parecia que ela fazia parte da obra de arte. Ele ficou imóvel, prendendo a respiração. Ele reconheceu os olhos. Eram os “olhos de chuva” que ele descrevera em suas notas. Ela parecia cansada, mas havia uma determinação na linha de sua mandíbula que o fascinava.

Ele estendeu a mão, tocando o vidro, exatamente onde o rosto dela estava refletido.

Karine sentiu um calafrio. Ela olhou mais de perto para o vidro, sentindo como se estivesse sendo observada. Ela franziu a testa, aproximando o rosto para tentar enxergar através do reflexo.

Por um segundo, seus olhares quase se alinharam. As pupilas se buscaram através do abismo transparente.

— Karine! — A voz de uma colega de classe a chamou da esquina.

Ela piscou, o transe se quebrando. Ela sorriu para a amiga e se afastou.

Namjoon fechou os olhos, encostando a testa no vidro frio.

“Isso está ficando ridículo”, ele pensou. Ele sentia como se estivesse vivendo em um filme de Hong Sang-soo, onde as pessoas circulam umas pelas outras em repetições infinitas, nunca chegando ao clímax.

Duas semanas se completaram. Quatorze dias de quase contatos.

Namjoon estava exausto. As gravações do novo álbum estavam no auge, e ele sentia que sua alma precisava de um banho de normalidade. Ele pediu a Minho para levá-lo àquela mesma cafeteria onde ele esqueceu o guardanapo.

Eram 19h00. O horário exato em que Karine costumava sair, de acordo com o que ele observara (sim, ele tinha começado a observar horários, uma mania de analista que ele não conseguia evitar).

Desta vez, ele não usou o carro preto. Ele foi a pé, com um casaco enorme e a máscara bem ajustada.

Karine estava dentro da cafeteria, tirando o avental.

— Boa noite, Sr. Park! — ela disse, pegando sua mochila.

— Vá com cuidado, Karine. O vento está forte.

Ela abriu a porta e saiu.

Namjoon estava a dez metros de distância, caminhando em direção à entrada.

O vento soprou forte, fazendo as folhas de ginkgo voarem em um redemoinho dourado. Karine baixou a cabeça para proteger os olhos. Namjoon segurou o boné.

Eles passaram um pelo outro na calçada estreita.

O ombro dele roçou levemente no dela. Um toque quase idêntico ao do acidente com a bicicleta, mas desta vez, ninguém caiu.

Karine sentiu um perfume — madeira, terra molhada e algo que lembrava livros antigos. Ela parou. Aquele cheiro… ela o conhecia. Ela não sabia de onde, mas ele acionou uma memória profunda em seu peito.

Ela se virou.

Namjoon também tinha parado. Ele estava de costas para ela, a mão ainda no boné. Ele sentiu o “choque” elétrico da presença dela. Ele sentia que era ela. O universo não seria tão cruel a ponto de repetir aquele roçar de ombros com outra pessoa.

Ele começou a se virar, lentamente.

Mas o destino, esse roteirista sádico, enviou um ônibus de turismo. O veículo parou exatamente entre eles, bloqueando a visão da calçada, enquanto um grupo de turistas barulhentos desembarcava, rindo e falando alto.

Quando o ônibus finalmente seguiu caminho, trinta segundos depois…

A calçada estava vazia.

Karine tinha decidido que estava imaginando coisas e apertou o passo para o metrô. Namjoon tinha entrado na cafeteria, o coração martelando contra as costelas como um pássaro enjaulado.

Ele se sentou na mesma mesa da janela. O Sr. Park se aproximou.

— O de sempre, senhor? — perguntou o dono, que já reconhecia a silhueta do cliente frequente, embora não soubesse sua identidade.

— Não — disse Namjoon, a voz um pouco rouca. — Eu quero o que a moça que acabou de sair costuma beber.

O Sr. Park sorriu de canto.

— Chá de limão e mel. Com pouco açúcar.

Namjoon assentiu. Quando o chá chegou, ele envolveu a xícara com as mãos, exatamente como vira Karine fazer na sua mente mil vezes.

“Estamos no mesmo trajeto”, ele pensou, olhando para a rua escura. “Pisamos nas mesmas pedras, respiramos o mesmo ar de café, lemos as mesmas páginas.”

Ele pegou seu caderno e escreveu uma única linha, que mais tarde se tornaria o refrão de uma música que o mundo inteiro cantaria, sem saber que era para uma garota brasileira que trabalhava em uma cafeteria de Seul:

“Nós somos dois satélites que compartilham a mesma órbita, mas cujos relógios foram ajustados com um segundo de diferença.”

14 Comentários

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  1. Isa
    Jan 6, '26 at 8:10 pm

    ” Ela precisava de silêncio, o tipo de silêncio que só existe em livrarias de livros usados, onde o tempo parece retido pelo cheiro de mofo e sabedoria.”

    Ah, meu lugar favorito, meu cheiro favorito

  2. Isa
    Jan 6, '26 at 8:24 pm

    “Namjoon fechou os olhos, encostando a testa no vidro frio. ”
    O coitado sofre demais…

  3. Isa
    Jan 6, '26 at 8:28 pm

    “Nós somos dois satélites que compartilham a mesma órbita, mas cujos relógios foram ajustados com um segundo de diferença.”

    Não estou aguentando isso, tô cansada de chorar, cadê a pegação?

    1. Karine
      @IsaJan 7, '26 at 11:11 pm

      Kkkkkk tbm estou esperando amg (ᵕ̣̣̣̣̣̣﹏ᵕ̣̣̣̣̣̣)

    2. SNdoNamjoon(YrysV)♡
      @IsaJan 16, '26 at 11:19 pm

      Vc n disse q gostava?kkkk

  4. Karine
    Jan 7, '26 at 11:17 pm

    Ele abriu na página que Karine estava lendo. Olhou para a foto de um vaso de lua branco.

    As gracinhas do destino

  5. Karine
    Jan 7, '26 at 11:21 pm

    Ele viu o rosto dela sobreposto à escultura. Parecia que ela fazia parte da obra de arte. Ele ficou imóvel, prendendo a respiração. Ele reconheceu os olhos. Eram os “olhos de chuva” que ele descrevera em suas notas. Ela parecia cansada, mas havia uma determinação na linha de sua mandíbula que o fascinava.

    “Olhos de chuva” (。◕‿‿◕。)

    1. SNdoNamjoon(YrysV)♡
      @KarineJan 16, '26 at 11:21 pm

      Mas o destino, esse roteirista sádico, enviou um ônibus de turismo. O veículo parou exatamente entre eles, bloqueando a visão da calçada, enquanto um grupo de turistas barulhentos desembarcava, rindo e falando alto.

      Kkkkk Q ódio

  6. Karine
    Jan 7, '26 at 11:24 pm

    “Nós somos dois satélites que compartilham a mesma órbita, mas cujos relógios foram ajustados com um segundo de diferença.”

    É exatamente isso (╯︵╰,)

  7. SNdoNamjoon(YrysV)♡
    Jan 16, '26 at 11:18 pm

    Eles não sabiam, mas Seul estava brincando com eles. A cidade, com seus milhões de habitantes e labirintos de concreto, estava desenhando linhas paralelas que insistiam em se aproximar, mas nunca em se tocar.

    É isso aí, Seoul

  8. SNdoNamjoon(YrysV)♡
    Jan 16, '26 at 11:19 pm

    Karine sentiu um perfume — madeira, terra molhada e algo que lembrava livros antigos. Ela parou. Aquele cheiro… ela o conhecia. Ela não sabia de onde, mas ele acionou uma memória profunda em seu peito.

    Pra mim esse homem tem cheiro amadeirado e de felicidade

  9. SNdoNamjoon(YrysV)♡
    Jan 16, '26 at 11:23 pm

    — O de sempre, senhor? — perguntou o dono, que já reconhecia a silhueta do cliente frequente, embora não soubesse sua identidade.

    “Um copo cm gelo, veneno e limão”

  10. SNdoNamjoon(YrysV)♡
    Jan 16, '26 at 11:25 pm

    “Estamos no mesmo trajeto”, ele pensou, olhando para a rua escura. “Pisamos nas mesmas pedras, respiramos o mesmo ar de café, lemos as mesmas páginas.”

    Aff, odeio odor de café

  11. IASMINE
    Jan 29, '26 at 5:55 pm

    Jesus amado to sofrendo junto com ele

Nota

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