Capítulo 12 – Cinco Dias em Um Segundo
por FanfiqueiraA opressão do mármore frio contra os joelhos de Hoseok foi o primeiro choque de realidade ao atravessar a barreira transparente. O estalido seco da transição ainda ressoava em seus ouvidos, misturando-se com o silêncio estéril e quase agressivo de seu apartamento de luxo em Seul.
Ele caiu de joelhos sobre o piso polido, sem forças para se manter em pé. Desabou para a frente, sentando-se no chão e abraçando os próprios joelhos contra o peito, exatamente de frente para a moldura imponente do espelho. As pernas tremiam. Ele usava a mesma roupa com a qual havia cruzado o portal que pertenciam à sua vida naquele outro universo, o mundo onde você existia. As lágrimas, contidas a custo durante a despedida, finalmente transbordaram, descendo quentes e rápidas pelo seu rosto, pingando na madeira do piso.
De repente, uma voz quebrou o silêncio absoluto do cômodo.
— …e a equipe de comunicação já aprovou a nota sobre a mudança, mas precisamos que você confirme o horário da entrega dos móveis restantes amanhã cedo. Hoseok?
Hoseok deu um sobressalto violento, o coração disparando contra as costelas como se estivesse prestes a explodir. Ele girou o corpo rapidamente, assustado com a presença repentina. Em pé no meio da sala, segurando um iPad em uma das mãos, estava o seu manager.
Enquanto Hoseok se levantava rápido, limpando o rosto com as costas da mão em um gesto afobado e desesperado para esconder o choro, o empresário franziu o cenho, olhando-o de cima a baixo com pura perplexidade.
— Espera… quando foi que você trocou de roupa? — o manager perguntou, inclinando a cabeça, genuinamente confuso.
Hoseok congelou. A mente dele deu um nó cego. Ele imaginou que a sua contrapartida o Hoseok do outro universo que teria ficado em seu lugar, estivesse usando roupas completamente diferentes, talvez o figurino de treino ou as peças de marca que deixara no closet.
— Eu… bem, é que… — Hoseok tentou balbuciar qualquer desculpa, a voz falhando, a garganta seca como deserto. — Eu precisei mudar rápida…
— Como assim? — o manager o interrompeu, rindo de forma curta e sem entender nada. — Hoseok, nós acabamos de pisar aqui dentro! As suas malas principais nem saíram do carro da equipe ainda, o pessoal do transporte tá subindo com as últimas caixas agora. Como é que você trocou de calça e jaqueta em questão de dez segundos? Você nem foi até o quarto!
A informação atingiu Hoseok como um golpe físico no estômago. O ar faltou em seus pulmões. Ele deu dois passos para trás, a cabeça girando enquanto olhava ao redor. O apartamento estava exatamente do mesmo jeito de quando ele havia saído. As caixas de papelão lacradas no canto da sala, a luz da tarde entrando pela janela na mesma inclinação, o mesmo silêncio de quando pisara ali antes do espelho ondular pela primeira vez.
Atordoado, Hoseok deu um passo à frente, agarrando o ombro do manager com uma força desmedida.
— Que dia é hoje?! — Hoseok exigiu, os olhos arregalados, a voz embargada pelo pânico. — Que horas são?! Em que ano a gente tá?! Fala logo, por favor!
O empresário deu um passo em falso para trás, assustado com a reação desproporcional e os olhos vermelhos do artista.
— O quê? Hoseok, você tá bem? É terça-feira, dia 25. São quatro e meia da tarde! A gente acabou de sair do estacionamento! Você dormiu em pé ou o quê?
— Isso é impossível! — Hoseok gritou, a voz ecoando pelas paredes altas e vazias da sala. Ele levou as mãos à cabeça, puxando os próprios cabelos em puro desespero. — Isso é absolutamente impossível! Eu fiquei lá dentro por cinco dias! Cinco dias inteiros! Eu dormi lá, eu comi lá, eu trabalhei, eu ensinei dança, eu vivi outra vida! Como assim não passou nem um minuto aqui?!
O manager soltou uma risada nervosa, dando mais um passo para trás e encarando Hoseok como se ele estivesse surtando completamente.
— Do que você tá falando, cara? Ficou dentro de onde? Ficou louco?
— Dentro do espelho! — Hoseok apontou o dedo trêmulo para a peça de vidro na parede, caminhando até ela e batendo a palma da mão com força contra a superfície sólida. O impacto produziu um som seco e frio. — Aqui! O espelho ondulou, virou água, eu atravessei! Eu passei dias do outro lado com uma mulher, eu vivi uma vida inteira lá! Toca aqui! Olha isso!
Hoseok empurrava a mão contra o espelho, mas a superfície permaneceu rígida, inflexível, refletindo apenas a imagem de dois homens em pânico no meio de uma sala espaçosa.
O manager olhou para a mão de Hoseok no vidro e depois para o rosto desfigurado pelo sofrimento do idol. O olhar do empresário mudou de confusão para uma profunda preocupação clínica. Ele achava que o homem à sua frente havia perdido completamente o juízo devido à exaustão acumulada.
Percebendo o olhar de pena e choque do outro, Hoseok travou. O calor do desespero deu lugar a um gelo na espinha. Ele acha que eu enlouqueci, Hoseok pensou. Se eu continuar falando, vão me internar ou me afastar de tudo.
Ele recolheu a mão devagar, fechou os olhos, puxou o ar com força para os pulmões e soltou um longo suspiro.
— Esquece… — Hoseok murmurou, a voz subitamente baixa, neutra, a máscara de profissionalismo voltando à marra. — Esquece. Foi só… uma tontura. Uma brincadeira sem graça.
O manager respirou fundo, soltando o ar acumulado e ajeitando o casaco.
— Olha, Hoseok… se o problema for essa peça aí, se essa decoração tá te deixando desconfortável ou te dando alucinação de cansaço, a gente tira o espelho daqui agora mesmo. Eu mando o pessoal da mudança levar embora e…
— NÃO! — o grito de Hoseok cortou a fala do homem com a violência de uma chicotada. A voz saiu rasgada, quase agulhada.
O empresário deu um pulo para trás, piscando repetidamente, em choque com a alteração repentina.
— Quer dizer… não — Hoseok corrigiu-se imediatamente, baixando o tom de voz, embora o peito subisse e descesse em arfadas rápidas. — Não precisa tirar. Deixa o espelho onde tá. Por favor. Eu tô bem… só preciso ficar sozinho. Por favor, me deixa sozinho.
— Tá… tá bom — o manager disse, erguendo as mãos em sinal de rendição, encarando-o com extrema cautela. — Você quem sabe. Mas ó, não se esquece: em três dias você tem o ensaio de reajuste de coreografia com os outros membros do BTS. É o primeiro reencontro de vocês na sala de prática depois da pausa. Eu te mando mensagem lembrando amanhã, mas tenta descansar.
Ao ouvir o nome do grupo BTS, Hoseok fechou os olhos e baixou a cabeça. As letras daquela sigla que definia sua existência pareciam pesar toneladas.
É… eu voltei mesmo, ele pensou, sentindo uma pontada amarga no peito. O palco, a rotina, o peso de ser o J-Hope… tá tudo aqui me esperando.
— Obrigado. Pode ir — Hoseok disse sem olhar para ele.
O manager hesitou por um segundo, olhou de relance para o espelho na parede com desconfiança, mas acabou se virando e caminhando até a porta social, saindo e fechando-a com um clique suave.
No segundo em que a porta se trancou, o silêncio desabou novamente sobre Hoseok. Ele caminhou até a mesa de canto onde seu celular pessoal repousava. Pegou o aparelho, acendeu a tela e encarou o visor. O relógio marcava exatamente o mesmo dia e horário de quando havia chegado do aeroporto.
— Isso é impossível… — ele sussurrou para o cômodo vazio, os polegares deslizando pela tela sem rumo. — Como eu passei tanto tempo lá… e aqui não passou mais do que poucos minutos? Será que eu tô ficando maluco? Será que o cansaço da turnê finalmente queimou meu cérebro?
Ele passou a mão pelo rosto, sentindo o suor frio e a pele desgastada.
— Ah… chega. Eu vou tomar um banho e tentar descansar.
Hoseok caminhou a passos pesados até o banheiro da suíte principal. Ligou o chuveiro, deixou a água morna cair sobre a cabeça e tirou as roupas devagar. Quando se colocou debaixo do jato de água e fechou os olhos para passar o xampu nos cabelos, a imagem do seu rosto emergiu na mente dele com uma clareza assustadora: o seu sorriso naquela cozinha iluminada, o gosto da sua boca, a textura da sua pele nua sob as mãos dele, o cheiro doce do seu pescoço.
Ele abriu os olhos no mesmo instante, a respiração cortada.
Não, ele pensou com convicção, enquanto a água escorria por seu peito. Aquilo não foi uma alucinação por cansaço. Eu senti o calor dela. Eu provei a comida. Eu vi o amor nos olhos dela. Uma mente exausta não inventa detalhes tão perfeitos e profundos.
Ao sair do banho, movido por um impulso mecânico de tentar se ater à realidade, Hoseok começou a desembalar algumas caixas e desfazer a mala principal. Ele arrumou algumas roupas nas gavetas, organizou seus sapatos no closet, tentando ocupar as mãos para não surtar. Contudo, assim que terminou e finalmente se deitou na cama king size do quarto principal, o peso dos cinco dias acumulados naquele outro universo cobrou seu preço de uma só vez. O corpo dele simplesmente desligou. Ele apagou profundamente, caindo em um sono denso e sem sonhos, como se estivesse há semanas sem dormir.
Ele voltou para o exato instante que ele entrou no espelho?
Veiii 10 fucking segundos? To chocada
Parecendo um lunático falando.. cuidado pra não parar la no caps
Homem ja não faz sentido tu atravessar o espelho