Capítulo 1 – Mecanismos de Sobrevivência
por FanfiqueiraO relógio digital sobre a escrivaninha marcava exatamente cinco horas e vinte e oito minutos quando os olhos de S/N se abriram. Ela não precisava de alarme. O pavor constante de perder o horário e romper a precisão milimétrica de sua rotina funcionava como um relógio biológico cruel.
O silêncio no apartamento era espesso, quase tátil. Com movimentos calculados para não fazer o estrado da cama ranger, ela colocou os pés no chão gelado. A penumbra do quarto ainda escondia as imperfeições das paredes, mas S/N conhecia cada centímetro daquele espaço.
Especialmente o peso que carregava no pescoço.
Abaixo da gola da camiseta de algodão, uma corrente fina segurava uma chave mestra. Na cabeceira da cama, escondido sob o travesseiro, repousava o chaveiro principal. Um monte de metal frio e pesado. Cadeado do guarda-roupa, cadeado da gaveta de documentos, cadeado da caixa de metal onde guardava cada nota acumulada do seu dinheiro, e a tranca dupla da porta.
Ela se aproximou do guarda-roupa, que ostentava uma corrente de ferro grossa enrolada nos puxadores. Encaixou a chave, girou e abafou o estalo do metal com a palma da mão.
— Calma. Sem pressa — sussurrou para si mesma, prendendo a respiração.
Pegou o uniforme do café, a calça jeans desbotada e as meias limpas. Antes de trancar o móvel novamente, olhou para o topo da prateleira, onde três cadernos universitários e um conjunto de canetas de alta precisão descansavam impecáveis. Aqueles materiais não eram apenas utensílios de estudo; eram seu passaporte de saída daquele inferno. A bolsa de cem por cento na Universidade St. Jude era a única coisa que a mantinha de pé.
S/N trancou o armário, guardou a chave e destrancou a porta do quarto com extremo cuidado.
O corredor cheirava a mofo e ao rastro amargo de soju barato da noite anterior. Ao passar em frente ao quarto do irmão, a porta estava levemente entreaberta. Ela acelerou o passo, mas a sorte não estava ao seu favor naquela manhã.
— Já vai fugir, rata de biblioteca? — a voz rouca e arrastada de Min-jae surgiu da escuridão do quarto.
S/N parou, fechando os olhos por um segundo para engolir a bile que subia por sua garganta. Quando se virou, encontrou o irmão encostado no batente da porta, de braços cruzados, a fresta de luz do corredor revelando suas olheiras fundas e o sorriso debochado.
— Tenho horário no trabalho, Min-jae. Me deixa passar — disse ela, mantendo o tom de voz plano, sem demonstrar medo ou raiva. Experiência. Qualquer emoção ali servia como combustível.
Ele deu um passo à frente, bloqueando o caminho estreito até o banheiro.
— Trabalho… sei. Você sempre cheia de esquemas, né? Ganha uma grana daquele café imundo, guarda tudo e finge que é uma coitadinha. Onde você tá escondendo o dinheiro, S/N?
— Eu pago a conta de luz, Min-jae. Eu compro a comida que você come quando não tá jogando ou na rua. Eu não tenho dinheiro sobressalente.
— Mentira — ele se aproximou mais, o hálito quente e azedo cruzando o espaço entre eles. — Eu vi você trancando o armário. E aquele chaveiro ridículo que você carrega pra cima e pra baixo? Me dá algum dinheiro. Preciso resolver um negócio hoje.
— Eu não tenho nada para te dar. E mesmo se tivesse, não daria — S/N encarou os olhos dele fixamente, embora seu coração martelasse contra as costelas. — Dá licença.
Min-jae deu uma risada curta, um som seco e sem humor, antes de segurar o pulso dela com força excessiva. O aperto fez a pele de S/N queimar.
— Você se acha muito esperta só porque tirou a pontuação máxima no exame nacional, né? Acha que é melhor que todo mundo aqui. Mas adivinha só? Você ainda mora sob o mesmo teto que o pai. E quando ele acordar daqui a pouco, eu posso muito bem contar pra ele que você andou me enfrentando. Quer ver o que ele faz com seus livros de estudo?
A ameaça era direta. Eficiente. S/N sentiu os dedos frios do pânico apertarem seu pescoço. O pai, quando tomado pelo álcool, não argumentava. Ele destruía.
— Solta meu pulso — ela pediu, a voz quase num sussurro, mas carregada de uma firmeza cortante. — Se você encostar nos meus livros, eu paro de comprar a comida da semana. Quero ver você explicar pro pai por que a mesa tá vazia.
Min-jae franziu o teto, a mandíbula travada. Por alguns segundos, o silêncio entre os dois foi uma disputa silenciosa de território. Lentamente, ele soltou o braço dela, dando um tapa fraco no ombro de S/N ao se afastar.
— Você me paga. Um dia esse seu teatrinho de garota perfeita vai rastejar pro chão.
S/N não respondeu. Passou por ele sem olhar para trás, entrou no banheiro, trancou a porta e encostou a testa no espelho empoeirado acima da pia. O pulso onde ele havia apertado estava vermelho. Ela abriu a torneira, jogou água fria no rosto e olhou para o próprio reflexo.
— Só mais algumas semanas — murmurou para a garota de olheiras discretas e olhos determinados no espelho. — As aulas já vão começar. Você consegue.
Às seis horas e quinze minutos, S/N já estava na rua. O vento frio da manhã cortava suas bochechas enquanto ela caminhava a passos rápidos rumo à Mallow’s Coffee, uma cafeteria charmosa localizada a seis quarteirões dali.
Ao cruzar a porta de serviço nos fundos, o cheiro forte de café torrado e grãos moídos instantaneamente substituiu o odor opressivo de sua casa. O ambiente de trabalho era exaustivo, mas era limpo. Tinha ordem. Tinha regras. E, acima de tudo, mantinha S/N longe de casa.
— Bom dia, S/N! Chegou no segundo exato, como sempre — disse a Sra. Kang, a supervisora de meia-idade que já organizava as bandejas atrás do balcão.
— Bom dia, Sra. Kang. Já vou ligar as máquinas de expresso — respondeu S/N, vestindo o avental marrom e prendendo o cabelo num coque firme.
Pelos próximos quatro blocos de hora, o mundo de S/N transformou-se em uma dança frenética de comandes, vapor de leite, xícaras de cerâmica e trocos contados na ponta dos dedos.
— Um cappuccino e um croissant de amêndoas para a mesa quatro! — chamou o barista da cozinha.
S/N pegou a bandeja com agilidade. Ao servir a mesa, dois jovens de vestimentas impecáveis de marca e relógios caros conversavam alto sobre suas viagens de férias e os carros que dirigiam.
— E aí, traz mais açúcar pra gente? — pediu um deles, sem sequer olhar nos olhos dela, apenas acenando com os dedos de forma displicente.
— Claro, um minuto — S/N respondeu com polidez impecável, a voz destituída de qualquer ressentimento visível.
Enquanto buscava os sachês, ela olhava para aqueles jovens. Eram o tipo de estudante que frequentaria a St. Jude. A diferença era colossal: para eles, a faculdade era apenas um passo natural; para ela, era uma questão de sobrevivência. Uma guerra diária onde o erro não era uma opção.
Cada gorjeta deixada sobre as mesas era recolhida e guardada com reverência no bolso interno do avental. Troco por troco. No final do mês, aquilo pagava suas passagens, seus lápis, suas impressões de artigos acadêmicos.
Às onze horas e cinquenta e oito minutos, S/N tirou o avental, lavou as mãos e se despediu.
— Guarda um pouco dessa energia pro resto do dia, menina. Você trabalha como se não houvesse amanhã — comentou a Sra. Kang, entregando a ela um pão recheado quentinho embrulhado num guardanapo.
— Se eu parar, o amanhã me atropela, Sra. Kang — S/N sorriu fraco, pegando o alimento. — Obrigada. Vejo a senhora amanhã.
Sem perder um segundo, ela caminhou até a Biblioteca Comunitária do distrito. Se a cafeteria era o lugar da agitação física, a biblioteca era o lugar da resistência silenciosa.
O prédio antigo de janelões de vidro alto abrigava um acervo vasto e pouco frequentado pelo fim da manhã. O aroma de papel antigo era para S/N o melhor refúgio do mundo.
Seu trabalho ali consistia em devolver os livros organizados nos carrinhos para as prateleiras corretas, restaurar capas danificadas e catalogar novas doações.
Subindo a escada de madeira para alcançar a fileira superior da seção de Filosofia e Direito, S/N segurava um volume pesado de teoria constitucional. Com a mão livre, ajustou a lombada no lugar exato do código.
Ela parou por um instante. Seus dedos deslizaram pela capa de um livro ao lado. Abriu na primeira página e leu um parágrafo rápido. A mente absorvia a estrutura das frases, a lógica dos argumentos. Ela devorava conceitos da mesma forma que um homem faminto devorava o pão.
— Se continuar lendo de pé nessa escada, vai acabar caindo, S/N — a voz suave do Sr. Park, o bibliotecário-chefe, ecoou do corredor abaixo.
S/N fechou o livro com um estalo leve e olhou para baixo, sorrindo de canto.
— Eu tenho bom equilíbrio, Sr. Park.
— Você tem é uma fome perigosa de conhecimento, isso sim — o senhor de óculos balançou a cabeça, com um olhar compreensivo. — O carrinho da seção de Economia acabou de chegar. Quando terminar aí, pode dar uma olhada. Mas faça uma pausa pra comer.
— Pode deixar, eu já comi — mentiu ela suavemente, descendo os degraus da escada com a habilidade de quem conhecia cada centímetro daquele piso.
O trabalho na biblioteca durava até as cinco da tarde. Cada hora ali dentro era uma trégua. Um parêntese de paz onde ninguém gritava, ninguém exigia dinheiro e ninguém ameaçava destruir o seu futuro. Mas, conforme os ponteiros do relógio grande da parede se aproximavam das dezessete horas, o estômago de S/N começava a se contorcer em nós apertados.
A trégua estava chegando ao fim. O retorno para casa era inevitável.
O sol já começava a se esconder atrás dos prédios cinzentos quando S/N virou a esquina de sua rua. Ela apressou os passos. O objetivo era chegar em casa antes do pai.
Ao abrir a porta da frente, o silêncio do lugar confirmou que a sorte ainda estava ao seu lado. O pai ainda não havia retornado do bar. Min-jae também não estava em casa.
S/N não perdeu tempo. Deixou a mochila no chão da cozinha e começou seu terceiro turno do dia: a limpeza estratégica.
Lava a louça acumulada, limpa o fogão, recolhe as garrafas de soju vazias espalhadas pela mesa de jantar e prepara uma refeição simples. Deixa a panela tampada sobre o fogão, com um prato e talheres postos ao lado.
Tudo precisava estar perfeito. Qualquer vestígio de desordem servia como pretexto para uma explosão quando o pai chegasse sob o efeito da bebida.
O relógio da cozinha marcava sete horas e trinta e cinco da noite.
S/N limpou as mãos no pano de prato e olhou ao redor. A casa estava limpa. O jantar estava pronto. Seu dever estipulado pela sobrevivência fora cumprido.
Foi exatamente nesse momento que o barulho de passos pesados e trôpegos no portão de entrada fez todos os pelos do corpo de S/N se arrepiarem.
O pai havia chegado.
Sem hesitar um único segundo, S/N pegou sua mochila e subiu os degraus da escada em disparada, mantendo as pisadas o mais leves possível. Alcançou o andar de cima justo no momento em que a porta da frente foi escancarada lá embaixo com um baque violento.
— S/N! — a voz grave e áspera do pai ecoou pela casa, carregada de hostilidade imediata. — Cadê você?
Ela entrou no quarto, fechou a porta de madeira e girou a chave na fechadura. Em seguida, pegou a corrente de ferro que ficava pendurada no batente interno, passou pelo puxador da porta e a travou no gancho de aço na parede. Ajustou o cadeado grosso e girou a chave até ouvir o clique definitivo.
Trancada. Segura.
Lá embaixo, o som de uma cadeira sendo arrastada com força e o impacto de um punho contra a mesa fez a poeira do teto do quarto oscilar levemente.
— S/N! Vem servir a minha comida! — ele berrou novamente.
S/N caminhou até a escrivaninha. Ela não respondeu. Aprender a não responder fora uma das lições mais dolorosas de sua vida. A resposta dava voz ao conflito; o silêncio, com o tempo, fazia a embriaguez do pai transformá-lo em torpor até que ele adormecesse.
Ela pegou os fones de ouvido, conectou ao celular e os colocou nas orelhas. Isolou-se em sua própria frequência.
Sentou-se na cadeira, acendeu a luminária de luz amarelada e abriu o caderno de estudos.
O mundo exterior — os gritos abafados do pai no andar de baixo, o som de objetos caindo, a ameaça constante da presença do irmão — evaporou. Diante dela estavam apenas os números, as fórmulas, os textos acadêmicos e a meta inegociável de manter-se no topo absoluto da classe na Universidade St. Jude.
Ela pegou a caneta e começou a escrever.
A luz da luminária iluminava seu rosto focado, contrastando com o aperto firme de seus dedos ao redor da caneta. As horas passaram sem que ela notasse. Das oito às nove. Das nove às dez. Das dez à meia-noite.
S/N resolveu exercícios de lógica, reescreveu resumos de economia e revisou a bibliografia completa do primeiro semestre. Seus olhos queimavam pelo cansaço acumulado das quase dezoito horas de pé, mas sua mente permanecia afiada.
Às doze horas e trinta minutos, o silêncio completo finalmente reinou no andar de baixo. O pai havia adormecido.
S/N desligou a música, tirou os fones de ouvido e encostou as costas na cadeira, respirando fundo.
Olhou para a mesa, onde seus cadernos organizados pareciam pequenos troféus de uma guerra invisível travada todos os dias. Ela se levantou, caminhou até a cama e deitou-se, puxando o cobertor fino até o queixo.
A chave mestra continuava firme em seu pescoço. O chaveiro pesado continuava sob o travesseiro.
Amanhã o alarme não precisaria tocar. Seu corpo acordaria sozinho, pronto para fazer tudo de novo. Porque para S/N, a dor do presente era apenas o preço pago pela liberdade que o futuro lhe traria.
[quote]— Trabalho… sei. Você sempre cheia de esquemas, né? Ganha uma grana daquele café imundo, guarda tudo e finge que é uma coitadinha. Onde você tá escondendo o dinheiro, S/N?
Peteco Peteco Peteco
Já não gostei desse garoto
[quote]— Mentira — ele se aproximou mais, o hálito quente e azedo cruzando o espaço entre eles. — Eu vi você trancando o armário. E aquele chaveiro ridículo que você carrega pra cima e pra baixo? Me dá algum dinheiro. Preciso resolver um negócio hoje.
Toma vergonha nessa tua cara, filhote de cruz credo
[quote]— Eu não tenho nada para te dar. E mesmo se tivesse, não daria — S/N encarou os olhos dele fixamente, embora seu coração martelasse contra as costelas. — Dá licença.
Isso aê SN, só presta assim
Gente que isso? Uma prisão?
Que ranço desse encostado aff
Noossa ela vive no hell ein pqp que lugar tenebroso
Po que pesadelo viver assim vei pqp
Isso, quero ver o que ele irá fazer?! Filha de uma égua!!!
Trabalha, estuda e cuida da casa, e não tem paz… que raiva que estou sentindo!!!
Que pesadelo de vida!!! Gostei não!!!
Escroto de pai!!! Vai se lascar fdp!!! Raiva estou.
Ok … vai melhorar essa fic né escritora?! Pois já estou com raiva e muita!!! Kkkk