You have no alerts.
Header Background Image

Dá o Play

Assim que a porta se fechou atrás dele, o silêncio voltou a pesar no ambiente. O corpo dela tremia pela febre, mas o peito ardia ainda mais pelo que não conseguia dizer. Ele atravessou o espaço amplo da cobertura sem acender nenhuma luz, guiado apenas pelo brilho pálido da lua que filtrava pelas cortinas pesadas. Não queria claridade. Não queria ver o reflexo de si mesmo em nenhum vidro.

Foi até o frigobar, pegou a garrafa de whisky quase cheia e serviu um copo curto, deixando o líquido âmbar escorrer pesado. A mão firme não denunciava nada, mas os olhos, sim. Nos olhos havia um cansaço antigo, mais fundo do que qualquer noite mal dormida poderia causar.

Abriu a porta de vidro da varanda, sentindo o ar frio de Paris bater de encontro ao rosto. A cidade ainda respirava lá embaixo, mas de onde ele estava tudo parecia distante. Carros passavam, buzinas soavam, mas não chegavam a ele. Era como se o mundo estivesse sempre a alguns metros de onde seus pés tocavam.

Apoiou o copo no parapeito, acendeu um cigarro com movimentos automáticos, como quem já repetiu aquele ritual milhares de vezes. A primeira tragada queimou a garganta, trouxe a lembrança amarga que nunca se apagava. Ele fechou os olhos, respirou fundo. E os fantasmas vieram.

Ele lembrava da primeira vez em que foi usado. Ainda era muito jovem, recém-debutado, quando começou a acreditar que alguém gostava dele de verdade. O jeito como ela sorria, como dizia se importar, como parecia vê-lo além do palco… Ele acreditou. Deixou-se acreditar. E quando percebeu, ela já tinha vendido mensagens, inventado histórias, e a mídia havia transformado tudo em manchete.
“Namjoon do BTS envolvido em escândalo.”
Lembrou-se da sensação de ter o coração arrancado do peito, não apenas pela traição, mas pelo olhar decepcionado dos outros seis. O peso da responsabilidade — ele, o líder, aquele que deveria ser o mais cuidadoso, o mais firme, foi o primeiro a falhar.

As coisas pioraram quando uma segunda pessoa apareceu, usando a mesma cartilha: proximidade, carinho, depois a exposição. Só que dessa vez foi armado de forma calculada, para manchar sua imagem. Criaram mentiras, manipularam fotos, espalharam conversas falsas. Ele foi pintado como o vilão que teria manipulado e descartado alguém por fama.

Namjoon ainda lembrava da sensação das mãos suadas tremendo ao segurar o celular, lendo os comentários:
“Sabia que ele não era santo.”
“Esse é o líder? Decepcionante.”
“Podiam ter escolhido outro para liderar, qualquer um menos ele.”

Essas frases entraram como facas afiadas. E, noite após noite, ele começou a beber. Primeiro uma taça, depois uma garrafa. As risadas do dormitório ao redor viravam ruído distante enquanto ele se afogava na própria mente.

As noites começaram a se estender sem fim. Ele encarava o teto do quarto escuro, a mente martelando cada detalhe, cada olhar de desconfiança, cada palavra distorcida da imprensa. O whisky passou a ser companhia. O cigarro, anestesia.

Ele lembrava de se trancar no estúdio e ficar horas em frente ao computador, batendo linhas de letra que nunca terminavam, tentando se convencer de que ainda era capaz de escrever algo que não fosse dor. Mas as melodias vinham arrastadas, sombrias, e sempre voltavam ao mesmo tema: a sensação de ser usado, manipulado, descartado.

Houve um momento em que tudo quase acabou. Ele recordava nitidamente: os olhos vermelhos de Yoongi depois de uma reunião com a empresa, a voz grave de Bang PD tentando manter todos unidos, as notícias lá fora falando em “futuro incerto do grupo”.

O escândalo, ainda fresco, quase destruiu o BTS. Eles tinham que segurar tudo com unhas e dentes, e Namjoon se culpava dia após dia. Foi ali que decidiu uma coisa: nunca mais permitiria que alguém chegasse perto o suficiente para usar suas fraquezas contra ele. Nunca mais seria o garoto que acreditava nos sorrisos fáceis.

Mais uma tragada, mais um gole de whisky. Ele apoiou o copo no parapeito da varanda, observando o reflexo da cidade nos olhos cansados.

Agora fazia sentido — a frieza que ele mantinha, a distância, os contratos, as barreiras invisíveis. Era tudo escudo. Ele preferia afastar, rejeitar, magoar, antes que fosse magoado novamente.
Mas o problema era simples e cruel: ela o fazia sentir novamente. O modo como dizia o nome dele, como o olhava… não havia contrato, cláusula ou muro que conseguisse apagar isso.

Namjoon passou a mão pelo rosto, sentindo a pele quente pelo álcool e fria pelo vento. Ele fechou os olhos por alguns segundos, tentando empurrar as lembranças para longe, mas elas estavam gravadas, tatuadas em cada parte de si.

Lembrava da primeira garrafa que abriu sozinho. Da primeira vez que puxou o cigarro só para “experimentar”, e depois nunca mais conseguiu parar. Da sensação de acordar com a garganta seca, a cabeça latejando, mas ainda assim vestir o sorriso ensaiado para as câmeras.

Ele era o líder. O forte. O inabalável.
Ninguém nunca soube — ou pelo menos, ele acreditava que não souberam — das madrugadas em que chorava silenciosamente no estúdio, abafando o som para que os outros não percebessem.

E agora, anos depois, lá estava ele novamente, com o cigarro em uma mão, whisky na outra, se perguntando se estava prestes a repetir a história.

Ele tomou o último gole, deixando o copo vazio sobre o parapeito. O cigarro queimava entre os dedos, cinza prestes a cair.
O vento noturno bateu mais forte, arrepiando sua pele, mas não o tirou do transe.

Namjoon olhou para baixo, para as luzes da cidade. Paris brilhava, mas ele só via sombras.
E se perguntava, em silêncio:
— Até quando?

A madrugada em Paris parecia infinita. O relógio já tinha ultrapassado horas silenciosas, mas Namjoon continuava na varanda da cobertura. O cigarro queimava devagar entre seus dedos longos, o copo de whisky sobre a mureta já sem gelo, o líquido âmbar refletindo as luzes da cidade. Ele estava ali, imóvel, perdido em pensamentos que lhe corroíam como ferrugem antiga.

Ele não percebia o tempo, apenas o peso. A cada tragada, o peito se apertava um pouco mais. A cada gole, os olhos se perdiam em pontos distantes, como se Paris fosse apenas pano de fundo para os monstros do passado.

Foi nesse tempo suspenso que ela acordou. O corpo ainda febril, pesado pelo efeito dos remédios, obrigou-a a se levantar devagar. Os passos foram incertos até o banheiro, mas, antes de entrar, ela o viu.

Ele estava de costas, o ombro curvado, a respiração irregular, a mão tremendo levemente ao levar o cigarro aos lábios. O contraste da fumaça contra o céu noturno deu a ela uma imagem que nunca tinha visto antes: Namjoon quebrado. Não o líder de fala firme. Não o homem que carregava todos em silêncio. Mas alguém em ruína, em luta interna, tentando se manter de pé em um campo de batalhas que ela ainda não compreendia.

O coração dela doeu. Quis voltar para o quarto, mas os pés não obedeceram. Ela foi até ele em silêncio.

Namjoon não a percebeu se aproximando. Estava tão preso aos próprios demônios que murmurou em voz baixa, como se confessasse apenas para si:

— Eu não posso me render a ela… Ela pode fazer o mesmo que as outras…

A frase cortou o ar. Como uma lâmina invisível, atravessou o peito dela. Foi nesse instante que a ficha caiu. Não era que ele não a quisesse. Não era frieza. Era medo. Era trauma. Ele não a afastava porque ela não significava nada, mas porque significava demais.

Sem pensar, sem se permitir racionalizar, ela o abraçou por trás. Os braços frágeis, ainda quentes pela febre, se enroscaram em torno da cintura dele. O rosto dela encostou-se às costas largas, sentindo o cheiro misturado de cigarro, álcool e a essência familiar de Namjoon.

Ele se sobressaltou. O copo quase caiu de sua mão, e por instinto ele tentou afastá-la.

— Não… — disse, com a voz tensa, rouca. — Não faça isso. Você não entende…

Ela apertou mais o abraço.

— Entendo, sim.

— Não, você não entende! — Namjoon quase se virou, tentando puxar as mãos dela para longe, mas estava fraco demais diante da convicção dela. — Eu não posso… eu não posso deixar isso acontecer de novo.

Foi nesse instante que ela sussurrou, com a voz embargada, trêmula, mas firme:

— Eu te amo, seu insensível.

O corpo dele congelou. O cigarro caiu do outro lado da varanda. O copo, ele largou sobre a mureta sem perceber. Ficou imóvel, o coração disparado, o sangue rugindo nos ouvidos.

Ela tinha dito.

Palavras que ele sempre temeu ouvir, porque no passado tinham sido usadas como armas, como correntes para prendê-lo, como máscaras de quem só queria sugar dele o que pudesse oferecer. Mas agora… agora soava diferente. Não havia segundas intenções na voz dela. Só verdade.

Namjoon fechou os olhos com força. A primeira reação foi lutar contra aquilo. As mãos dele tocaram as dela, tentando afastar, mas a energia havia desaparecido. O contato quente dela, mesmo febril, era um antídoto contra a escuridão que o envolvia.

Ele respirou fundo, sentindo o peito doer.

— Você não sabe o que está dizendo… — sussurrou, mas a voz falhou.

Ela então o virou, forçando-o a encará-la. O olhar dela estava enfraquecido, sim, mas ardia de sinceridade.

— Eu sei, Namjoon. Sei muito bem. — O fio de voz dela cortava mais fundo que qualquer grito. — Você acha que eu não percebo? Acha que eu não vejo o quanto você carrega? O quanto se esconde atrás dessa muralha porque tem medo?

Ele desviou os olhos, a mandíbula tensa.

— Não é só medo… é sobrevivência.

— Não comigo. — Ela ergueu a mão e tocou o rosto dele, mesmo quando ele recuou um pouco, por reflexo. — Eu não sou elas.

As palavras o atingiram como um golpe. Ele sentiu o ar escapar dos pulmões. O rosto dela estava perto, frágil, febril, mas ainda assim ela conseguia ser mais forte que ele naquele momento.

Namjoon queria responder, queria dizer que não podia acreditar, que não podia arriscar. Mas o corpo não obedecia. Os olhos dele, marejados contra a própria vontade, encontraram os dela.

E ali, naquela varanda parisiense, a batalha dentro dele rachou.

Os segundos seguintes pareceram eternos. Ela manteve o toque no rosto dele, e ele, finalmente, deixou que o muro começasse a ceder.

A voz dele saiu em sussurro, quase inaudível:

— Eu não sei se consigo…

Ela aproximou-se mais, apoiando a testa febril contra o peito dele.

— Então deixa que eu te ensino.

O abraço que ele havia tentado evitar se transformou em rendição. Namjoon a envolveu com força, como se tivesse medo de soltá-la e vê-la desaparecer como todas as outras. O coração batia descompassado, as mãos tremiam contra as costas dela.

Namjoon respirou fundo, ainda sentindo o impacto do abraço dela. O rosto pálido, a febre, a fragilidade — tudo despertou nele uma necessidade de protegê-la, de segurá-la.

— Não deveria estar aqui fora no frio — disse, firme, mas sem perder o tom protetor. — Não vou deixar você pegar mais friagem.

Sem esperar, a ergueu nos braços. Ela tentou protestar, mas os gestos eram fracos, inúteis. Ele a carregou com cuidado até o quarto, deitando-a suavemente na cama. Por um instante, apenas a observou, o peito apertado pelo sentimento que não sabia nomear.

Devagar, deitou-se ao lado dela. Ela se aninhou contra ele, a cabeça encostando entre ombro e pescoço, e ele ficou imóvel, surpreso com a naturalidade do gesto. O calor da respiração dela, o peso leve do corpo febril contra o dele, arrancaram dele uma tensão que há muito carregava.

Antes de finalmente adormecer, ela murmurou, quase implorando:

— Se você precisar de um contrato pra se sentir mais seguro… não vejo problemas… só, por favor, não se afasta mais de mim.

Namjoon fechou os olhos, sentindo o peito apertar. Um contrato… ela faria qualquer coisa só para que ele ficasse, só para que ele não se afastasse. Ele não respondeu em voz alta, mas a abraçou com mais força, deixando que o calor e a entrega dela dissesse o que ele ainda não tinha coragem de falar.

E assim, ela adormeceu aninhada nele, e ele permaneceu desperto por alguns instantes, até que pela primeira vez, ele dormiu ao lado dela.

11 Comentários

Aviso! Seu comentário ficará invisível para outros convidados e assinantes (exceto para respostas), inclusive para você, após um período de tolerância. Mas se você enviar um endereço de e-mail e ativar o ícone de sino, receberá respostas até que as cancele.
  1. Marcela
    Mar 22, '26 at 6:51 pm

    [quote]Ele lembrava da primeira vez em que foi usado. Ainda era muito jovem, recém-debutado, quando começou a acreditar que alguém gostava dele de verdade. O jeito como ela sorria, como dizia se importar, como parecia vê-lo além do palco… Ele acreditou. Deixou-se acreditar. E quando percebeu, ela já tinha vendido mensagens, inventado histórias, e a mídia havia transformado tudo em manchete. “Namjoon do BTS envolvido em escândalo.”Lembrou-se da sensação de ter o coração arrancado do peito, não apenas pela traição, mas pelo olhar decepcionado dos outros seis. O peso da responsabilidade — ele, o líder, aquele que deveria ser o mais cuidadoso, o mais firme, foi o primeiro a falhar.

    Ele tinha um grande trauma, mas n hesitou em provocar ela, ate conseguir o que queria

  2. Marcela
    Mar 22, '26 at 6:57 pm

    [quote]Namjoon passou a mão pelo rosto, sentindo a pele quente pelo álcool e fria pelo vento. Ele fechou os olhos por alguns segundos, tentando empurrar as lembranças para longe, mas elas estavam gravadas, tatuadas em cada parte de si.

    Ele sabia o que sentia, sabia o que queria, mas n tinha coragem de enfrentar( mais uma vez)

  3. Marcela
    Mar 22, '26 at 7:05 pm

    [quote]— Eu te amo, seu insensível.

    AAA VEI, faz alguma coisa Naaaam

  4. Marcelaa
    Mar 22, '26 at 7:06 pm

    [quote]— Eu te amo, seu insensível.

    AAA VEI, faz alguma coisa Naaaam

  5. Marcela
    Mar 22, '26 at 7:14 pm

    [quote]O abraço que ele havia tentado evitar se transformou em rendição. Namjoon a envolveu com força, como se tivesse medo de soltá-la e vê-la desaparecer como todas as outras. O coração batia descompassado, as mãos tremiam contra as costas dela.

    Só vaiiii, que dessa vez vai dá certo kk

  6. Marcela
    Mar 22, '26 at 7:15 pm

    [quote]— Se você precisar de um contrato pra se sentir mais seguro… não vejo problemas… só, por favor, não se afasta mais de mim.

    Ela fazendo de tudo, pra mostrar a ele que não é igual as outras .

  7. SNdoNamjoon(YrysV)♡
    Mar 27, '26 at 5:53 pm

    Ele lembrava da primeira vez em que foi usado. Ainda era muito jovem, recém-debutado, quando começou a acreditar que alguém gostava dele de verdade. O jeito como ela sorria, como dizia se importar, como parecia vê-lo além do palco… Ele acreditou. Deixou-se acreditar. E quando percebeu, ela já tinha vendido mensagens, inventado histórias, e a mídia havia transformado tudo em manchete. “Namjoon do BTS envolvido em escândalo.”Lembrou-se da sensação de ter o coração arrancado do peito, não apenas pela traição, mas pelo olhar decepcionado dos outros seis. O peso da responsabilidade — ele, o líder, aquele que deveria ser o mais cuidadoso, o mais firme, foi o primeiro a falhar.

    Mas é eu cm isso??

  8. SNdoNamjoon(YrysV)♡
    Mar 27, '26 at 5:55 pm

    O escândalo, ainda fresco, quase destruiu o BTS. Eles tinham que segurar tudo com unhas e dentes, e Namjoon se culpava dia após dia. Foi ali que decidiu uma coisa: nunca mais permitiria que alguém chegasse perto o suficiente para usar suas fraquezas contra ele. Nunca mais seria o garoto que acreditava nos sorrisos fáceis.

    Tivesse entrado em celibato então

  9. SNdoNamjoon(YrysV)♡
    Mar 27, '26 at 5:57 pm

    E agora, anos depois, lá estava ele novamente, com o cigarro em uma mão, whisky na outra, se perguntando se estava prestes a repetir a história.

    “Investe em mim, aposta td em mim, q eu prometo te fazer feliz …”

  10. SNdoNamjoon(YrysV)♡
    Mar 27, '26 at 6:00 pm

    — Eu não posso me render a ela… Ela pode fazer o mesmo que as outras…

    Se me conhecesse saberia q se tem uma coisa q eu sou é autêntica

    — Eu te amo, seu insensível.

    Amo demais ,Nam.Droga, eu te amo, cct

  11. Sra Hoseok
    May 9, '26 at 8:27 pm

    Namjoon fechou os olhos, sentindo o peito apertar. Um contrato… ela faria qualquer coisa só para que ele ficasse, só para que ele não se afastasse. Ele não respondeu em voz alta, mas a abraçou com mais força, deixando que o calor e a entrega dela dissesse o que ele ainda não tinha coragem de falar.

    Isso aí garota, vc e diferente de todas as outras

Nota

Você não pode copiar conteúdo desta página