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Índice do Capítulo

O embarque para o outro lado do mundo não era apenas uma transição geográfica; era um rito de passagem que desafiava a lógica da realidade que SN conhecia. Sabe aquele momento que a gente só acredita quando o corpo atravessa o portão de embarque e o som metálico da esteira rolando as malas parece ditar o ritmo de um coração que bate rápido demais? SN e Ana estavam ali, imersas nesse transe. As mochilas, pesadas com o pouco que restara de suas vidas no Brasil, estavam apertadas contra o peito como escudos. Os passaportes, documentos que custaram meses de privação, estavam presos em mãos suadas. Elas se encaravam com os olhos marejados, uma pergunta silenciosa pairando no ar: Isso está mesmo acontecendo?

Ana apertou o braço de SN com uma força que beirava a dor, como se precisasse de uma âncora física. — A gente tá indo pra Coreia, SN! — disse Ana, a voz embargada pelo choro que ameaçava transbordar. — Eu sei… — SN respondeu, mas o som saiu como um sopro, um sussurro que mal vencia o barulho do aeroporto. O peito dela doía de tão apertado, uma pressão que misturava pânico e uma alegria quase insuportável. — Eu sei.

O Aeroporto Internacional do Galeão era um universo à parte naquela noite. Um microcosmos de humanidade em movimento: anúncios ecoando em alto-falantes, rodas de despedida onde o abraço parecia querer fundir dois corpos, crianças agarradas a pelúcias, casais em prantos e famílias inteiras divididas entre o orgulho e a saudade. Mas para SN e Ana, o mundo havia se reduzido a um único ponto de convergência. O destino impresso no cartão de embarque reluzia sob as luzes fluorescentes: Incheon International Airport – Seul.

Horas depois, já devidamente acomodadas no ventre de metal do avião, SN não conseguia parar de registrar cada detalhe. O celular, sua ferramenta de batalha durante todo o ano anterior, agora capturava imagens da asa do avião e da pista lá embaixo. Até o asfalto do aeroporto parecia imbuído de uma magia nova. Ana, tentando disfarçar o nervosismo com humor, puxou SN para uma selfie. Ambas tinham os olhos inchados e sorrisos tortos, o retrato perfeito da exaustão vitoriosa.

— Se essa foto sair tremida, a culpa é da minha mão que não para de tremer! — Ana riu, um som nervoso que preencheu o espaço entre os assentos. SN encostou a cabeça no ombro da amiga, sentindo o tecido do moletom e o cheiro de sabão em pó. — Eu tô com medo, sabia? — confessou SN em um momento de vulnerabilidade absoluta. — E se não der certo? E se tudo o que eu planejei lá em Belford Roxo desmoronar assim que a gente pousar?

Ana não hesitou. Ela se virou para SN com a determinação de quem já tinha passado pelo inferno e sobrevivido. — A gente fez dar certo até aqui, SN. Contra tudo e contra todos. E a gente não veio sozinha. A gente tem uma à outra.

O avião decolou. A sensação de ser pressionada contra o assento enquanto a turbina rugia foi o ponto final de sua vida antiga. As luzes do Rio de Janeiro foram se tornando minúsculas, pontos de luz que logo desapareceram sob o tapete de nuvens. SN sentiu as lágrimas quentes escorrerem livremente. O barulho constante dos motores parecia uma canção de ninar que dizia: Você conseguiu. Você atravessou o abismo.

O pouso em Incheon foi acompanhado por um silêncio reverencial. Quando os pneus tocaram o solo coreano, SN e Ana se entreolharam, divididas entre o riso histérico e o choro profundo. Quando as portas se abriram, o ar de março — cortante, seco e gelado — atingiu o rosto de SN. Era o oposto do mormaço úmido da Baixada Fluminense.

— A gente tá aqui mesmo… — SN murmurou, os pés hesitando antes de cruzar o limite da aeronave. — Ana, a gente tá aqui. Ana segurou sua mão com firmeza. — Vem. Vamos viver o que a gente plantou.

Elas caminharam pelos corredores imensos e impecáveis do aeroporto como crianças no primeiro dia de aula. SN filmava tudo: os letreiros elegantes em hangul, o chão que brilhava como um espelho, a primeira placa de boas-vindas: 안녕하세요, 환영합니다! (Olá, bem-vindos!). Cada passo era uma confirmação.

Pegaram as malas, ativaram os chips coreanos e seguiram para o ônibus. Durante o trajeto, a paisagem urbana de Seul passava como um filme de alta definição. — Meu Deus, olha isso! Gangnam! — Ana gritava, apontando para os prédios espelhados. — Aquele é o Rio Han? É ele? — SN quase se colava à janela, o coração disparado ao reconhecer os cenários que antes só via por uma tela de 6 polegadas. — SN, se a gente vir um idol na rua, eu acho que desmaio. — Se você desmaiar, eu desmaio junto!

O apartamento era minúsculo, mas para elas, era um palácio. Um goshiwon compartilhado em Hongdae, com quatro camas, uma cozinha onde duas pessoas mal podiam se mexer e uma mesa central com cadeiras coloridas que pareciam saídas de um dorama. As outras moradoras, Yumi e Clara, já as esperavam com câmeras ligadas e sorrisos abertos.

Abraços, gritos de euforia e pulos de alegria preencheram o espaço pequeno. Quando SN viu sua cama, com uma colcha lilás estendida, a realidade finalmente a atingiu. Ela caiu de joelhos ao lado da mala, o corpo cedendo ao peso da vitória. — Eu pensei que nunca ia chegar aqui… — soluçou ela. Ana já estava em prantos ao seu lado. Clara entregou lenços de papel, emocionada com a intensidade daquelas duas brasileiras. — Amiga, você chegou. Você venceu a distância e a dor.

Ainda sob o efeito da adrenalina, as quatro saíram para explorar Hongdae ao entardecer. O céu estava tingido de laranja e rosa, e as luzes de neon começavam a piscar. O cheiro de comida de rua — o picante do tteokbokki, o doce do bungeoppang — misturava-se à música alta que saía das lojas de cosméticos e cafés temáticos.

— Olha aquele café de coelho! — Gente, tem um grupo de busking dançando na praça! Grava, SN!

SN filmava cada fragmento daquela magia. Elas dançaram, comeram, riram até perder o fôlego e tiraram fotos sob as árvores cujas flores brancas começavam a brotar. — Essa cidade é mágica… — sussurrou SN, sentindo-se, pela primeira vez, pertencente a algum lugar. — A gente merece cada segundo disso — Ana respondeu, segurando sua mão com um carinho de irmã.

À noite, no apartamento, SN ligou o laptop para documentar o dia. As outras já dormiam ou sussurravam no escuro. Ela abriu um documento em branco e digitou, com o coração transbordando: “Hoje eu vivi um sonho. Hoje eu vi que tudo valeu a pena. Obrigada, universo.”

Mas antes que pudesse escrever o parágrafo seguinte, o cansaço acumulado de anos pareceu pesar sobre suas pálpebras. Seus olhos pesaram. A cabeça tombou sobre os braços cruzados na mesa.

Ela dormiu.

E então… ela acordou.

Não com o som do metrô de Seul ou o burburinho de Hongdae, mas com o barulho rítmico e irritante do ventilador de teto velho. O rosto estava pressionado contra a madeira dura da mesa do seu quarto de sempre. O mesmo teto com marcas de infiltração, o mesmo abajur azul quebrado, o mesmo calor abafado da Baixada Fluminense.

O mesmo computador. O mesmo Brasil. O mesmo sonho não realizado.

SN sentou-se devagar, a coluna protestando. O coração ainda batia acelerado, bombardeado pela adrenalina residual do sonho. Lágrimas silenciosas começaram a escorrer, quentes e amargas. — Ainda não… — ela sussurrou para o quarto vazio, a voz carregada de uma promessa feroz. — Mas eu vou. Eu vou fazer isso acontecer.

Ela olhou em volta, tentando se situar. O monitor piscava, mostrando as linhas de um planejamento financeiro que ela mal lembrava de ter escrito antes de apagar de exaustão. A testa estava vermelha da pressão contra a mesa.

— Era só um sonho… mas parecia tão real — murmurou, passando a mão pelo rosto. Ela ainda conseguia sentir o perfume doce e frio da Coreia impregnado em sua mente.

A realidade de seu quarto era um contraste doloroso: pôsteres do BTS colados com fita já amarelada, o caderninho de metas circuladas em vermelho e o silêncio da noite em Belford Roxo, interrompido apenas por algum carro passando ao longe. Mas, estranhamente, ela não se sentia derrotada. O sonho fora um lembrete.

Seu estômago roncou, trazendo-a de volta para as necessidades básicas da sobrevivência. Ela levantou e foi até a cozinha. Não havia tteokbokki ou banquetes reais, apenas um resto de arroz e legumes refogados. Mas ela tinha seu “prêmio”: um pote de condimento picante, seu favorito.

— Hoje é você e eu — disse ela para o frasco de molho, preparando o prato com um cuidado cerimonial. Sentou no chão, colocou o notebook no colo e buscou seu refúgio habitual: uma live legendada de Jungkook.

A voz dele preencheu o quarto, mansa e familiar. Ela pegou os hashis e começou a comer. O gosto da pimenta era forte, fazendo seus olhos arderem, mas ela gostava daquilo. Era real. Era intenso. Era como sua própria vida.

— Eles são mesmo meu curativo — sussurrou ela, observando Jungkook rir na tela. — Meu cobertor em dia de tempestade.

Lembrou-se da risada de Ana no sonho e de como o ar de Incheon parecia prometer um novo começo. Ela sabia que a estrada entre Belford Roxo e Seul era longa e cheia de espinhos, mas o sonho tinha lhe dado um mapa visual de onde ela queria chegar.

Depois de um banho demorado, ela vestiu seu moletom mais largo, aquele que a abraçava nos dias ruins. Voltou para a cama, pegou o celular e gravou um story, com a luz do monitor iluminando seu rosto cansado, mas resiliente.

✨ “Talvez eu ainda não esteja na Coreia… mas hoje, com comida apimentada, moletom quentinho e BTS na tela… eu tô quase lá. Boa noite, sonhadores. 💜” ✨

Ela postou, deixou o celular de lado e se aninhou sob o lençol. O som da live continuava ao fundo, uma presença constante em sua solidão. Ali, naquele pequeno quarto no subúrbio do Rio, SN fechou os olhos novamente. Ela estava pronta para lutar no dia seguinte, pois agora sabia exatamente como era o gosto da vitória. E com o coração mais leve, ela sonhou de novo. Desta vez, com a certeza de quem está a apenas um passo de tornar o invisível, real.

14 Comentários

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  1. SNdoNamjoon(YrysV)♡
    Mar 31, '26 at 4:04 am

    SN filmava cada fragmento daquela magia. Elas dançaram, comeram, riram até perder o fôlego e tiraram fotos sob as árvores cujas flores brancas começavam a brotar. — Essa cidade é mágica… — sussurrou SN, sentindo-se, pela primeira vez, pertencente a algum lugar. — A gente merece cada segundo disso — Ana respondeu, segurando sua mão com um carinho de irmã.

    S. Depois de tanto ralar nd mais justo

  2. SNdoNamjoon(YrysV)♡
    Mar 31, '26 at 4:03 am

    — Olha aquele café de coelho! — Gente, tem um grupo de busking dançando na praça! Grava, SN!

    Vivendo a experiência, aa q sonho

  3. SNdoNamjoon(YrysV)♡
    Mar 31, '26 at 4:01 am

    O embarque para o outro lado do mundo não era apenas uma transição geográfica; era um rito de passagem que desafiava a lógica da realidade que SN conhecia. Sabe aquele momento que a gente só acredita quando o corpo atravessa o portão de embarque e o som metálico da esteira rolando as malas parece ditar o ritmo de um coração que bate rápido demais? SN e Ana estavam ali, imersas nesse transe. As mochilas, pesadas com o pouco que restara de suas vidas no Brasil, estavam apertadas contra o peito como escudos. Os passaportes, documentos que custaram meses de privação, estavam presos em mãos suadas. Elas se encaravam com os olhos marejados, uma pergunta silenciosa pairando no ar: Isso está mesmo acontecendo?

    Agr é real e oficial, gnt, Junkú, tô chegando

  4. Sheila
    Feb 28, '26 at 11:40 pm

    “Talvez eu ainda não esteja na Coreia… mas hoje, com comida apimentada, moletom quentinho e BTS na tela… eu tô quase lá. Boa noite, sonhadores. ”

    A persistência dará bons frutos!!! Não é fácil, mas a recompensa será incrível!!! Vai!!!

  5. Sheila
    Feb 28, '26 at 11:38 pm

    — Era só um sonho… mas parecia tão real — murmurou, passando a mão pelo rosto. Ela ainda conseguia sentir o perfume doce e frio da Coreia impregnado em sua mente.

    Que triste, mas é mais um passo para o seu sonho virar realidade!!! Não desista!!!

  6. Sheila
    Feb 28, '26 at 11:36 pm

    — Hoje é você e eu — disse ela para o frasco de molho, preparando o prato com um cuidado cerimonial. Sentou no chão, colocou o notebook no colo e buscou seu refúgio habitual: uma live legendada de Jungkook.

    Quem não ama uma live do coelhinho para nos confortar!?

  7. Iasmine
    Feb 24, '26 at 8:56 pm

    “Talvez eu ainda não esteja na Coreia… mas hoje, com comida apimentada, moletom quentinho e BTS na tela… eu tô quase lá. Boa noite, sonhadores. ”

    Ela ja jogando pro Universo.. uma hora da certo

  8. Iasmine
    Feb 24, '26 at 8:55 pm

    O mesmo computador. O mesmo Brasil. O mesmo sonho não realizado.

    Oxiii como assim? Kkkkkk era sonho? Ooooh porra

  9. Iasmine
    Feb 24, '26 at 8:55 pm

    O apartamento era minúsculo, mas para elas, era um palácio. Um goshiwon compartilhado em Hongdae, com quatro camas, uma cozinha onde duas pessoas mal podiam se mexer e uma mesa central com cadeiras coloridas que pareciam saídas de um dorama. As outras moradoras, Yumi e Clara, já as esperavam com câmeras ligadas e sorrisos abertos.

    Que delicia dividir a casa com amigas

  10. Iasmine
    Feb 24, '26 at 8:54 pm

    Ana apertou o braço de SN com uma força que beirava a dor, como se precisasse de uma âncora física. — A gente tá indo pra Coreia, SN! — disse Ana, a voz embargada pelo choro que ameaçava transbordar. — Eu sei… — SN respondeu, mas o som saiu como um sopro, um sussurro que mal vencia o barulho do aeroporto. O peito dela doía de tão apertado, uma pressão que misturava pânico e uma alegria quase insuportável. — Eu sei.

    Aiii eu estaria em completo êxtase

  11. Marcela
    Feb 23, '26 at 6:44 pm

    [quote]A realidade de seu quarto era um contraste doloroso: pôsteres do BTS colados com fita já amarelada, o caderninho de metas circuladas em vermelho e o silêncio da noite em Belford Roxo, interrompido apenas por algum
    carro passando ao longe. Mas, estranhamente, ela não se sentia derrotada. O sonho fora um lembrete.

    O sonho fez ela sonhar ainda mais de ir para a Coreia

  12. Marcela
    Feb 23, '26 at 6:29 pm

    [quote]SN sentou-se devagar, a coluna protestando. O coração ainda batia acelerado, bombardeado pela adrenalina residual do sonho. Lágrimas silenciosas começaram a escorrer, quentes e amargas. — Ainda não… — ela sussurrou para o quarto vazio, a voz carregada de uma promessa feroz. — Mas eu vou. Eu vou fazer isso acontecer.

    Como assim? Era um sonho? Aff

  13. Marcela
    Feb 23, '26 at 6:21 pm

    [quote]Pegaram as malas, ativaram os chips coreanos e seguiram para o ônibus. Durante o trajeto, a paisagem urbana de Seul passava como um filme de alta definição. — Meu Deus, olha isso! Gangnam! — Ana gritava, apontando para os prédios espelhados. — Aquele é o Rio Han? É ele? — SN quase se colava à janela, o coração disparado ao reconhecer os cenários que antes só via por uma tela de 6 polegadas. — SN, se a gente vir um idol na rua, eu acho que desmaio. — Se você desmaiar, eu desmaio junto!

    Eu, se tivesse em Seul, estaria do mesmo jeito ou até pior kkkk

  14. Marcela
    Feb 23, '26 at 6:02 pm

    [quote]Ana não hesitou. Ela se virou para SN com a determinação de quem já tinha passado pelo inferno e sobrevivido. — A gente fez dar certo até aqui, SN. Contra tudo e contra todos. E a gente não veio sozinha. A gente tem uma à outra.

    Isso que eu chamo de AMIGA

Nota

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