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A noite parisiense tinha uma forma peculiar de distorcer a realidade. Sob a luz amarelada dos lampiões de ferro, cada portão de ferro batido parecia a entrada para um palácio e cada jardim escondido prometia ser o cenário de um romance épico.

Taehyung, agora empolgado pelo sucesso do “incidente do crepe”, guiava S/N por um bairro residencial de elite, onde as fachadas dos prédios eram adornadas com esculturas de anjos e gárgulas. Ele parou diante de um portão imenso, cujas grades terminavam em pontas douradas. O portão estava entreaberto, um convite silencioso para o desastre.

— S/N, prepare-se — ele sussurrou, ajeitando os óculos com um ar de importância renovada. — O que você vê diante de nós não é apenas um jardim. Este é o Jardin des Murmures. O Jardim dos Murmúrios. Diz a lenda que, se você caminhar por ele em silêncio absoluto, as flores contam os segredos dos amantes que passaram por aqui desde o século XVIII.

S/N olhou para o portão e depois para a rua deserta. Não havia placa de museu, nem bilheteria, nem segurança. Apenas um interfone de bronze com nomes que pareciam sobrenomes de famílias muito ricas e muito bravas.

— Taehyung… isso parece muito a casa de alguém — ela murmurou, mas seus pés já estavam seguindo a curiosidade instigada pelo rapaz.

— Bobagem! É um museu a céu aberto. Eles só não… cobram entrada porque acreditam na democratização da arte — ele rebateu, empurrando o portão com o ombro. O metal rangeu de uma forma que fez a espinha de S/N arrepiar. — Venha. Não quer dar uma nota para os segredos das flores?

Eles entraram na ponta dos pés. O pátio interno era magnífico, com uma fonte de mármore no centro e roseiras que exalavam um perfume doce e pesado. O som da água caindo na fonte era o único barulho, criando uma atmosfera de sonho. Taehyung caminhava na frente, gesticulando para as janelas apagadas como se estivesse apresentando uma galeria de arte.

— Aquela janela ali? Foi onde a primeira carta de amor com perfume foi escrita. E aquele vaso de barro? Contém terra trazida diretamente do topo do Monte Olimpo — ele inventava, as palavras fluindo com uma facilidade assustadora.

S/N estava tão entretida com a performance dele que quase não percebeu a luz de um sensor de movimento se acendendo no andar de cima. Um segundo depois, uma janela se abriu com um estrondo e um homem de cabelos brancos, usando um pijama de seda caríssimo, apareceu na sacada.

— Hé! Qu’est-ce que vous faites là?! Police! — o homem gritou, a voz ecoando pelo pátio como um trovão.

Taehyung congelou no meio de um passo, uma mão ainda apontando para uma estátua de anjo. Ele olhou para o homem, depois para S/N, e por um breve momento, o “Guia V” desapareceu, dando lugar ao garoto pego com a mão na botija.

— Ele está… nos dando as boas-vindas? — Taehyung perguntou, a voz dois tons acima do normal.

— Taehyung, ele está chamando a polícia! — S/N exclamou, o coração disparando contra as costelas.

O homem começou a gesticular freneticamente e ameaçou descer. O pânico, em vez de paralisar S/N, trouxe uma adrenalina eletrizante. Sem pensar, ela avançou e segurou a mão de Taehyung com força, os dedos se entrelaçando nos dele.

— Corre! — ela gritou.

E eles correram.

Não foi uma corrida elegante como nos filmes. Foi um caos de pernas tropeçando, respirações ofegantes e risos nervosos que escapavam involuntariamente. Eles passaram pelo portão rangendo, as solas dos sapatos batendo no asfalto enquanto dobravam a primeira esquina, e depois a segunda, sem olhar para trás.

Taehyung, apesar de ter pernas mais longas, parecia estar se divertindo tanto com a situação que quase tropeçou no próprio sobretudo. Eles só pararam três blocos depois, escondidos atrás de uma banca de jornais fechada, ambos ofegantes, os rostos vermelhos pelo esforço e pelo frio.

S/N apoiou as mãos nos joelhos, tentando recuperar o fôlego. O silêncio da rua era interrompido apenas pelos pulmões deles trabalhando dobrado. Ela olhou para o lado e viu Taehyung encostado na parede, a boina agora torta e um fio de cabelo caindo sobre os olhos. Ele começou a rir. Uma risada profunda, de estômago, que logo contagiou S/N.

— O Jardim… — ela tentou dizer entre os risos — …dos Murmúrios? Você é um mentiroso terrível!

— Eu não menti! — ele disse, tentando recuperar a dignidade enquanto limpava as lentes dos óculos. — O dono do jardim murmurou muito alto. Quase um grito. A lenda estava certa!

S/N deu um tapa leve no braço dele, ainda rindo. — Nós quase fomos presos, seu maluco! “Democratização da arte”, Taehyung? Era a mansão de algum conde francês!

Ele guardou os óculos no bolso e olhou para ela. O riso dele suavizou, transformando-se em algo mais quente. Ele ainda não tinha soltado a mão dela. S/N percebeu isso agora: a pressão firme e reconfortante dos dedos dele contra os seus. O mundo parecia ter parado de girar por um instante.

— Mas admita — ele disse, a voz baixinha e rouca pela corrida. — Foi a melhor nota 0/10 da sua vida.

S/N olhou para as mãos unidas e depois para os olhos intensos dele. A diversão da corrida deu lugar a uma tensão diferente, mais densa, que fez seu coração errar a batida de um jeito que o ex-namorado nunca conseguiu fazer.

— Eu não ia dar 0/10 — ela confessou, a voz quase um sussurro. — A adrenalina de fugir da polícia francesa com um guia fake? Isso vale pelo menos um 8.

Taehyung deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles. O cheiro de seu perfume cítrico agora se misturava ao ar gelado da noite. Ele inclinou a cabeça, estudando o rosto de S/N como se estivesse decorando cada detalhe sob a luz da lua.

— Só um 8? — ele provocou, mas não havia ironia em seu tom. — O que eu preciso fazer para ganhar um 10, S/N?

S/N sentiu que o ar lhe faltava novamente, e desta vez não era por causa da corrida. Antes que ela pudesse responder, Taehyung pegou o bloco de notas do bolso dela, que havia caído durante a fuga, e escreveu algo rapidamente.

Ele entregou o bloco a ela. No papel, abaixo de todas as críticas anteriores, estava escrito com sua letra elegante e apressada:

Evento: A Grande Fuga de 2026. Nota: Pendente. Comentário do Guia: A cliente segura a mão de um jeito que faz o guia querer se perder em Paris para sempre.

S/N sentiu um calafrio percorrer seu corpo, mas não era de frio. Ela fechou o bloco e o guardou no peito, olhando para o homem à sua frente. Kim Taehyung era um mistério, um mentiroso encantador e o guia mais desastroso da história da França. Mas ele também era a primeira pessoa que a fazia sentir que, talvez, estar perdida não fosse algo tão ruim assim.

— Vamos — ele disse, oferecendo o braço novamente, recuperando sua postura de cavalheiro 4D. — Preciso te levar de volta antes que o dono daquela casa apareça com a Interpol.

Eles caminharam de volta para o hotel de S/N, o passo agora lento, arrastado pelo desejo silencioso de que o caminho não terminasse. Quando finalmente chegaram à porta giratória de vidro, Taehyung parou e tirou a boina, fazendo uma reverência exagerada.

— Amanhã, no mesmo horário? — ele perguntou, a esperança brilhando em seus olhos. — Eu ouvi dizer que existe uma ponte que atravessa para uma dimensão paralela, mas só se chegarmos lá com um croissant na mão esquerda.

S/N sorriu, sentindo que sua viagem a Paris estava apenas começando de verdade. — Amanhã, Taehyung. Mas eu escolho o lugar do café.

— Combinado. Mas eu ainda escolho a história — ele piscou, virando-se para sumir na névoa da noite parisiense, deixando S/N parada ali, com o coração batendo forte e um bloco de notas cheio de memórias que, no fim das contas, não precisavam de mapa nenhum para serem reais.

10 Comentários

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  1. Marcela
    Jan 27, '26 at 6:40 pm

    — Ele está… nos dando as boas-vindas? — Taehyung perguntou, a voz dois tons acima do normal.
    Kkkkkkkkkkk eu ri MT

  2. IASMINE
    Jan 28, '26 at 9:40 pm

    Será que ele não quer ser meu guia tbm kkkkkk

    1. Luana
      @IASMINE • Mar 1, '26 at 7:13 pm

      Quero um assim kkkkk

  3. Anne
    Feb 15, '26 at 11:58 pm

    — Eu não menti! — ele disse, tentando recuperar a dignidade enquanto limpava as lentes dos óculos. — O dono do jardim murmurou muito alto. Quase um grito. A lenda estava certa!

    Gente que caótico ele é! Isso é muito bom

  4. Anne
    Feb 15, '26 at 11:59 pm

    Queria eu ter um guia assim para aproveitar uma viagem de forma diferente

    1. Luana
      @Anne • Mar 1, '26 at 7:13 pm

      Seria um sonho kkkk

  5. Anne
    Feb 16, '26 at 12:00 am

    S/N sorriu, sentindo que sua viagem a Paris estava apenas começando de verdade. — Amanhã, Taehyung. Mas eu escolho o lugar do café.

    Cada lugar mas louco que ele a leva e deixa essa viagem melhor

  6. Marcela
    Jul 22, '26 at 1:24 am

    [quote]— S/N, prepare-se — ele sussurrou, ajeitando os óculos com um ar de importância renovada. — O que você vê diante de nós não é apenas um jardim. Este é o Jardin des Murmures. O Jardim dos Murmúrios. Diz a lenda que, se você caminhar por ele em silêncio absoluto, as flores contam os segredos dos amantes que passaram por aqui desde o século XVIII.

    Ô meninuu, tu tás lendo MT FIC, visse ? Da até pra fazer um livro . Se junta com a Lety, que ela te ajuda

  7. Marcela
    Jul 22, '26 at 1:24 am

    [quote]— Bobagem! É um museu a céu aberto. Eles só não… cobram entrada porque acreditam na democratização da arte — ele rebateu, empurrando o portão com o ombro. O metal rangeu de uma forma que fez a espinha de S/N arrepiar. — Venha. Não quer dar uma nota para os segredos das flores?

    Vai SN, Confia

  8. Marcela
    Jul 22, '26 at 1:26 am

    [quote]— Eu não menti! — ele disse, tentando recuperar a dignidade enquanto limpava as lentes dos óculos. — O dono do jardim murmurou muito alto. Quase um grito. A lenda estava certa!

    Pqp kkkkkkkkkkkkkkkkkk tem que ser ele

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