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Quando o prêmio em Nova York jogou o nome de S/N nas páginas de inovação e design internacional, as propostas de trabalho começaram a lotar sua caixa de entrada. Grandes agências de Manhattan queriam sua consultoria; escritórios de Londres ofereciam contratos em libra esterlina para liderar campanhas europeias. Eram escolhas seguras, caminhos pavimentados para uma carreira brilhante.

E então surgiu a proposta de Seul. Um contrato modesto de reestruturação conceitual para um consórcio de tecnologia sul-coreano.

S/N passou a madrugada encarando o brilho frio do monitor em seu apartamento no Brasil. O cursor do mouse flutuava sobre o botão de recusa das ofertas americanas. Ao lado do teclado, o bloco de notas de couro repousava fechado. Ela não precisava abri-lo para lembrar da caligrafia artística, dos mapas desenhados errados e do som da voz dele abafada pelo vento do Sena.

“Eu ainda vou inventar uma rua que me leve de volta para você.”

Ele prometera inventar a rua. Mas S/N não era uma personagem passiva de uma tragédia romântica, destinada a definhar em uma mesa de trabalho esperando que um milagre cruzasse o oceano. Se o destino dele estava acorrentado em Seul, seria ela a mudar as coordenadas do mapa. Recusou Nova York. Recusou Londres. Assinou o contrato com a empresa coreana não por desespero, mas com a compostura de quem retoma as rédeas da própria história.

Naquela sexta-feira, Seul acordou sob uma neblina espessa que descia das montanhas e se misturava à poluição do distrito financeiro de Yeouido.

Na sede da Kang-Dae Logística, o ar-condicionado do quadragésimo andar mantinha a sala de reuniões do conselho em uma temperatura quase congelante. Kim Taehyung ocupava a cabeceira da mesa de jacarandá. O terno cinza-grafite assentava-se em seus ombros com uma precisão cirúrgica, a gravata escura perfeitamente ajustada ao colarinho, os fios castanhos penteados para trás sem um único fio fora do lugar.

À sua volta, diretores seniores e acionistas discutiam tabelas de frete marítimo e projeções trimestrais. Para qualquer um ali, Taehyung era a encarnação do herdeiro frio que Kim Kang-dae moldara após o “incidente” na Europa. Ele intervinha com dados numéricos exatos, a voz barítona soando firme, desprovida de qualquer hesitação.

A porta lateral da sala abriu-se sem ruído. Seok, o assistente pessoal que acompanhava a família há anos e o único que conhecia as fissuras sob a armadura de Taehyung, entrou a passos curtos. Ele trazia uma pasta sob o armo, mas caminhou direto até a cadeira de Taehyung. Curvou-se e murmurou, num sopro audível apenas para ele:

— Senhor… Um voo vindo do Brasil acabou de pousar em Incheon. A senhorita S/N foi vista em solo coreano.

O tempo na sala não apenas parou; desmoronou.

O apontador laser que Taehyung segurava travou no centro do gráfico de lucros. O ar fugiu de seus pulmões de forma súbita. O murmúrio dos executivos debatendo margens de lucro transformou-se em um ruído abafado, como se ele estivesse submerso em água profunda.

Ela estava ali.

No mesmo fuso horário. Sob o mesmo céu cinzento de Seul.

A mente de Taehyung, condicionada nos últimos meses a raciocinar apenas em termos de logística e finanças, entrou em curto-circuito. As perguntas se atropelavam em um caos silencioso: Por que ela veio? Ela leu a mensagem antes do perfil ser destruído? Foi por pura coincidência profissional? Ela sabe o quanto este lugar é perigoso? Eu vou conseguir olhar para ela sem desabar?

Uma onda de calor violenta subiu por sua espinha, dissipando meses de uma apatia calculada. O peito de Taehyung começou a arfar suavemente, o pulso acelerando até martelar nas têmporas. A rigidez de sua postura cedeu por uma fração de segundo.

Sem desviar os olhos da tela, ele murmurou para Seok, com a voz raspando no fundo da garganta:

— Descubra tudo. O hotel, a empresa que a trouxe, a rota do traslado. Quero um relatório completo sobre a minha mesa até o fim do dia.

— Sim, senhor — Seok curvou-se e recuou.

Taehyung voltou a atenção para a mesa, mas a reunião havia se tornado insuportável. Os gráficos eram apenas manchas coloridas; as vozes dos diretores, um zumbido distante. Ele olhava compulsivamente para o relógio de pulso. 10:15. 10:20. 10:25. Cada segundo parecia arrastar uma tonelada de chumbo. Suas mãos nobres e compridas apertavam a borda da mesa até que os nós dos dedos ficassem brancos.

Às dez e meia, quando um vice-presidentes começou a introduzir uma nova pauta de investimentos que se estenderia por horas, a corda esticou até romper.

Taehyung levantou-se abruptamente. A cadeira de couro deslizou para trás, produzindo um som agudo que cortou a fala do executivo.

— Senhor Kim? Algum imprevisto? — perguntou o homem, sobressaltado.

— Uma questão operacional de urgência — declarou Taehyung, a voz cortante, embora seus olhos traíssem um fogo inquieto. Ele olhou para a secretária no canto. — Recolha o material. Analisarei os pareceres na minha sala mais tarde.

Antes que qualquer diretor pudesse formular uma objeção, ele virou-se de costas e cruzou as portas duplas de vidro, deixando para trás meses de etiqueta corporativa.

No corredor, sacou o celular do bolso e discou para Seok enquanto caminhava a passos largos em direção ao elevador privativo.

— Onde ela está? O que você conseguiu?

A voz do assistente veio sobressaltada pelo viva-voz: — Jovem Mestre, o senhor acabou de sair da reunião… Fazem dez minutos que dei a ordem. A única confirmação da torre de controle é que o avião dela tocou a pista há pouco mais de vinte minutos. Ela ainda deve estar no setor de bagagens ou procurando transporte.

— E o hotel?

— Minha equipe está cruzando os dados de reservas da cidade, mas isso exige tempo, senhor. Sugiro que aguarde no escritório—

— Eu não vou aguardar nada, Seok.

Taehyung desligou na cara do assistente. A prudência que seu pai lhe ensinara era uma cela, e ele não passaria mais um minuto trancado nela. Se havia uma fresta no destino, ele a arrombaria.

Arrancou o crachá executivo do peito e o jogou sobre o balcão da recepção. No subsolo, ignorou o motorista da família que se prontificava a abrir a porta do sedan preto e caminhou direto para seu carro esporte particular. O motor rugiu na escuridão da garagem, ecoando como um bicho enjaulado. Taehyung acelerou, cortou a cancela de segurança e jogou o veículo na via expressa em direção a Incheon.

A rota que normalmente exigia uma hora sob o trânsito pesado de Seul foi engolida em metade do tempo. Ele costurava entre os caminhões e ônibus com uma agressividade imprudente. Suas mãos suavam no volante de couro; a respiração vinha curta, áspera. A matemática dos minutos rodava em sua mente: desembarque, controle de passaportes, esteira de bagagens, táxi. Ele estava lutando contra o relógio e contra a imensidão de uma metrópole que parecia especialista em separar pessoas.

Quando o carro finalmente cantou os pneus na área de desembarque internacional do aeroporto, Taehyung sequer se preocupou em alinhar o veículo no meio-fio. Desligou a ignição, largou a chave no painel e saltou para o ar gélido da manhã.

A calçada do terminal era um caos de turistas, motoristas de aplicativo, ônibus de excursão e o estalido ininterrupto de rodinhas de malas no asfalto.

O vento gelado que vinha do mar atingiu seu rosto, desfazendo o penteado impecável e jogando mechas de cabelo castanho sobre sua testa desnudando, por sob o terno caro, a figura do garoto que se perdera nas ruas de Paris. Taehyung começou a andar rapidamente, empurrando a multidão com os ombros, os olhos castanhos varrendo o perímetro de forma desesperada. Passou por grupos de executivos, famílias e viajantes solitários. O suor frio escorria por sua nuca; o peito subia e descia em um ritmo descontrolado.

E então, o barulho do aeroporto simplesmente evaporou.

A cerca de trinta metros dali, parada junto à faixa de pedrestes sob a cobertura de concreto do terminal, estava uma mulher. Ela vestia um sobretudo escuro bem cortado e segurava a alça de uma mala de rodinhas. O vento de Incheon agitava seus cabelos, e ela fazia um gesto simples de ajeitar a bolsa no ombro.

S/N.

Taehyung parou de golpe. Seus sapatos de couro derraparam levemente no piso úmido. A respiração travou na garganta, os ombros arfando pesadamente pelo esforço e pelo choque de realidade. A imagem dela ali, não numa tela de celular, não numa matéria de jornal, mas em carne, osso e presença parecia uma alucinação tecida pela sua própria obsessão.

Como se o silêncio dele tivesse peso físico e cortasse a fumaça dos escapamentos, S/N interrompeu o movimento de abrir a porta do táxi amarelo.

Lentamente, ela girou o corpo na direção da calçada.

Os olhares se chocaram no ar gelado de Seul.

Taehyung estava imóvel entre os desconhecidos que cruzavam o terminal. Não havia boina, não havia o mapa de papel rasgado, e o terno de alfaiataria denunciava toda a escala do império que ele herdaria. Ele estava visivelmente sem fôlego, o cabelo desalinhado pelo vento, o rosto pálido pelo cansaço e pela urgência. Mas o olhar que a encarava de volta era o mesmo. O mesmo olhar vulnerável, profundo e faminto do homem que a abraçara sob o sobretudo marrom à beira do Sena.

S/N paralisou com a mão na maçaneta do táxi. O mundo ao redor converteu-se em um borrão sem som: o movimento dos carros, o grito dos fiscais de trânsito, as turbinas dos aviões subindo ao longe.

Nenhum dos dois deu um passo. Nenhum dos dois ousou quebrar o feitiço com palavras. Ali, a poucos metros de distância, no asfalto frio da Coreia do Sul, a distância que os separou por meses foi reduzida a nada e a rua que ele prometera inventar finalmente começou a ser traçada.

10 Comentários

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  1. Iasmine
    Jul 22, '26 at 5:41 pm

    Quando o prêmio em Nova York jogou o nome de S/N nas páginas de inovação e design internacional, as propostas de trabalho começaram a lotar sua caixa de entrada. Grandes agências de Manhattan queriam sua consultoria; escritórios de Londres ofereciam contratos em libra esterlina para liderar campanhas europeias. Eram escolhas seguras, caminhos pavimentados para uma carreira brilhante.

    Uaaaau que chique essa mulher gente, nada como uma frustração amorosa pra dar uma alavancada na carreira kkkkkk

  2. Iasmine
    Jul 22, '26 at 5:44 pm

    Ele prometera inventar a rua. Mas S/N não era uma personagem passiva de uma tragédia romântica, destinada a definhar em uma mesa de trabalho esperando que um milagre cruzasse o oceano. Se o destino dele estava acorrentado em Seul, seria ela a mudar as coordenadas do mapa. Recusou Nova York. Recusou Londres. Assinou o contrato com a empresa coreana não por desespero, mas com a compostura de quem retoma as rédeas da própria história.

    CHOOOO CAAAA DAAAAAA… SN é uma LOBAAAA

  3. Iasmine
    Jul 22, '26 at 10:48 pm

    A rota que normalmente exigia uma hora sob o trânsito pesado de Seul foi engolida em metade do tempo. Ele costurava entre os caminhões e ônibus com uma agressividade imprudente. Suas mãos suavam no volante de couro; a respiração vinha curta, áspera. A matemática dos minutos rodava em sua mente: desembarque, controle de passaportes, esteira de bagagens, táxi. Ele estava lutando contra o relógio e contra a imensidão de uma metrópole que parecia especialista em separar pessoas.

    Meuuuu Deus ele desesperado atrás dela.. mas eu não entendi ainda como o secretino dele descobriu que ela tava na Cureia

  4. Iasmine
    Jul 22, '26 at 10:48 pm

    Nenhum dos dois deu um passo. Nenhum dos dois ousou quebrar o feitiço com palavras. Ali, a poucos metros de distância, no asfalto frio da Coreia do Sul, a distância que os separou por meses foi reduzida a nada e a rua que ele prometera inventar finalmente começou a ser traçada.

    Socorrooo ta acontecendo.. eles finalmente de reencontraram pqp

    1. Marcela
      @IasmineAug 1, '26 at 6:21 pm

      [quote]Taehyung parou de golpe. Seus sapatos de couro derraparam levemente no piso úmido. A respiração travou na garganta, os ombros arfando pesadamente pelo esforço e pelo choque de realidade. A imagem dela ali, não numa tela de celular, não numa matéria de jornal, mas em carne, osso e presença parecia uma alucinação tecida pela sua própria obsessão.

      AAAAEEEE PORRA, ELES SE ENCONTRARAAAAM, HURUUUL

  5. Marcela
    Aug 1, '26 at 6:14 pm

    [quote]Ele prometera inventar a rua. Mas S/N não era uma personagem passiva de uma tragédia romântica, destinada a definhar em uma mesa de trabalho esperando que um milagre cruzasse o oceano. Se o destino dele estava acorrentado em Seul, seria ela a mudar as coordenadas do mapa. Recusou Nova York. Recusou Londres. Assinou o contrato com a empresa coreana não por desespero, mas com a compostura de quem retoma as rédeas da própria história.

    isso AEEEE SN, VAI SER FELIZ, PRA CIMAAA

  6. Marcela
    Aug 1, '26 at 6:15 pm

    [quote]— Senhor… Um voo vindo do Brasil acabou de pousar em Incheon. A senhorita S/N foi vista em solo coreano.

    Foge daí Tae, vai atrás dela agooora
    AGR é a tua chance

  7. Marcela
    Aug 1, '26 at 6:16 pm

    [quote]A mente de Taehyung, condicionada nos últimos meses a raciocinar apenas em termos de logística e finanças, entrou em curto-circuito. As perguntas se atropelavam em um caos silencioso: Por que ela veio? Ela leu a mensagem antes do perfil ser destruído? Foi por pura coincidência profissional? Ela sabe o quanto este lugar é perigoso? Eu vou conseguir olhar para ela sem desabar?

    Se pensar demais da merda, homii
    Só vai

  8. Marcela
    Aug 1, '26 at 6:18 pm

    [quote]— Uma questão operacional de urgência — declarou Taehyung, a voz cortante, embora seus olhos traíssem um fogo inquieto. Ele olhou para a secretária no canto. — Recolha o material. Analisarei os pareceres na minha sala mais tarde.

    Ele por dentro: Vá para a pqp tudinho, tchau

  9. Marcela
    Aug 1, '26 at 6:22 pm

    [quote]Nenhum dos dois deu um passo. Nenhum dos dois ousou quebrar o feitiço com palavras. Ali, a poucos metros de distância, no asfalto frio da Coreia do Sul, a distância que os separou por meses foi reduzida a nada e a rua que ele prometera inventar finalmente começou a ser traçada.

    Música de filme de amor ( reencontro )

Nota

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