Capítulo 8 – O Ruído da Fuga
por FanfiqueiraA caminhada de volta para casa foi uma névoa turva de passos mecânicos e respiração curta. O impacto das palavras do rapaz no pátio da St. Jude ainda ecoava nos ouvidos de S/N, disputando espaço com o aperto sufocante de pânico em seu peito. Faltavam menos de vinte e quatro horas para o encerramento do prazo, e a exigência absurda da firma reconhecida na declaração de seu pai selava seu destino. Ele jamais pisaria em um cartório. Na condição em que se encontrava, mal conseguia articular frases coerentes antes de perder os sentidos na mesa da cozinha.
S/N dobrou a esquina do seu quarteirão, encolhendo os ombros contra o vento frio da noite. A mochila parecia pesar uma tonelada em suas costas. Ela enfiou as mãos nos bolsos do casaco, os dedos gélidos tateando o metal da chave da porta.
Quando seus pés alcançaram o pequeno degrau da entrada, o celular no bolso da jaqueta vibrou com uma intensidade repentina.
Ela puxou o aparelho com desânimo. A tela acesa cortou a penumbra do corredor escuro com uma notificação oficial de e-mail. O remetente era a Secretaria de Assistência Estudantil da Universidade St. Jude.
Com o coração batendo na garganta, S/N deslizou o dedo e abriu a mensagem.
Assunto: Confirmação de Alocação em Moradia Estudantil — Semestre Vigente
Prezada S/N,
Informamos que o seu processo de solicitação de vaga no dormitório universitário foi concluído com sucesso e aprovado pela comissão socioeconômica.
Sua alocação foi definida para o Edifício das Rosas, Bloco B, Quarto 304.
Agradecemos a sua pronta colaboração no envio e na regularização de toda a documentação pendente. Informamos que a chave de seu aposento já se encontra disponível na portaria central do campus. Caso seja de seu interesse, a retirada pode ser efetuada a partir desta data, inclusive no período noturno, ou na manhã seguinte, permitindo o alojamento imediato de seus pertences.
Atenciosamente,
Comissão de Assistência Estudantil — St. Jude
S/N estancou no meio da sala escura. Suas pupilas dilatavam-se enquanto ela relia a mesma mensagem três, quatro, cinco vezes.
Aprovado?
Sua mente deu um nó doloroso. Como a documentação fora regularizada se a própria funcionária do guichê havia recusado a pasta dez minutos atrás? O que significava aquela referência à sua “pronta colaboração”? Ela saíra da secretaria desolada, com os papéis incompletos nas mãos e sem nenhuma perspectiva de resolver a exigência do cartório. Seu pai nem sequer sabia da existência daquela ficha; no estado de degradação alcoólica em que vivia, jamais teria assinado qualquer coisa ou autorizado sua saída.
S/N piscou, a tela iluminando sua expressão completamente atônita. A confusão martelava em sua cabeça. Alguém errou o nome no sistema? Foi um equívoco burocrático?
Sem hesitar, tocada pelo desespero de não perder aquela fresta de luz, ela abriu o aplicativo de e-mail e respondeu diretamente à notificação da secretaria:
De: S/N
Para: Secretaria de Assistência Estudantil — St. Jude
Assunto: Re: Confirmação de Alocação em Moradia Estudantil
Boa noite. Gostaria apenas de confirmar se está tudo certo com a minha inscrição. Tive um problema com um documento hoje à tarde e gostaria de saber se não falta nenhuma pendência ou assinatura antes de me deslocar.
A resposta veio em questão de dois minutos, uma confirmação automática assinada pelo atendente de plantão da portaria:
Prezada aluna,
Reiteramos que seu dossiê está 100% regularizado e arquivado no sistema. Agradecemos sua eficiência. A portaria funciona 24 horas. Pode retirar a chave e trazer seus pertences ainda hoje à noite, se desejar.
O tremor nas mãos de S/N passou dos dedos para os braços. A razão gritava que havia algo profundamente errado, que aquela facilidade repentina não fazia sentido algum. Mas a necessidade brutal de ar, o medo de que o erro fosse corrigido pela manhã e a urgência de sair daquela casa falaram mais alto. Ela não podia se dar ao luxo de questionar um milagre, mesmo que viesse embrulhado em mistério. Ela simplesmente agarrou a oportunidade.
O silêncio na casa era pesado. Do quarto do fundo, vinha o ronco entrecortado e pesado de seu pai, misturado ao cheiro rançoso de soju. No sofá da sala, Min-jae dormia jogado de mau jeito, a televisão ligada sem som projetando luzes azuladas sobre o teto descascado.
Movendo-se como um fantasma, S/N entrou em seu quarto. Ela não podia fazer barulho. Não podia arrastar malas ou acender luzes fortes. Pegou a maior mochila que possuía e uma bolsa de viagem surrada de lona. Com mãos trêmulas, começou a socar peças essenciais de roupa, um par de sapatos extra, suas poucas maquiagens e os cadernos de estudo.
Ela fechou os zíperes com extremo cuidado. Colocou a mochila nas costas, segurou a bolsa no ombro e passou pela sala na ponta dos pés. Min-jae resmungou no sofá, virando o rosto contra a luz da TV, mas não acordou. S/N passou pela porta, girou a tranca devagar e saiu para a rua fria.
Caminhar até a St. Jude carregando aquele peso no meio da noite parecia irreal. O vento cortava seu rosto, mas a descarga de adrenalina mantinha seu corpo aquecido.
Na portaria do campus, um guarda noturno apenas conferiu seu documento de identidade, pegou uma assinatura rápida em um livro de protocolo e lhe entregou um chaveiro de metal com um pesado número prateado: 304.
O Bloco B do Edifício das Rosas era silencioso. S/N subiu os lances de escada com os pulmões queimando pelo esforço físico, os passos ecoando no corredor revestido de linóleo. Quando parou diante da porta 304, a chave de metal pareceu congelar em seus dedos. Ela girou a fechadura e a porta cedeu com um estalo suave.
O quarto era amplo, dividido em três ambientes de estudo com beliches e escrivaninhas.
Uma das garotas dormia profundamente na cama inferior do canto esquerdo, encolhida sob um edredom pesado, a respiração calma e ritmada. O segundo beliche estava vazio. No fundo do quarto, perto da grande janela de vidro que dava vista para as luzes distantes da cidade, o terceiro leito estava completamente livre, com o colchão encapado em plástico limpo e a mesa de madeira desocupada.
S/N depositou suas bolsas no chão com o máximo de delicadeza. Ela aproximou-se da janela, tocando o vidro frio com a ponta dos dedos.
Pela primeira vez em meses, o nó em seu estômago pareceu ceder alguns milímetros. A quietude daquele lugar, a ausência do cheiro de bebida e a garantia de uma tranca na porta deram-lhe uma onda avassaladora de alívio. As coisas estavam finalmente fluindo. A vida, com todos os seus tropeços, parecia estar se encaixando.
Ela deitou-se sobre o colchão encapado, usando o próprio casaco como travesseiro, e adormeceu em um sono profundo e sem pesadelos.
O sol da manhã seguinte mal havia cruzado a linha dos prédios quando S/N despertou. A garota do outro beliche já havia saído para as aulas.
S/N sabia que precisava ser rápida. O que ela trouxera na noite anterior era apenas uma fração do que precisava para se estabelecer de vez no dormitório: faltavam seus livros didáticos mais pesados, os casacos grossos de inverno, seus documentos originais e a caixa com os poucos pertences pessoais que guardava desde a infância. Ela precisava voltar à casa do pai, pegar o restante de suas coisas e encerrar aquele capítulo definitivamente.
Ela cruzou o bairro a passos rápidos, a mente planejando cada segundo. Esperava encontrar a casa vazia ou o pai ainda apagado na cama.
Porém, ao girar a maçaneta e abrir a porta de madeira, S/N deu de cara com o caos instaurado.
O pai não estava dormindo. Estava em pé no meio da sala, a garrafa de vidro vazia caída no chão e o rosto vermelho de uma raiva insana e descontrolada. Ao lado dele, Min-jae remexia na mochila de S/N que fora deixada no canto, com uma expressão de deboche arisco.
— Olhe só quem resolveu dar as caras — o pai esbravejou, a voz arrastada, mas carregada de uma agressividade perigosa. Ele deu dois passos trôpegos na direção dela. — Aonde você pensa que foi ontem à noite com aquelas bolsas, sua vagabunda? Acha que eu sou cego? Acha que eu não vi você sumindo?
S/N recuou um passo, a guarda subindo imediatamente, a sensação de segurança da noite anterior evaporando no ar.
— Eu só vim pegar o resto das minhas coisas — S/N disse, tentando manter o tom neutro e a voz firme. — Eu consegui uma vaga no dormitório da universidade. Vou morar no campus a partir de hoje.
A palavra universidade pareceu agir como um estopim na mente perturbada do homem.
— Faculdade? Dormitório? — o pai gritou, a veia de seu pescoço saltando. — Você não vai a lugar nenhum! Você acha que vai me deixar aqui pra virar madame? Quem vai pagar as contas dessa casa? Quem vai fazer a comida? Você não vai pra faculdade nenhuma!
Antes que S/N pudesse reagir ou se desvencilhar, o homem avançou com uma velocidade brutal. Ele a agarrou pelo colarinho da blusa com uma das mãos, puxando-a com violência para dentro da sala.
O tecido da gola rasgou-se com um ruído seco.
— Me solta! Me larga! — S/N gritou, tentando empurrar o peito do pai com as mãos, mas o impacto do corpo dele a jogou contra a estante de madeira.
Min-jae apenas assistia da quina da cozinha, com os braços cruzados, sem dar um único passo para intervir.
O pai de S/N arrancou a pasta de papéis e os livros de estudo que estavam sobre a mesa e os arremessou violentamente contra o chão. As páginas voaram pela sala, rasgando-se com o impacto.
— Você não vai estudar! Você não é nada! — o homem rosnou, o hálito de álcool queimando o rosto dela. Ele deu um empurrão violento, e S/N caiu de joelhos sobre os cacos de uma lâmpada quebrada e o assoalho duro.
A dor aguda subiu por suas pernas. As lágrimas de puro pânico, raiva e humilhação finalmente transbordaram de seus olhos, embaçando sua visão. Ela tentou se arrastar para trás, mas as costas bateram contra a base da mesa.
O pai, cego pela fúria embriagada, olhou ao ao redor e agarrou um cabo de vassoura de madeira espessa que estava encostado na parede, erguendo-o no ar com as duas mãos, pronto para desferir o golpe diretamente contra as costas dela.
S/N encolheu o corpo, cruzando os braços sobre a cabeça e fechando os olhos com força, esperando o impacto inevitável.
A batida nunca veio.
Em vez do som da madeira estalando contra sua pele, o ar da sala foi cortado por um estrondo ensurdecedor. A porta de entrada da casa foi arrombada com um chute violento de sola de bota, o batente de madeira estalando e se projetando para dentro.
A figura alta, ostentando a jaqueta de couro preta e os olhos tomados por uma escuridão assassina, cruzou o limite da casa como uma tempestade.
Nem te conto como foi aprovado (nem eu sei)
Vai sn corre fiaa… leva tudo de uma vez
Vooooti quem que dorme assim em cima do plastico
Manooo ela vacilou muito de não ter levado tudo de uma vez só
Cassete ele apareceu na hora certa