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Yrys sempre gostou da chuva de outono; era uma cortina sutil que transformava a cidade em uma pintura em aquarela, borrando as arestas do cotidiano. Ela deslizava pela calçada molhada com a calma de quem domina o próprio ritmo, o guarda-chuva preto funcionando como um pequeno casulo contra a garoa fina e persistente. Seus fones de ouvido dividiam o mundo em duas realidades: a cidade em preto e cinza e a trilha sonora indie pulsando suavemente em seus tímpanos.

Seus pensamentos flutuavam, despretensiosos. Ela observava o reflexo distorcido das luzes de néon no asfalto, a vitrine de uma loja de doces que prometia conforto, e as pessoas apressadas que pareciam lutar contra o tempo, não contra a chuva. Era um momento de paz, uma pequena bolha de normalidade, até que essa bolha foi subitamente e violentamente invadida.

Ela sentiu o choque antes de ver, um corpo sólido e quente colidindo com o seu no exato segundo em que ela parou para checar um endereço no celular. Um reflexo instintivo a fez agarrar o cabo do guarda-chuva com força redobrada. O objeto, agora dividido, formou um teto improvisado entre ela e o invasor.

O homem estava ofegante, quase cambaleando. Seu terno, impecavelmente cortado em lã escura de um matiz que Yrys reconheceu vagamente como de alta costura, estava desajustado; o nó da gravata de seda, frouxo. Ele segurava uma pasta de couro fina e o peso do mundo em seus ombros.

O que a atingiu primeiro não foi o susto da colisão, mas a aura que o envolvia: uma mistura intensa de pânico contido e uma elegância inata que parecia deslocada no meio-fio de uma rua lateral. Ele era alto, de ombros largos, e seus olhos, por trás da franja escura e encharcada, vasculhavam a rua com uma urgência desesperada. Exalava o cheiro de um perfume caro, com notas de sândalo e couro, misturado ao cheiro metálico e úmido da chuva.

Este era Kim Namjoon. Uma figura lendária dos corredores de Seul, o CEO da Phoenix Technologies— um conglomerado que não apenas movia o mercado de tecnologia, mas essencialmente o definia. Namjoon era conhecido por sua inteligência estratégica, seu QI de gênio, e sua capacidade de ver dez passos à frente de qualquer competidor. Era um líder que inspirava lealdade quase fanática e, com trinta e um anos, havia se tornado o mais jovem CEO a figurar nas listas de mais influentes da Ásia.

Mas Yrys, focada em sua própria rotina, não tinha a menor ideia. Ela apenas sentiu a presença poderosa e invasiva, uma âncora de tensão que a puxou do tédio para o perigo em um piscar de olhos.

Ele apertou os dedos no cabo do guarda-chuva dela. Yrys percebeu que ele mal conseguia respirar, e a tensão em seus músculos era palpável, como se estivesse prestes a quebrar. Mesmo em pânico, havia nele uma compostura rígida, um último resquício de controle que lutava contra o caos. Ele exibia a gravitas de quem está acostumado a tomar as rédeas de qualquer situação, agora completamente perdido.

Foi então que ela ouviu, abafado pelos fones, o som que quebrou o silêncio da chuva.

Passos.

Passos apressados e sincronizados, ecoando de botas de couro caro na rua à frente. Eles eram precisos, determinados, passos que não eram de quem estava apenas passeando.

Namjoon se inclinou minimamente, seu corpo quase encostado no dela sob a proteção do guarda-chuva. Ele havia sido pego desprevenido, sua equipe de segurança estava momentaneamente dispersa, e o local não oferecia cobertura. Aquela rua lateral era um beco sem saída, e a única forma de evitar a catástrofe era desaparecer.

Ele só conseguiu sussurrar, a voz rouca pela corrida e pela adrenalina, quando os passos dos homens ecoaram mais perto:

— Eu… posso ficar aqui por um segundo?

Yrys franziu o cenho, ainda segurando o guarda-chuva junto com ele

Yrys franziu o cenho, ainda segurando o guarda-chuva junto com ele. Ela notou os homens em terno, dois blocos de distância, vasculhando o local com olhares duros e apressados, idênticos e ameaçadores. Eram os tipos de homens que a realidade ensina a evitar — agentes de segurança corporativa ou, pior, algo muito mais sombrio. Eles não procuravam um criminoso; procuravam alguém de valor, alguém que devia algo grande.

Ela respirou fundo, avaliando a cena com uma frieza surpreendente. O homem ao seu lado era um mistério de alto risco, mas algo em sua vulnerabilidade forçada despertou um instinto atrevido. Ela puxou um dos fones de ouvido, oferecendo-o a ele. Namjoon o aceitou sem questionar, um vislumbre de alívio momentâneo em seus olhos profundos enquanto a música de ritmo constante acalmava o turbilhão em sua mente. O volume baixo da canção indie preencheu o espaço entre eles, criando uma bolha auditiva contra o barulho da chuva.

Yrys inclinou-se para mais perto. Ela podia sentir o calor de sua respiração rápida, e o tecido fino de sua camisa social. Ele estava pronto para falar qualquer coisa, mas ela o cortou antes que a dúvida se formasse. Ele era um homem de lógica e estratégia, e precisava de uma solução imediata.

Ela murmurou, o som da voz quase abafado pela garoa e pela música, com um meio sorriso travesso:

— Se eles olharem pra gente se beijando… vão desviar os olhos. Geralmente funciona em filmes.

Namjoon piscou, o cérebro afiado que gerenciava impérios e decisões complexas por um instante completamente em pane.

Sua mente, treinada em análise de risco, tentou processar a variável “beijo forçado” em sua equação de fuga. Contra: contato físico desnecessário, perda de controle situacional. Pro: camuflagem social perfeita, desvio de atenção. O fato de ser completamente inesperado era a sua maior força. O instinto de Namjoon, que o havia guiado em dezenas de negociações de risco, gritou: Aceite a distração.

Ele não era dado a clichês de cinema. Era um homem de planos rigorosos, mas estava naquele momento sob a mercê de uma estranha com um guarda-chuva e uma ideia maluca.

Foi o tempo perfeito.

Sem dar-lhe chance de hesitar ou raciocinar sobre as consequências, Yrys agiu. Ela o agarrou pela gola do terno amassado com uma firmeza inesperada e, em um movimento rápido, colou os lábios nos dele.

O beijo não era romântico; era urgente, desajeitado e elétrico. O choque foi mútuo. Os lábios de Namjoon eram surpreendentemente macios sob a tensão, mas ele permaneceu estático por um segundo de eternidade, uma estátua de surpresa. O gosto de chuva e pânico deu lugar a algo mais doce e confuso. A única coisa que o impedia de recuar era a pasta de couro fino que ele esmagava entre eles, e o conhecimento de que, sim, os homens de terno estavam agora a poucos metros.

Namjoon, o CEO que ditava as regras, rendeu-se. Ele moveu os lábios, correspondendo ao beijo com uma ferocidade contida que não tinha nada a ver com desejo e tudo a ver com sobrevivência. O contato, inicialmente um truque, tornou-se um refúgio improvisado.

Quando os homens de terno se aproximaram, seus olhares varreram a rua, procurando por um fugitivo desesperado — um homem cuja estatura e presença eram difíceis de ignorar.

O que eles viram foi apenas um casal. O homem, alto, parecia cobrir a mulher sob o guarda-chuva, seus corpos em um abraço íntimo e público, consumidos por um beijo apaixonado no meio da chuva. Um clichê de cidade grande.

Um dos homens tossiu discretamente, o maxilar apertado, e desviou o olhar com desinteresse profissional. Eles não procuravam um flerte noturno. Procuravam o Kim Namjoon que haviam perdido de vista há três minutos. Aquele homem não estava ali. Aquele era apenas um beijo. Eles aceleraram o passo, a busca continuando pela rua.

A tensão só começou a diminuir quando os passos desapareceram na distância.

Yrys se afastou, recuperando o fôlego. Seus próprios batimentos cardíacos martelavam contra a adrenalina, e ela teve que se apoiar no cabo do guarda-chuva para manter o equilíbrio. Ela encarou Namjoon, que a olhava com uma intensidade que a fez esquecer o mundo por um segundo.

Ele estava de volta ao seu centro de gravidade. A rigidez havia retornado aos seus ombros, mas seus olhos, que agora a fitavam, não eram mais de pânico. Eram de análise profunda, misturada a uma inegável dose de atração súbita e uma gratidão complexa. Ele parecia ter acabado de voltar de uma viagem de mil milhas.

O guarda-chuva ainda os protegia da chuva, mas Yrys sentia que algo muito maior havia invadido sua vida.

Ela sorriu de novo, o sorriso de quem acabou de se safar de uma bobagem deliciosa.

— Viu só? Funciona mesmo.

Namjoon se endireitou, a mão instintivamente ajeitando o terno úmido e a gravata. Sua voz, quando ele finalmente a usou, era um barítono profundo, controlado e imponente. A voz de alguém que estava acostumado a fazer bilhões de wons com uma única palavra.

— Funciona. E, dada a situação, foi o plano mais eficaz que me foi apresentado nas últimas dez horas. — Ele fez uma pausa, o olhar fixo no dela. Havia uma ruga entre suas sobrancelhas que sugeria que sua mente já estava calculando os próximos cinquenta movimentos. — Você tem um senso de urgência notável.

Ele retirou o fone de ouvido, estendendo-o de volta para ela. Seus dedos roçaram os dela, e a eletricidade do contato, mesmo sob a chuva, era inegável.

— Você não sabe quem eu sou, sabe?

Yrys guardou o fone, dando de ombros com uma despreocupação genuína que desarmou completamente sua postura de CEO.

— Não faço ideia. E, honestamente, não é o meu problema. Você estava claramente em apuros. — Ela gesticulou para a rua. — Os brutamontes de terno procurando por você sugerem que você é ou um criminoso charmoso, ou alguém que tem muito mais dinheiro do que bom senso. Em ambos os casos, não me importa. Você está seguro.

Namjoon a estudou. A resposta dela era tão direta e desinteressada que era refrescante — e perigosa. A maioria das pessoas o reconheceria e se curvaria ou, pior, tentaria tirar proveito de sua situação. Yrys era diferente. Ela o via apenas como um homem assustado debaixo de seu guarda-chuva.

— O nome é Namjoon. E eu sou a segunda opção.

Yrys — ela respondeu, estendendo a mão para um aperto firme, profissional, sem hesitação. — Eu sou a primeira opção, no quesito bom senso.

Namjoon sorriu. Era um sorriso raro, com covinhas profundas, que atingia seus olhos e o transformava de CEO intimidador em um jovem brilhante. Era o sorriso de um homem que havia acabado de encontrar uma variável não-calculada que era, surpreendentemente, favorável.

— Eu devo a você mais do que posso expressar, Yrys. Eu preciso ir, agora, mas… isso não termina aqui.

Ele colocou a pasta de couro no chão molhado por um segundo e, antes que ela pudesse protestar, pegou o pulso dela com delicadeza. Com a caneta-tinteiro que ele usava para assinar contratos de milhões, ele escreveu um número de telefone com caligrafia elegante na pele macia e pálida do antebraço dela, logo abaixo da manga da blusa.

— Meu número pessoal. Não é o de um assistente. É confidencial. Use-o se você precisar de qualquer coisa. Absolutamente qualquer coisa. E ligue para mim amanhã. Eu preciso compensá-la por esta noite. E, de alguma forma, entender por que você fez isso.

Ele recuperou a pasta. Em vez de correr, ele se inclinou e a beijou novamente. Desta vez, o beijo foi rápido, mas deliberado — não um truque, mas um selo de um acordo tácito.

— Obrigado.

E então ele se foi, não correndo, mas caminhando rapidamente na direção oposta à dos seguranças, desaparecendo pela esquina como um fantasma na neblina urbana.

Yrys ficou sozinha, o calor do beijo ainda em seus lábios, a mancha de tinta preta no pulso e o cheiro caro de sândalo pairando no ar. Ela olhou para o número.

Uma sensação de vertigem a atingiu. Ela acabara de salvar um dos homens mais poderosos da Coreia com um beijo de cinema. Sua vida, ela percebeu, acabava de sair da zona de conforto em uma velocidade que a fazia ofegar.

11 Comentários

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  1. Sra Kim (Karine)
    Jan 2, '26 at 3:51 pm

    — Se eles olharem pra gente se beijando… vão desviar os olhos. Geralmente funciona em filmes.

    Ueeepaaaa

  2. Marcela
    Feb 21, '26 at 12:12 am

    — Se eles olharem pra gente se beijando… vão desviar os olhos. Geralmente funciona em filmes.

    Beijou por estratégia e vontade kkkk

  3. Marcela
    Feb 21, '26 at 12:19 am

    Sua mente, treinada em análise de risco, tentou processar a variável “beijo forçado” em sua equação de fuga. Contra: contato físico desnecessário, perda de controle situacional. Pro: camuflagem social perfeita, desvio de atenção. O fato de ser completamente inesperado era a sua maior força. O instinto de Namjoon, que o havia guiado em dezenas de negociações de risco, gritou: Aceite a distração.

    Na cabeça dele, era só estratégia, até então…

  4. Marcela
    Feb 21, '26 at 12:20 am

    Sem dar-lhe chance de hesitar ou raciocinar sobre as consequências, Yrys agiu. Ela o agarrou pela gola do terno amassado com uma firmeza inesperada e, em um movimento rápido, colou os lábios nos dele.

    Aae, mulher de atitude, amei

  5. Marcela
    Feb 21, '26 at 12:23 am

    Yrys se afastou, recuperando o fôlego. Seus próprios batimentos cardíacos martelavam contra a adrenalina, e ela teve que se apoiar no cabo do guarda-chuva para manter o equilíbrio. Ela encarou Namjoon, que a olhava com uma intensidade que a fez esquecer o mundo por um segundo.

    EITAA, Desconfigurou a mulher kkkk

  6. Marcela
    Feb 21, '26 at 12:25 am

    [quote]Uma sensação de vertigem a atingiu. Ela acabara de salvar um dos homens mais poderosos da Coreia com um beijo de cinema. Sua vida, ela percebeu, acabava de sair da zona de conforto em uma velocidade que a fazia ofegar.

    Ela nem imagina a sorte que teve

  7. Iasmine
    Feb 25, '26 at 9:04 pm

    — Se eles olharem pra gente se beijando… vão desviar os olhos. Geralmente funciona em filmes.

    Ah Yris sua safada kkkkk ja logo lançou essa

  8. Iasmine
    Feb 25, '26 at 9:05 pm

    — Eu devo a você mais do que posso expressar, Yrys. Eu preciso ir, agora, mas… isso não termina aqui.

    Aah olha que safado gostou do beijo

  9. Sheila
    Mar 11, '26 at 3:53 pm

    — Eu devo a você mais do que posso expressar, Yrys. Eu preciso ir, agora, mas… isso não termina aqui.

    Não termina aqui… e lá vamos nós!!! Em uma deliciosa aventura!!! Kkkk

  10. Sheila
    Mar 11, '26 at 3:54 pm

    Ele recuperou a pasta. Em vez de correr, ele se inclinou e a beijou novamente. Desta vez, o beijo foi rápido, mas deliberado — não um truque, mas um selo de um acordo tácito.

    Um breve beijo que será eternizo?! Espero eu!!! Kkkk

  11. Sheila
    Mar 11, '26 at 3:56 pm

    Sem dar-lhe chance de hesitar ou raciocinar sobre as consequências, Yrys agiu. Ela o agarrou pela gola do terno amassado com uma firmeza inesperada e, em um movimento rápido, colou os lábios nos dele.

    Atrevida na medida certa!!! Amei!!! Nan também!!! Kkkk

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