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O sol nem sequer havia despontado no horizonte de Seul quando a primeira perturbação da noite rasgou o silêncio do apartamento de luxo.

— Hobi? Amor…

A voz veio limpa, suave, sussurrada bem ao pé do seu ouvido, carregada daquela mesma entonação acolhedora que o resgatava de qualquer tempestade. Hoseok despertou em um sobressalto violento, o peito subindo e descendo em arfadas descontroladas. O lençol de seda estava preso entre suas pernas e o suor frio escorria do seu pescoço, ensopando o tecido da camiseta preta. Ele tateou a cama às cegas, os dedos buscando desesperadamente o calor de um corpo que não estava lá. Ao seu lado, a cama de casal continuava perfeitamente esticada, fria e intocada.

Massageou o rosto com as duas mãos, sentindo o tremor sutil nos dedos. Mais uma noite. Mais uma madrugada em que o cérebro exausto pregava a mesma peça cruel. Desde a consulta com a Dra. Kang e a promessa de se reancorar na realidade, os dias haviam se transformado em uma maratona de exaustão mental.

Caminhando com passos pesados pelo piso de mármore do corredor, Hoseok foi até a cozinha para pegar um copo de água gelada. No entanto, para chegar lá, ele era obrigado a passar pela sala de estar. E lá estava ele.

O espelho de corpo inteiro continuava exatamente onde ele o deixara no dia anterior: coberto pelo pesado lençol branco. Mas a presença daquele objeto no ambiente havia se tornado insuportável. Parecia ter peso próprio, uma gravidade estranha que puxava o olhar de Hoseok mesmo na penumbra. Sob o tecido denso, a estrutura parecia pulsar silenciosamente, emitindo um chamado mudo, uma provocação constante que fazia o ar da sala parecer denso e difícil de respirar. Passar por ele causava um incômodo visceral, um arrepio na espinha que o fazia acelerar o passo. Era como viver com um estranho observando cada movimento seu debaixo de um pano.

Segurando o copo com as duas mãos para disfarçar o tremor, ele encarou a silhueta coberta antes de retornar ao quarto. Não conseguiu dormir mais. O restante da madrugada foi gasto encarando o teto acinzentado, contando os segundos até o despertador tocar.

À tarde, Hoseok estava novamente sentado na poltrona do consultório particular no distrito corporativo. A luz suave e a música de fundo eram projetadas para relaxar, mas ele permanecia com a postura rígida, as mãos entrelaçadas sobre os joelhos.

A Dra. Kang o observava por cima dos óculos de armação fina, anotando algo em seu bloco com gestos calmos.

— E como têm sido as noites desde que começamos o tratamento, Hoseok-shi? — perguntou ela, inclinando-se ligeiramente para a frente.

Ele soltou um suspiro longo, o cansaço visível nas olheiras fundas que a maquiagem leve não conseguia esconder por inteiro.

— Eu estou tentando seguir tudo à risca, Dra… Tomo os ansiolíticos, mantenho a rotina, mas a minha mente parece se recusar a aceitar — confessou ele, a voz um pouco rouca. — Eu continuo acordando no meio da madrugada. É sempre a mesma coisa. Eu ouço a voz da SN chamando pelo meu nome. Tão nítida, tão perto, que chego a procurar por ela na cama. E o espelho… ele continua na sala.

A psicóloga fez uma breve pausa, a caneta suspensa no ar.

— O espelho está coberto pelo lençol?

— Sim. Ele está me incomodando demais — Hoseok passou a mão pelo cabelo, visivelmente frustrado. — Parece que ele tem uma força magnética. Toda vez que eu passo por ele na sala, sinto uma vontade absurda de puxar aquele lençol. É uma sensação sufocante, como se aquele objeto estivesse me chamando para continuar alimentando a ilusão. Eu fico encarando o tecido por minutos, travado, travando uma batalha contra mim mesmo.

A médica assentiu com empatia, registrando as palavras no papel.

— O que você está vivenciando é a persistência do gatilho simbólico, Hoseok. Cobrir o espelho ajudou a evitar o impacto visual imediato, mas a sua mente sabe que ele continua ali, funcionando como um monumento ao episódio dissociativo. Enquanto ele estiver no seu espaço de convivência principal, ele vai atuar como uma âncora para a ansiedade. O meu conselho profissional é que você se desfaça dele. Venda, dooe ou mande entregar para outra pessoa. Elimine o símbolo da sua casa para que seu cérebro possa finalmente entender que aquele ciclo fechou.

Hoseok encarou o chão por alguns segundos. A ideia de se desfazer completamente do espelho fez seu peito apertar com um remorso inexplicável, mas a razão médica falava mais alto. Ele precisava da sua sanidade de volta.

— A senhora tem razão — ele disse, engolindo em seco. — Eu vou dar um jeito nisso. Não posso continuar vivendo assim.

A determinação, contudo, desmoronou na madrugada seguinte.

Eram três horas da manhã quando o fenômeno atingiu o seu pico mais aterrorizante. Hoseok não apenas ouviu a voz dela chamando seu nome com uma urgência dolorosa — “Hobi… acorda” —, mas sentiu. Um toque suave, morno e inconfundível de dedos deslizando pelo seu ombro esquerdo, descendo pela curva do seu pescoço. O roçar de uma pele real, com peso e temperatura.

Hoseok sentou-se na cama num pulo, soltando um grito preso na garganta. O coração batia tão forte contra as costelas que parecia prestes a quebrar o osso. Ele estava encharcado de suor, a respiração curta e desordenada, o corpo inteiro tremendo em choque.

— SN? — ele chamou, desespero puro na voz.

A escuridão do quarto não respondeu.

Dando um salto da cama, ele correu descalço para a sala, acendendo todas as luzes pelo caminho. A claridade artificial cegou seus olhos por um segundo. Ele foi até o espelho, agarrou a barra do lençol branco e o arrancou com força de uma só vez, jogando o tecido no chão.

O espelho de corpo inteiro estava perfeitamente intacto. O vidro refletia apenas ele: um homem de calça de moletom, descabelado, suado, com os olhos arregalados e assustados de quem beirava a loucura. Não havia névoa, não havia ondulação, não havia toque. Apenas o reflexo frio de um apartamento de luxo silencioso e vazio. Nada. Ninguém.

— Eu estou ficando louco… — ele sussurrou para o nada, as lágrimas de frustração queimando nos cantos dos olhos. — Eu estou completamente maluco.

Com a respiração ainda arfante e o pânico alimentando uma força física repentina, Hoseok agarrou a moldura pesada do espelho. Ele não conseguiria colocá-lo para fora do apartamento àquela hora sem chamar a atenção dos vizinhos ou da segurança do prédio, mas recusava-se a passar mais um segundo dividindo o mesmo ar com aquele vidro.

Ele arrastou a peça pelo corredor, o metal da base rangendo contra o chão de madeira, até alcançar a porta do quarto de despejo no fundo do apartamento. Aquele era o ambiente onde ele acumulava caixas de presentes de fãs que não tinha onde expor, malas de viagem antigas, equipamentos de som substituídos e itens de decoração comprados em turnês que ele nunca usara. Um cômodo entulhado de bagunças sem uso frequente.

Hoseok abriu caminho entre duas caixas de papelão grandes, empurrou o espelho para o canto mais escuro e fundo do quarto, atrás de um armário desmontado, e jogou o lençol branco por cima novamente, cobrindo-o de qualquer ângulo de visão. Em seguida, saiu do quarto, bateu a porta com força e girou a chave na tranca.

Apoiou as costas contra a madeira da porta trancada, deixando-se escorregar até o chão, a cabeça baixa entre os joelhos até o amanhecer.

A consequência daquela noite de terror foi um dia inteiro arrastando o corpo. Hoseok não conseguiu pregar os olhos nas horas restantes. Na manhã seguinte, seguiu para o complexo da empresa com o piloto automático ligado.

No entanto, a rotina pesada acabou agindo como um remédio involuntário. Ele passou o dia inteiro trancado na sala de ensaios principal com os outros seis integrantes do grupo. O treino de coreografia para os compromissos futuros foi exaustivo, exigindo cada gota de sua energia física e atenção mental. Passaram horas repetindo passos acelerados, ajustando formações milimétricas sob o som alto dos alto-falantes e as correções constantes entre os membros. Quando a dança terminou, ele se trancou no estúdio para revisar arranjos e ajustar métricas de áudio que precisavam ser entregues em breve.

O esforço físico e a ocupação constante da mente não deixaram margem para que os pensamentos invasivos se criassem. Quando ele finalmente retornou ao apartamento, já passava da meia-noite. O corpo doía, os músculos da coxa queimavam de fadiga e a mente estava anestesiada pelo cansaço limpo do trabalho duro.

Hoseok arrastou-se até o banheiro, tomou um banho quente demorado deixando a água relaxar a tensão dos ombros, vestiu uma roupa leve e caiu na cama.

Pela primeira vez em semanas, a escuridão do sono o engoliu instantaneamente. Não houve vozes. Não houve toques fantasia. Não houve despertares assustados às três da manhã. Hoseok dormiu uma noite completa, profunda e restauradora, descansando sem interrupções até o alarme tocar na manhã seguinte.

Quando abriu os olhos às oito da manhã, a luz do sol invadia o quarto de forma aconchegante. Hoseok piscou algumas vezes, surpreso com a sensação desconhecida de leveza que tomava seu peito. Ele sentou-se na cama, espreguiçou-se demoradamente e percebeu que a névoa pesada de exaustão e ansiedade que o acompanhava havia simplesmente dissipado.

Ele acordara de excelente humor. Uma disposição vibrante, há muito esquecida, corria por suas veias. O ato de ter trancado o espelho naquele quarto escuro e ter se entregado ao trabalho parecia ter quebrado o feitiço psíquico que o atormentava. Ele estava pronto para retomar as rédeas da sua vida real.

A agenda do grupo ainda previa cerca de duas semanas de permanência na Coreia do Sul antes dos próximos compromissos internacionais. Seria um período intenso, recheado de reuniões de alinhamento, ajustes de conceito, ensaios gerais e, principalmente, projetos individuais de cada membro.

E aquele dia em específico era muito importante para Hoseok: ele tinha uma agenda solo completa. Pela manhã, realizaria uma sessão de fotos para a capa de uma renomada revista de moda internacional em um estúdio privativo no centro de Seul, seguida por uma gravação comercial para uma grande marca de tecnologia global com a qual mantinha contrato de embaixador.

Hoseok tomou um café da manhã reforçado, vestiu-se com um conjunto casual elegante e desceu para encontrar seu empresário na garagem. O trajeto até o estúdio de fotografia foi marcado por conversas animadas sobre o conceito do ensaio. No set de filmagens, sob as luzes profissionais e a equipe de produção correndo de um lado para o outro, Hoseok entregou uma performance impecável. Sua energia contagiante, a precisão nas poses e o sorriso largo habitual deixaram a equipe de produção impressionada, arrancando elogios do diretor do ensaio. A aura pesada dos dias anteriores fora totalmente substituída pelo profissionalismo radiante do grande artista que ele era.

Por volta das quatro da tarde, antes do seu compromisso seguinte com a psicóloga, Hoseok aproveitou um intervalo na camarim para mandar uma mensagem no grupo de conversa dos membros.

“Pessoal, dormi como um anjo esta noite e estou com a energia renovada! Quem está livre para tomar uns drinks e comer uma carne hoje à noite depois dos compromissos? Eu pago.”

As respostas não demoraram a piscar na tela, com mensagens animadas de Tae, Jimin e Jungkook confirmando presença em um restaurante reservado e discreto que eles costumavam frequentar quando queriam privacidade.

No final da tarde, Hoseok chegou para sua consulta de acompanhamento com a Dra. Kang. Desta vez, ao entrar na sala, sua postura era completamente diferente. Ele caminhava com passos firmes, ombros relaxados e um sorriso genuíno no rosto.

A médica notou a mudança imediatamente e sorriu ao apontar para a poltrona.

— Bom ver você assim, Hoseok. A sua expressão está irreconhecível em comparação com a nossa última sessão. Como foi a sua noite?

Hoseok acomodou-se confortavelmente na poltrona, cruzando as pernas de forma descontraída.

— Dra., a senhora não faz ideia. Depois da nossa conversa, eu tomei uma atitude radical — ele começou a explicar, gesticulando com as mãos. — Tive um momento difícil de madrugada, mas decidi resolver o problema da forma mais prática possível. Como não podia tirar o espelho do apartamento no meio da noite, eu o arrastei para o fundo de um quarto da bagunça que tenho lá. Um cômodo onde só guardo caixas, malas e coisas antigas que não uso. Coloquei o espelho lá no fundo, cobri bem e tranquei a porta.

A Dra. Kang ouvia com atenção, fazendo uma anotação positiva na prancheta.

— E qual foi o impacto disso na sua rotina?

— Foi imediato — revelou Hoseok, o brilho nos olhos confirmando a veracidade das palavras. — Ontem eu passei o dia focado nos ensaios, trabalhei no estúdio até tarde e cheguei em casa exausto. Deitei e dormi por oito horas seguidas! Sem acordar no meio da noite, sem ouvir voz nenhuma, sem sentir nada estranho. Acordei hoje com uma disposição que não sentia há meses. Tive um trabalho solo fantástico hoje cedo e já combinei de encontrar os meninos mais tarde para comemorar.

A psicóloga pousou a caneta e o encarou com aprovação refinada.

— Isso é um avanço extraordinário, Hoseok-shi. O ato de trancar o objeto naquele quarto funcionou para a sua mente como o sepultamento definitivo daquele episódio de estresse. Você colocou a ilusão no lugar onde ela pertence: em um depósito de coisas do passado que não têm utilidade no seu presente. A sua decisão de focar na rotina concreta com o grupo e nos seus projetos individuais é exatamente a chave para consolidar a sua recuperação.

— Eu me sinto no controle de novo, Dra. Kang — afirmou ele com convicção. — Sei que o processo exige paciência, mas hoje eu tenho certeza de que o meu lugar é aqui, na minha realidade.

Ao sair do consultório, a brisa do final de tarde em Seul pareceu mais fresca e agradável. O peso sufocante no peito derretera por completo. Ele entrou na van que o aguardava na calçada, pronto para seguir para o ponto de encontro com os amigos, ciente de que as próximas semanas seriam de muito trabalho, risadas e reencontro com a sua melhor versão. O espelho continuava trancado no escuro daquele quarto, mas Hoseok, finalmente, sentia-se livre.

4 Comentários

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  1. Iasmine
    Sep 26, '26 at 4:33 pm

    A voz veio limpa, suave, sussurrada bem ao pé do seu ouvido, carregada daquela mesma entonação acolhedora que o resgatava de qualquer tempestade. Hoseok despertou em um sobressalto violento, o peito subindo e descendo em arfadas descontroladas. O lençol de seda estava preso entre suas pernas e o suor frio escorria do seu pescoço, ensopando o tecido da camiseta preta. Ele tateou a cama às cegas, os dedos buscando desesperadamente o calor de um corpo que não estava lá. Ao seu lado, a cama de casal continuava perfeitamente esticada, fria e intocada.

    Escritora acho que to ficando esquizo junto hoseok kkkkkk

  2. Iasmine
    Sep 26, '26 at 4:34 pm

    Eram três horas da manhã quando o fenômeno atingiu o seu pico mais aterrorizante. Hoseok não apenas ouviu a voz dela chamando seu nome com uma urgência dolorosa — “Hobi… acorda” —, mas sentiu. Um toque suave, morno e inconfundível de dedos deslizando pelo seu ombro esquerdo, descendo pela curva do seu pescoço. O roçar de uma pele real, com peso e temperatura.

    Gente não é possível ate eu to ficando com medo, ela é um fantasma?

  3. Iasmine
    Sep 26, '26 at 4:37 pm

    Hoseok abriu caminho entre duas caixas de papelão grandes, empurrou o espelho para o canto mais escuro e fundo do quarto, atrás de um armário desmontado, e jogou o lençol branco por cima novamente, cobrindo-o de qualquer ângulo de visão. Em seguida, saiu do quarto, bateu a porta com força e girou a chave na tranca.

    Não julgo pq eu faria o mesmo ou ja teria arrastado o espelho pra rua

  4. Iasmine
    Sep 26, '26 at 4:43 pm

    Ao sair do consultório, a brisa do final de tarde em Seul pareceu mais fresca e agradável. O peso sufocante no peito derretera por completo. Ele entrou na van que o aguardava na calçada, pronto para seguir para o ponto de encontro com os amigos, ciente de que as próximas semanas seriam de muito trabalho, risadas e reencontro com a sua melhor versão. O espelho continuava trancado no escuro daquele quarto, mas Hoseok, finalmente, sentia-se livre.

    Ta tudo muito pacífico, que estranho

Nota