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Índice do Capítulo

Nos dias que seguiram aquela live, SN não era mais a mesma. Algo havia sofrido uma combustão espontânea dentro de seu peito: uma mistura de vontade, urgência e uma sede de vida que ela julgava ter perdido entre as contas de luz atrasadas e o calor sufocante da Baixada. Era como se tivesse acordado de um longo e anestesiado sono. O rosto de Jungkook naquela transmissão, filtrado pela luz azul do celular, ficou gravado em sua retina como um lembrete constante de que o mundo era vasto demais para ela se permitir morrer em vida dentro de um quarto em Belford Roxo. Não era apenas por ele; era, finalmente, por si mesma. Ela merecia viver aquele sonho.

A decisão de registrar a jornada veio como um instinto de sobrevivência. SN sentia que, se não transformasse sua dor em narrativa, ela seria consumida por ela. Pegou o celular antigo, aquele com a câmera que já não focava tão bem, e respirou fundo antes de apertar o botão vermelho. Estava em casa, o corpo moído após um dia inteiro de trabalho e o trajeto exaustivo no trem da SuperVia, mas seus olhos, pela primeira vez em anos, brilhavam com uma luz que não vinha da tela.

— Eu não sei quem vai ver isso… — começou ela, a voz um pouco trêmula, mas firme no propósito. — Mas esse é o começo da minha batalha. Meu sonho é ir para a Coreia. Não para encontrar ninguém… mas para reencontrar a mim mesma. Eu não tenho dinheiro, não tenho apoio… mas eu tenho vontade. Então, se você também tem um sonho e não sabe por onde começar, vem comigo.

Ela postou o vídeo no TikTok e bloqueou o celular. O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelo som do ventilador velho tentando espantar o abafamento da noite fluminense. Ela não esperava nada, mas o universo já estava em movimento.

Enquanto o algoritmo começava a distribuir seu vídeo discretamente pela internet, SN já estava na cozinha apertada, onde o calor do fogão competia com o mormaço da rua. A luz amarelada da lâmpada de teto revelava o cansaço em seu rosto enquanto ela preparava marmitas fit. Era um balé solitário de frango grelhado, batata-doce no vapor, arroz integral e legumes coloridos. Ela preparava cada porção com uma precisão cirúrgica, etiquetando os potes com mensagens de incentivo, antes de guardá-los nas sacolas térmicas para que o entregador do iFood pudesse retirá-los.

Sua vida era um ciclo de três turnos que desafiava a biologia. Durante o dia, o escritório no Centro do Rio consumia sua energia vital entre planilhas e telefonemas. À noite, a cozinha de casa transformava-se em sua pequena empresa. De madrugada, quando o silêncio finalmente reinava em Belford Roxo, ela se tornava editora de vídeos e criadora de conteúdo. Nos fins de semana, não havia descanso; ela percorria feiras e grupos online atrás de produtos para revender: cosméticos coreanos, bijuterias delicadas e itens de papelaria fofa que compunham o cenário de seus sonhos. Vendia pelo Instagram, pela Shopee e até para as vizinhas, que a olhavam com uma mistura de admiração e estranheza.

Dormia pouco, muitas vezes apenas três horas por noite. Comia em pé, entre uma entrega e outra. Chorava sozinha no banheiro do trabalho, trancada na última cabine, deixando as lágrimas lavarem a exaustão antes de recompor o rosto com um pouco de pó e voltar para a mesa. Mas nunca, nem por um segundo, pensou em parar.

Em menos de uma semana, o primeiro vídeo bateu mil visualizações. Depois, dez mil. Notificações começaram a pipocar como faíscas.

@Lari_Army: Você me inspirou! Tô com você nessa!

@Bia_Coreia: Também quero ir pra Coreia, tô juntando dinheiro!

@AnaPaula: Não para, por favor! A gente precisa ver seu final feliz.

SN lia cada comentário com o coração acelerado. Havia pessoas assistindo; pessoas que, assim como ela, sentiam-se presas em realidades cinzentas e buscavam em sua jornada uma prova de que a cor era possível. Ela passou a gravar com mais frequência, mostrando a “realidade real”: os bastidores suados das marmitas, as noites em claro, os boletos vencendo no limite do prazo e o coração teimoso que insistia em bater forte.

Em cinco meses, ela já tinha 25 mil seguidores. A maioria era ARMY, mas muitos eram apenas sonhadores solitários que encontraram na sinceridade crua de SN um porto seguro.

No entanto, a vida em Belford Roxo não permitia um conto de fadas linear. A família de SN era um caos de instabilidade emocional. Seus pais viviam em conflitos constantes, e a irmã mais nova exigia uma atenção que drenava o pouco que sobrava de SN. Os problemas financeiros da casa sempre acabavam respingando nela. Mais de uma vez, o dinheiro guardado no pote de vidro para o intercâmbio teve que ser sacrificado para colocar comida na mesa ou pagar uma conta de luz prestes a ser cortada.

Teve um mês particularmente sombrio em que o desespero quase venceu. Tudo parecia desmoronar ao mesmo tempo: a geladeira quebrou, a mãe teve uma crise de ansiedade profunda e o cansaço físico tornou-se uma dor insuportável nos ossos.

Ela gravou um vídeo com os olhos inchados, a voz quebrada pela derrota. — Eu não vou conseguir — disse ela, olhando para a lente como se pedisse desculpas. — Nunca vai ser o momento certo. Sempre vai ter algo para me puxar para baixo…

Mas a internet, que tantas vezes é um lugar de ódio, transformou-se em um abraço coletivo.

@ComunidadeARMY: Chora hoje, mas amanhã levanta.

@MariaSonhadora: Você não tá sozinha.

@Hope_World: A Coreia te espera!

Ela limpava o rosto com a manga da blusa, respirava o ar quente da noite e continuava.

Seis meses depois da decisão inicial, o impossível começou a tomar forma. O dinheiro das passagens estava garantido, guardado em uma conta separada que ela jurara não tocar nem sob tortura. Ela conseguira uma bolsa parcial para estudar coreano em Seul e, por meio de um seguidor, um contato para uma moradia barata.

Foi em uma live despretensiosa que o destino lhe apresentou Ana.

COMENTÁRIO DA LIVE: Ana_Rio: Eu também tô juntando pra ir! Pretendo ir no segundo semestre do ano que vem. Tô morando no Rio também.

— Sério, Ana? — SN perguntou, os olhos brilhando na tela. — Onde no Rio?

Ana_Rio: Zona Norte, pertinho da Penha.

SN riu alto, uma gargalhada genuína. — Menina… Eu tô em Bonsucesso agora no trabalho, mas moro em Belford Roxo! A gente é praticamente vizinha!

A amizade foi imediata. Ambas eram ARMYs de longa data, ambas vendiam algo para sobreviver — Ana fazia bolo no pote — e ambas tinham famílias que testavam seus limites diariamente. O primeiro encontro aconteceu no Parque Madureira, um território neutro onde o sol escaldante não foi páreo para a empolgação das duas. Entre uma garrafinha de água e outra, elas desenharam o futuro.

Tornaram-se as “Brasileiras da Coreia” para os seguidores. Ana era o apoio quando SN caía; SN era a motivação quando Ana pensava em desistir.

— Um dia a gente vai gravar esse vídeo direto de Seul. Anota aí — prometeu SN, apontando para a câmera. — De hanbok, na frente do palácio — completou Ana, rindo.

Quando tudo parecia estável, o trovão silencioso atingiu a casa em Belford Roxo. A separação dos pais aconteceu sem alardes ou brigas cinematográficas; o pai simplesmente arrumou uma mala e partiu, deixando para trás um rastro de contas e uma mãe em estado catatônico. SN tornou-se, da noite para o dia, o único pilar de sustentação.

Para piorar, o corte de funcionários em seu emprego fixo a atingiu como uma lâmina fria. “Decisão difícil”, disseram os chefes. Ela voltou para casa a pé, economizando o dinheiro da passagem do ônibus. O céu estava nublado, refletindo o estado de sua alma.

Ela entrou no quarto e desabou no chão. As lágrimas escorriam resignadas. Naquela noite, tomou um banho morno, deixando a água levar o cheiro do fracasso, e dormiu com a toalha nos ombros, exausta demais para se secar.

No dia seguinte, o piloto automático a acordou. Ela abriu o TikTok sem pensar, e foi então que o algoritmo lhe entregou o milagre. Era um vídeo curto, de baixa qualidade, mostrando um ambiente militar. Um soldado fazia uma mágica boba com uma bituca de cigarro enquanto os amigos riam.

Mas a risada… SN paralisou. Ela conhecia aquele som. Conhecia o jeito como as mãos se moviam e o estalar dos dedos.

Era ele. Jungkook.

Naquela risada livre e quase infantil, SN reencontrou sua própria vontade de lutar. Ele não era o combustível, mas era a chama que reacendia o motor. Ela chorou, mas de esperança.

Naquela mesma noite, SN reorganizou suas planilhas com uma caneta vermelha. Desistir agora seria um insulto a tudo o que ela já havia suportado. Ela começou a fazer freelas de design gráfico, aprendendo tudo no YouTube, e viu seu TikTok crescer ainda mais ao compartilhar sua vulnerabilidade.

Após um ano e três meses de batalhas diárias entre Belford Roxo e seus sonhos, ela tinha novamente uma reserva sólida. Ela olhou para o papel colado na parede do quarto:

“Não é sobre encontrar alguém. É sobre não se perder de si mesma.”

Faltava um ano para ele sair do exército. Ela não esperava por uma resposta dele no Weverse; ela esperava por si mesma, forte e resiliente, pronta para embarcar no voo que a levaria para longe da dor, mas para perto de sua essência.

A guerra continuava, mas SN finalmente estava vencendo as batalhas.

15 Comentários

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  1. Marcela
    Feb 23, '26 at 5:15 pm

    [quote]Sua vida era um ciclo de três turnos que desafiava a biologia. Durante o dia, o escritório no Centro do Rio consumia sua energia vital entre planilhas e telefonemas. À noite, a cozinha de casa transformava-se em sua pequena empresa. De madrugada, quando o silêncio finalmente reinava em Belford Roxo, ela se tornava editora de vídeos e criadora de conteúdo. Nos fins de semana, não havia descanso; ela percorria feiras e grupos online atrás de produtos para revender: cosméticos coreanos, bijuterias delicadas e itens de papelaria fofa que compunham o cenário de seus sonhos. Vendia pelo Instagram, pela Shopee e até para as vizinhas, que a olhavam com uma mistura de admiração e estranheza.

    A coitada se virando nos 30

  2. Marcela
    Feb 23, '26 at 5:51 pm

    [quote]— Um dia a gente vai gravar esse vídeo direto de Seul. Anota aí — prometeu SN, apontando para a câmera. — De hanbok, na frente do palácio — completou Ana, rindo.

    Me leva, queria ir também kkkkk

    1. Luana
      @MarcelaMar 1, '26 at 7:00 pm

      Ai quem me dera kkk

  3. Marcela
    Feb 23, '26 at 5:57 pm

    [quote]Para piorar, o corte de funcionários em seu emprego fixo a atingiu como uma lâmina fria. “Decisão difícil”, disseram os chefes. Ela voltou para casa a pé, economizando o dinheiro da passagem do ônibus. O céu estava nublado, refletindo o estado de sua alma.

    Tudo de uma só vez
    Coitada

  4. Iasmine
    Feb 24, '26 at 8:39 pm

    — Eu não sei quem vai ver isso… — começou ela, a voz um pouco trêmula, mas firme no propósito. — Mas esse é o começo da minha batalha. Meu sonho é ir para a Coreia. Não para encontrar ninguém… mas para reencontrar a mim mesma. Eu não tenho dinheiro, não tenho apoio… mas eu tenho vontade. Então, se você também tem um sonho e não sabe por onde começar, vem comigo.

    Meu sonho tbm mana, mas não pra morar

  5. Iasmine
    Feb 24, '26 at 8:40 pm

    Naquela risada livre e quase infantil, SN reencontrou sua própria vontade de lutar. Ele não era o combustível, mas era a chama que reacendia o motor. Ela chorou, mas de esperança.

    Acho tão lindo, todas ja passaram por isso, de ta prestes a desistir e eles aparecem

  6. Iasmine
    Feb 24, '26 at 8:41 pm

    Faltava um ano para ele sair do exército. Ela não esperava por uma resposta dele no Weverse; ela esperava por si mesma, forte e resiliente, pronta para embarcar no voo que a levaria para longe da dor, mas para perto de sua essência.

    Essa aí é guerreira meteu as caras

  7. Sheila
    Feb 28, '26 at 8:34 pm

    Naquela risada livre e quase infantil, SN reencontrou sua própria vontade de lutar. Ele não era o combustível, mas era a chama que reacendia o motor. Ela chorou, mas de esperança.

    Jk sempre será nosso combustível de esperança!!! Vai dar tudo certo!!!

  8. Sheila
    Feb 28, '26 at 8:35 pm

    Naquela risada livre e quase infantil, SN reencontrou sua própria vontade de lutar. Ele não era o combustível, mas era a chama que reacendia o motor. Ela chorou, mas de esperança.

    Jk sendo Jk … ajudando aos Armys sem nem perceber!!! Orgulho desse homem!!!

  9. Sheila
    Feb 28, '26 at 8:36 pm

    A guerra continuava, mas SN finalmente estava vencendo as batalhas.

    Vc irá conseguir!!! A sua inspiração é sem dúvida surreal… Jk!!!

    1. Luana
      @SheilaMar 1, '26 at 7:03 pm

      Não tenho dúvidas ele é d+

  10. SNdoNamjoon(YrysV)♡
    Mar 31, '26 at 3:56 am

    Nos dias que seguiram aquela live, SN não era mais a mesma. Algo havia sofrido uma combustão espontânea dentro de seu peito: uma mistura de vontade, urgência e uma sede de vida que ela julgava ter perdido entre as contas de luz atrasadas e o calor sufocante da Baixada. Era como se tivesse acordado de um longo e anestesiado sono. O rosto de Jungkook naquela transmissão, filtrado pela luz azul do celular, ficou gravado em sua retina como um lembrete constante de que o mundo era vasto demais para ela se permitir morrer em vida dentro de um quarto em Belford Roxo. Não era apenas por ele; era, finalmente, por si mesma. Ela merecia viver aquele sonho.

    Às vezes me pergunto se vou morrer aq sem ver tds os lugares q sonho conhecer, parou q isso aí foi gatilho

  11. SNdoNamjoon(YrysV)♡
    Mar 31, '26 at 3:57 am

    Seis meses depois da decisão inicial, o impossível começou a tomar forma. O dinheiro das passagens estava garantido, guardado em uma conta separada que ela jurara não tocar nem sob tortura. Ela conseguira uma bolsa parcial para estudar coreano em Seul e, por meio de um seguidor, um contato para uma moradia barata.

    Queria ser determinada assim

  12. SNdoNamjoon(YrysV)♡
    Mar 31, '26 at 3:59 am

    No entanto, a vida em Belford Roxo não permitia um conto de fadas linear. A família de SN era um caos de instabilidade emocional. Seus pais viviam em conflitos constantes, e a irmã mais nova exigia uma atenção que drenava o pouco que sobrava de SN. Os problemas financeiros da casa sempre acabavam respingando nela. Mais de uma vez, o dinheiro guardado no pote de vidro para o intercâmbio teve que ser sacrificado para colocar comida na mesa ou pagar uma conta de luz prestes a ser cortada.

    E difícil, viu? A realidade do pobre q sonha.Na maioria das vezes a realidade cai em cima igual uma pilha de destroços :”(

  13. SNdoNamjoon(YrysV)♡
    Mar 31, '26 at 4:00 am

    A guerra continuava, mas SN finalmente estava vencendo as batalhas.

    Poxa, já era hr

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