Capítulo 4 – A Fronteira da Realidade
por FanfiqueiraA luz do sol invadiu o quarto não com um sobressalto, mas como um borrão dourado e suave que atravessava as frestas da persiana de madeira do apartamento de Hoseok.
Quando ela abriu os olhos, a sensação de desorientação durou apenas alguns segundos. O cheiro de café fresco já pairava no ar, misturado ao aroma de sândalo do ambiente. O lado da cama ao seu lado estava vazio, mas o lençol ainda conservava um resquício morno da presença dele. Ela se espreguiçou devagar, sentindo cada músculo do corpo relaxado uma sensação tão estranha quanto prazerosa. Não havia a rigidez habitual no pescoço, nem o nó cego de ansiedade que costumava acordá-la antes do alarme.
Ela se vestiu com a camiseta cinza de Hoseok e caminhou a passos silenciosos até a cozinha americana.
Hoseok estava de costas para ela, descalço, vestindo uma calça de moletom cinza e concentrado em cortar frutas sobre a bancada de granito. Uma xícara fumegante de café já esperava no balcão. A luz da manhã batia em seu perfil, destacando a calmaria em seus gestos.
— Bom dia — a voz dele soou baixa e aveludada antes mesmo que ela dissesse qualquer coisa. Ele se virou, um sorriso calmo e acolhedor iluminando seu rosto. — Como você se sente?
— Como se tivesse dormido por três dias seguidos — confessou ela, caminhando até a bancada e pegando a xícara de café. Ela deu um gole pequeno, apreciando o sabor forte e quente. — E como se estivesse vivendo em uma realidade paralela.
Hoseok encostou as costas no balcão, cruzando os braços e observando-a com aquele olhar atento que parecia enxergar através de todas as suas camadas.
— Não é uma realidade paralela. É só a vida acontecendo sem você tentar atropelar o tempo.
O momento era perfeito, quase idílico. Mas a realidade tem uma forma incansável de cobrar espaço.
O silêncio do apartamento foi subitamente quebrado por um som metálico e estridente vindo da sala de estar: a vibração contínua do celular dela dentro da bolsa. O som pareceu uma agulhada na bolha de paz que haviam construído.
Ela travou com a xícara a milímetros dos lábios. O olhar de Hoseok mudou ligeiramente, a descontraído dando lugar a uma sombra de antecipação.
— É a sua escolha — disse ele suavemente, sem se mexer. — O aparelho está lá. O mundo lá fora acordou.
Ela hesitou por três longos segundos. A tentação de ignorar o som era enorme, mas o condicionamento de anos de responsabilidade corporativa falou mais alto. Ela colocou a xícara na bancada e caminhou até a sala. Pegou o aparelho da bolsa e encarou a tela iluminada.
Eram nove horas da manhã. A tela inicial era um mural de urgências: doze chamadas não atendidas de sua assistente, dezenas de mensagens no aplicativo de conversa e uma enxurrada de e-mails com marcadores vermelhos de “alta prioridade”. Um dos maiores clientes do trabalho havia enviado uma notificação cobrando a apresentação que deveria ter sido revisada na noite anterior.
O nó no estômago, que havia desaparecido durante a noite, ameaçou voltar com força total. O peso da vida real desabou sobre seus ombros em uma única olhada para a tela.
— Notícias da guerra? — a voz de Hoseok veio de trás dela. Ele havia caminhado até a sala, parando a uma distância respeitosa, as mãos nos bolsos da calça.
— O projeto do cliente principal… — ela começou, a voz perdendo a leveza de minutos atrás e voltando ao tom automático e tenso do escritório. — Houve um problema na aprovação. E a minha assistente está desesperada porque não atendi o telefone. Eu preciso ir, Hoseok. Preciso resolver isso agora.
Ela começou a andar em direção ao quarto para pegar suas roupas sociais, mas a voz dele a parou no meio do caminho.
— E se você não for agora?
Ela se virou, encarando-o com uma mistura de incredulidade e aflição.
— Como assim “se eu não for”? Hoseok, é o maior contrato da empresa. Se eles cancelarem por causa de um atraso, a minha reputação cai por terra. Não posso me dar ao luxo de simplesmente desligar quando as coisas ficam difíceis.
— Você já desligou ontem — ele rebateu, dando dois passos em direção a ela, o tom de voz calmo, mas carregado de uma gravidade dolorosa. — E o mundo não acabou. Você teve uma noite de paz. Você respirou. Mas basta uma notificação na tela para você voltar exatamente para a mesma postura de soldada prestes a ir para o combate.
— Porque essa é a minha vida! — ela elevou o tom de voz, a defensiva erguendo-se como um muro automático entre eles. — O boliche foi incrível, a noite foi maravilhosa, e eu sou grata por você ter me tirado daquele escritório. Mas isso aqui — ela apontou para a janela, para os prédios da cidade, essa é a realidade. Eu não posso viver na sua bolha para sempre. Eu tenho contas, tenho equipes, tenho responsabilidades.
A expressão no rosto de Hoseok mudou. O calor acolhedor deu lugar a uma mágoa contida, um desapontamento silencioso que cortou o ar mais do que qualquer discussão gritada.
— Uma bolha? — ele perguntou em um tom baixo, quase num sussurro. — É assim que você vê o que aconteceu aqui? Como um intervalozinho bonitinho antes de voltar para o seu calvário pessoal?
— Não foi isso que eu quis dizer…
— Foi exatamente o que você disse — ele a interrompeu, a voz firme. — Você acha que eu te tirei daquele prédio só para te dar uma noite de folga? Eu te tirei de lá porque você estava se matando! Porque eu me importo com você a ponto de não aguentar ver você se transformar em uma máquina fria. Mas parece que você prefere o controle sufocante da sua rotina do que a possibilidade de viver de verdade.
— Você está sendo injusto! — os olhos dela se encheram de lágrimas de frustração. — Nem todo mundo pode simplesmente desacelerar quando quer, Hoseok! Você não entende o peso que é carregar tudo nas costas!
— Eu entendo de peso — ele respondeu, dando mais um passo, encarando-a bem de perto, a intensidade de seu olhar fazendo o ar faltar no peito dela. — Mas eu também sei quando o peso é um fardo real e quando é só uma desculpa que você usa para não ter que encarar o que realmente importa. Você se esconde atrás do trabalho porque tem medo de ver o que sobra quando você tira a armadura.
As palavras dele caíram como um golpe certeiro no centro do peito dela. Ela deu um passo para trás, chocada com a precisão dolorosa do diagnóstico.
O silêncio que se seguiu foi pesado, sufocante e repleto de coisas não ditas.
Sem dizer mais uma palavra, ela se virou e caminhou até o quarto. Trocou a camiseta confortável pelas suas roupas sociais da noite anterior o terno rígido, o salto alto, a armadura corporativa. Cada peça de roupa parecia mais pesada do que antes. Quando voltou para a sala, maquiada e de bolsas em mãos, Hoseok estava parado junto à janela, olhando para a cidade lá fora.
Ela parou perto da porta de saída, a mão hesitando na maçaneta.
— Eu preciso ir — ela murmurou, a voz falhada.
Hoseok não se virou imediatamente. Ele soltou um suspiro longo, os ombros descendo devagar, antes de olhar para ela pelo canto do olho. O olhar dele não tinha raiva, apenas uma profunda e triste resignação.
— O meu apartamento vai estar sempre aberto — ele disse, em um tom calmo que doeu mais do que se ele estivesse gritando. — Mas eu não posso te resgatar de você mesma todos os dias. Você vai ter que decidir o que realmente quer proteger: a sua vida ou a sua armadura.
Ela engoliu o nó na garganta, abriu a porta e saiu.
Três horas depois, ela estava sentada em sua cadeira no escritório.
O ar-condicionado central zumbia no teto. As telas do monitor brilhavam com a mesma luz fria e azulada da noite anterior. A reunião de emergência com o cliente havia sido remarcada para o final da tarde, o relatório atrasado fora enviado e a equipe corria de um lado para o outro cumprindo metas. Tudo estava sob controle. A máquina estava funcionando perfeitamente.
Ela era, novamente, a mulher inabalável, eficiente e de sucesso.
Mas, ao olhar para a tela do computador, onde o cursor continuava piscando em um documento em branco, ela não sentiu a familiar adrenalina do dever cumprido. Sentiu apenas um vazio ensurdecedor.
Ela olhou para as próprias mãos sobre o teclado. Lembrou-se do calor das mãos de Hoseok segurando as suas na pista de boliche. Lembrou-se da risada dele, do cheiro de sândalo, do som do coração dele batendo contra a sua bochecha na penumbra da madrugada.
Olhou ao redor da sala luxuosa e silenciosa e, pela primeira vez em toda a sua vida, a estrutura perfeita que construíra com tanto suor não parecia um troféu.
Parecia uma gaiola.
As palavras dele ecoaram em sua mente com uma clareza avassaladora: “Você vai ter que decidir o que realmente quer proteger: a sua vida ou a sua armadura.”
Ela encarou o monitor por mais alguns segundos. Lentamente, seus dedos se afastaram do teclado. Ela encostou as costas na cadeira, fechou os olhos e tomou a primeira decisão real de sua vida.
[quote]— Bom dia — a voz dele soou baixa e aveludada antes mesmo que ela dissesse qualquer coisa. Ele se virou, um sorriso calmo e acolhedor iluminando seu rosto. — Como você se sente?
Pelo jeito, se sente bem leve, soltinha, soltinha
Trabalhou duro, hein Hoseok? Kkkkk literalmente
[quote]— O meu apartamento vai estar sempre aberto — ele disse, em um tom calmo que doeu mais do que se ele estivesse gritando. — Mas eu não posso te resgatar de você mesma todos os dias. Você vai ter que decidir o que realmente quer proteger: a sua vida ou a sua armadura.
Exatamente Hoseok, fala msm
[quote]As palavras dele ecoaram em sua mente com uma clareza avassaladora: “Você vai ter que decidir o que realmente quer proteger: a sua vida ou a sua armadura.”
AGR é contigo querida