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O pai de SN desceu as escadas com passos lentos, parecendo ter acabado de ver um fantasma. O rosto estava pálido, as mãos apoiadas na cintura, e ele murmurava baixinho como se precisasse convencer a si mesmo de que aquilo realmente tinha acontecido.

A mãe de Tae, que estava na cozinha organizando os pratos para o jantar, o viu passar pelo corredor em silêncio.

— Você tá bem? — ela perguntou, franzindo a testa. — Tá parecendo que viu um fantasma…

Ele parou no meio da sala, virou-se devagar e levou alguns segundos para responder. Depois respirou fundo, segurando na beira da cadeira como se precisasse de apoio.

— Não… não foi um fantasma. — ele disse. — Mas eu vi coisas… que meu coração de pai nunca vai esquecer.

Ela arqueou as sobrancelhas, limpando as mãos no pano de prato.

— O que aconteceu?

— Eu fui ver se a SN tava bem… ouvi barulho no quarto. Gritos. Coisa caindo. Achei que tavam brigando, que ela tinha se machucado ou sei lá… e… — ele parou, fechando os olhos. — E eu abri a porta.

A mãe de Tae arregalou os olhos de leve.

— Aish… — ela sussurrou, quase lendo a resposta nos olhos dele. — Não me diga que eles estavam…?

Ele apontou o dedo pra cima com seriedade.

— A cena que vi lá em cima… não tá nos livros de pai nenhum. E os livros… estavam todos no chão, literalmente. A menina no colo dele, parecendo que ia levitar. Eu fiquei travado. Três segundos a mais e eu tinha desmaiado ali mesmo.

Ela levou a mão à boca, tentando conter o riso que veio como um reflexo.

— Eu avisei… — disse baixinho, ainda tentando disfarçar o divertimento. — Esses dois estavam com os olhos brilhando há dias. Só estavam esperando uma desculpa pra explodir.

— Explodir? Aquilo lá foi um terremoto. Com magnitude 10! — ele se sentou no sofá, ainda pálido. — Eu nem consegui olhar pra cara do Tae. E ela… SN tava mais vermelha que um tomate japonês.

— Bem feito. — ela disse rindo, balançando a cabeça. — Isso é o que dá ficar abrindo a porta deles sem nem bater na porta.

Ele suspirou, colocando as mãos no rosto.

— Eu só disse uma coisa. Uma frase. E saí de lá.

— O quê?

Ele a encarou, dramático.

— “Se vocês estão assim… então já deviam ter sua própria casa.”

Ela deu uma gargalhada, sentando-se ao lado dele.

— E falou alguma verdade, não falou?

— Eu falei, mas com trauma nos olhos! — ele respondeu. — Eu tô cego, você não entende. Cego da alma!

Ela ainda ria, dando um tapinha no braço dele.

— Vai se acostumando. Ou você acha que o seu bebê ia continuar bebê pra sempre?

Ele resmungou, se recostando no sofá como se estivesse processando uma guerra.

— Sabia que ia ser difícil… mas não achei que ia ouvir livros caindo no meio do ato. Eles vão me matar do coração.

Ela apenas sorriu, levantando-se de novo.

— Fica tranquilo, amor. Pelo menos agora a gente tem certeza de que eles se amam. O que já é meio caminho andado.

Ele só murmurou em resposta:

— Amo minha filha… mas que eu preferia continuar na ignorância… preferia.

Dois meses depois…

Dois meses haviam se passado desde aquele dia fatídico. As cicatrizes estavam começando a fechar, pelo menos na superfície. SN e Tae pareciam mais unidos do que nunca. Onde um ia, o outro estava por perto. Os sorrisos eram constantes, os olhares mais serenos. O amor entre eles não precisava mais ser escondido, nem disfarçado. Estava ali, presente, real.

Yoongi os viu por acaso, enquanto caminhava pela calçada oposta, indo para uma reunião que não queria comparecer. Tae tinha uma das mãos na cintura dela, e ela ria de algo que ele sussurrava em seu ouvido. Estavam de mochilas, parecendo prontos para embarcar em alguma pequena aventura de fim de semana.

Ele parou.

O mundo não.

Ficou observando por um momento a cena, como se aquele pequeno recorte de felicidade o atingisse mais do que qualquer soco que levara na vida. Doeu. Mas não por inveja. Doeu por arrependimento.

Yoongi baixou o olhar e continuou andando, as mãos nos bolsos do sobretudo. A cabeça fervilhava.

“Eu só queria me vingar… Eu só queria que o Tae sentisse o que eu senti quando ele destruiu minha chance com ela… com a garota que eu amava.”

A lembrança do dia em que viu Tae com sua ex ainda o incomodava. Tae sabia que ele gostava dela. Sabia. E ainda assim, agiu como se não fosse nada.

E então SN apareceu. Brilhante. Gentil. Cheia de uma luz que ele nunca conheceu. Ela o fez rir, o fez se sentir visto… por um tempo. Mas ele não soube lidar com aquilo. Nunca soube. Cresceu sozinho. Nunca teve ninguém para mostrar o que era afeto de verdade. Era ele contra o mundo, sempre foi.

E quando finalmente teve alguém ao lado, tudo o que soube fazer foi machucar.

Mas não podia continuar assim.

Naquela noite, Yoongi não dormiu. Passou horas olhando para o teto, pensando nas escolhas que fez. Pensando nas palavras que não disse e nas que disse para ferir. SN não merecia aquilo. E, mais do que tudo, ela merecia saber a verdade.

Era uma manhã calma na galeria onde SN trabalhava. Poucos visitantes passavam pelos corredores naquele horário. Ela estava sozinha, organizando algumas molduras novas na parede lateral, quando ouviu a porta abrir.

Ao virar-se, encontrou Yoongi parado ali. Vestia uma camisa simples, uma calça jeans escura e tinha o rosto cansado. Mas diferente. Havia algo nos olhos dele — arrependimento. Humildade. E talvez, um pedido silencioso.

SN imediatamente se enrijeceu, mas não disse nada. Apenas o observou com cautela.

— Antes de você me expulsar… — ele começou, levantando uma das mãos. — Eu só preciso de cinco minutos. E depois eu vou embora. De vez.

Ela cruzou os braços, respirando fundo.

— Fala.

Yoongi se aproximou devagar, parando a uma distância respeitosa. Ele parecia mais baixo, como se o peso das escolhas tivesse caído sobre os ombros de vez.

— Eu não sei como começar, então… eu só vou dizer o que é verdade. Eu te machuquei. E fiz isso consciente. Eu usei você pra machucar o Tae, porque dentro da minha cabeça doente, isso me faria sentir melhor. — Ele respirou fundo, os olhos marejando. — Eu fui um covarde. Um canalha. E não tem desculpa que apague o que eu fiz.

SN mantinha o olhar firme, mas seus dedos tremiam levemente.

— Continue.

Yoongi assentiu.

— Quando eu percebi que estava me apaixonando por você, já era tarde demais. Eu me sabotei. Eu estraguei tudo. Eu transformei um sentimento puro num jogo sujo. E você… — ele sorriu triste. — Você só queria amar. Queria ser amada. Eu destruí algo que poderia ter sido bonito, e é uma das piores coisas que já fiz na vida.

Ela apertou os braços contra o peito, como se aquilo doesse ainda mais por ouvir da boca dele.

— E o vídeo? — ela perguntou com a voz baixa. — Você apagou?

— Apaguei tudo. O original. Os backups. Entreguei o HD à polícia. — ele respondeu rapidamente. — Eu também confessei. Fui chamado pra depor e não fugi. Eu sei que posso ser punido. E mereço.

Silêncio.

— Por que agora? — SN sussurrou. — Por que você veio até mim?

Yoongi engoliu em seco.

— Porque eu tô indo embora. Consegui um projeto fora, na Europa. Não volto tão cedo. E eu… eu não conseguia ir sem te olhar nos olhos e dizer que me arrependo. E que sinto muito. Por tudo.

Ela ficou ali, parada, com lágrimas contidas nos olhos.

— Você me destruiu, Yoongi. Me fez duvidar de mim mesma. Me fez sentir suja.

Ele abaixou a cabeça, os olhos vermelhos.

— Eu sei. E eu vou carregar isso comigo. Não vim buscar perdão. Vim confessar. Porque você merece a verdade. E merece paz.

SN o observou por alguns segundos que pareceram longos demais. Depois apenas disse:

— Boa viagem.

Yoongi assentiu, não esperando mais. Ele deu um último olhar para ela, e então saiu, com o som da porta se fechando como um ponto final.

Ela ficou ali, em silêncio, sentindo uma leveza estranha no peito. Aquilo não apagava a dor, mas talvez fosse o início de uma cura.

E ele? Pela primeira vez, saiu de um lugar sabendo que deixar ir também era uma forma de amar.

Tae estacionou a moto um pouco mais adiante da galeria, como sempre fazia quando vinha buscar SN após o expediente.

Foi quando viu.

Yoongi.

Saindo pela porta de vidro da galeria, de cabeça baixa. Carregava um boné simples e uma mochila caída num dos ombros. Parecia diferente — não apenas fisicamente, mas como se carregasse o peso de uma vida inteira nas costas.

Tae congelou por alguns segundos. O instinto de correr atrás falou mais alto, mas antes que pudesse reagir, Yoongi entrou rapidamente em um táxi que já o aguardava na esquina. O carro seguiu o fluxo e desapareceu na curva da rua.

Ele franziu o cenho, sentindo um arrepio desconfortável subir pela espinha.

— O que esse desgraçado veio fazer aqui?

Sem perder tempo, ele correu até a porta da galeria, entrando de maneira mais abrupta do que o normal.

SN estava atrás do balcão, ainda um pouco abalada. Tinha acabado de guardar uma pasta com desenhos antigos quando ouviu a porta se abrir com força. Levantou o rosto e se deparou com Tae entrando às pressas, o olhar aflito.

— Tae? — ela franziu o cenho. — O que foi?

Ele caminhou até ela, os olhos vasculhando cada detalhe do rosto dela.

— Eu vi o Yoongi saindo daqui. — disse, direto. — Ele te incomodou? Ele te falou alguma coisa? Tá tudo bem?

SN piscou algumas vezes e suspirou, se aproximando dele e segurando sua mão com delicadeza.

— Calma, calma… ele veio aqui, sim. Mas não fez nada. Só… conversou.

Tae ainda estava rígido, os ombros tensos. Seus dedos apertaram levemente os dela.

— Conversou? SN, ele não é alguém que a gente pode confiar. Depois de tudo…

Ela assentiu devagar, seus olhos ainda um pouco marejados, mas calmos.

— Eu sei. Eu também pensei nisso. Mas ele só… pediu desculpas. De verdade. Disse que tava indo embora do país. Que apagou tudo. Que tava arrependido. E… por mais que seja difícil de acreditar, Tae… eu vi nos olhos dele. Ele tava quebrado.

Tae mordeu o lábio inferior, lutando entre a raiva e a empatia contida.

— Ele devia estar quebrado mesmo. Mas isso não apaga o que ele fez.

— Eu sei. — SN passou os dedos no braço dele, tentando acalmá-lo. — Mas ouvir aquilo foi importante. Encerrar esse capítulo. Eu não disse que o perdoei. Mas acho que… agora posso seguir sem carregar mais nada daqui dentro.

Ela apontou para o próprio peito, e Tae a envolveu num abraço protetor, puxando-a contra o peito dele.

— Eu tô aqui, tá? E se ele tentar qualquer coisa, qualquer coisa, eu…

— Eu sei, meu amor. — ela sussurrou contra o peito dele. — Mas agora… é só nós dois. A história dele ficou pra trás.

Ele respirou fundo, beijou o topo da cabeça dela e afagou seus cabelos com carinho.

— Eu amo você. E vou continuar te protegendo. Sempre.

SN sorriu com os olhos fechados, sentindo o coração finalmente em paz.

Meses depois…

O som de fita adesiva sendo puxada ecoava pelo novo apartamento. Caixas abertas por todos os cantos, roupas jogadas em cima do sofá, livros empilhados sem ordem — e no meio do caos, risadas abafadas.

— Tae! Cuidado com essa caixa! Tem coisa frágil aí! — SN gritou do corredor, tentando impedir que ele a colocasse de qualquer jeito no chão.

Ele a olhou por cima do ombro, suado, com a camiseta amassada e um sorriso largo nos lábios.

— Amor… isso aqui é só a nossa coleção de cadernos velhos e suas cartas que você disse que não ia reler nunca mais. Se quebrar, só se for meu coração.

Ela jogou uma almofada nele, rindo.

— Idiota!

Ele largou a caixa no chão de leve e caminhou até ela. Quando se aproximou, envolveu a cintura dela com os braços por trás, a encostando de leve na parede.

— O que foi? — sussurrou contra a orelha dela, a voz rouca. — Tá estressada com as caixas, é?

Ela riu, sentindo os lábios dele beijarem sua nuca. A mão dele deslizou devagar pela lateral da cintura dela, até a barriga.

— Tae… se a gente começar agora, a gente não termina essa mudança hoje.

— E desde quando a gente faz planos? — ele provocou, dando uma mordida de leve no lóbulo da orelha dela.

Ela mordeu o lábio, virando-se nos braços dele. O beijo veio intenso, urgente, mesmo com caixas ao redor e a campainha ainda não instalada.

— Tá — ela disse entre os beijos. — Trinta segundos. Depois a gente termina de colocar as coisas nos lugares.

Ele a apertou contra o peito, a respiração descompassada.

— Trinta segundos, hein? Prometo usar bem cada um deles.

As mãos bobas já estavam passeando pelos seios dela por dentro da blusa quando o barulho de uma panela caindo da bancada os fez pular de susto.

— Ok! — SN riu, tentando recuperar o fôlego. — Isso foi o universo nos lembrando que temos coisas pra fazer.

— E eu só queria desencaixotar você.

— Tenta de novo mais tarde. — ela piscou.

Ele levantou uma sobrancelha.

— Promessa?

— Promessa.

Voltaram à bagunça com sorrisos no rosto, mãos que se esbarravam de propósito e olhares que falavam mais do que qualquer contrato.

Não era um casamento. Não era o final feliz de conto de fadas.

Era só o começo da vida real.
Com amor, toque, risos e caixas — muitas caixas.
E eles estavam prontos para viver tudo. Juntos.

11 Comentários

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  1. Marcela
    Feb 22, '26 at 1:39 pm

    — A cena que vi lá em cima… não tá nos livros de pai nenhum. E os livros… estavam todos no chão, literalmente. A menina no colo dele, parecendo que ia levitar. Eu fiquei travado. Três segundos a mais e eu tinha desmaiado ali mesmo.

    Kkkkkkkkkkkk ooh gente, o coitado quase tendo um treco

  2. Iasmine
    Feb 24, '26 at 12:33 am

    — Não… não foi um fantasma. — ele disse. — Mas eu vi coisas… que meu coração de pai nunca vai esquecer.

    Homem tu não devia ter aberto aquela porta kkkkkk

  3. Iasmine
    Feb 24, '26 at 12:35 am

    — Quando eu percebi que estava me apaixonando por você, já era tarde demais. Eu me sabotei. Eu estraguei tudo. Eu transformei um sentimento puro num jogo sujo. E você… — ele sorriu triste. — Você só queria amar. Queria ser amada. Eu destruí algo que poderia ter sido bonito, e é uma das piores coisas que já fiz na vida.

    Mentiraaaaa.. eu achei que ele só tinha ficado por vingança, mas ele começou a gostar dela? Pqp minha cabeça bugou

  4. Iasmine
    Feb 24, '26 at 12:36 am

    Era só o começo da vida real. Com amor, toque, risos e caixas — muitas caixas. E eles estavam prontos para viver tudo. Juntos.

    Ah que fofos eles foram morar juntos

  5. Marcela
    Apr 20, '26 at 11:52 pm

    — Eu sei. E eu vou carregar isso comigo. Não vim buscar perdão. Vim confessar. Porque você merece a verdade. E merece paz.

    Ao menos tem consciência das bostas que fez

  6. Marcela
    Apr 20, '26 at 11:56 pm

    [quote]— O que esse desgraçado veio fazer aqui?

    Ele já puto da vida

  7. Marcela
    Apr 21, '26 at 12:01 am

    [quote]— Eu sei, meu amor. — ela sussurrou contra o peito dele. — Mas agora… é só nós dois. A história dele ficou pra trás.

    Agora é só sombra e água fresca kkkk

  8. Thamiris
    Apr 24, '26 at 10:07 pm

    — A cena que vi lá em cima… não tá nos livros de pai nenhum. E os livros… estavam todos no chão, literalmente. A menina no colo dele, parecendo que ia levitar. Eu fiquei travado. Três segundos a mais e eu tinha desmaiado ali mesmo.

    Aahhhhh levitando kkk
    Coitado desse pai

  9. Thamiris
    Apr 24, '26 at 10:10 pm

    Yoongi os viu por acaso, enquanto caminhava pela calçada oposta, indo para uma reunião que não queria comparecer. Tae tinha uma das mãos na cintura dela, e ela ria de algo que ele sussurrava em seu ouvido. Estavam de mochilas, parecendo prontos para embarcar em alguma pequena aventura de fim de semana.

    Esse traste não desaparece não

  10. Thamiris
    Apr 24, '26 at 10:13 pm

    — Porque eu tô indo embora. Consegui um projeto fora, na Europa. Não volto tão cedo. E eu… eu não conseguia ir sem te olhar nos olhos e dizer que me arrependo. E que sinto muito. Por tudo.

    Agora fiquei com dó dele
    Pq entendo que tbm foi culpa do Tae

  11. Thamiris
    Apr 24, '26 at 10:19 pm

    Era só o começo da vida real. Com amor, toque, risos e caixas — muitas caixas. E eles estavam prontos para viver tudo. Juntos.

    Aaahhhh

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