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A rotina de S/N não era apenas um hábito; era um escudo cuidadosamente moldado. Cada minuto do seu dia possuía um propósito, uma função cirúrgica destinada a mantê-la invisível e, acima de tudo, a salvo. Ela sabia exatamente quanto tempo levava para arrumar a cama, quantos passos dava do seu quarto até o banheiro e quantos minutos o trajeto até a cafeteria levaria se ela o fizesse em silêncio absoluto.

Por isso, quando seus olhos se abriram e o visor digital na escrivaninha refletiu o número 06:12, um choque gelado percorreu sua espinha.

Ela piscou, tentando acreditar que os números vermelhos mudariam magicamente para cinco horas e vinte e oito minutos. Não mudaram.

— Não, não, não… — sussurrou para o teto, a voz rouca do sono repentinamente engolida pelo pavor.

Ela saltou do colchão de solteiro. O estrado rangeu alto demais na penumbra do quarto, fazendo seu coração dar um salto doloroso no peito. S/N congelou por dois segundos inteiros, prendeu a respiração e apurou os ouvidos para o corredor. Nada. Apenas o silêncio pesado da casa.

Ela puxou a correntinha no pescoço com força excessiva. A gola da camiseta de algodão prendeu no metal, puxando sua cabeça para trás antes de ceder com um estalo do tecido.

Respira. Se você se afobar, vai fazer barulho, pensou ela, embora suas mãos estivessem tremendo.

Encaixou a chave mestra no cadeado pesado do guarda-roupa. Os nós dos seus dedos bateram na madeira, e o estalo de ferro com ferro pareceu um tiro naquele quarto pequeno. S/N fechou os olhos e mordeu o lábio inferior até sentir o gosto salgado, esperando pelo som de passos no corredor.

Silêncio.

Puxou a calça jeans desbotada e a camiseta escura do uniforme da cafeteria. Nem se deu ao trabalho de olhar para o espelho. Passou as chaves para a gaveta, girou o cadeado, trancou o armário e guardou o molho principal sob o travesseiro com movimentos rápidos, porém precisos.

Ao abrir a porta do quarto, a dobradiça soltou um rangido seco. S/N prendeu o ar novamente. Passou pelo corredor como uma sombra, mantendo o peso do corpo na ponta dos pés para que os tacos de madeira do piso não estalassem. A porta do quarto de Min-jae estava entreaberta. Lá dentro, o som de uma respiração pesada e desregulada indicava que ele ainda dormia profundamente. Do quarto do pai, vinha um ronco baixo e pesado.

Se eu sair agora, chego a tempo de abrir a cafeteria e ninguém percebe.

Ela não lavou o rosto. Não escovou os cabelos com calma. Apenas pegou a mochila surrada encostada ao lado da porta de entrada, girou a chave na tranca dupla com extrema delicadeza e se esgueirou para fora, fechando a porta sem deixar o trinco bater.

Quando seus pés finalmente tocaram o asfalto frio da calçada, o ar gelado da manhã invadiu seus pulmões. Só então S/N soltou o ar que parecia preso em seu peito desde o momento em que abrira os olhos.

Ela começou a andar rápido, quase marchando. Se eu cortar caminho pela travessa da farmácia, ganho quatro minutos. Se a Sra. Kang já tiver ligado a caldeira, perco mais dois organizando as xícaras. Dá tempo. Tem que dar tempo.

Quando S/N cruzou a porta de serviço da Mallow’s Coffee, o relógio na parede da cozinha marcava seis horas e trinta e três minutos. Apenas três minutos de atraso em relação ao seu horário habitual.

A Sra. Kang já estava atrás do balcão, contando os sachês de açúcar e ajustando o avental sobre o vestido florido.

— Pensei que você tinha ficado doente, menina — disse a mulher mais velha, sem erguer os olhos da planilha de estoque. — Você nunca se atrasa. Nem três minutos.

— O ônibus atrasou na avenida principal, Sra. Kang. Desculpe — mentiu S/N com uma facilidade treinada, enquanto pendurava o casaco no ganchinho dos funcionários e vestia o avental marrom.

— Sei. Bom, pega aquele pano limpo e passa nas mesas da calçada antes que os primeiros clientes cheguem. O vento da noite deixou tudo coberto de poeira.

— Pode deixar.

S/N pegou o borrifador com álcool e o pano de microfibra, indo em direção à fachada de vidro. O trabalho braçal e repetitivo era, de certa forma, uma bênção. Esfregar a madeira das mesas, alinhar as cadeiras de metal, moer os grãos de café e ouvir o silêncio da manhã ser gradativamente substituído pelo zumbido da cidade ajudava a desacelerar seus pensamentos.

Por volta das nove da manhã, o movimento explodiu. A porta de vidro não parava de abrir e fechar, o sininho prateado no topo da entrada tocando em um ritmo frenético. O cheiro de expresso recém-passado e pão na chapa preenchia o ambiente.

— Duas médias com leite de aveia e um muffin de mirtilo para a mesa sete! — chamou o barista do balcão.

S/N pegou a bandeja de metal. Seus braços doíam pelo esforço contínuo, e as pernas já começavam a dar sinais do cansaço acumulado das noites mal dormidas. Ela caminhou com passos firmes até a mesa perto da janela. Na mesa sete, dois rapazes com casacos de grife e mochilas de couro conversavam animadamente.

— Eu disse para o meu pai que não vou pegar aquela matéria no primeiro semestre — dizia um deles, ajeitando o relógio de marca no pulso. — O professor é chato. Prefiro pegar no verão e viajar agora.

— A minha mãe surtaria se eu fizesse isso — o outro riu, mexendo no celular de última geração. — Mas e aí, a festa de abertura da St. Jude vai ser na sua casa de praia mesmo?

S/N equilibrou a bandeja com uma das mãos e colocou as xícaras sobre a mesa com extrema delicadeza. O contraste da realidade daqueles garotos com a sua era tão gritante que chegava a ser ridículo. Para eles, a universidade era um playground de conexões sociais e status. Para ela, a St. Jude era a única corda de resgate em um poço fundo e escuro. Se ela perdesse a bolsa de estudos, perdesse um ponto sequer por desempenho, a corda se romperia.

— Aqui está. Um muffin de mirtilo e dois cafés. Desejam mais alguma coisa? — perguntou ela, mantendo a voz neutra e o olhar educado, sem transparecer o turbilhão que passava por sua cabeça.

O rapaz do relógio caro mal olhou para ela. Apontou para o canto da mesa sem interromper o raciocínio:

— Traz mais guardanapo e troca esse adoçante. Esse aqui tá aberto.

— Claro. Só um momento.

Ela recolheu o pacote amassado e caminhou de volta ao balcão. Enquanto pegava os novos guardanapos, olhou para o próprio reflexo no espelho atrás da máquina de café. As olheiras profundas estavam lá. Os dedos de suas mãos tinham marcas de calos de tanto segurar canetas e panos de limpeza.

Não importa, disse a si mesma. Deixe eles não olharem na sua cara. Em breve você vai estar sentada nas mesmas salas de aula que eles. E você vai ser melhor.

Às onze horas e cinquenta e cinco minutos, S/N desamarrou as tiras do avental.

— S/N — chamou a Sra. Kang, surgindo do pequeno escritório nos fundos com uma sacola de papel pardo. — Leva esse sanduíche. Você não parou nem dez minutos para comer hoje.

S/N olhou para a sacola. Seu estômago deu um ronco baixo.

— Não precisa, Sra. Kang. Eu—

— Deixa de bobagem e pega logo — a mulher empurrou a sacola para as mãos dela. — Você trabalha por três pessoas aqui dentro, mas tá parecendo um fantasma de tão magra. Come no caminho para a biblioteca.

— Obrigada — S/N aceitou, sentindo um calor discreto no peito. — Vejo a senhora amanhã.

A Biblioteca Comunitária era o único lugar onde S/N sentia que o ar não era pesado demais para respirar. O som abafado dos passos no piso de madeira antiga, o cheiro característico de papel velho, cola de encadernação e poeira tratada criavam uma atmosfera de paz quase sagrada. Ali, ninguém gritava. Ninguém exigia dinheiro. Ninguém ameaçava erguer a mão.

S/N empurrava o carrinho de devoluções pelo corredor da seção de Ciências Sociais. Ela pegava os volumes espessos, checava os códigos no verso e os encaixava com precisão milimétrica nas prateleiras. Ao pegar um livro de capa dura sobre Teoria Sociológica, seus dedos hesitaram. Ela abriu na página marcada e leu um parágrafo rápido. A mente absorvia a estrutura das frases, devorando o conteúdo.

— Concentrada como sempre — a voz tranquila do Sr. Park ecoou no fim do corredor.

S/N fechou o livro de estalo, sentindo as bochechas esquentarem levemente.

— Só checando se as páginas estavam intactas, Sr. Park.

O senhor de cabelos grisalhos e óculos de armação redonda aproximou-se, sorrindo com ternura. Ele carregava uma caixa de papelão pesada, cheia de novos volumes doados.

— Você não precisa inventar desculpas comigo, S/N. Sei reconhecer uma mente faminta quando vejo uma — ele colocou a caixa sobre uma mesa de estudos vaga. — Aliás, chegaram estas doações do acervo doado por um ex-aluno da St. Jude. São livros texto atualizados do primeiro ano. Pensei que você gostaria de dar uma olhada antes de catalogarmos.

Os olhos de S/N brilharam por um segundo. Livros texto da St. Jude eram caríssimos. Ela vinha estudando por edições desatualizadas que pegava emprestadas na internet.

— Posso mesmo?

— Claro que pode. Mas faça isso depois de me ajudar a checar a lista de doadores. Preciso dessa relação assinada até o final do expediente.

— Deixa comigo. Eu faço agora mesmo — respondeu ela, pegando a prancheta das mãos dele sem hesitar.

O trabalho de catalogação era minucioso. S/N sentou-se na mesa de trabalho nos fundos da biblioteca, anotando título por título, autor por autor, código por código. A luz da tarde entrava pelas janelas altas de vidro acinzentado, projetando longas sombras pelo chão de madeira.

Ela se perdeu nas páginas, nos nomes, nas anotações nas margens daqueles livros usados. Era fascinante ver os rabiscos feitos por estudantes que já estavam do outro lado da ponte — a ponte que ela lutava desesperadamente para cruzar.

Quando ela finalmente colocou a última folha de catálogo na pasta e olhou para o relógio de madeira pendurado na parede acima da recepção, seu coração deu uma batida falsa.

Dezenove horas e doze minutos.

S/N congelou com a caneta ainda entre os dedos.

O expediente da biblioteca encerrava às dezoito horas. Ela se distraíra tanto com os livros que não percebera o tempo passar. O Sr. Park já estava na recepção, apagando as luzes secundárias dos corredores.

— Ah, S/N, não quis te atrapalhar porque vi que você estava tão focada… — disse o velhinho, aproximando-se com as chaves na mão. — Mas já estou fechando o prédio.

— Meu Deus, Sr. Park! Me desculpe, eu não vi a hora passar! — S/N levantou-se em um pulo, guardando as canetas na mochila com as mãos trêmulas.

— Não se preocupe, minha jovem. É muito bom ver alguém com tanta dedicação. Mas você devia ir para casa descansar. Ficou muito tarde.

Ir para casa. A palavra soou como uma condenação.

Dezenove horas e quinze minutos. Ela estava terrivelmente atrasada.

— Muito obrigada, Sr. Park. Tenha uma boa noite — disse ela, a voz acelerada enquanto vestia o casaco.

— Boa noite, S/N. Cuidado no caminho.

S/N cruzou a porta da biblioteca e pisou na rua. O céu de Seul já fora completamente tomado por um azul-escuro denso e pesado. O vento frio da noite soprava com força, fazendo os galhos secos das árvores da calçada balançarem.

de joelhos no asfalto, a respiração presa na garganta, sem conseguir desviar o olhar daquele estranho de presença esmagadora que acabara de intervir.

14 Comentários

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  1. Iasmine
    Sep 4, '26 at 11:28 pm

    Ela não lavou o rosto. Não escovou os cabelos com calma. Apenas pegou a mochila surrada encostada ao lado da porta de entrada, girou a chave na tranca dupla com extrema delicadeza e se esgueirou para fora, fechando a porta sem deixar o trinco bater.

    Celoco é foda sair atrasada mano kkkkkkk pior sensação

  2. Iasmine
    Sep 4, '26 at 11:30 pm

    — Pensei que você tinha ficado doente, menina — disse a mulher mais velha, sem erguer os olhos da planilha de estoque. — Você nunca se atrasa. Nem três minutos.

    Que veia inxirida bicho, cuida da sua vida veia

  3. Iasmine
    Sep 4, '26 at 11:31 pm

    Dezenove horas e doze minutos.

    Meu deus ta com a cabeça onde sn?

  4. Iasmine
    Sep 4, '26 at 11:32 pm

    — Não se preocupe, minha jovem. É muito bom ver alguém com tanta dedicação. Mas você devia ir para casa descansar. Ficou muito tarde.

    Oi coitado doido pra ir embora e ela la ensebando

  5. Sheila
    Sep 5, '26 at 5:56 pm

    — Eu disse para o meu pai que não vou pegar aquela matéria no primeiro semestre — dizia um deles, ajeitando o relógio de marca no pulso. — O professor é chato. Prefiro pegar no verão e viajar agora.

    Que fútil… vida fútil!!! Que raiva!!!

  6. Sheila
    Sep 5, '26 at 5:57 pm

    Ela se perdeu nas páginas, nos nomes, nas anotações nas margens daqueles livros usados. Era fascinante ver os rabiscos feitos por estudantes que já estavam do outro lado da ponte — a ponte que ela lutava desesperadamente para cruzar.

    Vc irá conseguir SN sair dessa vida miserável.

  7. Sheila
    Sep 5, '26 at 5:58 pm

    S/N congelou com a caneta ainda entre os dedos.

    Que vida é essa que vc está levando?! Credo!!! Sai logo disso mulher!!!

  8. Sheila
    Sep 5, '26 at 6:00 pm

    Ela recolheu o pacote amassado e caminhou de volta ao balcão. Enquanto pegava os novos guardanapos, olhou para o próprio reflexo no espelho atrás da máquina de café. As olheiras profundas estavam lá. Os dedos de suas mãos tinham marcas de calos de tanto segurar canetas e panos de limpeza.

    Espera e verá… luta agora, vitória depois!!!

  9. Sheila
    Sep 5, '26 at 6:01 pm

    Ir para casa. A palavra soou como uma condenação.

    Coitada viu!!! Que pai e irmão horríveis!!!

  10. Marcela
    Sep 6, '26 at 6:54 pm

    [quote]Quando seus pés finalmente tocaram o asfalto frio da calçada, o ar gelado da manhã invadiu seus pulmões. Só então S/N soltou o ar que parecia preso em seu peito desde o momento em que abrira os olhos.

    Coitadaa, que vida viu?

  11. Marcela
    Sep 6, '26 at 6:57 pm

    [quote]— Traz mais guardanapo e troca esse adoçante. Esse aqui tá aberto.

    O jeito que ele falaaa, que ódio

  12. Marcela
    Sep 6, '26 at 7:00 pm

    [quote]Não importa, disse a si mesma. Deixe eles não olharem na sua cara. Em breve você vai estar sentada nas mesmas salas de aula que eles. E você vai ser melhor.

    Você vai ser a melhor, tou torcendo por você

  13. Marcela
    Sep 6, '26 at 7:06 pm

    [quote]O expediente da biblioteca encerrava às dezoito horas. Ela se distraíra tanto com os livros que não percebera o tempo passar. O Sr. Park já estava na recepção, apagando as luzes secundárias dos corredores.

    Esse trabalho, claramente ela faz com todo o amor

  14. Marcela
    Sep 6, '26 at 7:07 pm

    [quote]— Não se preocupe, minha jovem. É muito bom ver alguém com tanta dedicação. Mas você devia ir para casa descansar. Ficou muito tarde.

    Se ele soubesse…
    Em casa tem tudo, menos o descanso que ela merece 🙁

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