Capítulo 6 – A Dissonância do Silêncio
por FanfiqueiraA semana que antecedeu a viagem para Viena foi, para a Orquestra Filarmônica de Seul, um borrão de atividades frenéticas, ajustes de vistos e caixas de instrumentos sendo lacradas. Mas para Yrys, cada dia parecia uma nota longa e sustentada em um tom menor, vibrando com uma ansiedade que ela se recusava a nomear.
Ela chegava ao auditório trinta minutos antes do horário combinado. Era uma desculpa para “aquecer”, mas a verdade era que, toda vez que ela cruzava o portal de entrada, seus olhos faziam uma varredura periférica automática. Ela procurava pelo porte elegante, pelo terno escuro, pela fumaça de um cigarro que não deveria ser aceso ali dentro.
Mas não havia nada.
Namjoon havia desaparecido.
Desde a noite da discussão sob o dilúvio, quando ele a chamara de “erro tático” e a deixara com um guarda-chuva que pesava como uma condenação, o CEO da Phoenix não dera sinal de vida. Não houve mais “auditorias”, não houve mais o olhar pesado vindo da plateia, não houve sequer uma mensagem através do Diretor Choi.
Yrys sentava-se ao piano, as mãos pousadas sobre as teclas frias. Era isso que eu queria, não era?, ela se perguntava, o cenho franzido. Eu disse para ele me deixar em paz. Eu disse que não queria o mundo dele.
A lógica dizia que ela deveria estar aliviada. Ela tinha o seu apartamento novo, o seu emprego estável e a grande chance da sua vida batendo à porta. Ela era a “boa filha” que mandava o dinheiro para o Brasil religiosamente toda sexta-feira, mantendo a vida da mãe e da irmã em ordem. Sua rotina estava voltando ao eixo.
Mas o eixo estava torto.
Sempre que a porta lateral do auditório se abria com um rangido metálico, o coração de Yrys saltava para a garganta. Ela perdia o tempo do compasso, sua respiração falhava por um milissegundo, apenas para sentir a queda de adrenalina logo em seguida ao perceber que era apenas um técnico de som ou um violinista atrasado.
A ausência de Namjoon era mais barulhenta do que sua presença. Era uma omissão deliberada que a perturbava, que a fazia questionar se ele realmente a tinha descartado como um investimento ruim ou se, pior, ele tinha ouvido o seu desprezo e decidido que ela não valia o esforço.
E, para o seu próprio horror, a ideia de não valer o esforço doía mais do que a perseguição dele.
— Do início, por favor! — gritou o Diretor Choi, batendo a batuta no pedestal. — Yrys, lembre-se: Prokofiev não é para ser bonito. É para ser brutal. É o som das máquinas, da guerra, da alma russa sendo espremida. Mais ataque!
Yrys assentiu, limpando o suor da testa. Ela mergulhou nas teclas com uma agressividade que surpreendeu a todos. O Concerto para Piano No. 2 de Prokofiev era uma sucessão de acordes dissonantes e saltos impossíveis. Ela estava usando a música como um escudo. Cada nota martelada era uma resposta às palavras dele.
Erro tático. (Acorde de Dó menor) Curiosidade saciada. (Salto de oitava) Patético. (Glissando furioso)
Enquanto tocava, ela sentia que estava perdendo a sanidade. Seus olhos voltavam-se involuntariamente para a quinta fila, o lugar cativo dele. Estava vazio. A poltrona de veludo parecia zombar dela, uma boca aberta e silenciosa.
Onde ele está?, a pergunta gritava em sua mente, rítmica com a percussão. Ele desistiu? Ele está com alguém?
Durante a pausa para o café, Yrys ficou no palco, fingindo revisar a partitura. Ela via os outros músicos conversando, rindo sobre a expectativa da Europa, mas ela se sentia em uma bolha de isolamento.
— Algum problema, Yrys? — o Diretor Choi aproximou-se, limpando os óculos. — Você parece… elétrica. Mais do que o normal.
— Estou apenas focada, Diretor. A turnê é importante.
— Com certeza. O Senhor Kim garantiu que teremos o melhor tratamento em Viena. Ele é um homem de poucas palavras ultimamente, mas muito generoso.
Yrys sentiu um aperto no peito. — Ele… tem falado com o senhor?
— Apenas através dos advogados e do assistente, aquele rapaz, o Park. Parece que a Phoenix está passando por uma fusão importante. Ele deve estar enterrado em trabalho. Por quê? Ele entrou em contato com você?
— Não — ela respondeu rápido demais, voltando os olhos para o papel. — De forma alguma.
Aquilo a consumia. Então era isso? Negócios. Uma fusão. Ele simplesmente a arquivara em uma pasta chamada “assuntos encerrados” enquanto lidava com bilhões de wons. A percepção de que ela era apenas um interlúdio na vida dele, enquanto ele era um terremoto na dela, a fez sentir-se pequena. Humilhada de uma forma que ela não conseguia processar.
O ensaio terminou tarde. O auditório foi se esvaziando lentamente. Yrys demorou-se para guardar suas coisas, enrolando o cachecol com uma lentidão desnecessária. Ela caminhou pelo corredor de saída, o som de seus próprios passos ecoando de forma solitária.
Ao chegar à porta de saída, ela parou.
A noite estava fria, mas não chovia. Ela olhou para a calçada onde, dias atrás, eles haviam tido aquela briga amarga. Não havia carros pretos de luxo esperando. Não havia ninguém.
Yrys sentiu uma onda de frustração tão intensa que seus olhos arderam. Ela odiava a si mesma por estar esperando. Odiava o fato de que uma parte dela — a parte que ela tentava trancar no armário junto com o guarda-chuva de seda — queria que ele estivesse ali, pronto para cercá-la novamente, pronto para provar que ela estava errada.
Ele me ouviu, ela pensou, caminhando em direção ao metrô. Ele realmente me deixou em paz. Eu venci.
Mas a vitória tinha um gosto de cinzas.
Ao chegar em casa, no silêncio do seu novo apartamento, ela preparou um chá e sentou-se diante da janela que dava para as luzes de Seul. Ela pensou na mãe, na irmã, na vida que estava construindo. Ela deveria estar feliz. Ela tinha tudo o que sempre sonhou.
Mas então, ela se lembrou do beijo no elevador. A maneira como a mão dele apertou sua nuca. A intensidade obsessiva de um homem que parecia querer devorar a alma dela através dos lábios. Ninguém jamais a tinha olhado daquela forma. Ninguém jamais a tinha feito sentir que era a única coisa real em um mundo de simulações.
Ela foi até o armário do corredor. Abriu a porta e viu o guarda-chuva negro encostado no fundo. Ela estendeu a mão para tocá-lo, sentindo a textura da seda.
— Babaca — ela sussurrou, a voz falhando.
Ela percebeu, com um medo gélido, que a sanidade que ela tanto prezava estava por um fio. Ela não queria a paz de Namjoon. Ela queria o conflito. Ela queria o abismo de volta, porque o abismo era o único lugar onde ela se sentia verdadeiramente acordada.
Ela pegou o celular, olhou para o histórico de chamadas. Nada. Ela nunca tivera o número dele, e o número que ele gravara em seu braço fora apagado pelo sabonete e pela água. Ela não tinha como alcançá-lo.
A viagem para Viena era no dia seguinte.
Ele estará no aeroporto?, ela se perguntou antes de dormir, o coração batendo em um ritmo irregular. Ou será que a turnê será apenas eu, o piano e a sombra de um homem que me provou que eu não sou tão independente quanto eu pensava?
Yrys fechou os olhos, mas a última imagem que viu antes do sono não foi a ópera de Viena, mas o brilho escuro e perigoso dos olhos de Kim Namjoon sob a luz de um elevador prestes a abrir.
A sala de conferências da Phoenix Technologies era um campo de batalha acarpetado. Pelo menos seis telas gigantes exibiam gráficos de mercado, projeções de fusão e fluxos de dados em tempo real. Ao redor da mesa, homens de terno cinza discutiam em tons urgentes sobre a aquisição de uma empresa alemã.
Kim Namjoon estava na cabeceira, a expressão imperturbável, os dedos longos batendo um ritmo lento sobre o tampo de mogno. Para qualquer pessoa na sala, ele era o epítome do foco corporativo. Mas, sob a mesa, em seu tablet pessoal e criptografado, a tela exibia algo completamente diferente: um sinal de vídeo granulado, em ângulo zenital, vindo das câmeras de segurança do Salão de Artes de Seul.
Ele a via.
Yrys parecia minúscula no centro do palco, uma mancha negra contra o brilho do piano de cauda. Mas Namjoon sabia exatamente como aquela mancha se movia. Ele observava a maneira como os ombros dela se tensionavam, a inclinação de sua cabeça quando ela errava uma nota, e, principalmente, a maneira como ela pausava e olhava fixamente para a quinta fila da plateia.
Você está me procurando, ele pensou, um sorriso amargo e quase imperceptível surgindo no canto dos lábios enquanto um de seus diretores explicava um risco fiscal. Você odeia que eu não esteja lá, e odeia ainda mais o fato de se importar.
Ele deu um zoom na imagem. A qualidade era baixa, mas ele conseguia ver a frustração nos movimentos dela. Ela estava tocando Prokofiev — ele reconhecia a agressividade dos martelos. Ele sabia que ela estava canalizando a raiva dele naquela música. Cada acorde era uma punição, um grito silencioso que atravessava os quilômetros de fibra óptica até chegar a ele.
— Senhor Kim? — o CFO chamou, interrompendo seus pensamentos. — Precisamos do seu aval para o fechamento em Frankfurt.
Namjoon bloqueou o tablet com um movimento seco. Seus olhos voltaram para a sala, frios e precisos como lâminas.
— O risco é aceitável, mas o cronograma está frouxo. Quero as cláusulas de rescisão revisadas até as 22h. Próximo assunto.
O dia seguiu como um triturador de mentes. Reuniões de dez minutos, decisões de bilhões de wons, ligações transcontinentais. Às 21h, a exaustão não era física, era uma queimação sob o crânio. Ele estava farto de lógica. Farto de pessoas que diziam “sim” antes de ele terminar a frase.
— Senhor, o carro está pronto. Vai para a cobertura? — Park perguntou, entrando no escritório enquanto Namjoon massageava as têmporas.
Namjoon olhou para o relógio. O ensaio da orquestra terminara há trinta minutos.
— Não — Namjoon disse, pegando o casaco. — Eu dirijo hoje. Pode ir para casa, Park.
Namjoon não usou o Maybach oficial. Ele pegou um de seus carros esportivos mais discretos da garagem subterrânea — um Porsche cinza-escuro que se misturava à penumbra de Seul.

Ele chegou ao Salão de Artes no momento em que os músicos saíam. Ele estacionou a duas quadras de distância, observando através do para-brisa. Ele a viu sair. Yrys parecia exausta, o cachecol enrolado até o queixo, caminhando com os ombros encolhidos contra o vento frio. Ela não pegou um táxi. Ela caminhou para o metrô, exatamente como uma pessoa comum faria.
Ele a seguiu de longe, mantendo uma distância segura, como um satélite orbitando um planeta solitário.
Ele a viu descer na estação de Seocho e caminhar pelas ruas mais silenciosas até o novo prédio. Namjoon sentiu um aperto estranho no peito ao ver a fachada do edifício. Ele sabia que o lugar era seguro — ele mesmo garantira que o “vazamento” de informações sobre imóveis chegasse ao corretor dela —, mas vê-la ali, tão pequena e desprotegida na vastidão da cidade, despertava nele um instinto que ele não conseguia rotular como “investimento”.
Ele estacionou do outro lado da rua, sob a sombra de uma árvore seca. As luzes do carro foram apagadas. O silêncio dentro do veículo era absoluto.
Yrys parou diante do portão eletrônico do prédio. Ela parou por um longo momento, olhando para o céu noturno, parecendo respirar o ar gelado para se acalmar. Ela parecia tão… real. Sem as luzes do palco, sem o veludo do terno, ela era apenas a mulher que o salvara no beco.
Namjoon colocou a mão na maçaneta da porta do carro. O metal estava frio.
Sua mente disparou um alerta. O que você está fazendo? Você é Kim Namjoon. Você não fica parado em esquinas como um adolescente obcecado.
Mas a lógica não tinha poder ali. Ele imaginou-se saindo do carro. Imaginou-se atravessando a rua em três passos largos, segurando-a por trás antes que ela pudesse entrar no portão e virando-a para ele. Ele conseguia quase sentir o choque dela, o cheiro de chuva e lã, o calor da pele dela contra o frio da noite.
Eu deveria te beijar agora mesmo, bem aqui, ele murmurou para o vidro escuro, a voz rouca e solitária. Deveria te mostrar que não importa para onde você se mude, ou o quanto você mude o repertório… você ainda é a nota que eu não consigo parar de tocar.
Ele fechou os olhos por um segundo, visualizando a cena. Ele a pressionaria contra as grades de ferro do portão, as mãos na nuca dela como no elevador, mas sem as portas prestes a abrir. Sem pressa. Apenas ele e a verdade que ambos tentavam esconder.
— Você me odeia porque eu te vejo, Yrys — ele sussurrou para a silhueta dela do outro lado da rua. — E você se odeia porque gosta da vista.
Yrys finalmente digitou o código e o portão se abriu com um clique metálico. Ela entrou e desapareceu no saguão.
Namjoon permaneceu no carro. Ele viu a luz de um apartamento no terceiro andar se acender alguns minutos depois. Ele ficou ali, fumando um cigarro, observando a janela dela até que a luz se apagasse.
Somente então ele ligou o motor. O ronco silencioso do Porsche quebrou a paz da rua.
Dentro do apartamento, Yrys encostou a testa no vidro frio da janela após apagar a luz. Ela tinha a sensação estranha de que estava sendo observada. Ela olhou para a rua escura lá embaixo e viu um carro cinza-escuro se afastando lentamente.
Seu coração falhou uma batida.
Ela não tinha certeza se era ele. Não havia provas. Mas o ar no quarto parecia subitamente carregado de eletricidade, o mesmo tipo de tensão que sentia quando ele estava no auditório.
— Você está em todo lugar, não está? — ela murmurou, abraçando o próprio corpo.
Ela foi para a cama, mas o sono não veio. Em sua mente, ela não estava em Seul. Ela já estava em Viena, e podia ouvir o som de um piano e o compasso pesado dos passos de um homem que se recusava a deixá-la esquecer que, no ponto cego do abismo, eles eram os únicos que sabiam a melodia completa.
Ah ela sentiu a presença dele kkkkkk e nem pra dar um oi pra ele kkkk
Ja pensou se tu faz isso de novo? Ela ia perder o resto do juizo
Olha que ligeiro, tava vendo pelas câmeras de segurança
É mulher, era isso que tu queria kkkk ou não hehe
[quote]— Você me odeia porque eu te vejo, Yrys — ele sussurrou para a silhueta dela do outro lado da rua. — E você se odeia porque gosta da vista.
Ela só não quer se entregar a essa “vista” ( ainda )
Você está me procurando, ele pensou, um sorriso amargo e quase imperceptível surgindo no canto dos lábios enquanto um de seus diretores explicava um risco fiscal. Você odeia que eu não esteja lá, e odeia ainda mais o fato de se importar.
Ele sabe que tem comenda os pensamentos dela
Yrys sentava-se ao piano, as mãos pousadas sobre as teclas frias. Era isso que eu queria, não era?, ela se perguntava, o cenho franzido. Eu disse para ele me deixar em paz. Eu disse que não queria o mundo dele.
Ela dizia que não queria , mas por dentro, só dizia que queria E QUERIA MT
[quote]Erro tático. (Acorde de Dó menor) Curiosidade saciada. (Salto de oitava) Patético. (Glissando furioso) [/quote
Tipo de coisas que nós não esquecemos
Ele também está fzd doce
I’m obsessed
Pronto para bajulas
Espero que a Yrys realmente saiba oq essas coisas significam kkkk
Ta querendo né
Ele me tem, q saaco
N reprima os seus instintos,Nam
Eu só estava fazendo doce, cct