Capítulo 1 – Palavras que ainda não aprendi
por Fanfiqueira
O relógio digital preso no azulejo branco marcava 18h47 quando Karine passou o pano úmido pela bancada de madeira, desenhando círculos distraídos como quem revisa um pensamento. A cafeteria tinha o cheiro acolhedor de grãos moídos na hora e açúcar queimando devagar — um perfume que ela já reconhecia como parte dos seus dias na Coreia, tão íntimo quanto o caderninho de bolso onde anotava palavras novas. “Gireum… óleo. Nunbit… brilho nos olhos. Gamsahamnida… obrigada.” Palavras que já tinham virado pequenas pedras no bolso da sua coragem.
— Karine-ssi, quer trocar comigo no balcão por meia hora? — Woobin ergueu o queixo na direção da fila. O avental cinza realçava os ombros largos; ele sorria, gentil por hábito, mas com uma sombra que ela não sabia nomear. — Está puxado agora, e você é boa com os pedidos.
— Posso sim — respondeu, prendendo uma mecha de cabelo atrás da orelha. — Mas o Sr. Park disse que eu poderia sair um pouquinho mais cedo hoje… bibliotecaaa… — alongou a palavra com uma carinha de desastre, tentando aliviar a notícia com humor.
— Biblioteca — ele repetiu, como quem mastiga a sílaba para não perder o gosto. — Todo dia você e seus livros.
— Não todo dia — ela riu baixo. — Só quando eu preciso fazer algum trabalho…
No canto, o Sr. Park ajustava a máquina de expresso com um olhar clínico de comandante. Era exigente, mas justo: raramente levantava a voz — quando o fazia, tinha sempre um motivo palpável e um plano de ação. Tinha dito naquele começo de tarde: “Se terminar as bandejas até as 19h15, pode ir, Karine. Estudar também é trabalho.”
Ji-a surgiu por trás de Karine como um passarinho barulhento, equilibrando uma bandeja com dois americanos e um biscoito de gengibre.
— Fim de tarde e você vai namorar… os livros — cantarolou, baixinho, em português quebrado, só para provocar. — Que tal um encontro as cegas? Posso te arranjar um encontro às cegas amanhã, com um cara gato e legal!
— Ji-a! — Karine sussurrou, rindo, rubor nos cantos do rosto. — Eu disse que não precisa.
— Precisa, sim. Coração também precisa estudar — piscou. — E não tem prova, só prática.
— Ji-a… — Ela abanou a cabeça, mas o sorriso teimoso ficou. Era difícil não gostar da amiga que dividia apartamento com ela, sempre com pressa de viver e um dom natural para colorir os dias. Graças a Ji-a, tinha um quarto decente, metade do aluguel resolvido e um emprego dentro do mapa. O resto, Karine tentava construir com disciplina: estudo pela manhã, café da tarde à noite, caderno no bolso e pés atentos ao caminho.
Às 19h10, a fila minguou. O Sr. Park, sem erguer muito a cabeça, assentiu na direção dela.
— Vá, Karine. Hoje você merece — disse, e na voz grave havia um cuidado que não se dizia.
Woobin apareceu com um copo de chá de limão e mel.
— Leva — ele estendeu o copo, sem encará-la por muito tempo. — No vento perto do rio, sua garganta agradece.
— Obrigada, Woobin — ela segurou o copo com as duas mãos, sentindo o calor passar para os dedos. — Prometo devolver o copo inteiro — brincou.
— Eu vou fechar hoje — ele respondeu, um pouco rápido demais. — Se precisar, me manda mensagem quando chegar. Só pra eu saber.
Karine mordeu o lábio. A preocupação era gentil, mas sempre vinha com um peso que ela não sabia onde apoiar.
— Tudo bem — disse, sem prometer exatamente.
Ji-a a abraçou por trás, um aperto breve e alegre.
— Estuda, mas não esquece de viver — sussurrou no ouvido. — E olha pros lados quando sonhar andando, hein?
Karine fez uma careta risonha, prendeu o cabelo com um elástico e cruzou a porta. A noite ainda não tinha caído por inteiro; o céu era uma mistura de rosa cansado com azul empoeirado. O vento carregava um frio dócil, desses que lembram a gente de respirar mais fundo. Ela seguiu pela rua com passos decididos, o copo de chá aquecendo as mãos, o fone de ouvido guardado — preferia ouvir a cidade. “Silêncio também mora no barulho”, tinha anotado outro dia.
A biblioteca no mapa parecia um desvio simples antes do metrô. Um quarteirão, uma rotatória, duas ruas com lojas de conveniência e uma travessia que desembocava na ciclovia à margem do Han. O rio era seu lugar preferido na cidade: não precisava entrar em nenhum prédio, não exigia senha, pertencia a todo mundo — e ainda assim, toda vez que ela passava por lá, sentia como se fosse um segredo só dela.
“Hoje eu pego o livro de gramática intermediária, capítulo de partículas. Partículas… um universo nas partículas.” Sorriu do próprio nerd interior e acelerou o passo, mochila firme nas costas.
Do outro lado do mapa invisível daquele mesmo inicio de noite, um homem pedalava em silêncio calculado. Boné, máscara, moletom neutro; o corpo alongado, mas um pouco curvado como quem tenta caber dentro de si. A segurança — um homem alto de casaco escuro, que a equipe chamava de Minho — mantinha certa distância, atento às curvas da ciclovia e ao fluxo do fim de dia.
Kim Namjoon, para a cidade, era um nome grande demais. Para ele, naquela hora, era apenas alguém tentando somar respirações sem perder o compasso. O vento batia no brim do boné, e a cadência do pedal acalmava a ansiedade como poucas coisas. Tinha escrito duas linhas de letra de manhã, apagado cinco. Tinha tentado ler, os olhos escorregaram das páginas. Tinha olhado pela janela mais tempo do que deveria. No fim, escolhera o rio. O rio sempre funcionava — como metrônomo para pensamentos desalinhados.
— À esquerda — a voz baixa de Minho veio pelo fone discreto. — Duas pessoas paradas com cachorro, e depois o trecho abre.
Namjoon acenou, sem falar. O gesto disciplinado de quem confia. O medo de ser visto, de ser interrompido, de virar acontecimento… tudo isso vivia ali, na margem interna, e ele aprendia a pedalar em volta sem cair.
Karine acessou a ciclovia por uma rampa curta. Na beira — um trecho de concreto que se alargava antes de estreitar outra vez — havia famílias arrumando piqueniques, casais dividindo tteokbokki em potinhos, dois amigos disputando quem arremessava a pedrinha mais longe. O Han refletia a luz como um animal manso.
Ela respirou, tirou o caderno do bolso e escreveu: “sopros: bamsori? — pesquisar”. E depois: “ficar mais tempo: prático ou sonho?”. Guardou o caderno, sorriu do próprio drama e se posicionou junto ao corrimão para olhar o rio por um instante.
Nesse milésimo luxuoso de distração, um sino leve soou — o aviso rápido de uma bicicleta — e o tempo diminuiu.
Karine virou o rosto tarde demais.
O guidão tocou seu braço; o corpo, num reflexo estranho de dança, recuou. O tênis escorregou numa poça invisível. O joelho raspou no concreto, o cotovelo arranhou a pele. O copo de chá voou, descrevendo um arco desastrado antes de se espatifar em silêncio. Um “ah” afinado escapou dela, mais susto do que dor.
A bicicleta freou à sua frente. O ciclista desceu com um movimento rápido, quase sem som. Boné. Máscara. Olhos que parecem umidade depois da chuva. Ele ergueu a mão — um gesto de aproximação —, mas congelou a um passo, olhando por cima do ombro.
— Minho — a voz veio abafada, baixa. — Por favor.
O segurança acelerou. Em três passos estava ao lado dos dois, o olhar escaneando… joelho, cotovelo, dedos, respiração.
— Me desculpe — disse Minho, num coreano claro e gentil. — Você está bem? Consegue ficar de pé?
Karine assentiu antes de pensar, orgulhosamente teimosa. O susto ainda vibrava nas costelas, mas a dor era só uma ardência superficial.
— Eu estou bem — soprou em coreano simples.
— Sinto muito — a voz do ciclista ficou ainda mais abafada, como se fosse vergonha. — Desculpa. Eu… — Ele não terminou. Olhou de relance para Minho e para o entorno, como quem mede horizontes e riscos.
— Eu resolvo — disse Minho, firme, já assumindo a postura prática de quem sabia o que fazer. — Tem uma farmácia logo ali. Pode se sentar, por favor?
Antes que Karine pudesse responder, ele ergueu os olhos e percebeu duas pessoas desacelerando mais adiante, olhando na direção deles — um casal curioso, cochichando entre si. O pânico sutil percorreu lhe o corpo. O anonimato era frágil, e o vento podia carregar rostos para longe, mas boatos, nunca.
Deu um passo para trás, hesitante, e fez um leve sinal com a cabeça para Minho — um gesto que significava “cuida disso”. O segurança entendeu de imediato.
Namjoon montou de novo na bicicleta, mas não pedalou com pressa; apenas se afastou em silêncio, seguindo pela ciclovia até o ponto em que o caminho curvava e o carro preto o esperava, discretamente estacionado sob as árvores. O segundo segurança, que observava de longe, endireitou-se assim que o viu se aproximar.
— Senhor — cumprimentou em voz baixa.
Namjoon entregou-lhe a bicicleta, e o homem a encaixou com precisão no suporte acoplado à traseira do carro. O líder dos BTS removeu as luvas com um gesto rápido, entrou no banco de trás e fechou a porta, o som abafado de quem queria silenciar o próprio coração.
Lá dentro, o mundo parecia pequeno demais para a culpa que lhe latejava no peito. Encostou a testa no vidro, observando o reflexo do rio lá longe. As palavras voltavam como martelo: “Desculpa. Eu…” E agora ecoavam de volta, dirigidas a si mesmo.
Karine se sentou no banco de concreto, sentindo o frio atravessar o jeans no ponto do joelho. Minho, agora sozinho com ela, retirou o boné, os gestos calmos e atentos.
— Só um instante — disse, e correu em direção à farmácia próxima.
Ela ficou ali, respirando fundo, o coração finalmente se acalmando. O barulho do rio misturava-se ao das bicicletas passando, e a cicatriz recente no joelho latejava num compasso próprio. “Ele parecia tão nervoso quanto eu,” pensou, ajeitando uma mecha de cabelo que o vento insistia em brincar.
Minho voltou poucos minutos depois, a respiração controlada e o kit de primeiros socorros na mão. Ajoelhou-se diante dela, abrindo os itens com eficiência, as luvas tilintando discretas.
— Vai arder um pouco — avisou, o algodão umedecido se aproximando do arranhão.
Karine mordeu o lábio, sentindo o toque frio. A dor era suportável, quase reconfortante. Algo palpável num dia que de repente tinha ficado irreal.
— Foi só isso mesmo — ela disse, observando o curativo ser colocado com cuidado. — Nada grave.
— Ainda assim, sinto muito pelo susto — respondeu ele, a voz grave, polida. — O senhor realmente não viu você. Foi um acaso infeliz.
Ela ergueu o olhar. — Ele… pareceu mais assustado que eu.
Um pequeno sorriso apareceu no canto dos lábios de Minho.
— Ele é assim. Se algo dá errado, ele se culpa. Mesmo quando não é culpa dele.
Karine piscou, curiosa, mas não perguntou mais nada. Era evidente que o homem era alguém importante — e que Minho, por lealdade, não diria o nome. Tudo bem. Ela não precisava saber.
— Obrigada — disse, com o sotaque leve que sempre entregava sua origem. — Jinjja gamsahamnida.
— Seu coreano é ótimo — elogiou ele, enquanto guardava as gazes usadas. — Vive aqui há muito tempo?
— Alguns meses só — respondeu. — O suficiente pra pedir comida e… desculpas — completou, sorrindo com ironia.
Minho riu de leve, depois lançou um olhar em volta, certificando-se de que ninguém filmava. A curiosidade das pessoas se dissipara; a cidade retomava o fluxo.
— Você tem um número? — perguntou, profissional, mas genuinamente preocupado. — Só pra eu confirmar mais tarde se está tudo bem. Prometo não insistir.
Karine hesitou, o vento bagunçando uma mecha solta do cabelo. Queria recusar com delicadeza, sem parecer ingrata.
— Não precisa — respondeu, firme, mas gentil. — Foi um acidente bobo. Eu também não estava prestando atenção. Vocês já fizeram mais do que o suficiente.
Minho assentiu devagar, compreendendo, embora a expressão dissesse que ainda preferia não deixá-la ir assim.
— O mínimo seria garantir que chegou bem — tentou de novo, mais brando. — Às vezes, o susto vem depois.
Ela respirou fundo e ajeitou a alça da mochila, o joelho ainda latejando.
— Agradeço de verdade, mas eu vou direto pra biblioteca ali na frente. Se eu conseguir escolher um livro certo, é sinal de que estou bem — disse, com aquele humor tímido que vinha quando queria encerrar um assunto sem parecer rude.
O segurança sorriu, rendido.
— Tudo bem. Mas… evite ciclovias por hoje, tá?
Ela riu. — Prometo.
Minho guardou o kit, levantou-se e estendeu a mão num gesto respeitoso.
— Boa leitura, senhorita.
Karine levantou-se devagar, testando o peso na perna machucada. Doeu no primeiro movimento, depois cedeu.
— Obrigada, de verdade — disse mais uma vez. — Por tudo.
— Só fiz o que era certo — respondeu, e se afastou um passo, deixando que ela retomasse o caminho.
Karine ajeitou o cabelo, deu um pequeno tchau e seguiu em direção à biblioteca. O vento frio soprou contra o rosto, e a sensação era quase boa: viva, presente, inteira. Atrás dela, Minho observou até que ela dobrasse a esquina, então soltou o ar, aliviado.
Quando o carro preto deslizou pela avenida alguns minutos depois, ele discretamente tocou no fone e informou:
— Está tudo certo, senhor. Ela foi embora bem.
Lá dentro, Namjoon apenas respondeu com um murmúrio baixo, o olhar perdido no reflexo do rio pela janela.
— Ainda bem…
E, num pensamento que ficou preso entre o peito e o papel em branco da mente, completou silenciosamente: “Mas eu não vou esquecer.”
De madrugada, entre um gole de água e outro, Namjoon abriu o aplicativo de notas. Digitou sem pensar muito, com a sinceridade sem plateia dos rascunhos:
“Às vezes minha pressa encosta no mundo. Eu peço desculpas, tropeço, levanto, prometo ser mais leve. Hoje eu encostei em alguém que carregava um caderno. Havia coragem no modo como ela disse que estava tudo bem. Havia fronteiras no modo como ela disse não. Eu entendo. Eu também tento aprender onde eu termino e onde o mundo começa.”
Apagou o último ponto, trocou por reticências e riu de si mesmo. Salvou. E, pela primeira vez em dias, a ansiedade não venceu. Não totalmente. Talvez a palavra certa ainda estivesse longe, e a música, adiada. Mas havia uma cena, um ritmo, um cuidado novo. Às vezes, era o bastante.
No outro lado da cidade, Karine, já de banho tomado, passou pomada nos arranhões, prendeu o cabelo num coque frouxo e enviou para Ji-a: “Quero tteokbokki sim. Mas sem pimenta hoje.” Para Woobin, escreveu: “Já em casa. Tudo bem.” Depois, desligou as notificações, encostou a testa no vidro da janela e observou os pontos de luz das janelas vizinhas. Cada uma, um livro aberto.
“Eu vim pra viver todas as experiências possíveis”, lembrou, sorrindo de si. “Mas será que eu sei reconhecer quando elas começam?”
No escuro do quarto, uma nota grudou nela como adesivo: olhos de chuva. E a palavra que aprendera naquela tarde voltou para brincar no pensamento antes do sono: nunbit. Brilho nos olhos.
Ela pensou que talvez fosse isso. Às vezes, o começo era só um brilho atravessando a máscara do mundo — e o resto, paciência, cuidado e as partículas certas para ligar uma frase na outra.
É Karine te entendo bem kkkk
Eu desligando minha Internet td dia kkk
N era o Kang Tae? N gostei
Q pobreza :'(
Que coisa mais linda!
“Às vezes minha pressa encosta no mundo. Eu peço desculpas, tropeço, levanto, prometo ser mais leve. Hoje eu encostei em alguém que carregava um caderno. Havia coragem no modo como ela disse que estava tudo bem. Havia fronteiras no modo como ela disse não. Eu entendo. Eu também tento aprender onde eu termino e onde o mundo começa.”