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O tempo após aquela quarta-feira às dez da manhã deixou de ser linear. Para S/N e Taehyung, o mundo dividiu-se em duas realidades paralelas, distantes por milhares de quilômetros e fardadas ao mesmo silêncio.

Os três dias restantes da viagem de S/N transformaram-se em um teste de resistência. Ela mal conseguia cruzar a soleira da porta do hotel. A Cidade Luz agora parecia um imenso projetor que exibia apenas fantasmas: Taehyung rindo na lavanderia, gesticulando diante do carrinho de crepes ou correndo sob a chuva.

Encolhida na cama, ela encarava a tela do celular. A esperança é uma criatura teimosa, e ela abria o aplicativo L’Ami Local a cada dez minutos. Não havia notificações. O perfil do “Guia V” continuava lá, uma imagem estática em preto e branco com sua câmera Leica. Ela digitou dezenas de mensagens, mas o dedo hesitava sobre o botão de enviar. O orgulho e o medo disputavam espaço, e ela acabava apagando tudo.

Foi nesse silêncio que a ficha caiu com o peso de uma bigorna: ela vasculhou sua lista de contatos e percebeu que não tinha o número de telefone dele. Eles nunca haviam trocado números. Toda a sua existência dependia exclusivamente daquela plataforma de viagens. Quando ela finalmente tomou coragem e enviou um simples “Tae?”, a mensagem permaneceu com o ícone cinzento de não entregue.

Ele não havia dito adeus, não havia deixado um bilhete. Simplesmente entrara naquele carro e desaparecera, deixando-a com a ilusão de que pertenciam ao mesmo mundo. Sem respostas, S/N arrumou suas malas com o coração transformado em uma pedra de gelo e pegou o voo de volta para o Brasil. Paris tinha deixado de ser o remédio para se tornar uma ferida aberta.

A transição de Taehyung foi imediata e implacável. Assim que o jato particular pousou no Aeroporto Internacional de Incheon, o garoto de Daegu que usava boina foi sepultado sob camadas de alfaiataria italiana e expectativas corporativas. O herdeiro havia retornado à sua gaiola de ouro.

Na segunda-feira seguinte, o cenário era o imenso auditório do centro de convenções de Yeouido. O ar-condicionado central operava em uma temperatura congelante. Taehyung estava posicionado no centro do palco, diante de uma maquete monumental do novo complexo portuário automatizado de Busan. Ele vestia um terno azul-marinho de corte cirúrgico, o cabelo perfeitamente alinhado e penteado para trás, revelando a crueza de sua testa e o olhar endurecido.

À sua esquerda, ministros de Estado discursavam; à sua direita, flashes de fotógrafos econômicos estouravam a cada segundo. Taehyung segurava o laser apontador, indicando as zonas de expansão de logística com uma precisão gélida. Não havia o sorriso retangular. Não havia o brilho caótico. Quando um dos acionistas fez uma piada informal antes de assinarem os papéis, Taehyung apenas assentiu com a cabeça, um gesto puramente mecânico e desprovido de qualquer calor humano. Ele se tornara a estátua de bronze que seu pai sempre quis.

De volta ao Brasil, S/N tentava sobreviver. Ela trabalhava de forma totalmente remota, desenvolvendo projetos de consultoria de branding e design estratégico de sua mesa perto da janela. O isolamento do trabalho remoto tornou-se seu refúgio e sua prisão. Ela passava noites em claro encarando o monitor, os dedos voando pelo teclado enquanto criava identidades visuais para clientes estrangeiros.

A dor do engano virou combustível para layouts e conceitos. Ela não saía, não falava sobre a viagem e, num ato de pura autopreservação, desativou todas as notificações de notícias internacionais e bloqueou termos relacionados ao mercado financeiro asiático em suas redes. Ela precisava esquecer o homem que a havia deixado esperando.

Três semanas depois, a engrenagem continuava a girar em Seul. A cena agora era o saguão do Shilla Hotel, durante um banquete de gala para investidores europeus. Taehyung caminhava pelo tapete vermelho ladeado pelo pai e por um cordão de segurança. Os repórteres se espremiam contra as cordas de isolamento, gritando perguntas sobre seu período de desaparecimento na Europa.

Taehyung sequer olhava para os lados. Seus olhos permaneciam fixos no horizonte de portas de vidro do salão. Ele parou para a foto oficial ao lado do presidente da holding: coluna ereta, as mãos unidas à frente do corpo, a expressão completamente impenetrável. Um jornalista coreano chegou a comentar baixo com o colega de câmera: “O jovem Kim parece mais velho. Perdeu aquela rebeldia”. O que ninguém sabia era que, no bolso interno daquele terno de milhares de dólares, o peito de Taehyung pressionava a pequena foto polaroid de S/N contra o coração.

Os meses passaram como um borrão cinzento de prazos para ambos. A dedicação obsessiva de S/N ao seu trabalho remoto gerou frutos: ela desenvolveu uma identidade visual conceitual para uma marca de impacto global que viralizou no mercado internacional, rendendo a ela o prêmio de “Design Estratégico do Ano” por uma renomada associação de comunicação em Nova York. O mérito era puramente técnico, mas seu nome e o link de seu portfólio foram publicados na seção de inovação da Wired e em clippings de negócios.

Naquela mesma madrugada em Seul, Taehyung estava trancado em seu escritório no quadragésimo andar da torre Kang-Dae. A mesa de vidro estava coberta de relatórios de logística. Seus olhos ardiam.

Seu secretário entrou em silêncio e deixou o tablet com o clipping de mídia digital internacional sobre a mesa antes de se retirar. Taehyung, por pura exaustão, arrastou o dedo pela tela do dispositivo. Seus olhos percorreram o artigo de Nova York de forma mecânica, até que a foto da profissional responsável pelo projeto carregou na tela.

O coração de Taehyung deu um solavanco. Era ela. S/N. Na foto de seu portfólio profissional, ela exibia um olhar focado, forte e independente. Ela havia conquistado aquilo sozinha, de sua própria mesa de trabalho, em qualquer canto do mundo. O orgulho que ele sentiu foi tão imenso que o fez esquecer, por um segundo, as correntes que o prendiam ali.

Com as mãos trêmulas, Taehyung abriu a gaveta trancada de sua mesa e puxou o seu antigo celular pessoal — o aparelho comum que usara na Europa. Ao ligá-lo, o ícone do L’Ami Local piscou com um aviso urgente do sistema: a conta do “Guia V” seria deletada definitivamente pelo servidor central nas próximas vinte e quatro horas por ordem do departamento de segurança da família.

Era sua última janela. Sua única chance de furar o bloqueio. Ele buscou nos arquivos ocultos uma foto que tirara da janela do jato executivo da família, exatamente no segundo em que a aeronave cortou o céu cinzento de Paris e as nuvens cobriram os telhados da cidade. Anexou a imagem no chat de S/N e digitou a legenda.

No Brasil, o sol da tarde entrava pela janela de S/N enquanto ela revisava um contrato. De repente, o celular ao lado do teclado vibrou de uma forma que ela achou que nunca mais ouviria: o toque padrão do aplicativo L’Ami Local.

Ela congelou. A caneta escorregou de seus dedos. Com o peito subindo e descendo rapidamente, ela pegou o aparelho.

Havia um alerta vermelho piscando no topo:

[L’Ami Local] Alerta do Sistema: Esta conta do guia “V” foi programada para exclusão definitiva. Última transmissão pendente encontrada.

S/N abriu a notificação com os dedos trêmulos. A interface do aplicativo carregou o chat pela última vez. Lá estava a foto da asa do jato cortando a imensidão das nuvens pálidas acima de Paris. E, logo abaixo, a legenda:

“Nota para o destino: 0/10 para a distância. Mas eu ainda vou inventar uma rua que me leve de volta para você.”

S/N cobriu a boca com a mão, as lágrimas que guardara por meses finalmente rompendo a represa de sua postura profissional. Ela piscou e, antes que pudesse digitar qualquer resposta, a tela do aplicativo piscou. O chat sumiu, a foto desapareceu e uma mensagem cinzenta de sistema cobriu o visor:

“Esta conta foi desativada e excluída permanentemente pelo usuário.”

O Guia V tinha sumido do mapa para sempre, mas o recado de Taehyung tinha sido entregue.

6 Comentários

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  1. Iasmine
    Jul 22, '26 at 5:26 pm

    Os três dias restantes da viagem de S/N transformaram-se em um teste de resistência. Ela mal conseguia cruzar a soleira da porta do hotel. A Cidade Luz agora parecia um imenso projetor que exibia apenas fantasmas: Taehyung rindo na lavanderia, gesticulando diante do carrinho de crepes ou correndo sob a chuva.

    Meu deus a mulher foi pra esquecer um macho e aparece outro pra fazer ela sofre pqp que odio kkkkkkk

  2. Iasmine
    Jul 22, '26 at 5:27 pm

    À sua esquerda, ministros de Estado discursavam; à sua direita, flashes de fotógrafos econômicos estouravam a cada segundo. Taehyung segurava o laser apontador, indicando as zonas de expansão de logística com uma precisão gélida. Não havia o sorriso retangular. Não havia o brilho caótico. Quando um dos acionistas fez uma piada informal antes de assinarem os papéis, Taehyung apenas assentiu com a cabeça, um gesto puramente mecânico e desprovido de qualquer calor humano. Ele se tornara a estátua de bronze que seu pai sempre quis.

    De volta a realidade de herdeiro ne

  3. Iasmine
    Jul 22, '26 at 5:29 pm

    “Nota para o destino: 0/10 para a distância. Mas eu ainda vou inventar uma rua que me leve de volta para você.”

    Chocadaaaaa ele deu esperança oooh mai gaaa

  4. Marcela
    Aug 1, '26 at 6:03 pm

    [quote]Foi nesse silêncio que a ficha caiu com o peso de uma bigorna: ela vasculhou sua lista de contatos e percebeu que não tinha o número de telefone dele. Eles nunca haviam trocado números. Toda a sua existência dependia exclusivamente daquela plataforma de viagens. Quando ela finalmente tomou coragem e enviou um simples “Tae?”, a mensagem permaneceu com o ícone cinzento de não entregue.

    Ela tava tão entregue, vivendo o momento que nem lembrou de pegar o número dele ( n julgo, eu nem conseguiria parar de olhar pra ele )

  5. Marcela
    Aug 1, '26 at 6:05 pm

    [quote]De volta ao Brasil, S/N tentava sobreviver. Ela trabalhava de forma totalmente remota, desenvolvendo projetos de consultoria de branding e design estratégico de sua mesa perto da janela. O isolamento do trabalho remoto tornou-se seu refúgio e sua prisão. Ela passava noites em claro encarando o monitor, os dedos voando pelo teclado enquanto criava identidades visuais para clientes estrangeiros.

    Ocupando a mente pra n pensar nele, aaaah poxa, que situação

  6. Marcela
    Aug 1, '26 at 6:11 pm

    “Nota para o destino: 0/10 para a distância. Mas eu ainda vou inventar uma rua que me leve de volta para você.”

    Que lindo CARAAAA, AAAAA QUE LINDOO

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