Capítulo 4 – A Caligrafia do Invisível
por FanfiqueiraO outono em Seul havia decidido se despedir com um sopro gelado que cortava as esquinas. Na cafeteria do Sr. Park, o vidro da fachada estava constantemente embaçado pelo contraste entre o calor das máquinas de expresso e o frio cortante da rua.
Karine limpava uma mesa quando o sino da porta tocou. Eram 18h15.
Um homem entrou. Ele era uma fortaleza de tecidos escuros: um sobretudo longo cor de grafite, um cachecol de lã grossa que subia até o nariz, um boné preto e a onipresente máscara descartável. Seus olhos, protegidos por óculos de descanso de armação fina, pareciam evitar o contato direto, focando-se no menu como se fosse uma partitura complexa.

Namjoon sentia seu coração martelar contra as costelas. Ele já não era mais apenas um cliente; ele era um estrategista do destino. Ele precisava que ela visse seus pensamentos sem o filtro da fama, sem o peso do nome “RM”. Ele precisava saber se ela se conectaria com a sua alma antes de se conectar com a sua imagem.
— Um americano quente, por favor — ele disse, a voz abafada pelo tecido.
Karine sorriu, aquele sorriso que Namjoon agora reconhecia como o farol de seus dias. — Claro. Mais alguma coisa?
— Apenas… — ele hesitou, os dedos longos batucando levemente no balcão. — Um lugar calmo.

Ele se sentou na mesa mais isolada, nos fundos, onde a luz era suave. Ele tirou um livro da bolsa.. Não era um livro qualquer. Era um exemplar de “Walden”, de Henry David Thoreau, mas recheado de pequenos papéis coloridos e anotações nas margens.
Ele fingiu ler por vinte minutos, embora seus olhos estivessem fixos no modo como Karine organizava os pacotes de açúcar. Quando ela se virou para atender um cliente barulhento, Namjoon agiu. Ele deixou o livro aberto sobre a mesa, levantou-se e caminhou em direção à saída.
— Senhor! Seu café ainda está na metade! — Karine chamou, mas ele já tinha cruzado a porta, desaparecendo na névoa da noite como um fantasma bem vestido.
Karine aproximou-se da mesa para recolher a xícara. Seus olhos pousaram no livro. — Ele esqueceu… — sussurrou.
Ela pegou o volume. O papel exalava um perfume sutil de sândalo e papel antigo. Ao folhear, um pequeno pedaço de papel soltou-se e caiu no chão. Karine o recolheu e, por instinto, leu a caligrafia elegante e apressada:
“Hoje o sol bateu no vidro e eu vi o reflexo de alguém que não sabe que é poesia. Ela segurava um pano úmido como se estivesse limpando as tristezas do mundo. Eu quis dizer que o brilho nos olhos dela (nunbit) é a única tradução que eu entendo, mas o silêncio é o meu único idioma permitido.”
Karine sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Suas mãos tremeram levemente. Aquilo não era uma anotação de estudo; era um fragmento de alma.
— Karine? Vai fechar o caixa? — Woobin chamou. — Vou… só um segundo.
Ela guardou o livro em sua mochila. “Vou guardar para devolver quando ele voltar”, justificou para si mesma, embora uma curiosidade voraz já estivesse criando raízes em seu peito.
Nos três dias seguintes, o livro tornou-se o companheiro secreto de Karine. Em cada intervalo, em cada viagem de metrô, ela mergulhava naquelas páginas. Não era por Thoreau, mas pelas anotações nas margens.
Havia uma nota na página 42:
“Ela riu hoje. Foi um som curto, como uma nota de piano que escapa de uma sala fechada. Eu estava do outro lado da rua, mas o som atravessou o asfalto e me encontrou. Como alguém pode ser tão estrangeira e tão familiar ao mesmo tempo?”
Karine suspirou, encostada na parede fria da cozinha da cafeteria. Ela sentia uma pontada de inveja daquela mulher desconhecida. Quem seria a sortuda que inspirava um homem a escrever com tanta delicadeza?
“Ele deve ser um poeta”, ela pensava. “Ou um homem muito triste e muito apaixonado”.
Ela imaginava o dono do livro — o homem mascarado e misterioso — olhando para essa mulher com a mesma intensidade que ela desejava ser olhada. Ela se sentia pequena, uma estudante brasileira comum, enquanto a mulher das anotações parecia uma entidade mística que caminhava por Seul transformando o cotidiano em arte.
Ela não percebeu a ironia: no dia em que o autor escreveu sobre “limpar as tristezas do mundo”, era ela quem passava o pano na bancada. No dia da “nota de piano”, era ela quem ria das piadas bobas de Ji-a na calçada.
Namjoon voltou à cafeteria na sexta-feira. Desta vez, ele não se escondeu tanto. Estava de óculos, um casaco bege e o cabelo levemente bagunçado, o rosto mais visível. Ele se sentou e esperou.
Karine o viu entrar. O coração dela deu um salto — era o dono do livro. Mas, estranhamente, ela não sentiu vontade de devolver o objeto imediatamente. Ela queria prolongar a conexão.
Ela levou o café até ele. Seus dedos roçaram nos dele ao entregar a xícara. O toque foi como uma faísca.
— Você esqueceu algo na outra noite — ela disse, a voz falhando um pouco.
Namjoon ergueu o olhar. Ele viu a hesitação nela. Viu que ela tinha lido. — Eu esqueci? — ele perguntou, a voz profunda e aveludada, mantendo o jogo. — Minha mente costuma voar para longe quando estou aqui.
— Um livro. Walden. — Karine mordeu o lábio inferior. — Eu… eu li algumas partes. Sinto muito, eu não deveria ter invadido sua privacidade, mas as anotações… elas são lindas.
Namjoon sentiu uma onda de triunfo e vulnerabilidade. — E o que você achou do que leu?
Karine sentiu o rosto esquentar. Ela se inclinou um pouco, baixando o tom de voz para que Woobin não ouvisse. — Eu achei que a mulher sobre quem você escreve é a pessoa mais sortuda de Seul. Você a descreve como se ela fosse o centro de gravidade da cidade. Eu… eu desejei ser um pouco como ela.
Namjoon soltou o ar que nem sabia que estava prendendo. Ele queria rir, queria chorar, queria tirar a máscara e dizer: “Mas é você. Sempre foi você. Desde o tombo na bicicleta, desde o chá de limão, desde o brilho nos olhos no Rio Han.”
Em vez disso, ele inclinou-se para frente, os olhos fixos nos dela com uma intensidade que parecia despir a alma de Karine.
— Talvez você já seja — ele sussurrou. — Talvez ela seja apenas o reflexo do que eu vejo em você.
O mundo ao redor deles desapareceu. O barulho da máquina de café, as conversas dos clientes, o frio lá fora… tudo se tornou estático. Karine sentiu o peso do olhar dele. Parecia o mesmo olhar do “homem do cachorro”, o mesmo mistério do “homem do acidente”. Mas as peças ainda não se encaixavam totalmente em sua mente. Para ela, aquele era apenas um homem brilhante e poético que a via de uma forma que ninguém mais via.
— Karine! Mesa 4 precisa de atenção! — o Sr. Park gritou.
O encanto se quebrou. Karine piscou, voltando à realidade. — Eu… eu preciso trabalhar. Eu trago o livro amanhã?
Namjoon sorriu, as covinhas aparecendo discretamente sob a máscara. — Fique com ele por mais uns dias. Ele parece estar em boas mãos. Gosto de saber que minhas palavras estão descansando perto de você.
Antes que ela pudesse responder, ele se levantou, deixou o dinheiro sobre a mesa e, com um leve aceno de cabeça, saiu.
Karine ficou parada, olhando para a cadeira vazia. Ela levou a mão ao peito, sentindo o ritmo acelerado de seu coração. Ela ainda não sabia que aquele homem era Kim Namjoon, o ídolo mundial. Ela ainda não sabia que ele era o ciclista que a derrubara.
Mas ela sabia de uma coisa: ela estava se apaixonando por uma caligrafia, por um cheiro de sândalo e por um par de olhos que a tratavam como se ela fosse a única habitante de um universo particular.
Naquela noite, ela abriu o livro de novo. Na última página, havia uma anotação fresca, escrita a lápis, provavelmente feita antes de ele “esquecer” o livro:
“Se você estiver lendo isso, saiba que o café é apenas uma desculpa. Eu venho pelo modo como você coloca o cabelo atrás da orelha quando está nervosa. O destino é um círculo, e eu estou cansado de andar em voltas. Da próxima vez, não haverá vidros ou máscaras entre nós.”
Karine fechou os olhos, abraçando o livro contra o peito. Ela desejava, mais do que tudo, que a “próxima vez” fosse agora.
Virou fiscal de café agora? KKK
Nossa, q interessante, Namjoon
Ela n vai se conectar coisa nenhuma
Ainda assim eu o reconheceria pelos olhos ou só pela aura q ele emana
Gente fiquei com inveja kkkkk
“Mas ela sabia de uma coisa: ela estava se apaixonando por uma caligrafia, por um cheiro de sândalo e por um par de olhos que a tratavam como se ela fosse a única habitante de um universo particular. ”
LINDO, LINDO!
“Namjoon sorriu, as covinhas aparecendo discretamente sob a máscara. — Fique com ele por mais uns dias. Ele parece estar em boas mãos. Gosto de saber que minhas palavras estão descansando perto de você. ”
aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa
“Ele deve ser um poeta”, ela pensava. “Ou um homem muito triste e muito apaixonado”.
Ah, que tristeza, poetas são tristes
“Aquilo não era uma anotação de estudo; era um fragmento de alma. ”
Eu saio das fics direto pra terapia, assim fica difícil!
Essas covinhas são minhas perdição
É Nam, objetivo alcançado
Karine sendo meio lesa
Nem foi proposital kk
(≖‿≖ )
Como diria o BTS: “essas covinhas são ilegais”
Nossa que trecho mais lindo “o silêncio é meu único idioma permitido” (。•́‿•̀。)
Oxi kkkkk