Capítulo 14 – Nota para o Destino
por FanfiqueiraA poeira sobre os acontecimentos no Centro de Convenções de Gangnam demorou longas semanas para baixar. Na velocidade da imprensa sul-coreana, uma renúncia corporativa acompanhada da criação de uma divisão independente era o equivalente a um terremoto de grandes proporções. Durante dias, os jornais de negócios de Seul especularam sobre os bastidores da Kang-Dae Logística, tentando entender como o jovem herdeiro conseguira manobrar o conselho internacional para blindar suas próprias operações sem que Kim Kang-dae pudesse impedi-lo.
Mas no topo do edifício em Hanam-dong, o barulho do mundo exterior parecia não encontrar brechas para entrar.
A decisão de Taehyung de romper com o controle sufocante do pai e assumir a própria autonomia não fora um impulso impensado. Fora um movimento estratégico amadurecido no silêncio dos meses em que se sentiu uma estátua de bronze acorrentada a um destino que não escolhera. Livre da obrigação de cumprir a sucessão linear da família e de aceitar arranjos matrimoniais desenhados por gabinetes corporativos, ele passou a administrar sua nova estrutura com uma leveza que há muito não experimentava. Pela primeira vez na vida adulta, Taehyung não precisava medir cada palavra, obedecer a reuniões impostas ou temer que sua vida pessoal fosse apagada por ordens de seu pai.
Para S/N, o encerramento do contrato de consultoria de rebranding com o consórcio NEXUS trouxe a confirmação irrefutável de seu valor profissional. A apresentação impecável que fizera diante dos investidores internacionais e da imprensa consolidara seu nome no mercado da Ásia de forma definitiva. Ela não aceitara atalhos, não se curvara ao cheque de dois milhões de dólares oferecido por Kim Kang-dae e não permitira que ninguém reduzisse sua trajetória a uma simples acompanhante de herdeiro. Ela chegara a Seul como uma profissional independente, treinada pelo próprio esforço e pelo talento que desenvolvera ao longo dos anos, e terminava aquele ciclo com a cabeça erguida e o respeito de todo o consórcio.
A manhã de sábado em Hanam-dong começou sem alarmes.
A luz amarelada do outono atravessava os painéis de vidro da cobertura, desenhando retângulos luminosos sobre o piso de madeira clara. O apartamento, que no primeiro dia parecia um santuário frio e minimalista, agora carregava marcas sutis de vida real: um par de sapatos femininos ao lado da porta do corredor, a pasta de trabalho de S/N repousando na poltrona da sala e a cafeteira elétrica emitindo um borbulhar constante na cozinha americana.
S/N despertou devagar, sentindo a brisa suave que entrava pela fresta da varanda. Ela vestia uma camisa social de algodão oversized de Taehyung e caminhou descalça até a cozinha. O aroma de grãos torrados e pão fresco preenchia o ar.
Taehyung estava de costas para a ilha de mármore, vestindo uma calça de moletom cinza e uma camiseta preta simples. Sem a rigidez dos ternos sob medida, sem o gel que alinhava perfeitamente seus cabelos castanhos e sem a máscara fria do executivo de Yeouido, ele era puramente o homem por quem ela se apaixonara nas ruas de Paris.
Ele se virou no momento em que ouviu o roçar suave de seus pés no chão. Um sorriso lento e retangular surgiu em seus lábios — aquele mesmo sorriso desarmado que ele costumava dar quando ela o pegava errando o caminho de um ponto turístico.
— Bom dia — ele disse, a voz grave e rouca pelo sono recém-abandonado.
— Bom dia — S/N respondeu, encostando a cintura na bancada. — Você está acordado há muito tempo?
— O suficiente para entender que não preciso mais checar as notícias de negócios às sete da manhã — ele respondeu, pegando duas xícaras de cerâmica e deslizando uma delas na direção dela. — E o suficiente para me acostumar com a ideia de que você não vai pegar um voo de volta para o Brasil nas próximas horas.
S/N pegou a xícara quente entre as mãos, levando-a aos lábios antes de encará-lo por cima da fumaça do café.
— O meu trabalho na NEXUS acabou oficialmente ontem à tarde, Kim Taehyung. Meus relatórios foram assinados, os entregáveis aprovados e a equipe local assumiu a implementação da marca. Tecnicamente, eu sou uma mulher livre agora.
Taehyung contornou a bancada devagar, aproximando-se até que seus corpos quase se tocassem. Ele ergueu a mão e afastou uma mecha de cabelo do rosto dela, deixando os dedos descansarem na curva do pescoço de S/N.
— E o que uma mulher livre pretende fazer na Coreia sem um itinerário oficial? — ele perguntou, com um tom aveludado e provocante.
— Eu estava pensando em demitir o meu antigo guia turístico de Paris e contratar um novo em Seul — ela brincou, estreitando os olhos. — Mas o último cobrava valores absurdos por indicações erradas.
Taehyung soltou uma risada baixa, o som ressoando fundo em seu peito. Ele envolveu a cintura dela com os dois braços, puxando-a para perto até colar seus corpos.
— O guia de Seul trabalha com termos diferentes — ele murmurou contra os lábios dela, inclinando a cabeça para selar suas bocas em um beijo calmo, profundo e sem qualquer traço de pressa. Não havia aviões para pegar, ameaças corporativas a evitar ou a incerteza sufocante de não saber quando se veriam novamente. Era apenas a presença física, firme e real um do outro.
— Esses termos parecem aceitáveis — S/N sussurrou quando se separaram a poucos centímetros, a respiração levemente descompassada.
À tarde, o ar frio do outono de Seul convidava a caminhar.
Diferente dos primeiros dias na cidade, quando S/N precisava pegar táxis discretos e Taehyung precisava medir cada aparição pública para evitar os radares de seu pai, os dois saíram do edifício em Hanam-dong a pé. As calçadas de Gangnam e as vielas de Hongdae estavam cobertas por uma camada densa de folhas de ginkgo alaranjadas e amarelas que estalavam sob os sapatos.
Eles andaram de mãos dadas, sem pressa e sem disfarces. Taehyung usava um sobretudo escuro por cima de um suéter de gola alta e óculos de armação fina, enquanto S/N vestia um casaco bege longo e um cachecol macio. Para as pessoas que cruzavam com eles pelas ruas movimentadas — jovens estudantes, casais tirando fotos sob as árvores e comerciantes locais —, eles pareciam apenas dois jovens apaixonados aproveitando o fim de semana.
Pararam em uma pequena galeria de fotografia escondida em um beco de pedra. Taehyung observava as ampliações em preto e branco penduradas nas paredes com um olhar atento, o mesmo olhar fascinado que tinha em Paris quando segurava sua câmera Leica.
— Você sente falta da França? — S/N perguntou em voz baixa, parando ao lado dele diante de uma fotografia de uma ponte antiga sob a chuva.
Taehyung ficou em silêncio por alguns instantes, refletindo. Ele colocou as mãos nos bolsos do sobretudo e virou o rosto para ela.
— Eu não sinto falta da cidade em si — ele respondeu honestamente. — Sinto falta da sensação de não ter um sobrenome pesado para carregar. Em Paris, quando eu caminhava com você, ninguém sabia quem era o meu pai. Ninguém me cobrava relatórios ou reuniões. Eu era só um cara com uma câmera e uma mulher teimosa do lado me dizendo que o mapa estava dobrado errado.
Ele sorriu com a lembrança, mas a expressão em seu rosto tornou-se suave e madura.
— Mas hoje eu percebi uma coisa… A liberdade que eu procurava em Paris não estava nos boulevards franceses. Estava na coragem de encarar a minha vida em Seul e dizer ‘não’ para o que queriam fazer de mim. Eu não preciso mais fugir para o outro lado do mundo para ser quem eu sou.
S/N segurou o braço dele, encostando a cabeça em seu ombro por um segundo.
— Você venceu aquela guerra, Tae. Você não é mais a estátua de bronze de ninguém.
— Nós vencemos — ele corrigiu, entrelaçando seus dedos com os dela com firmeza.
Ao saírem da galeria, caminharam até um parque calmo nas proximidades de Namsan. A vista do alto permitia enxergar toda a metrópole de Seul: o rio Han cortando a cidade como uma serpente de prata, os arranha-céus espelhados brilhando sob a luz alaranjada do pôr do sol e as montanhas ao fundo emoldurando o horizonte.
Eles se sentaram em um banco de madeira sob a copa de uma árvore antiga. O vento frio soprava suavemente, fazendo as folhas amarelas caírem ao redor deles.
S/N abriu o zíper de sua bolsa de couro e tateou o fundo até encontrar o que procurava. Quando puxou a mão de volta, colocou sobre o banco, entre eles, o objeto pequeno com a capa de couro escuro surrada pelas pontas, gasta pelo tempo e marcada por viagens.
O bloco de notas de Paris.
Taehyung parou no mesmo instante. Seus olhos castanhos se arregalaram sutilmente e ele encarou o pequeno caderno com o peito subindo e descendo em uma respiração suspensa. A memória daquela tarde na França o atingiu com força: o momento em que precisou se afastar dizendo que iria ao hotel pegar algo, entrar naquele carro e partir para não complicar a vida dela, deixando para trás apenas a sua escolha dolorosa.
Ele estendeu os dedos devagar, tocando a capa de couro com hesitação.
— Você… você pegou o bloco? — a voz dele saiu em um sussurro rouco, carregado de uma emoção profunda. — Achei que você tivesse deixado ele para trás.
S/N sorriu com os olhos marejados, cobrindo a mão dele sobre a capa do caderno.
— Eu vi você ir embora, Tae — ela explicou suavemente. — E quando voltei para a mesa do café, vi que você tinha deixado esse bloco para trás. Eu peguei e guardei na minha bolsa. Ele viajou comigo de volta para o Brasil e veio comigo para Seul. Todas as vezes em que a distância parecia insuportável ou em que eu tentava entender por que você tinha partido daquele jeito, eu abria esse caderno para me lembrar de que o que vivemos em Paris tinha sido real.
Taehyung piscou rápido, engolindo em seco diante da revelação de que ela guardara a sua lembrança com tanto carinho durante todos aqueles meses. ele abriu o bloco com cuidado infinito.
Ali estavam os registros vivos de toda a história dos dois. Os rabiscos feitos a caneta azul com itinerários tortos; os preços absurdos de três euros anotados em tom de piada por rotas erradas; o endereço daquele café pequeno perto do Sena onde se abrigaram da tempestade; as anotações sarcásticas que S/N escrevera na margem provocando a falta de orientação dele.
Taehyung tirou uma caneta do bolso do sobretudo e a colocou sobre o bloco aberto, entregando-a para S/N.
— Naquele dia em Paris, eu entrei naquele carro e fui embora porque achava que era a única forma de te proteger do mundo do meu pai — ele disse, encarando-a com os olhos brilhando sob a luz do entardecer. — Mas você guardou esse caderninho na bolsa por todo esse tempo. Escreve a última página comigo?
S/N pegou a caneta. Suas mãos tremiam sutilmente. Ela olhou para a frase dele no papel e reviveu mentalmente cada passo daquela jornada: o primeiro encontro em Paris, a dor de vê-lo ir embora no carro, a coragem de aceitar o projeto na Coreia, a recusa firme de se deixar comprar pelo suborno de Kim Kang-dae e o reencontro definitivo sob as luzes de Seul.
Ela apoiou o bloco sobre o joelho e escreveu, com sua caligrafia firme e decidida:
“A rua nunca foi um endereço no mapa. Foi a coragem de não desistir do caminho.”
Taehyung pegou a caneta das mãos dela. Ele sorriu, um sorriso cheio de alívio e devoção, e completou a última linha logo abaixo, selando a folha final daquele caderno:
“E a certeza de caminhar nele juntos. Hoje, amanhã e onde quer que a gente escolha estar.”
Taehyung fechou o bloco de notas de couro com um estalido suave e o devolveu com carinho para as mãos de S/N, para que ela o guardasse de volta na bolsa. Em seguida, pegou as duas mãos dela, trazendo-as para o centro de seu peito, onde o coração dele batia em um ritmo tranquilo e constante sob o tecido do suéter.
O sol finalmente se pôs atrás das montanhas de Namsan, tingindo o céu de Seul em tons profundos de violeta, rosa e dourado. As luzes da metrópole começaram a se acender uma a uma lá embaixo, transformando a vista em um oceano brilhante.
A promessa estava cumprida. Não havia mais fantasmas de Paris a perseguir, não havia mais ameaças corporativas suspensas sobre suas cabeças e não havia mais a angústia da separação. A rua que Taehyung prometera inventar nunca fora um trecho de asfalto em um mapa geográfico; fora o caminho de integridade, coragem e amor que os dois escolheram pavimentar contra todas as probabilidades.
Taehyung aproximou-se devagar, envolvendo o rosto de S/N com as duas mãos quentes. Ele a encarou por alguns segundos em silêncio, gravando cada detalhe daquele momento em sua memória, antes de inclinar a cabeça e selar seus lábios em um beijo profundo, calmo e repleto de uma certeza inabalável.
Ali, no ponto mais alto de Seul, cobertos pelo vento frio do outono e cercados pelas luzes da cidade, eles não eram mais o guia e a turista, nem o herdeiro e a consultora. Eram apenas duas pessoas livres que haviam enfrentado o mundo para provar que, no final das contas, o único destino que importa é aquele que nós mesmos temos a coragem de escrever.

Visão privilegiada de Seoul
runn sabemos viu Taehyung se paga com xereca
Aaah ela é muito fofa e determinada ne
Amei esse cliche fofo escritora.. agora quero um Tae desse