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O campus da universidade, que antes parecia um cenário de suporte e risadas, transformou-se em um campo minado de silêncios e desencontros. O sol da manhã brilhava de forma quase ofensiva, iluminando a tensão que agora habitava o trio que todos costumavam chamar de “os inseparáveis”.

Karine acordou antes mesmo do despertador de Jennie tocar. Seus olhos ainda estavam inchados, um lembrete físico do colapso emocional da noite anterior. Ela se vestiu rapidamente, movendo-se como uma sombra para evitar perguntas. Quando Jennie finalmente se sentou na cama, esfregando os olhos, Karine já estava na porta.

— Já vai? — Jennie perguntou, a voz rouca de sono. — O Tae disse que vinha nos buscar para o café às sete.

— Eu tomei café na lanchonete da esquina, Jen. Preciso ir para a biblioteca revisar uns conceitos antes da primeira aula. A gente se vê no bloco C — Karine respondeu, sem olhar diretamente para a amiga, e saiu antes que Jennie pudesse notar o tremor em suas mãos.

Taehyung chegou ao ponto de encontro habitual dez minutos antes do horário, carregando três copos de café térmicos. Ele não havia dormido; o relatório enviado a Namjoon e a imagem de Karine correndo para o dormitório o assombraram a noite toda. Ele precisava falar com ela. Precisava explicar que o silêncio não era falta de amor, mas excesso de medo.

Quando Jennie apareceu sozinha, o coração de Taehyung despencou.

— Cadê ela? — ele perguntou, tentando manter a voz casual, embora seus olhos vasculhassem o pátio freneticamente.

— Foi na frente. Disse que tinha coisas para estudar — Jennie cruzou os braços, observando o amigo. Ela notou a rigidez na postura de Tae e a forma como ele apertava os copos de café. — O que aconteceu entre vocês ontem à noite? A Karine voltou parecendo que tinha perdido a alma, e você está com cara de quem vai desmaiar a qualquer momento.

— Foi só o cansaço do estágio, Jennie. O clima na Kim Global é pesado — ele mentiu, entregando um dos cafés a ela.

— Não minta para mim, Kim Taehyung. Eu conheço os dois. O “clima pesado” não faz a Karine fugir de você como se você fosse um estranho. Vocês brigaram?

— Não brigamos. Só… foi uma noite longa.

Durante as aulas, o afastamento de Karine tornou-se um padrão doloroso. No anfiteatro de Urbanismo, onde os três sempre sentavam na mesma fileira, Karine escolheu uma cadeira isolada no topo da galeria, escondida atrás de um grupo de estudantes de intercâmbio.

Taehyung passou a aula inteira virando o pescoço, tentando encontrar o topo da cabeça dela, mas Karine mantinha o olhar fixo no caderno, desenhando linhas que não faziam sentido arquitetônico algum.

No intervalo, Taehyung tentou interceptá-la no corredor. Ele viu o vulto do terno preto dela dobrando a esquina em direção ao jardim sul. Ele correu, o peito subindo e descendo com a urgência de quem precisa de ar.

— Karine! — ele chamou, quando a alcançou perto da fonte.

Ela parou, mas não se virou. Seus ombros subiram, uma linha defensiva que ele conhecia bem.

— Eu estou atrasada para a monitoria, Tae.

— Você não tem monitoria às terças, Karine. Por que está fugindo? Por favor, vamos conversar sobre ontem…

— Não existe “ontem” — ela disse, finalmente virando-se, e Taehyung recuou diante da frieza no olhar dela. Não era ódio, era uma neutralidade forçada que doía muito mais. — Eu tive um momento de fraqueza porque estava exausta. Eu me desculpei. Agora, eu só quero focar no meu trabalho. Não quero que as coisas fiquem estranhas na empresa.

— Elas já estão estranhas, Karine! Porque você não me deixa falar…

— O Sr. Kim está esperando os resultados hoje — ela o interrompeu, sua voz subindo um tom, atraindo olhares de outros alunos. — E eu não posso falhar de novo. Com licença.

Na hora do almoço, Jennie finalmente perdeu a paciência. Ela encontrou Taehyung sentado sozinho no refeitório, encarando um prato de comida intocado, enquanto Karine havia sumido do campus.

Jennie bateu a bandeja na mesa, sentando-se à frente dele com um olhar inquisidor.

— Ok, chega. Se vocês dois não resolverem essa palhaçada, eu vou pessoalmente ao escritório daquele tal de Kim Namjoon e dizer que ele está destruindo a sanidade dos meus melhores amigos.

— Não faça isso, Jennie. Pelo amor de Deus — Taehyung disse, o pânico surgindo pela primeira vez.

— Então me diga a verdade! Ela confessou, não foi? Eu vi o jeito que ela falou de você antes de ir para aquela maldita entrevista. Ela se declarou e você, por algum motivo estúpido que eu não consigo entender, deu um fora nela.

Taehyung cobriu o rosto com as mãos. O peso do segredo estava se tornando insuportável. Ele queria gritar que a amava mais que a própria vida, mas cada vez que abria a boca, sentia o fantasma de Namjoon puxando a coleira.

— Eu não dei um fora nela, Jen. Eu só… eu não pude responder. Existem coisas acontecendo que você não entende. Coisas que envolvem o futuro dela, a segurança dela na empresa…

— Segurança? Taehyung, olhe para ela! Ela está se afastando de você para não sofrer. Ela acha que o amor dela é um fardo para você. Se você não fizer algo agora, você não vai apenas perder a namorada que nunca teve, você vai perder a amiga que sempre teve.

Taehyung levantou o olhar, e Jennie viu o brilho das lágrimas que ele estava segurando.

— Eu já a perdi, Jennie. No momento em que aceitei aquele emprego, eu já a tinha perdido.

Karine, enquanto isso, já estava no metrô a caminho da Kim Global. Ela olhava para o próprio reflexo no vidro escuro do vagão. Ela se sentia oca. Afastar-se de Taehyung era como amputar um membro para salvar o resto do corpo, mas a dor da cirurgia era constante.

Ela apertou a pasta contra o peito, preparando-se para entrar novamente no prédio de vidro. Se ela não podia ter o amor de Taehyung, ela teria a aprovação de Namjoon. Pelo menos o ódio do CEO era algo que ela sabia como processar. O silêncio de Taehyung, por outro lado, era um labirinto onde ela não queria mais se perder.

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