You have no alerts.
Header Background Image

Quatro anos e seis meses depois.

O som do bisturi cortando a carne foi substituído pelo som seco de uma caneta tinteiro Montblanc deslizando sobre contratos de bilhões de wons.

Kim Namjoon não usava mais branco. O branco era a cor da pureza, da cura e da esperança — conceitos que ele enterrou naquela noite chuvosa em que o metal de seu SUV se tornou seu caixão temporário. Hoje, ele vestia o preto. O preto da Kim Global Architecture & Development, o império que seu pai, o implacável Kim Sang-chul, construíra sobre alicerces de concreto e segredos.

Namjoon girou a cadeira de couro em seu escritório no 55º andar, observando a linha do horizonte de Seul. A cidade que ele antes jurara proteger agora parecia um tabuleiro de xadrez esperando por seu próximo movimento.

Os quatro anos de faculdade de Administração e Gestão de Negócios foram, para ele, um exercício de autoflagelação e disciplina. Enquanto outros herdeiros desperdiçavam suas noites em clubes de Gangnam, Namjoon passava as madrugadas devorando planilhas, leis de zoneamento e estratégias de aquisição hostil. Ele precisava de uma nova forma de controle. Se ele não podia mais consertar o corpo humano, ele construiria — e destruiria — as estruturas onde esses humanos viviam.

Ele olhou para a sua mão direita.

Aparentemente, ela era perfeita. Mas, se alguém olhasse de perto quando ele segurava o copo de uísque puro, notaria o leve tremor residual, o fantasma dos nervos rompidos que nunca voltaram a ser o que eram. Ele odiava aquela mão. Ela era o lembrete constante de que a misericórdia era uma falha de projeto.

A porta do escritório se abriu sem que ele precisasse autorizar. Apenas uma pessoa tinha permissão para entrar naquele horário: seu “investimento” mais valioso na Universidade de Artes e Arquitetura de Seul.

— Você está atrasado, Taehyung — a voz de Namjoon saiu profunda, como o som de placas tectônicas se movendo.

Kim Taehyung, vestindo um casaco de lã moderno e carregando uma mochila que escondia sua verdadeira função, caminhou com uma confiança que beirava a insolência. Ele não era um amigo; Namjoon não tinha amigos. Ele era um ativo. Um funcionário de luxo que recebia uma quantia obscena para ser os olhos e ouvidos de Namjoon onde ele mesmo não podia estar.

— O trânsito perto da universidade estava um caos, chefe. E, como você sabe, estudantes de arquitetura no último ano vivem à base de cafeína e desespero. É difícil passar despercebido quando todos estão em alerta máximo para o prazo final do TCC — Taehyung jogou um envelope pardo sobre a mesa de carvalho negro.

Namjoon não se moveu imediatamente. Ele deixou o envelope ali, como se o conteúdo não fosse a única coisa que o mantinha são nos últimos anos.

— E como ela está? — A pergunta foi curta, desprovida de emoção aparente, mas Taehyung sabia que era o centro de gravidade de toda a existência de seu patrão.

— Karine Min continua sendo a estrela da faculdade. Ela está terminando o projeto de revitalização do distrito histórico. Os professores a chamam de “a herdeira do traço de ouro”. Mas… — Taehyung fez uma pausa, observando a reação de Namjoon. — Ela começou a procurar estágio. O pai dela, o Sr. Min, quer que ela vá para a empresa da família, a Min Corp, mas ela parece estar resistindo. Ela quer mérito próprio. Ou talvez esteja apenas tentando fugir do destino que o pai traçou.

Namjoon soltou uma risada seca, um som sem alegria.

— Ninguém foge do destino, Taehyung. Principalmente quando eu sou o destino.

Ele finalmente abriu o envelope. Dentro, fotos em alta resolução. Karine saindo da biblioteca com olheiras suaves sob os olhos, o que só a tornava mais humana e, consequentemente, mais irritante para ele. Karine rindo com colegas. Karine tomando café sozinha em um banco de praça, olhando para o nada com aquela mesma expressão de elegância letal que o assombrava desde o acidente.

Ele deslizou o dedo pela foto, tocando o papel frio sobre o rosto dela.

— Ela sabe quem você é? — Namjoon perguntou, sem desviar o olhar da imagem.

— Para ela, sou apenas o veterano excêntrico que às vezes divide a mesa de desenho e lhe oferece um chiclete. Eu mantenho a distância profissional que o senhor exigiu. Mas ela é inteligente, Namjoon. Se eu me aproximar demais, ela vai sentir o cheiro do seu dinheiro em mim.

— Continue mantendo a distância — ordenou Namjoon, fechando o envelope com uma força desnecessária. — Eu não investi quatro anos da minha vida para que um erro de abordagem estragasse o final deste jogo. Ela precisa estar vulnerável. Ela precisa sentir que o mundo é um lugar hostil antes de eu oferecer o meu império como o único refúgio.

Taehyung assentiu, mas seus olhos mostravam uma ponta de hesitação.

— Chefe… a Min Corp está em processo de licitação para o novo complexo governamental. Se eles ganharem, o Sr. Min terá capital o suficiente para limpar as dívidas que o senhor vem comprando secretamente através de empresas de fachada.

Namjoon levantou-se, sua altura imponente preenchendo o espaço. O terno sob medida, feito pelo melhor alfaiate da Itália, escondia as cicatrizes em seu peito e ombros, mas não a aura de perigo que emanava dele.

— Eles não vão ganhar, Taehyung. Eu já subornei os membros do conselho? Não. Eu fiz algo melhor. Eu apresentei um projeto que torna o deles obsoleto. Amanhã, a Kim Global anunciará que estamos abrindo vagas de estágio para os três melhores alunos da Universidade de Artes.

Um brilho cruel surgiu nos olhos de Namjoon.

— E você vai garantir que o formulário de inscrição chegue às mãos dela. Eu quero que Karine Min venha até mim por vontade própria. Eu quero que ela caminhe para dentro da minha boca de lobo achando que encontrou a oportunidade de sua vida.

Taehyung sorriu de lado, reconhecendo o brilho do mestre estrategista.

— Você quer que ela se ajoelhe diante do CEO sem saber que ele é o cirurgião que ela descartou como lixo.

— Eu quero que ela implore por um lugar nesta empresa. Eu quero que ela coloque o futuro dela nas minhas mãos… as mesmas mãos que ela achou que não serviam para mais nada — Namjoon caminhou até a adega privativa e serviu dois dedos de uma bebida âmbar. — Pode ir, Taehyung. O depósito do bônus deste mês já foi feito.

Quando o subordinado saiu, o silêncio retornou, pesado e opressor. Namjoon caminhou até a parede de vidro. Lá embaixo, as luzes de Seul pareciam veias pulsando. Ele se lembrou da sensação do sangue escorrendo pelo seu rosto no acidente, do som do monitor cardíaco parando, e da mensagem fria que Jackson lhe entregou no hospital.

“Foque na sua nova realidade”, ela teria dito.

Ele bebeu o uísque de um gole só, sentindo o líquido queimar sua garganta.

— Minha realidade é esta agora, Karine — ele sussurrou para o vidro frio. — E eu vou garantir que você se afogue nela comigo.

Ele voltou para sua mesa e abriu uma gaveta trancada com biometria. Lá, não havia documentos da empresa. Havia apenas um objeto: o bisturi de prata que ele usou em sua última cirurgia bem-sucedida. O metal estava manchado, o brilho perdido.

Ele apertou o objeto com a mão direita, sentindo o tremor. A dor fantasma disparou por seu braço até o ombro. Ele não tentou suprimir a dor. Ele a abraçou. A dor era a única coisa que não o havia abandonado nestes quatro anos.

Ele pegou o telefone e discou para seu secretário pessoal.

— Prepare o contrato de estágio para a candidata que virá da universidade na próxima semana. Não importa quem concorra, a vaga é dela. Mas eu quero o nível de exigência no máximo. Quero que ela sinta que está no inferno antes mesmo de assinar o papel.

Ao desligar, Namjoon sentou-se novamente na penumbra. O cirurgião que salvava vidas havia morrido naquele cruzamento. O homem que restou era um arquiteto de vingança, e ele estava prestes a desenhar a queda da mulher que ele, um dia, cometeu o erro de desejar.

O jogo estava apenas começando, e Karine Min não tinha ideia de que o homem que ela considerava uma “vítima descartável” agora era o dono do ar que ela respirava.

7 Comentários

Aviso! Seu comentário ficará invisível para outros convidados e assinantes (exceto para respostas), inclusive para você, após um período de tolerância. Mas se você enviar um endereço de e-mail e ativar o ícone de sino, receberá respostas até que as cancele.
  1. Marcela
    Apr 23, '26 at 1:47 pm

    [quote]— E como ela está? — A pergunta foi curta, desprovida de emoção aparente, mas Taehyung sabia que era o centro de gravidade de toda a existência de seu patrão.

    Ele sempre querendo saber sobre ela

    1. Marcela
      @MarcelaApr 23, '26 at 11:16 pm

      [quote]— Continue mantendo a distância — ordenou Namjoon, fechando o envelope com uma força desnecessária. — Eu não investi quatro anos da minha vida para que um erro de abordagem estragasse o final deste jogo. Ela precisa estar vulnerável. Ela precisa sentir que o mundo é um lugar hostil antes de eu oferecer o meu império como o único refúgio.

      4 anos esquematizando cada passo

  2. Marcela
    Apr 23, '26 at 1:55 pm

    [quote]— Ninguém foge do destino, Taehyung. Principalmente quando eu sou o destino.

    Ela tem nem escolha kkkk

  3. Karine
    Apr 23, '26 at 3:13 pm

    — Você está atrasado, Taehyung — a voz de Namjoon saiu profunda, como o som de placas tectônicas se movendo.

    Oii Kim Taehyung

  4. Karine
    Apr 23, '26 at 3:15 pm

    — Ninguém foge do destino, Taehyung. Principalmente quando eu sou o destino.

    O desejo de vingança até escorrendo dos lábios kkk

  5. Karine
    Apr 23, '26 at 3:18 pm

    — Você quer que ela se ajoelhe diante do CEO sem saber que ele é o cirurgião que ela descartou como lixo.

    Algo de errado não está certo, eu nunca te descartaria Nam

  6. Marcela
    Apr 23, '26 at 11:17 pm

    [quote]— E você vai garantir que o formulário de inscrição chegue às mãos dela. Eu quero que Karine Min venha até mim por vontade própria. Eu quero que ela caminhe para dentro da minha boca de lobo achando que encontrou a oportunidade de sua vida.

    Ela nem imagina o que tá prestes a acontecer

Nota

Você não pode copiar conteúdo desta página