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Paris à noite era uma pintura em movimento, mas para S/N, o foco da lente estava permanentemente ajustado em um único ponto: Kim Taehyung. Haviam se passado apenas alguns dias desde “A Grande Fuga”, e a dinâmica entre os dois havia evoluído de uma transação comercial duvidosa para uma espécie de simbiose caótica. S/N já não olhava mais para o celular para conferir o trajeto; ela simplesmente seguia o balanço do sobretudo marrom à sua frente, confiando que, mesmo que se perdessem, a vista valeria a pena.

Naquela noite, Taehyung parecia particularmente inspirado. Ele havia prometido um “banquete real sob as estrelas”, o que, na tradução do dicionário Tae-landes, geralmente significava algo improvisado, possivelmente ilegal e certamente inesquecível.

Eles caminharam até as margens do Rio Sena, perto da Pont Neuf. O vento soprava com uma insistência gelada que cortava as camadas de roupa, fazendo S/N encolher os ombros. Sem dizer uma palavra, Taehyung se aproximou e, com aquela naturalidade desconcertante, passou o braço pelos ombros dela, puxando-a para mais perto enquanto desciam os degraus de pedra em direção à beira da água.

— Aqui — ele anunciou, apontando para um recuo na muralha de pedra que oferecia uma vista privilegiada dos barcos que passavam. — O camarote oficial da realeza que esqueceu de reservar um restaurante.

Taehyung estendeu um pano de mesa xadrez que parecia suspeitosamente com um cachecol gigante e começou a descarregar sua mochila. Havia uma baguete (que ele insistia ser de uma linhagem de pães premiados), um queijo cujo cheiro era forte o suficiente para desmaiar um exército pequeno e uma garrafa de vinho com um rótulo dourado e rebuscado.

— Eu escolhi este vinho porque o castelo no rótulo me lembrou a sua expressão quando viu a lavanderia no primeiro dia — ele disse, com aquele sorriso retangular travesso. — Um misto de choque e “onde foi que eu me meti?”.

S/N riu, sentando-se no pano e sentindo a umidade da pedra sob ela. — Você é impossível, Taehyung. Mas admito, a curadoria visual é impecável.

O problema começou quando Taehyung tentou exercer suas “habilidades” de sommelier. Ele tirou um saca-rolhas de metal que parecia um instrumento de tortura medieval e começou a lutar com a rolha. Ele mudava de posição, prendia a garrafa entre os joelhos, franzia a testa e murmurava palavras em coreano que S/N tinha certeza de que não eram elogios à vinícola.

— Precisa de ajuda, “Guia V”? — ela provocou, observando o esforço dele.

— Um guia nunca precisa de ajuda com álcool, S/N. É uma questão de… física aplicada! — ele exclamou, fazendo uma força descomunal.

Com um estalo seco, a rolha finalmente cedeu, mas o impulso foi tão forte que Taehyung acabou tombando para trás. Ao tentar se equilibrar, sua mochila virou, despejando o conteúdo no chão de pedra. Entre um guia de conversação francês-coreano e alguns guardanapos de papel, um pequeno objeto retangular de capa azul escura deslizou até parar exatamente na ponta dos pés de S/N.

Era um passaporte.

Taehyung congelou. O tempo pareceu desacelerar enquanto S/N estendia a mão e pegava o documento. Antes que ele pudesse protestar, o passaporte se abriu na página de identificação.

Lá estava ele. Sem a boina, sem os óculos de armação fina. Apenas Kim Taehyung, com o rosto sério e os cabelos pretos penteados para trás. Local de nascimento: Daegu, Coreia do Sul. Residência: Seul.

S/N olhou para o documento e depois para o rapaz à sua frente, que agora parecia querer ser engolido pelas águas escuras do Sena.

— Então… — S/N começou, sua voz carregada de uma diversão contida. — O “parisiense nato” que nasceu sob as sombras da Torre Eiffel e cuja família inventou o botão de camisa… na verdade mora em Seul?

Taehyung suspirou, deixando os ombros caírem. Ele pegou a garrafa de vinho, agora aberta, e serviu dois copos de plástico com uma solenidade cômica. — Bom… tecnicamente, Seul é a Paris do Leste? — Ele tentou uma última vez, mas ao ver a expressão de “eu já sabia” no rosto de S/N, ele simplesmente desabou em uma risada derrotada. — Certo. Você me pegou. Eu sou um impostor. Um turista terrivelmente perdido que viu uma oportunidade de não ficar sozinho em uma cidade desconhecida.

Ele se sentou ao lado dela, entregando-lhe o copo de vinho. — Você vai me denunciar para o conselho de guias de turismo?

S/N deu um gole no vinho. Tinha gosto de vinagre misturado com suco de uva barato. Era horrível. Ela sorriu. — Eu já sabia desde a estátua do Pierre, Taehyung. Ninguém acredita que o inventor do botão se chamava Pierre Le Petit.

Taehyung arregalou os olhos. — Você sabia esse tempo todo? E por que continuou me seguindo? Por que pagou pelas “consultas” no aplicativo?

S/N olhou para o reflexo das luzes da cidade na água. O tom da conversa mudou. O humor deu lugar a uma vulnerabilidade que só o anonimato de uma noite estrangeira permite.

— Porque pela primeira vez em muito tempo, eu não queria saber o caminho certo, Tae — ela confessou, usando o apelido pela primeira vez. — Eu passei os últimos anos da minha vida seguindo um mapa que outra pessoa desenhou para mim. Eu sabia onde estaria profissionalmente, sabia com quem me casaria, sabia até a cor das cortinas da minha sala. E então, tudo desmoronou. O mapa foi rasgado.

Ela sentiu o olhar dele sobre si, não mais o olhar brincalhão do guia, mas algo profundo e empático.

— Vir para Paris sozinha foi assustador — ela continuou. — Mas quando você apareceu com aquela boina torta e começou a inventar mentiras sobre lavanderias, eu percebi que me perder com você era muito mais divertido do que me encontrar sozinha. Você me deu permissão para ser um desastre.

Taehyung ficou em silêncio por um longo momento. Ele estendeu a mão e, com cuidado, afastou uma mecha de cabelo do rosto de S/N. O toque de seus dedos estava frio por causa do vento, mas a sensação enviou uma onda de calor por todo o corpo dela.

— Eu vim para cá porque estava cansado de ser o Kim Taehyung que todo mundo conhece — ele admitiu, a voz baixa e rouca. — Em Seul, a vida é rápida demais. As expectativas são altas demais. Eu queria ser o “V”. Queria ser alguém que pudesse errar o caminho sem que isso fosse um escândalo. Eu só não esperava encontrar alguém que olhasse para os meus erros e desse nota 10 para eles.

A proximidade entre eles agora era magnética. S/N podia sentir a respiração dele, o aroma do vinho barato e do perfume caro que ele usava. O vento soprou mais forte, e S/N estremeceu involuntariamente.

— Vem aqui — ele disse.

Não foi um pedido, foi um convite suave. Taehyung abriu os braços e as abas do seu grande sobretudo marrom. S/N não hesitou. Ela se inclinou para o espaço entre os braços dele, sentindo o calor do seu peito contra suas costas enquanto ele a envolvia com o casaco. Eles eram agora uma única massa de tecido marrom e calor humano, observando os barcos passarem.

— O vinho é horrível, não é? — Taehyung murmurou perto do ouvido dela, seus lábios quase roçando sua pele.

— É a pior coisa que já bebi — S/N confirmou, encostando a cabeça no ombro dele. — Nota 1/10.

— E o guia? — ele perguntou, sua mão subindo pelo braço dela, desenhando círculos invisíveis sobre o tecido da sua blusa. — Qual a nota para o guia que não sabe nem abrir um vinho sem revelar sua identidade secreta?

S/N virou o rosto levemente, e agora os lábios de Taehyung estavam a centímetros dos dela. A tensão romântica, que vinha sendo cozinhada em fogo brando nos últimos dias, finalmente entrou em ebulição.

A tensão entre os dois era quase palpável, misturando-se à brisa gélida que subia do Sena. Sob o abrigo do sobretudo de Taehyung, o resto de Paris parecia ter sido colocado no mudo. S/N conseguia ouvir a batida rítmica do coração dele contra suas costas — um compasso acelerado que desmentia a sua postura externa de tranquilidade.

Taehyung não se afastou. Pelo contrário, ele apertou um pouco mais o abraço, o queixo descansando no ombro de S/N. A proximidade era tão absoluta que ela podia sentir o calor da respiração dele em seu pescoço, enviando arrepios que nada tinham a ver com o clima de inverno.

— S/N… — ele murmurou, e o som do nome dela saindo daquela voz profunda, tão perto de seu ouvido, pareceu uma carícia física. — Eu acho que meu disfarce de guia era o único jeito que eu conhecia de me aproximar de alguém como você sem parecer… patético.

S/N virou-se lentamente dentro do abraço, ficando de frente para ele. A luz dos postes de luz de Paris criava sombras dramáticas em seu rosto, destacando a linha perfeita do seu maxilar e a suavidade dos seus lábios, que agora estavam perigosamente próximos.

— Você não é patético, Tae — ela disse, a voz quase sumindo. — Você é a melhor coisa que aconteceu nessa viagem de desastres.

O olhar de Taehyung desceu para os lábios de S/N e voltou para os olhos dela, em um pedido silencioso que não precisava de palavras ou mentiras “4D”. Ele levou a mão ao rosto dela, o polegar acariciando a maçã do rosto com uma ternura que fez o estômago de S/N dar voltas.

Quando ele finalmente se inclinou, não foi um beijo rápido ou hesitante. Foi um encontro faminto e profundo. Os lábios de Taehyung tinham gosto de vinho doce e frio, mas o beijo em si era quente e urgente. S/N entrelaçou as mãos na nuca dele, puxando-o para mais perto, sentindo a textura do cabelo dele entre seus dedos.

O mundo ao redor — o rio, os barcos, as mentiras sobre a história francesa — tudo desapareceu. Só existia a pressão dos lábios dele contra os seus e a forma como o corpo dele parecia se encaixar perfeitamente no dela, como se tivessem sido feitos sob medida por um mestre artesão que não usava mapas.

Taehyung soltou um suspiro baixo contra a boca dela, um som de puro alívio. Suas mãos desceram das costas de S/N para a sua cintura, apertando-a com uma possessividade suave, puxando-a para cima até que ela estivesse praticamente em seu colo sobre o pano xadrez.

O beijo tornou-se mais profundo, as línguas se explorando com uma curiosidade que já não era mais infantil. Taehyung interrompeu o contato por um segundo, apenas para trilhar um caminho de beijos quentes pelo maxilar dela até chegar à curva sensível do seu pescoço.

— S/N… — ele arfou contra a pele dela. — Eu não sou um guia local, eu não sei o caminho de volta para o seu hotel sem olhar o GPS dez vezes… mas eu sei exatamente o que eu sinto agora. E não tem nota no seu bloco que consiga descrever isso.

S/N inclinou a cabeça para trás, dando a ele mais acesso, sentindo o choque elétrico de cada toque. A mão dele subiu por baixo da blusa dela, a palma quente encontrando a pele macia da sua cintura, fazendo-a arfar.

— Então para de tentar dar notas, Taehyung — ela sussurrou, a voz carregada de desejo. — Só me leva para algum lugar onde não tenha barcos de turistas passando a cada cinco minutos.

Como se o universo estivesse ouvindo, um estrondo alto de buzina ecoou pelo rio. Um enorme Bateau-Mouche — aqueles barcos de turismo gigantes cheios de holofotes — dobrou a curva do Sena. Em um segundo, o recuo escuro e romântico onde eles estavam foi atingido por uma luz branca tão forte que parecia o sol do meio-dia.

Taehyung e S/N se separaram bruscamente, ambos piscando contra a claridade, parecendo dois criminosos pegos no ato. No convés do barco, um grupo de turistas começou a apontar e a acenar.

Regardez! L’amour à Paris! — gritou um guia turístico pelo alto-falante, em um tom entusiasmado que fez S/N querer se enterrar nas pedras do cais.

Taehyung, em um reflexo puramente instintivo de sua personalidade 4D, não se escondeu. Ele se levantou rapidamente, ajeitou a boina que estava quase caindo e começou a acenar de volta para o barco com as duas mãos, fazendo um coração com os braços sobre a cabeça.

Oui! C’est magnifique! — ele gritou de volta, rindo enquanto os turistas tiravam fotos do “casal parisiense autêntico”.

S/N enterrou o rosto nas mãos, rindo compulsivamente. — Taehyung! Eles estão tirando fotos! Você vai aparecer no Instagram de trezentas pessoas como o guia beijoqueiro do Sena!

Ele se sentou novamente, puxando-a para o seu lado enquanto o barco passava e a escuridão voltava a reinar, trazendo consigo o silêncio e o frio. Ele estava ofegante, o cabelo bagunçado e os lábios levemente inchados.

— Bom — ele disse, limpando o canto da boca com o polegar — pelo menos eles tiveram uma experiência autêntica. Nota 10 para o entretenimento ao vivo.

Ele pegou o bloco de notas de S/N, que estava jogado no chão, e escreveu algo com a mão ainda levemente trêmula pela adrenalina.

Local: Beira do Sena, sob o flash dos turistas. Nota: ∞/10. Comentário: O guia foi desmascarado, o vinho era vinagre e fomos cegados por um holofote. Foi a noite mais perfeita da minha vida.

Ele entregou o bloco para ela e, antes que ela pudesse ler, ele selou a promessa com um beijo casto na testa dela.

— Vamos sair daqui antes que o Monsieur Jean do carrinho de crepes apareça para cobrar direitos autorais pela nossa cena de filme — ele brincou, ajudando-a a levantar.

Enquanto recolhiam as coisas, S/N percebeu que a dor que a trouxera a Paris — aquela sensação de ser um “croissant esmagado” — tinha desaparecido completamente. Em seu lugar, havia algo novo: uma nota de esperança que Kim Taehyung tinha escrito, não com tinta, mas com a honestidade de quem também estava perdido.

7 Comentários

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  1. IASMINE
    Jan 29, '26 at 7:23 am

    Quando ele finalmente se inclinou, não foi um beijo rápido ou hesitante. Foi um encontro faminto e profundo. Os lábios de Taehyung tinham gosto de vinho doce e frio, mas o beijo em si era quente e urgente. S/N entrelaçou as mãos na nuca dele, puxando-o para mais perto, sentindo a textura do cabelo dele entre seus dedos.

    Viver isso em Paris deve ser fantástico

  2. IASMINE
    Jan 29, '26 at 7:25 am

    — S/N… — ele arfou contra a pele dela. — Eu não sou um guia local, eu não sei o caminho de volta para o seu hotel sem olhar o GPS dez vezes… mas eu sei exatamente o que eu sinto agora. E não tem nota no seu bloco que consiga descrever isso.

    Jesus amado

  3. Marcela
    Jan 30, '26 at 10:50 pm

    — Você não é patético, Tae — ela disse, a voz quase sumindo. — Você é a melhor coisa que aconteceu nessa viagem de desastres.

    Pronto, era tudo que ele queria ouvir.

  4. Marcela
    Feb 11, '26 at 8:00 pm

    Taehyung ficou em silêncio por um longo momento. Ele estendeu a mão e, com cuidado, afastou uma mecha de cabelo do rosto de S/N. O toque de seus dedos estava frio por causa do vento, mas a sensação enviou uma onda de calor por todo o corpo dela.

    Ele já tava encantado por ela e ela por ele. Aaaaaah que bonitinho

  5. Anne
    Feb 16, '26 at 12:01 am

    Taehyung estendeu um pano de mesa xadrez que parecia suspeitosamente com um cachecol gigante e começou a descarregar sua mochila. Havia uma baguete (que ele insistia ser de uma linhagem de pães premiados), um queijo cujo cheiro era forte o suficiente para desmaiar um exército pequeno e uma garrafa de vinho com um rótulo dourado e rebuscado.

    Um piquenique com ele!! Sonho sendo realizado

  6. Anne
    Feb 16, '26 at 12:03 am

    Taehyung suspirou, deixando os ombros caírem. Ele pegou a garrafa de vinho, agora aberta, e serviu dois copos de plástico com uma solenidade cômica. — Bom… tecnicamente, Seul é a Paris do Leste? — Ele tentou uma última vez, mas ao ver a expressão de “eu já sabia” no rosto de S/N, ele simplesmente desabou em uma risada derrotada. — Certo. Você me pegou. Eu sou um impostor. Um turista terrivelmente perdido que viu uma oportunidade de não ficar sozinho em uma cidade desconhecida.

    Que lindo!! Ele queria companhia na viagem

  7. Anne
    Feb 16, '26 at 12:06 am

    Uma viagem cheia de recomeços e descobertas para os dois

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