You have no alerts.
Header Background Image

O tempo em Seul não passava; ele se acumulava em camadas de concreto, planilhas de transição e um silêncio que começava a pesar mais que o teto de vidro do décimo oitavo andar. Nas duas semanas que se seguiram ao retorno de Namhae, a engrenagem que movia o casamento e os negócios de Park Jimin e SN parecia perfeitamente lubrificada para quem olhava de fora. Mas Jimin não operava na superfície. Ele conhecia cada milímetro da mulher com quem havia assinado o protocolo de comunhão total, e cada milímetro dela parecia estar se retraindo para um lugar onde ele não tinha a senha de acesso.

A transição foi sutil. Começou nas pequenas quebras de ritmo. Durante as reuniões de diretoria daquela terça-feira, enquanto os auditores destrinchavam os ativos flutuantes de Incheon, os olhos de SN, sempre afiados como lâminas cirúrgicas, demoraram três segundos a mais para fixar no gráfico de projeção do quarto trimestre. Ela se esforçava — a postura continuava impecável, o tom de voz exalava a autoridade habitual —, mas a desatenção estava lá, camuflada sob o movimento contínuo de girar a caneta entre os dedos de renda.

Jimin, sentado na cabeceira oposta, não perdeu um único detalhe. Ele não a interrompeu, não fez perguntas diante dos diretores, mas sua mente registrou o desvio. Ela não está aqui, ele pensou, enquanto sua caneta assinava um memorando automático. O corpo está na mesa, mas a mente dela recuou para um terreno que eu ainda não mapeei.

O verdadeiro sinal de alerta, contudo, não veio do balancete corporativo, mas do território onde ele costumava exercer domínio absoluto.

À meia-noite, a cobertura no distrito de Seongbuk-dong estava imersa em uma penumbra cinzenta. O lençol de fios egípcios estava desalinhado. Jimin a havia puxado pela cintura com a possessividade habitual, os lábios quentes buscando a curva do pescoço dela enquanto sua mão subia pela coxa macia, afastando o tecido da camisola de seda. SN cedeu de início. Ela sempre cedia à eletricidade que os consumia, envolvendo as pernas ao redor do quadril dele, buscando o peso de seu corpo.

No entanto, quando o ritmo dele começou a ditar a intensidade de sempre, a respiração de SN travou. Uma onda de desconforto físico, misturada a uma rigidez defensiva, tomou conta do corpo dela. Ela apoiou as mãos contra o peito nu de Jimin, empurrando-o de leve, os olhos abertos na escuridão, brilhando com uma vulnerabilidade que ele nunca havia visto ali.

— Jimin… para. Por favor — ela sussurrou, a voz saindo quase sem fôlego. — Hoje não.

Jimin parou instantaneamente. O corpo dele, rígido pelo desejo e pela surpresa, congelou acima do dela. Isso nunca havia acontecido. Em dois anos de jogos de poder e magnetismo bruto, a resposta dela sempre fora o confronto ou a entrega total. Nunca o recuo.

Ele saiu de cima dela com um movimento controlado, sentando-se na borda da cama de casal. A calça de moletom cinza foi puxada de volta, mas a atenção dele estava inteiramente focada na silhueta dela sob os lençóis. Jimin inclinou-se, estendendo a mão para afastar os cabelos pretos do rosto dela, a voz descendo para um tom baixo, denso de uma preocupação genuína que raramente mostrava ao mundo.

— O que está acontecendo, SN? — ele perguntou, o olhar escaneando cada traço da palidez dela sob a luz da lua que vinha da janela. — Está sentindo alguma dor? Eu passei do limite? Eu forcei o ângulo?

— Não… não é nada disso — ela respondeu rápido demais, puxando o lençol até os ombros, o coração batendo contra as costelas. O medo de que ele ouvisse o segredo guardado em seu ventre a fez se encolher sutilmente. — Eu só… não estou me sentindo muito bem nesses últimos dias. É exaustão. Só isso, Park.

Jimin não se deu por satisfeito, mas o instinto de proteção falou mais alto que a desconfiança. No dia seguinte, a central de atendimento privado da holding Park trabalhou em dobro. Jimin contatou pessoalmente três dos melhores especialistas de Seul, exigindo consultas domiciliares que ela prontamente recusou com uma risada fria, alegando que ele estava exagerando por causa de uma simples oscilação de pressão.

Frustrado, ele acionou o último recurso: ligou diretamente para a Dra. Kang, a médica da família cuja clínica privada em Mapo atendia SN.

— Quero um painel completo de exames para a minha esposa, doutora — Jimin ordenou da mesa de sua presidência, os nós dos dedos brancos ao redor do celular criptografado. — Ela está pálida, recusando-se a comer o café da manhã e cortou o sexo no meio ontem à noite. Se for estresse crônico por causa da transição da Lee, eu quero saber agora.

Do outro lado da linha, a médica manteve a voz imperturbável, fiel ao pacto de sigilo absoluto que SN havia exigido.

— Diretor Park, o prontuário de sua esposa é confidencial, mas posso garantir que, devido aos sintomas que o senhor me relatou… o diagnóstico é de exaustão sistêmica. Ela precisa de repouso absoluto. Dê bastante atenção, cuidado e não permita que ela se desgaste com as operações de risco da holding por enquanto. O corpo dela está respondendo à sobrecarga.

Jimin desligou o aparelho, passando a mão pelos cabelos úmidos. Exaustão. Fazia sentido, mas a distância que SN mantinha dele parecia psicológica, não física. Ela estava se esquivando de seus abraços, saindo da cama antes que ele acordasse e se isolando em seu próprio escritório. O que ele não sabia era que, no fundo daquela barreira, SN travava uma batalha contra o próprio relógio. A gravidez completava três semanas e meia, e o medo da reação dele — um homem cuja vida era um tabuleiro perfeito onde crianças não faziam parte das variáveis de curto prazo — a mantinha em um cativeiro de silêncio. Ter aquele filho sempre fora o sonho silencioso dela, mas como contar ao imperador de gelo de Seul que a fusão deles havia gerado uma vida?

Enquanto o silêncio crescia na cobertura de Seongbuk-dong, o caos se instalava nos bastidores de Incheon.

Pela terceira vez em dez dias, Daniel Lee viu o seu plano perfeito virar fumaça antes mesmo do impacto. No galpão industrial, ele atirou o copo de cristal contra a parede, estilhaçando-o próximo às telas que monitoravam os veículos da holding Park.

— Como ele não passou pela rodovia? — Daniel rugiu para o chefe de segurança terceirizado. — O caminhão estava posicionado! O tempo de resposta era de menos de dois minutos para o impacto lateral na descida de Yeongjong!

— O diretor Park mudou a rota no último segundo, senhor Lee — o homem explicou, limpando o suor da testa. — Ele fez o retorno para a via secundária de alta segurança. Ele não tem saído do perímetro central de Seul. Sempre que o carro dele se move, a rota é alterada. Não conseguimos prever o fluxo.

Daniel respirou fundo, a gravata desalinhada, o estômago revirado pelo ódio. O genro estava se tornando uma sombra impenetrável, e cada tentativa frustrada aumentava o risco de Minho ou da inteligência dos Park rastrearem o desgaste químico que eles haviam implantado no sistema hidráulico. O tabuleiro estava se fechando, e Daniel sabia que seu tempo estava acabando.

O comportamento de SN quebrou mais uma regra não escrita da dinâmica do casal: a frequência de suas saídas solitárias. Ela, que sempre desdenhara das formalidades familiares e da pressão asfixiante que seus pais exerciam sobre sua carreira, começou a visitar a mansão dos Lee com uma constância alarmante.

— Vou até a casa dos meus pais, volto mais tarde — ela disse de forma concisa em uma quinta-feira à tarde, pegando as chaves do carro sem esperar a escolta padrão.

Jimin apenas observou da porta, os olhos estreitados. Era a terceira vez naquela semana. Ela não detalhava o que ia fazer e de repente, a mãe que ela tanto criticava por sua futilidade aristocrática havia se tornado um destino frequente.

Duas horas depois, no corredor leste da sede da holding, Minho interceptou Jimin enquanto este caminhava para a sala de conferências. O irmão de SN parecia menos focado na prancheta de segurança e mais tenso do que o normal. Ele olhou para os lados antes de fechar a porta da sala de apoio, garantindo privacidade.

— Temos um problema, Jimin — Minho começou, a voz baixa, sem o habitual tom irônico. — E envolve a minha irmã.

Jimin parou, a postura assumindo uma rigidez imediata.

— O que tem a SN?

— Ela está estranha. Muito estranha — Minho soltou, cruzando os braços. — Ela tem vindo à empresa todos os dias, mas não fica até tarde. Está sempre no telefone, se isolando na sala de reuniões pequena, e o fluxo de segurança dela aponta que ela está indo à mansão do meu pai quase quatro vezes por semana. Ela nunca suportou passar mais de duas horas naquele lugar. Além disso… ela está distante de mim.

Jimin soltou uma respiração pesada, a mandíbula travando.

— Você também percebeu isso? Ela tem se afastado de mim de uma forma que eu não estou entendendo. Eu queria falar com ela, estava esperando que ela viesse até mim quando estivesse pronta, mas já passou do limite. Acho que vou ter que realmente chamá-la para conversar hoje à noite e entender o que está acontecendo nesse casamento.

— Ela não é assim, Jimin. Tem alguma coisa errada — Minho ponderou, o cenho franzido. — Será que o meu pai fez a cabeça dela com alguma coisa? Alguma pressão psicológica sobre a fusão da construtora?

— Não seria possível — Jimin rebateu imediatamente, a voz firme, embora o estômago estivesse tenso. — A SN é cirúrgica. Ela não se deixaria levar por nada que o Daniel falasse, muito menos contra os interesses que nós dois estabelecemos para a holding.

— Normalmente, eu concordaria com você — Minho disse, dando um passo à frente, a voz caindo para um sussurro quase imperceptível. — Mas ultimamente ela está tão estranha que eu já não sei de mais nada. Recentemente… eu estava no escritório do meu pai coletando algumas assinaturas de partilha e ouvi os dois conversando atrás da porta entreaberta. Não consegui ouvir os detalhes, mas meu pai estava falando sobre ela dar algum tipo de benefício… alguma prioridade ou concessão de ativos da construtora para o fundo pessoal dele. Algo grande. E o pior, Jimin… eu ouvi a SN concordar. Ela disse que faria o arranjo.

Jimin congelou por um segundo completo, a expressão fria e imperturbável vacilando sob o impacto das palavras do cunhado. O silêncio que se seguiu na sala de apoio foi cortante. SN, sua igual, a mente implacável que havia jurado assumir o controle total do tabuleiro ao lado dele, estava fazendo acordos de bastidores com o homem que tentava drenar a holding? Concordando em dar prioridades ao pai pelas costas da governança?

— Você tem certeza do que ouviu, Minho? — Jimin perguntou, a voz descendo para um tom gélido, perigoso.

— Eu não ouvi os números exatos, mas a palavra “prioridade de concessão” e a voz dela aceitando… isso eu ouvi — Minho respondeu, o olhar preocupado.

Jimin ajeitou a lapela do paletó, os olhos escuros brilhando com uma resolução sombria. O tempo de esperar pela boa vontade dela havia acabado. Havia dias demais de silêncio, recuos na cama e segredos.

— Eu vou conversar com ela hoje — Jimin declarou, a voz cortante como o mármore da cozinha deles. — Já passou dias demais. Se ela está jogando um jogo duplo na minha mesa, eu vou descobrir hoje à noite.

10 Comentários

Aviso! Seu comentário ficará invisível para outros convidados e assinantes (exceto para respostas), inclusive para você, após um período de tolerância. Mas se você enviar um endereço de e-mail e ativar o ícone de sino, receberá respostas até que as cancele.
  1. Iasmine
    Jun 24, '26 at 11:48 pm

    — Jimin… para. Por favor — ela sussurrou, a voz saindo quase sem fôlego. — Hoje não.

    Vish mano que ze ruela essa sn tbm ein

  2. Iasmine
    Jun 24, '26 at 11:49 pm

    — Diretor Park, o prontuário de sua esposa é confidencial, mas posso garantir que, devido aos sintomas que o senhor me relatou… o diagnóstico é de exaustão sistêmica. Ela precisa de repouso absoluto. Dê bastante atenção, cuidado e não permita que ela se desgaste com as operações de risco da holding por enquanto. O corpo dela está respondendo à sobrecarga.

    Que bom tudo contribuindo contra

  3. Iasmine
    Jun 24, '26 at 11:49 pm

    — Normalmente, eu concordaria com você — Minho disse, dando um passo à frente, a voz caindo para um sussurro quase imperceptível. — Mas ultimamente ela está tão estranha que eu já não sei de mais nada. Recentemente… eu estava no escritório do meu pai coletando algumas assinaturas de partilha e ouvi os dois conversando atrás da porta entreaberta. Não consegui ouvir os detalhes, mas meu pai estava falando sobre ela dar algum tipo de benefício… alguma prioridade ou concessão de ativos da construtora para o fundo pessoal dele. Algo grande. E o pior, Jimin… eu ouvi a SN concordar. Ela disse que faria o arranjo.

    Tem coisa nesse angu ein..

  4. Iasmine
    Jun 24, '26 at 11:50 pm

    — Eu vou conversar com ela hoje — Jimin declarou, a voz cortante como o mármore da cozinha deles. — Já passou dias demais. Se ela está jogando um jogo duplo na minha mesa, eu vou descobrir hoje à noite.

    Pronto ja me estressei pq agora ele vai achar que ela ta tramando contra ele

  5. Thamiris
    Jun 25, '26 at 4:10 pm

    Jimin, sentado na cabeceira oposta, não perdeu um único detalhe. Ele não a interrompeu, não fez perguntas diante dos diretores, mas sua mente registrou o desvio. Ela não está aqui, ele pensou, enquanto sua caneta assinava um memorando automático. O corpo está na mesa, mas a mente dela recuou para um terreno que eu ainda não mapeei.

    Detalhista/possessivo

  6. Thamiris
    Jun 25, '26 at 4:17 pm

    — Normalmente, eu concordaria com você — Minho disse, dando um passo à frente, a voz caindo para um sussurro quase imperceptível. — Mas ultimamente ela está tão estranha que eu já não sei de mais nada. Recentemente… eu estava no escritório do meu pai coletando algumas assinaturas de partilha e ouvi os dois conversando atrás da porta entreaberta. Não consegui ouvir os detalhes, mas meu pai estava falando sobre ela dar algum tipo de benefício… alguma prioridade ou concessão de ativos da construtora para o fundo pessoal dele. Algo grande. E o pior, Jimin… eu ouvi a SN concordar. Ela disse que faria o arranjo.

    Ah .meu pai,vai já dá merda isso ai

  7. Marcela
    Jun 25, '26 at 6:23 pm

    [quote]Jimin, sentado na cabeceira oposta, não perdeu um único detalhe. Ele não a interrompeu, não fez perguntas diante dos diretores, mas sua mente registrou o desvio. Ela não está aqui, ele pensou, enquanto sua caneta assinava um memorando automático. O corpo está na mesa, mas a mente dela recuou para um terreno que eu ainda não mapeei.

    rapaz, tá pensativo demais ele

  8. Marcela
    Jun 25, '26 at 6:24 pm

    [quote]O verdadeiro sinal de alerta, contudo, não veio do balancete corporativo, mas do território onde ele costumava exercer domínio absoluto.

    Isso que tava tirando a paz dele

  9. Marcela
    Jun 25, '26 at 6:26 pm

    [quote]— O que está acontecendo, SN? — ele perguntou, o olhar escaneando cada traço da palidez dela sob a luz da lua que vinha da janela. — Está sentindo alguma dor? Eu passei do limite? Eu forcei o ângulo?

    Não meu querido, você acertou o ângulo ( TOTALMENTE)

  10. Marcela
    Jun 25, '26 at 7:52 pm

    [quote]— Eu não ouvi os números exatos, mas a palavra “prioridade de concessão” e a voz dela aceitando… isso eu ouvi — Minho respondeu, o olhar preocupado.

    Lascou foi tudo agora, ele já ta pensando besteira

Nota

Você não pode copiar conteúdo desta página