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Índice do Capítulo

O chiado monocórdico e ininterrupto do motor da esteira de alta velocidade dominava o ambiente fechado da academia privativa da cobertura.

Jungkook estava com a regata preta encharcada de suor, grudada ao tórax que subia e descia em um ritmo desordenado e violento. Gotas grossas escorriam por sua testa, queimavam seus olhos escuros e pingavam sem parar sobre o painel digital, onde o cronômetro cravava uma hora e vinte minutos de corrida contínua na esteira. As solas de seus tênis golpeavam a lona em uma cadência quase destrutiva.

Ele não estava correndo para treinar o físico; estava correndo para fugir da imagem da própria fraqueza.

A cada passada pesada, o viva-voz da voz rouca de Yoongi ecoava dentro de sua cabeça como um estalo de chicote: “Se importa com a sua vida e deixa a minha em paz.”

Jungkook fechou os olhos com força, puxando o ar rasgado pela boca seca. A vergonha que o consumia era corrosiva. Ele havia se exposto da maneira mais ridícula possível. Arrancara o telefone das mãos de S/N como um adolescente descontrolado, rosnara contra o microfone e entregara de bandeja a Mia — a mulher com quem dividia a vida há anos — a prova viva de que a presença de S/N o estava enlouquecendo.

Ele diminuiu a velocidade no painel, o motor desacelerando sob seus pés até parar por completo.

Perto do espelho lateral, o barulho metálico das anilhas se chocando ecoou pela sala quando ele finalmente pulou fora da esteira. Arfando, com as mãos apoiadas nos joelhos e o tronco curvado para a frente, ele encarou o próprio reflexo. Suas pupilas estavam dilatadas, o pescoço avermelhado pelas veias saltadas, os punhos cerrados.

Sem fazer pausas para descansar, caminhou até o suporte de pesos para dar início à segunda metade do treino. Pegou dois halteres pesados de trinta quilos e começou uma série exaustiva de bíceps e ombros. Os músculos dos seus braços queimavam, gritando sob a carga excessiva, mas ele continuou. Um. Dois. Três. Ele empurrava o corpo ao limite extremo ao longo daquelas quase três horas totais de musculação e esteira porque a dor física era a única coisa capaz de abafar temporariamente o ciúme cego que ainda queimava em seu estômago. A ideia de Yoongi tocando S/N, a ideia da risada que ela dera ao ler a mensagem, o tom de intimidade entre eles…

— Porra — ele praguejou baixo, soltando os halteres no chão de borracha com um estrondo abafado.

Ele tombou de costas no colchonete, encarando o teto iluminado por fitas de LED. O suor esfriava na sua pele, trazendo um calafrio incômodo. Ele sabia que o tempo estava correndo. Sabia que precisava tomar um banho, abrir aquela porta e encarar o desastre que deixara na sala. Mas o medo de olhar nos olhos de Mia e ver a confirmação de que sua máscara caíra o mantinha acorrentado àquele chão frio.

Na sala, o silêncio que sucedera a partida de Jungkook era espesso, quase sufocante.

Mia continuava sentada na ponta do sofá. A xícara de chá em seu colo agora estava fria. Suas mãos tremiam tão levemente que a porcelana dava pequenos estalos contra o pires. Ela não chorava. Não havia uma única lágrima escorrendo por suas bochechas; em seu lugar, havia uma expressão de torpor estático, como se o mundo ao seu redor tivesse perdido o som e a cor em um único segundo.

A dor não veio como um choro espalhafatoso; veio como uma paralisia gelada na boca do estômago.

Ela vira Jungkook bravo. Vira Jungkook exausto, estressado com reuniões de diretoria, protetor com os membros do grupo e até ciumento em situações bobas dos primeiros anos de namoro. Mas ela jamais, em toda a história dos dois, o vira perder o controle daquela forma. A fúria no olhar dele ao arrancar o celular das mãos de S/N, a veia saltada no pescoço ao rosnar para Yoongi, a voz trêmula de possessividade… Não era o desespero de quem protegia a agência ou a imagem do grupo. Era o desespero cru de um homem que sentia que estava perdendo o controle sobre a mulher que queria para si.

E esse homem era o seu namorado.

Ele gritou com o Yoongi por causa dela. A frase repetia-se em sua mente como um mantra venenoso. Ele perdeu o juízo na minha frente. Por causa dela.

Mia ergueu o rosto devagar, olhando para a porta da academia no fundo do corredor. O som fraco dos aparelhos ainda cruzava o ar. Ela baixou os olhos para o relógio de pulso de ouro no seu braço esquerdo.

11:45 da manhã.

Em menos de duas horas, a van da sua própria agência de modelos, passaria na portaria da cobertura para levá-la ao aeroporto de Incheon. Ela tinha um compromisso contratual inadiável: uma semana inteira em Paris para cobrir a Semana de Moda e participar dos eventos da marca para a qual era embaixadora. Uma semana fora da Coreia. Uma semana em que Jungkook viajaria para Nova York acompanhado por S/N, dividindo o mesmo hotel, os mesmos bastidores, a mesma narrativa pública, sem a presença de Mia para monitorar cada passo.

A mente de Mia começou a girar em uma espiral desordenada.

E se eu cancelar? O pensamento surgiu rápido, desesperado. Posso inventar uma crise de saúde. Posso dizer que tive uma enxaqueca incapacitante, que caí da escada, que não posso voar. A agência vai surtar, a multa rescisória vai ser gigante, mas eu continuo aqui. Eu fico no apartamento. Eu não deixo ele ir para Nova York sozinho com ela.

Ela colocou a xícara sobre a mesa de centro. Suas unhas perfeitamente pintadas de nude cravaram-se na seda do robe.

Mas, à medida que os segundos passavam, a razão fria de Mia começou a retomar o espaço atropelado pelo pânico. Se ela cancelasse a viagem de trabalho, estaria entregando o jogo. Estaria admitindo que estava apavorada, que se sentia ameaçada por S/N, que o namoro estava ruindo. E o mais perigoso: se ela ficasse, forçaria Jungkook a encarar a situação. E se ele, encurralado pela culpa e pelo desejo sufocado, acabasse admitindo em voz alta o que suas atitudes acabavam de gritar?

Ela não podia ouvir aquela verdade. Se ele colocasse em palavras que estava confuso por S/N, o namoro terminaria ali.

Mia engoliu em seco, a garganta queimando. Ela se levantou do sofá devagar, ajustando o cinto do robe com dedos trêmulos. Encarou a porta fechada da suíte principal, onde suas malas já estavam prontas perto do closet.

Ela iria para Paris. Cumpriria a agenda. Mas a dúvida que acabara de se instalar em seu peito nunca mais seria apagada.

9 Comentários

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  1. Marcela
    Aug 2, '26 at 9:05 pm

    [quote]Sem fazer pausas para descansar, caminhou até o suporte de pesos para dar início à segunda metade do treino. Pegou dois halteres pesados de trinta quilos e começou uma série exaustiva de bíceps e ombros. Os músculos dos seus braços queimavam, gritando sob a carga excessiva, mas ele continuou. Um. Dois. Três. Ele empurrava o corpo ao limite extremo ao longo daquelas quase três horas totais de musculação e esteira porque a dor física era a única coisa capaz de abafar temporariamente o ciúme cego que ainda queimava em seu estômago. A ideia de Yoongi tocando S/N, a ideia da risada que ela dera ao ler a mensagem, o tom de intimidade entre eles…

    Tá perdendo o controle, hein querido??

  2. Marcela
    Aug 2, '26 at 9:08 pm

    [quote]Mia continuava sentada na ponta do sofá. A xícara de chá em seu colo agora estava fria. Suas mãos tremiam tão levemente que a porcelana dava pequenos estalos contra o pires. Ela não chorava. Não havia uma única lágrima escorrendo por suas bochechas; em seu lugar, havia uma expressão de torpor estático, como se o mundo ao seu redor tivesse perdido o som e a cor em um único segundo.

    Se arrependimento matasse, tu tava lascada Mia

  3. Marcela
    Aug 2, '26 at 9:10 pm

    [quote]Ela vira Jungkook bravo. Vira Jungkook exausto, estressado com reuniões de diretoria, protetor com os membros do grupo e até ciumento em situações bobas dos primeiros anos de namoro. Mas ela jamais, em toda a história dos dois, o vira perder o controle daquela forma. A fúria no olhar dele ao arrancar o celular das mãos de S/N, a veia saltada no pescoço ao rosnar para Yoongi, a voz trêmula de possessividade… Não era o desespero de quem protegia a agência ou a imagem do grupo. Era o desespero cru de um homem que sentia que estava perdendo o controle sobre a mulher que queria para si.

    Tá muito claro isso
    Pior é ela saber que tudo começou com uma ideia que ela teve, pqp

  4. Marcela
    Aug 2, '26 at 9:12 pm

    [quote]Em menos de duas horas, a van da sua própria agência de modelos, passaria na portaria da cobertura para levá-la ao aeroporto de Incheon. Ela tinha um compromisso contratual inadiável: uma semana inteira em Paris para cobrir a Semana de Moda e participar dos eventos da marca para a qual era embaixadora. Uma semana fora da Coreia. Uma semana em que Jungkook viajaria para Nova York acompanhado por S/N, dividindo o mesmo hotel, os mesmos bastidores, a mesma narrativa pública, sem a presença de Mia para monitorar cada passo.

    Mia, vá certa de que já era, viu?
    Vá sabendo que F U D E U
    e nesse caso, fudeu mesmo, e com força

  5. Marcela
    Aug 2, '26 at 9:15 pm

    [quote]Mas, à medida que os segundos passavam, a razão fria de Mia começou a retomar o espaço atropelado pelo pânico. Se ela cancelasse a viagem de trabalho, estaria entregando o jogo. Estaria admitindo que estava apavorada, que se sentia ameaçada por S/N, que o namoro estava ruindo. E o mais perigoso: se ela ficasse, forçaria Jungkook a encarar a situação. E se ele, encurralado pela culpa e pelo desejo sufocado, acabasse admitindo em voz alta o que suas atitudes acabavam de gritar?

    Poha Mia, sei nem como te ajudar

  6. Iasmine
    Aug 3, '26 at 9:37 am

    Jungkook fechou os olhos com força, puxando o ar rasgado pela boca seca. A vergonha que o consumia era corrosiva. Ele havia se exposto da maneira mais ridícula possível. Arrancara o telefone das mãos de S/N como um adolescente descontrolado, rosnara contra o microfone e entregara de bandeja a Mia — a mulher com quem dividia a vida há anos — a prova viva de que a presença de S/N o estava enlouquecendo.

    Amigo tu se perdeu no personagem kkkkkkk deixou escancarado pra todo mundo

  7. Iasmine
    Aug 3, '26 at 9:37 am

    Ela vira Jungkook bravo. Vira Jungkook exausto, estressado com reuniões de diretoria, protetor com os membros do grupo e até ciumento em situações bobas dos primeiros anos de namoro. Mas ela jamais, em toda a história dos dois, o vira perder o controle daquela forma. A fúria no olhar dele ao arrancar o celular das mãos de S/N, a veia saltada no pescoço ao rosnar para Yoongi, a voz trêmula de possessividade… Não era o desespero de quem protegia a agência ou a imagem do grupo. Era o desespero cru de um homem que sentia que estava perdendo o controle sobre a mulher que queria para si.

    Meu deus que humilhação Mia fiaa kkkkkkk

  8. Iasmine
    Aug 3, '26 at 9:38 am

    Ele gritou com o Yoongi por causa dela. A frase repetia-se em sua mente como um mantra venenoso. Ele perdeu o juízo na minha frente. Por causa dela.

    Isso aqui deve ter doído mais que um soco na fuça

  9. Iasmine
    Aug 3, '26 at 9:39 am

    E se eu cancelar? O pensamento surgiu rápido, desesperado. Posso inventar uma crise de saúde. Posso dizer que tive uma enxaqueca incapacitante, que caí da escada, que não posso voar. A agência vai surtar, a multa rescisória vai ser gigante, mas eu continuo aqui. Eu fico no apartamento. Eu não deixo ele ir para Nova York sozinho com ela.

    Mia fia tu ta desesperada agora.. o tiro saiu pela culatra

Nota