Capítulo 5 – O Peso das Palavras Não Ditas
por FanfiqueiraO vapor no banheiro estava tão denso que embaçava não apenas o espelho, mas a própria percepção de tempo. S/N sentou-se no chão de azulejos frios, abraçando os joelhos, enquanto a água do chuveiro batia no box com um som rítmico que tentava camuflar o som do seu choro. O celular, apoiado na bancada da pia, tocava uma playlist de músicas agitadas no volume máximo — uma barreira sonora para que ele, do outro lado da porta, não ouvisse o desmoronamento dela.
“O que eu fiz de errado?”, ela se perguntava, enquanto as lágrimas quentes se misturavam às gotas de água.
A mente dela, em busca de respostas lógicas para o comportamento bizarro de Hoseok, começou a trilhar caminhos sombrios. A rejeição na cama, o olhar distante, a polidez excessiva… seria outra pessoa? Ele estaria mantendo uma vida dupla e o peso da culpa finalmente o fez quebrar? Ela balançou a cabeça, tentando espantar a imagem dele com outra mulher. Não, o Hoseok dela não era assim. Mas o homem que estava na sala agora também não era o seu Hoseok.
S/N respirou fundo, puxando o ar úmido para os pulmões até que o soluço em seu peito se acalmasse. Ela não podia se dar ao luxo de desmoronar agora. Se ele estava doente, se estava tendo um surto ou se estava apenas confuso, ela precisava ser a rocha.
Ela desligou o chuveiro. O silêncio repentino foi quase assustador. Secou-se rapidamente e vestiu uma calça de moletom larga e uma camiseta desgastada dele que ela costumava usar para dormir — uma peça que cheirava ao Hoseok de verdade.
Pegando o celular, ela discou um número conhecido.
— Oi, sou eu — ela sussurrou, assim que a ligação foi atendida, mantendo a voz o mais firme possível. — Preciso que você dê conta de tudo hoje no estúdio. Avise os alunos que as aulas da tarde foram canceladas ou peça para o substituto assumir.
Do outro lado, a voz pareceu perguntar se estava tudo bem.
— O Hope não está nada legal hoje — ela continuou, olhando para a própria imagem cansada no espelho. — Ele teve uma noite difícil e eu… eu preciso ficar em casa com ele. Não posso deixá-lo sozinho assim. Obrigada por entender.
Ela desligou o aparelho e o apertou contra o peito. O medo ainda estava lá, vibrando sob sua pele, mas a decisão estava tomada. Ela não ia deixá-lo ir para o espelho, nem para o estúdio, nem para lugar nenhum até que encontrasse o homem que amava escondido atrás daqueles olhos aterrorizados.
Limpando os resquícios de maquiagem borrada, ela abriu a porta do banheiro. O corredor estava escuro, mas ela podia ouvir a respiração pesada de Hoseok vinda da sala. Ela caminhou até lá, pronta para enfrentar qualquer versão dele que encontrasse.
O silêncio que se seguiu ao bater da porta do quarto foi mais doloroso para Hoseok do que o barulho de qualquer explosão no palco. Ele continuou de joelhos, com as palmas das mãos pressionadas contra o vidro agora opaco, sentindo o frio do material subir por seus braços. Ele não era mais o J-Hope; ele era apenas um homem naufragado em um tempo que não era o seu.
— Por que não abriu? — ele sussurrou para o seu próprio reflexo na penumbra da manhã que nascia. — Eu estava aqui… eu quase toquei…
Seus dedos arranharam a superfície, buscando uma textura, uma falha, qualquer resquício daquela viscosidade morna da hora dourada. Mas nada. O espelho era apenas um objeto de decoração, uma moldura antiga guardando um vazio.
Hoseok encostou a lateral do rosto no vidro, fechando os olhos. Ele conseguia ouvir os sons abafados vindos do banheiro: a música alta, o barulho do chuveiro. Ele sabia o que aquilo significava. Ele conhecia a dor de uma mulher que se sente rejeitada, e o peso de ser o motivo daquele choro escondido o esmagava.
“Eu deveria ter ido”, pensou ele, com o coração em frangalhos. “Eu deveria ter pulado sem olhar para trás. Mas eu olhei… e eu vi o que eu fiz com ela.”
Ele se levantou lentamente, com o corpo pesado como se estivesse usando a armadura de veludo novamente. Ele caminhou até o sofá e sentou-se, enterrando o rosto nas mãos. Seus pensamentos eram um caos: as imagens dos membros do BTS tomando café no hotel em Seul se misturavam com o cheiro do kimchi jjigae que ele acabara de comer naquela cozinha. Ele estava se partindo ao meio.
O som do chuveiro parou. Hoseok ficou tenso, os ombros subindo até as orelhas. Ele ouviu a porta do banheiro abrir e, instantes depois, o sussurro de S/N ao telefone.
— “…O Hope não está nada legal hoje…”
Ouvir o seu apelido de palco sendo usado naquele contexto — como se ele fosse um doente, um problema a ser cuidado — o fez sentir uma náusea súbita. Ele percebeu que, para o mundo exterior (o de lá e o de cá), ele estava desaparecendo. Se ele não voltasse logo, o “J-Hope” de Seul se tornaria um mistério policial, e o “Hoseok” de Gwangju se tornaria um fardo para a mulher que ele mal conhecia, mas que já começava a habitar seus pensamentos com uma força perigosa.
Ele ouviu os passos dela se aproximando. Ele não se moveu. Continuou ali, sentado no sofá, como uma estátua de mármore em uma sala que transbordava vida. Ele sentia o olhar dela em suas costas, uma mistura de medo e determinação.
Hoseok respirou fundo, tentando engolir o pânico. Ele tinha doze horas, ou talvez vinte e quatro, até que o sol se pusesse novamente. Ele precisava sobreviver a este dia. Precisava fingir. Precisava ser o homem que ela amava, mesmo que cada célula de seu corpo gritasse que ele era um impostor.
Ele se virou devagar, forçando os lábios a formarem uma linha que não parecesse um grito de socorro.
— S/N… — ele começou, a voz saindo baixa e rouca. — Eu… eu sinto muito por tudo.
Hoseok sentiu o peso da pergunta dela como se o teto do apartamento estivesse cedendo. Ele ainda estava sentado no sofá, com os dedos entrelaçados com tanta força que as juntas estavam brancas. Ele olhou para você, parada ali com aquela camiseta dele e o cabelo ainda levemente úmido, e a culpa o atingiu com uma força renovada.
— Por que está me pedindo desculpas? — você perguntou, a voz trêmula, mas carregada de uma coragem triste. — Fez… fez algo errado?
Você deu um passo à frente, mas parou no meio do caminho, como se houvesse uma barreira invisível entre vocês. O medo de ouvir uma confissão de traição ou de um fim iminente brilhava em seus olhos.
Hoseok engoliu em seco. Ele viu o pânico em seu rosto e percebeu que, para ela, o comportamento dele só tinha uma explicação lógica no mundo real: ele não a amava mais, ou havia quebrado a confiança de anos. A ironia era cruel; ele estava sendo o homem mais honesto que podia, e ainda assim, parecia o maior mentiroso da história.
— Não… não é nada disso, S/N. — Ele se levantou lentamente, tentando suavizar a postura rígida de ídolo. — Eu não fiz nada de errado com você. Eu nunca… eu nunca faria nada para te machucar de propósito.
Ele deu um passo na sua direção, imitando a proximidade que viu no reflexo do espelho no dia anterior.
— Eu peço desculpas porque eu não estou conseguindo ser eu mesmo — ele disse, e cada palavra era uma verdade de duplo sentido. — Eu sinto que estou perdido dentro da minha própria cabeça. Ontem, a forma como eu te tratei… a forma como eu agi… eu só não queria que você pensasse que a culpa é sua.
Você soltou um suspiro longo, o ar saindo de seus pulmões como se você estivesse segurando o fôlego há horas. As lágrimas que você tentou segurar no banheiro ameaçaram voltar.
— Você me assustou, Hoseok. Você parecia… um estranho. Olhando para aquele espelho como se estivesse vendo um fantasma, falando nomes que eu nunca ouvi. — Você limpou o rosto com as costas da mão, tentando manter a dignidade. — Eu liguei para o estúdio. Cancelei tudo. Eu não vou te deixar sozinho hoje.
Hoseok sentiu um nó na garganta. A dedicação dela era o que ele sempre quis na vida real, mas ali, naquele momento, era o seu maior obstáculo. Se ela ficasse o tempo todo ao lado dele, como ele conseguiria monitorar o espelho? Como ele conseguiria descobrir como voltar sem que ela pensasse que ele estava ficando louco de vez?
— Você não precisava ter feito isso… — ele começou, mas você o interrompeu.
— Eu precisava, sim. Porque o homem que entrou por aquela porta ontem não era o meu Hope. E eu vou ficar aqui até que ele volte. — Você caminhou até ele e, dessa vez, não hesitou. Você envolveu a cintura dele com os braços e encostou o rosto em seu peito, exatamente onde o coração dele ainda batia de forma errática.
Hoseok ficou imóvel por um segundo, os braços pendidos ao lado do corpo. A sensação de ter você ali, protegendo-o de um mundo que ele nem pertencia, quebrou a última resistência que ele tinha. Ele fechou os olhos e descansou o queixo no topo da sua cabeça, envolvendo-a em um abraço protetor e desesperado.
— Eu estou aqui — ele sussurrou contra o seu cabelo, sentindo o cheiro de lavanda. — Eu prometo que vou tentar voltar.
Mas, enquanto ele te apertava, seus olhos se abriram e encontraram o espelho sobre o seu ombro. O vidro estava mudo, mas Hoseok sabia que a contagem regressiva para a próxima “hora dourada” já havia começado. E, desta vez, ele teria que decidir se a puxaria para dentro do seu mundo ou se permitiria ser engolido pelo dela.
Finalmente caiu em si, q coisa
Ele estaria ótimo agr se v n tivesse estragado a chance de ele voltar pra casa
Assim q voltar pra casa ele deve queimar essa coisa
Sim, devia, agr estaría de boa