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O relógio digital sobre a escrivaninha marcava exatamente cinco horas e vinte e oito minutos quando os olhos de S/N se abriram. Ela não precisava de alarme. O pavor constante de perder o horário e romper a precisão milimétrica de sua rotina funcionava como um relógio biológico cruel.

O silêncio no apartamento era espesso, quase tátil. Com movimentos calculados para não fazer o estrado da cama ranger, ela colocou os pés no chão gelado. A penumbra do quarto ainda escondia as imperfeições das paredes, mas S/N conhecia cada centímetro daquele espaço.

Especialmente o peso que carregava no pescoço.

Abaixo da gola da camiseta de algodão, uma corrente fina segurava uma chave mestra. Na cabeceira da cama, escondido sob o travesseiro, repousava o chaveiro principal. Um monte de metal frio e pesado. Cadeado do guarda-roupa, cadeado da gaveta de documentos, cadeado da caixa de metal onde guardava cada nota acumulada do seu dinheiro, e a tranca dupla da porta.

Ela se aproximou do guarda-roupa, que ostentava uma corrente de ferro grossa enrolada nos puxadores. Encaixou a chave, girou e abafou o estalo do metal com a palma da mão.

— Calma. Sem pressa — sussurrou para si mesma, prendendo a respiração.

Pegou o uniforme do café, a calça jeans desbotada e as meias limpas. Antes de trancar o móvel novamente, olhou para o topo da prateleira, onde três cadernos universitários e um conjunto de canetas de alta precisão descansavam impecáveis. Aqueles materiais não eram apenas utensílios de estudo; eram seu passaporte de saída daquele inferno. A bolsa de cem por cento na Universidade St. Jude era a única coisa que a mantinha de pé.

S/N trancou o armário, guardou a chave e destrancou a porta do quarto com extremo cuidado.

O corredor cheirava a mofo e ao rastro amargo de soju barato da noite anterior. Ao passar em frente ao quarto do irmão, a porta estava levemente entreaberta. Ela acelerou o passo, mas a sorte não estava ao seu favor naquela manhã.

— Já vai fugir, rata de biblioteca? — a voz rouca e arrastada de Min-jae surgiu da escuridão do quarto.

S/N parou, fechando os olhos por um segundo para engolir a bile que subia por sua garganta. Quando se virou, encontrou o irmão encostado no batente da porta, de braços cruzados, a fresta de luz do corredor revelando suas olheiras fundas e o sorriso debochado.

— Tenho horário no trabalho, Min-jae. Me deixa passar — disse ela, mantendo o tom de voz plano, sem demonstrar medo ou raiva. Experiência. Qualquer emoção ali servia como combustível.

Ele deu um passo à frente, bloqueando o caminho estreito até o banheiro.

— Trabalho… sei. Você sempre cheia de esquemas, né? Ganha uma grana daquele café imundo, guarda tudo e finge que é uma coitadinha. Onde você tá escondendo o dinheiro, S/N?

— Eu pago a conta de luz, Min-jae. Eu compro a comida que você come quando não tá jogando ou na rua. Eu não tenho dinheiro sobressalente.

— Mentira — ele se aproximou mais, o hálito quente e azedo cruzando o espaço entre eles. — Eu vi você trancando o armário. E aquele chaveiro ridículo que você carrega pra cima e pra baixo? Me dá algum dinheiro. Preciso resolver um negócio hoje.

— Eu não tenho nada para te dar. E mesmo se tivesse, não daria — S/N encarou os olhos dele fixamente, embora seu coração martelasse contra as costelas. — Dá licença.

Min-jae deu uma risada curta, um som seco e sem humor, antes de segurar o pulso dela com força excessiva. O aperto fez a pele de S/N queimar.

— Você se acha muito esperta só porque tirou a pontuação máxima no exame nacional, né? Acha que é melhor que todo mundo aqui. Mas adivinha só? Você ainda mora sob o mesmo teto que o pai. E quando ele acordar daqui a pouco, eu posso muito bem contar pra ele que você andou me enfrentando. Quer ver o que ele faz com seus livros de estudo?

A ameaça era direta. Eficiente. S/N sentiu os dedos frios do pânico apertarem seu pescoço. O pai, quando tomado pelo álcool, não argumentava. Ele destruía.

— Solta meu pulso — ela pediu, a voz quase num sussurro, mas carregada de uma firmeza cortante. — Se você encostar nos meus livros, eu paro de comprar a comida da semana. Quero ver você explicar pro pai por que a mesa tá vazia.

Min-jae franziu o teto, a mandíbula travada. Por alguns segundos, o silêncio entre os dois foi uma disputa silenciosa de território. Lentamente, ele soltou o braço dela, dando um tapa fraco no ombro de S/N ao se afastar.

— Você me paga. Um dia esse seu teatrinho de garota perfeita vai rastejar pro chão.

S/N não respondeu. Passou por ele sem olhar para trás, entrou no banheiro, trancou a porta e encostou a testa no espelho empoeirado acima da pia. O pulso onde ele havia apertado estava vermelho. Ela abriu a torneira, jogou água fria no rosto e olhou para o próprio reflexo.

— Só mais algumas semanas — murmurou para a garota de olheiras discretas e olhos determinados no espelho. — As aulas já vão começar. Você consegue.

Às seis horas e quinze minutos, S/N já estava na rua. O vento frio da manhã cortava suas bochechas enquanto ela caminhava a passos rápidos rumo à Mallow’s Coffee, uma cafeteria charmosa localizada a seis quarteirões dali.

Ao cruzar a porta de serviço nos fundos, o cheiro forte de café torrado e grãos moídos instantaneamente substituiu o odor opressivo de sua casa. O ambiente de trabalho era exaustivo, mas era limpo. Tinha ordem. Tinha regras. E, acima de tudo, mantinha S/N longe de casa.

— Bom dia, S/N! Chegou no segundo exato, como sempre — disse a Sra. Kang, a supervisora de meia-idade que já organizava as bandejas atrás do balcão.

— Bom dia, Sra. Kang. Já vou ligar as máquinas de expresso — respondeu S/N, vestindo o avental marrom e prendendo o cabelo num coque firme.

Pelos próximos quatro blocos de hora, o mundo de S/N transformou-se em uma dança frenética de comandes, vapor de leite, xícaras de cerâmica e trocos contados na ponta dos dedos.

— Um cappuccino e um croissant de amêndoas para a mesa quatro! — chamou o barista da cozinha.

S/N pegou a bandeja com agilidade. Ao servir a mesa, dois jovens de vestimentas impecáveis de marca e relógios caros conversavam alto sobre suas viagens de férias e os carros que dirigiam.

— E aí, traz mais açúcar pra gente? — pediu um deles, sem sequer olhar nos olhos dela, apenas acenando com os dedos de forma displicente.

— Claro, um minuto — S/N respondeu com polidez impecável, a voz destituída de qualquer ressentimento visível.

Enquanto buscava os sachês, ela olhava para aqueles jovens. Eram o tipo de estudante que frequentaria a St. Jude. A diferença era colossal: para eles, a faculdade era apenas um passo natural; para ela, era uma questão de sobrevivência. Uma guerra diária onde o erro não era uma opção.

Cada gorjeta deixada sobre as mesas era recolhida e guardada com reverência no bolso interno do avental. Troco por troco. No final do mês, aquilo pagava suas passagens, seus lápis, suas impressões de artigos acadêmicos.

Às onze horas e cinquenta e oito minutos, S/N tirou o avental, lavou as mãos e se despediu.

— Guarda um pouco dessa energia pro resto do dia, menina. Você trabalha como se não houvesse amanhã — comentou a Sra. Kang, entregando a ela um pão recheado quentinho embrulhado num guardanapo.

— Se eu parar, o amanhã me atropela, Sra. Kang — S/N sorriu fraco, pegando o alimento. — Obrigada. Vejo a senhora amanhã.

Sem perder um segundo, ela caminhou até a Biblioteca Comunitária do distrito. Se a cafeteria era o lugar da agitação física, a biblioteca era o lugar da resistência silenciosa.

O prédio antigo de janelões de vidro alto abrigava um acervo vasto e pouco frequentado pelo fim da manhã. O aroma de papel antigo era para S/N o melhor refúgio do mundo.

Seu trabalho ali consistia em devolver os livros organizados nos carrinhos para as prateleiras corretas, restaurar capas danificadas e catalogar novas doações.

Subindo a escada de madeira para alcançar a fileira superior da seção de Filosofia e Direito, S/N segurava um volume pesado de teoria constitucional. Com a mão livre, ajustou a lombada no lugar exato do código.

Ela parou por um instante. Seus dedos deslizaram pela capa de um livro ao lado. Abriu na primeira página e leu um parágrafo rápido. A mente absorvia a estrutura das frases, a lógica dos argumentos. Ela devorava conceitos da mesma forma que um homem faminto devorava o pão.

— Se continuar lendo de pé nessa escada, vai acabar caindo, S/N — a voz suave do Sr. Park, o bibliotecário-chefe, ecoou do corredor abaixo.

S/N fechou o livro com um estalo leve e olhou para baixo, sorrindo de canto.

— Eu tenho bom equilíbrio, Sr. Park.

— Você tem é uma fome perigosa de conhecimento, isso sim — o senhor de óculos balançou a cabeça, com um olhar compreensivo. — O carrinho da seção de Economia acabou de chegar. Quando terminar aí, pode dar uma olhada. Mas faça uma pausa pra comer.

— Pode deixar, eu já comi — mentiu ela suavemente, descendo os degraus da escada com a habilidade de quem conhecia cada centímetro daquele piso.

O trabalho na biblioteca durava até as cinco da tarde. Cada hora ali dentro era uma trégua. Um parêntese de paz onde ninguém gritava, ninguém exigia dinheiro e ninguém ameaçava destruir o seu futuro. Mas, conforme os ponteiros do relógio grande da parede se aproximavam das dezessete horas, o estômago de S/N começava a se contorcer em nós apertados.

A trégua estava chegando ao fim. O retorno para casa era inevitável.

O sol já começava a se esconder atrás dos prédios cinzentos quando S/N virou a esquina de sua rua. Ela apressou os passos. O objetivo era chegar em casa antes do pai.

Ao abrir a porta da frente, o silêncio do lugar confirmou que a sorte ainda estava ao seu lado. O pai ainda não havia retornado do bar. Min-jae também não estava em casa.

S/N não perdeu tempo. Deixou a mochila no chão da cozinha e começou seu terceiro turno do dia: a limpeza estratégica.

Lava a louça acumulada, limpa o fogão, recolhe as garrafas de soju vazias espalhadas pela mesa de jantar e prepara uma refeição simples. Deixa a panela tampada sobre o fogão, com um prato e talheres postos ao lado.

Tudo precisava estar perfeito. Qualquer vestígio de desordem servia como pretexto para uma explosão quando o pai chegasse sob o efeito da bebida.

O relógio da cozinha marcava sete horas e trinta e cinco da noite.

S/N limpou as mãos no pano de prato e olhou ao redor. A casa estava limpa. O jantar estava pronto. Seu dever estipulado pela sobrevivência fora cumprido.

Foi exatamente nesse momento que o barulho de passos pesados e trôpegos no portão de entrada fez todos os pelos do corpo de S/N se arrepiarem.

O pai havia chegado.

Sem hesitar um único segundo, S/N pegou sua mochila e subiu os degraus da escada em disparada, mantendo as pisadas o mais leves possível. Alcançou o andar de cima justo no momento em que a porta da frente foi escancarada lá embaixo com um baque violento.

— S/N! — a voz grave e áspera do pai ecoou pela casa, carregada de hostilidade imediata. — Cadê você?

Ela entrou no quarto, fechou a porta de madeira e girou a chave na fechadura. Em seguida, pegou a corrente de ferro que ficava pendurada no batente interno, passou pelo puxador da porta e a travou no gancho de aço na parede. Ajustou o cadeado grosso e girou a chave até ouvir o clique definitivo.

Trancada. Segura.

Lá embaixo, o som de uma cadeira sendo arrastada com força e o impacto de um punho contra a mesa fez a poeira do teto do quarto oscilar levemente.

— S/N! Vem servir a minha comida! — ele berrou novamente.

S/N caminhou até a escrivaninha. Ela não respondeu. Aprender a não responder fora uma das lições mais dolorosas de sua vida. A resposta dava voz ao conflito; o silêncio, com o tempo, fazia a embriaguez do pai transformá-lo em torpor até que ele adormecesse.

Ela pegou os fones de ouvido, conectou ao celular e os colocou nas orelhas. Isolou-se em sua própria frequência.

Sentou-se na cadeira, acendeu a luminária de luz amarelada e abriu o caderno de estudos.

O mundo exterior — os gritos abafados do pai no andar de baixo, o som de objetos caindo, a ameaça constante da presença do irmão — evaporou. Diante dela estavam apenas os números, as fórmulas, os textos acadêmicos e a meta inegociável de manter-se no topo absoluto da classe na Universidade St. Jude.

Ela pegou a caneta e começou a escrever.

A luz da luminária iluminava seu rosto focado, contrastando com o aperto firme de seus dedos ao redor da caneta. As horas passaram sem que ela notasse. Das oito às nove. Das nove às dez. Das dez à meia-noite.

S/N resolveu exercícios de lógica, reescreveu resumos de economia e revisou a bibliografia completa do primeiro semestre. Seus olhos queimavam pelo cansaço acumulado das quase dezoito horas de pé, mas sua mente permanecia afiada.

Às doze horas e trinta minutos, o silêncio completo finalmente reinou no andar de baixo. O pai havia adormecido.

S/N desligou a música, tirou os fones de ouvido e encostou as costas na cadeira, respirando fundo.

Olhou para a mesa, onde seus cadernos organizados pareciam pequenos troféus de uma guerra invisível travada todos os dias. Ela se levantou, caminhou até a cama e deitou-se, puxando o cobertor fino até o queixo.

A chave mestra continuava firme em seu pescoço. O chaveiro pesado continuava sob o travesseiro.

Amanhã o alarme não precisaria tocar. Seu corpo acordaria sozinho, pronto para fazer tudo de novo. Porque para S/N, a dor do presente era apenas o preço pago pela liberdade que o futuro lhe traria.

12 Comentários

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  1. Marcela
    Sep 2, '26 at 9:43 pm

    [quote]— Trabalho… sei. Você sempre cheia de esquemas, né? Ganha uma grana daquele café imundo, guarda tudo e finge que é uma coitadinha. Onde você tá escondendo o dinheiro, S/N?

    Peteco Peteco Peteco
    Já não gostei desse garoto

  2. Marcela
    Sep 2, '26 at 9:44 pm

    [quote]— Mentira — ele se aproximou mais, o hálito quente e azedo cruzando o espaço entre eles. — Eu vi você trancando o armário. E aquele chaveiro ridículo que você carrega pra cima e pra baixo? Me dá algum dinheiro. Preciso resolver um negócio hoje.

    Toma vergonha nessa tua cara, filhote de cruz credo

  3. Marcela
    Sep 2, '26 at 9:45 pm

    [quote]— Eu não tenho nada para te dar. E mesmo se tivesse, não daria — S/N encarou os olhos dele fixamente, embora seu coração martelasse contra as costelas. — Dá licença.

    Isso aê SN, só presta assim

  4. Iasmine
    Sep 2, '26 at 10:28 pm

    Abaixo da gola da camiseta de algodão, uma corrente fina segurava uma chave mestra. Na cabeceira da cama, escondido sob o travesseiro, repousava o chaveiro principal. Um monte de metal frio e pesado. Cadeado do guarda-roupa, cadeado da gaveta de documentos, cadeado da caixa de metal onde guardava cada nota acumulada do seu dinheiro, e a tranca dupla da porta.

    Gente que isso? Uma prisão?

  5. Iasmine
    Sep 2, '26 at 10:29 pm

    — Trabalho… sei. Você sempre cheia de esquemas, né? Ganha uma grana daquele café imundo, guarda tudo e finge que é uma coitadinha. Onde você tá escondendo o dinheiro, S/N?

    Que ranço desse encostado aff

  6. Iasmine
    Sep 2, '26 at 10:30 pm

    S/N limpou as mãos no pano de prato e olhou ao redor. A casa estava limpa. O jantar estava pronto. Seu dever estipulado pela sobrevivência fora cumprido.

    Noossa ela vive no hell ein pqp que lugar tenebroso

  7. Iasmine
    Sep 2, '26 at 10:30 pm

    Amanhã o alarme não precisaria tocar. Seu corpo acordaria sozinho, pronto para fazer tudo de novo. Porque para S/N, a dor do presente era apenas o preço pago pela liberdade que o futuro lhe traria.

    Po que pesadelo viver assim vei pqp

  8. Sheila
    Sep 5, '26 at 6:03 pm

    — Solta meu pulso — ela pediu, a voz quase num sussurro, mas carregada de uma firmeza cortante. — Se você encostar nos meus livros, eu paro de comprar a comida da semana. Quero ver você explicar pro pai por que a mesa tá vazia.

    Isso, quero ver o que ele irá fazer?! Filha de uma égua!!!

  9. Sheila
    Sep 5, '26 at 6:04 pm

    Amanhã o alarme não precisaria tocar. Seu corpo acordaria sozinho, pronto para fazer tudo de novo. Porque para S/N, a dor do presente era apenas o preço pago pela liberdade que o futuro lhe traria.

    Trabalha, estuda e cuida da casa, e não tem paz… que raiva que estou sentindo!!!

  10. Sheila
    Sep 5, '26 at 6:05 pm

    Às doze horas e trinta minutos, o silêncio completo finalmente reinou no andar de baixo. O pai havia adormecido.

    Que pesadelo de vida!!! Gostei não!!!

  11. Sheila
    Sep 5, '26 at 6:07 pm

    — S/N! Vem servir a minha comida! — ele berrou novamente.

    Escroto de pai!!! Vai se lascar fdp!!! Raiva estou.

  12. Sheila
    Sep 5, '26 at 6:08 pm

    S/N limpou as mãos no pano de prato e olhou ao redor. A casa estava limpa. O jantar estava pronto. Seu dever estipulado pela sobrevivência fora cumprido.

    Ok … vai melhorar essa fic né escritora?! Pois já estou com raiva e muita!!! Kkkk

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