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Índice do Capítulo

Brasil, 2012

O céu de São Paulo naquela tarde de outono não era apenas laranja; era uma ferida aberta em tons de coral e cobre, sangrando sobre o horizonte de prédios cinzentos. Eu atravessei o portão de casa com o peso do mundo dentro da mochila escolar. Os dias no ensino médio haviam se tornado uma repetição monocromática de fórmulas que eu não entendia e expectativas que eu não queria cumprir.

Joguei-me na cama, sentindo o cheiro de amaciante nos lençóis, mas meu foco estava em outro lugar. Meu coração já ditava um ritmo frenético, antecipando o único brilho de cor na minha rotina: o FaceTalk.

O aplicativo era uma novidade absoluta, uma promessa mágica em uma era onde o mundo ainda parecia vasto e desconectado. “Converse com o mundo inteiro!”, dizia o anúncio que saltou na minha tela dias antes. Sem hesitar, eu me cadastrei. Mal sabia eu que aquele ícone simples no meu celular seria o portal para a maior jornada da minha vida.

No início, as interações eram superficiais. Trocas rápidas de cortesia em um inglês quebrado, o “hi” e o “how are you?” que ecoavam por fusos horários distantes. Mas, como se o destino estivesse ajustando as frequências de um rádio antigo, eu encontrei um grupo especial. Um refúgio digital onde jovens de Angola, Portugal, Estados Unidos e Japão se reuniam para fugir de suas próprias realidades.

E então, em uma terça-feira comum, a notificação que mudaria minha gravidade apareceu:

[JK entrou no grupo]

JK: Hi, I’m Jungkook. From Korea.

Eu sorri para a luz azul da tela. Um garoto da Coreia do Sul. Naquela época, o país parecia um planeta distante, um lugar de templos antigos e luzes de neon que eu só via em documentários.

Eu: Hi Jungkook! Welcome to the group!

JK: Hi! Thank you. Nice to meet you!

Ele explicou, entre risos virtuais, que tinha 13 anos — ou 14, dependendo da tradição coreana que contava a idade desde o útero. Eu tinha 15. No papel, dois anos. Na prática, a diferença era inexistente. Nossas almas falavam a mesma língua de solidão e curiosidade.

Nossas conversas tornaram-se o meu oxigênio. Falávamos sobre a pressão das provas, as músicas que nos faziam querer dançar sozinhos no quarto e as comidas que nossas mães preparavam. O inglês dele era hesitante, cheio de frases que pareciam peças de um quebra-cabeça que eu adorava montar.

Enviada [JK]: Hoje eu como… como é que se diz? Sopa de frango? Muito boa! ​​Mamãe fez!

Recebida [Eu]: Parece delicioso! Mande uma foto na próxima vez!

Enviada [JK]: Não da para mandar foto aqui 😭 Apenas palavras…

Era a grande ironia do FaceTalk. Vivíamos em um mundo de textos, sem rostos, sem evidências físicas. Éramos apenas palavras flutuando no éter. Eu desenhava o sorriso dele em minha mente, imaginando o brilho de seus olhos toda vez que ele digitava sobre seus sonhos de ser cantor.

Enviada [JK]: Você gosta de estrelas?

Recebida [Eu]: Sim, sou apaixonada. Sinto que elas entendem o que é estar longe.

Enviada [JK]: Eu também. Algum dia, poderíamos olhar para elas juntos, no mesmo lugar.

Aquelas palavras não eram apenas texto; eram promessas sussurradas através de cabos de fibra ótica. Era um segredo guardado em uma caixa de veludo dentro do meu peito.

O tempo é um escultor cruel. Meu celular, um aparelho antigo com a tela já marcada por rachaduras que pareciam teias de aranha, começou a morrer. As mensagens de Jungkook travavam. O aplicativo fechava abruptamente, como se estivesse tentando me expulsar.

Até que, em uma manhã fria, o silêncio se tornou definitivo. O aplicativo não abria mais.

Desesperei-me. Tentei apagar arquivos, reiniciar o sistema, rezei para deuses em que eu nem acreditava. Mas o hardware era fraco demais para o progresso. Chorei em silêncio sob o cobertor, sentindo um luto absurdo. Eu não havia perdido apenas um aplicativo; eu havia perdido o fio que me ligava ao outro lado do mundo.

Meses depois, quando finalmente tive um telefone novo, minhas mãos tremiam ao baixar o FaceTalk. Mas o mundo que eu conhecia havia desaparecido. A interface era fria, corporativa, moderna. Os grupos antigos foram deletados em uma atualização de servidor.

Procurei por “Jungkook”. “JK”. “Kookie”. Nada. O vazio digital era absoluto. Era como se ele nunca tivesse existido, como se os nossos meses de conversas tivessem sido um delírio febril da minha adolescência.

O Encontro Silencioso (Anos Depois)

A vida seguiu seu curso impiedoso. Estudei, trabalhei, namorei pessoas que nunca entenderam por que eu às vezes olhava para as estrelas com tanta nostalgia. Guardei a memória de Jungkook em uma gaveta trancada da mente.

Certo dia, navegando sem rumo, um vídeo interrompeu minha apatia.

Fiquei hipnotizada. Havia um garoto no vídeo, radiante, abraçando uma mulher com uma ternura que transbordava da tela. Eu assisti aquele vídeo dezenas de vezes, sentindo um calor estranho no peito. Eu desejava aquele tipo de amor, aquele abraço protetor. O que eu não sabia — e o destino adorava suas ironias — era que a mulher não era uma namorada, mas a mãe dele. E o garoto… bem, ele já estava começando a mudar o mundo.

Naquela mesma semana, uma foto de um jovem com uma camiseta branca e um boné vermelho, ao lado de uma boneca da Lisa Simpson, cruzou meu feed.

Eu olhei para a imagem por alguns segundos. “Bonitinho”, pensei. E arrastei para cima. Afinal, era só mais um garoto coreano na internet. Eu não percebi que estava olhando para a versão adulta da voz que me consolava em 2012.

(2014 a 2018)

O nome “BTS” começou a infiltrar-se no tecido da sociedade. Minhas amigas falavam sobre eles, os noticiários mencionavam recordes quebrados. Eu me mantive firme em minha bolha. “Apenas um grupo de meninos coreanos”, eu dizia. “Não é para mim”. Eu estava ocupada demais tentando sobreviver à vida adulta para me deixar levar por um fenômeno pop.

(2019)

A resistência caiu em uma tarde chuvosa. O algoritmo do TikTok, agindo como um cupido tecnológico, me entregou um vídeo de um show.

Eram eles. Jovens, vibrantes, cheios de uma alegria que parecia desafiar a física. Um deles jogou água na cabeça do outro, rindo com uma espontaneidade que me desarmou. A perseguição infantil no palco, as risadas captadas pelos microfones… aquilo era real.

Comecei a pesquisar. Música após música. Letra após letra. Eu descobri que eles não eram apenas “idols”; eles eram poetas do asfalto, cantando sobre dores que eu sentia, mas não sabia nomear. E havia ele. O “Golden Maknae”. Jungkook.

Eu ri, uma risada amarga e doce ao mesmo tempo. “O mesmo nome…”, sussurrei. Obviamente, era uma coincidência estatística. Mas o jeito que ele inclinava a cabeça ao sorrir, a intensidade de seus olhos quando falava de seus sonhos… uma ressonância antiga começou a vibrar no meu peito. Sem perceber, eu me tornei ARMY. Eu me entreguei ao universo roxo.

Um tempo depois..

Com o anúncio do alistamento militar, o medo da ausência me fez mergulhar no passado deles. Eu precisava de cada fragmento de Jungkook que pudesse encontrar. Em uma madrugada de insônia, o YouTube me sugeriu uma entrevista de 2015. A imagem era granulada, o áudio tinha o eco de um estúdio pequ

O entrevistador perguntou sobre amizades antigas. Jungkook baixou o olhar, o rosto ainda com traços de menino, e começou a falar.

— Sim… tinha uma garota. — Ele sorriu, e meu coração parou de bater por um segundo. — Eu conversava muito com ela num aplicativo… era divertido, a gente ria muito. Eu não sabia como ela era, porque o aplicativo não deixava mandar fotos. Então… eu desenhei ela, do jeito que eu imaginava. Ainda guardo esse desenho.

Ele coçou a nuca, tímido.

— Eu desenhei para não esquecer. Às vezes penso se ela ainda lembra de mim…

O celular escorregou das minhas mãos, caindo sobre as cobertas. O quarto parecia ter ficado sem oxigênio. As lágrimas vieram antes que eu pudesse processar a dor. Não era uma coincidência. Nunca foi. O menino que me ensinou a olhar para as estrelas em 2012 era o homem que agora iluminava o mundo inteiro.

— Eu lembrei de você o tempo todo… — solucei para as paredes vazias.

A realidade era dura. Jungkook estava indo para o exército. O mundo ficaria mais silencioso por dezoito meses. Minha vida pessoal estava um caos: o trabalho era instável, as contas acumulavam e o sonho de ir para a Coreia parecia uma piada cruel de uma versão mais jovem de mim mesma.

Naquela noite, eu estava pronta para desistir. Apagar os planos, vender os livros de coreano, aceitar a mediocridade. Então, a notificação brilhou: [🔴 LIVE – Jungkook].

Ele estava lá. De touca preta, exausto, mas com o mesmo olhar que atravessava telas e décadas.

— Olá… faz tempo, né? Eu senti muita falta de vocês. — Ele olhou fundo para a câmera, como se estivesse me vendo através de todos os filtros. — Eu queria mostrar meu rosto hoje porque… quero que saibam que eu estou aqui. Que não esqueceram da gente. Não desistam. Mesmo que o caminho pareça impossível.

Eu desabei no chão do quarto. Chorei por cada mensagem perdida em 2013, por cada quilômetro que nos separava, pela minha própria fraqueza. Mas quando as lágrimas secaram, algo restou. Uma faísca.

Levantei-me e liguei o computador. A luz branca da planilha Excel era o meu novo campo de batalha. Comecei a digitar: cursos, bolsas, trabalhos extras, vistos.

Eu não sabia se um dia ele veria meu rosto ou se ele saberia que eu era aquela garota. Mas eu sabia que ele estava esperando, em algum lugar sob as mesmas estrelas. E eu não iria deixá-lo esperando para sempre.

Pelo menino do aplicativo. Por mim mesma. A jornada estava apenas começando.

14 Comentários

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  1. Marcela
    Feb 23, '26 at 3:42 pm

    [quote]Comecei a pesquisar. Música após música. Letra após letra. Eu descobri que eles não eram apenas “idols”; eles eram poetas do asfalto, cantando sobre dores que eu sentia, mas não sabia nomear. E havia ele. O “Golden Maknae”. Jungkook.

    O golpe tá aí kkkkk
    A demora é começar a pesquisar

  2. Marcela
    Feb 23, '26 at 3:46 pm

    [quote]— Sim… tinha uma garota. — Ele sorriu, e meu coração parou de bater por um segundo. — Eu conversava muito com ela num aplicativo… era divertido, a gente ria muito. Eu não sabia como ela era, porque o aplicativo não deixava mandar fotos. Então… eu desenhei ela, do jeito que
    eu imaginava. Ainda guardo esse desenho.

    Ele guardou o desenhooo
    Que fofinho

    1. Luana
      @MarcelaMar 1, '26 at 6:58 pm

      Fofo de mais ele

  3. Marcela
    Feb 23, '26 at 4:31 pm

    [quote]Eu não sabia se um dia ele veria meu rosto ou se ele saberia que eu era aquela garota. Mas eu sabia que ele estava esperando, em algum lugar. E eu não iria deixá-lo esperando para sempre.

    Ela vai tentar a sorte

  4. Iasmine
    Feb 24, '26 at 12:54 am

    Desesperei-me. Tentei apagar arquivos, reiniciar o sistema, rezei para deuses em que eu nem acreditava. Mas o hardware era fraco demais para o progresso. Chorei em silêncio sob o cobertor, sentindo um luto absurdo. Eu não havia perdido apenas um aplicativo; eu havia perdido o fio que me ligava ao outro lado do mundo.

    Quem nunca passou por essa humilhação kkkkkk é tristeee

    1. Luana
      @IasmineMar 1, '26 at 6:59 pm

      Humilhação .com. Br

  5. Iasmine
    Feb 24, '26 at 12:57 am

    A resistência caiu em uma tarde chuvosa. O algoritmo do TikTok, agindo como um cupido tecnológico, me entregou um vídeo de um show.

    Eu mesma virei fã pq minha irmã disse que não era pra ouvir bts kkkkkkk e eu fui la e virei army

    1. SNdoNamjoon(YrysV)♡
      @IasmineMar 31, '26 at 3:53 am

      Naquela mesma semana, uma foto de um jovem com uma camiseta branca e um boné vermelho, ao lado de uma boneca da Lisa Simpson, cruzou meu feed.

      Peguei na planta qd só tinha olho e bochecha

  6. Iasmine
    Feb 24, '26 at 12:58 am

    Levantei-me e liguei o computador. A luz branca da planilha Excel era o meu novo campo de batalha. Comecei a digitar: cursos, bolsas, trabalhos extras, vistos.

    Agora ela ta determinada a fazer acontecer esse encontro

  7. Sheila
    Feb 28, '26 at 8:16 pm

    Que belezinha de fic… comecei amando!!!

  8. SNdoNamjoon(YrysV)♡
    Mar 31, '26 at 3:51 am

    No início, as interações eram superficiais. Trocas rápidas de cortesia em um inglês quebrado, o “hi” e o “how are you?” que ecoavam por fusos horários distantes. Mas, como se o destino estivesse ajustando as frequências de um rádio antigo, eu encontrei um grupo especial. Um refúgio digital onde jovens de Angola, Portugal, Estados Unidos e Japão se reuniam para fugir de suas próprias realidades.

    Lembrei do tempo em q conhecia um monte de doido na Internet, q nostalgia kkk

  9. SNdoNamjoon(YrysV)♡
    Mar 31, '26 at 3:52 am

    Ele explicou, entre risos virtuais, que tinha 13 anos — ou 14, dependendo da tradição coreana que contava a idade desde o útero. Eu tinha 15. No papel, dois anos. Na prática, a diferença era inexistente. Nossas almas falavam a mesma língua de solidão e curiosidade.

    Eu mais velha q o Junkú??N gostei

  10. SNdoNamjoon(YrysV)♡
    Mar 31, '26 at 3:53 am

    Naquela mesma semana, uma foto de um jovem com uma camiseta branca e um boné vermelho, ao lado de uma boneca da Lisa Simpson, cruzou meu feed.

    Peguei na planta qd só tinha olho e bochecha

  11. SNdoNamjoon(YrysV)♡
    Mar 31, '26 at 3:54 am

    A resistência caiu em uma tarde chuvosa. O algoritmo do TikTok, agindo como um cupido tecnológico, me entregou um vídeo de um show.

    Q q vídeo…

Nota

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