Capítulo 6 – O Ruído das Ruínas
por FanfiqueiraO tempo pareceu congelar na calçada deserta. Por alguns segundos que se arrastaram como minutos, o mundo ao redor de S/N reduziu-se à pressão esmagadora daquele corpo alto contra o seu, ao frio do tijolo rígido nas suas costas e ao impacto avassalador daquela boca sobre a sua. O choque paralisou seus sentidos. Suas pálpebras permaneceram entreabertas, travadas na imagem dos olhos escuros dele tão próximos que pareciam absorver qualquer nesga de luz da rua.
Ela sentiu o toque gelado da prata do piercing no lábio inferior dele e o gosto metálico e Inconfundível de sangue que pontuava o contato. Era o resultado da violência com que ele acabara de derrubar o homem no beco. A mente de S/N vacilou em um curto-circuito absoluto, incapaz de processar a audácia descabida daquele ato, a invasão territorial brutal e a sensação quente que reverberava por todo o seu peito.
Quando a gravidade do que acontecera finalmente atravessou o torpor do choque, a reação não veio em palavras. Veio em uma onda violenta de pavor misturada a uma fúria incandescente.
A armadura que S/N construíra durante anos para se proteger de tudo e de todos acabara de ser estilhaçada por um desconhecido.
Com um arfar sufocado, ela ergueu as duas mãos e espalmou os punhos com toda a força desesperada que conseguiu reunir diretamente contra o peito dele. O impacto fez o homem dar meio passo involuntário para trás, liberando o espaço sufocante que a prendia contra a parede de tijolos.
S/N não disse nada. Ela não gritou, não o xingou, não exigiu explicações. Sua garganta estava completamente travada pelo nó de pânico e indigestão emocional. Ela simplesmente girou sobre os calcanhares, ajustou a mochila com as mãos trêmulas e disparou a correr.
Suas botas batiam com força contra o asfalto irregular da travessa. Ela não olhou para trás nem por uma fração de segundo. O vento frio da noite açoitava seu rosto, queimando suas bochechas coradas enquanto as lágrimas de pura raiva e confusão ameaçavam transbordar de seus olhos. O ar entrava rasgando em seus pulmões, mas ela continuou correndo, cruzando quarteirões desertos e virando esquinas de forma desordenada até avistar o portão de ferro de sua casa.
Três quadras para trás, o homem permaneceu parado no mesmo ponto da calçada.
Ele não a seguiu. Não deu um único passo na direção em que ela desaparecera.
Apenas observou a figura pequena se distanciar em disparada até ser engolida pela penumbra do quarteirão. Ele levou a mão direita até o rosto, passando a ponta dos dedos vagarosamente pelo próprio lábio inferior, exatamente onde o piercing de prata parecia ter ficado ainda mais frio contra a pele. Ele sentiu a leve ardência do pequeno corte no nó do dedo e a lembrança do gosto de sangue na boca. Sua expressão era densa, absolutamente séria. Não havia vestígio de deboche em suas feições. Ele apenas encarou a rua vazia por um longo tempo, sentindo o peso incômodo da linha invisível que acabara de cruzar.
S/N entrou em seu quarto e girou a chave na tranca de ferro com um estalo seco. O ruído do metal se encaixando na batente costumava ser seu único alívio no dia, mas, naquela noite, a sensação de segurança evaporara.
Ela jogou a mochila no chão e encostou as costas contra a madeira da porta fechada, deslizando até se sentar no assoalho frio. Ela levou a manga da blusa de frio à boca, esfregando os lábios com força exagerada, tentando desesperadamente apagar a sensação física que parecia gravada em sua pele. O sabor metálico persistia. A lembrança do olhar escuro e da presença avassaladora dele dominava cada centímetro de sua mente.
A escrivaninha estava repleta de apostilas abertas, cadernos com anotações sobre o vestibular e a lâmpada de mesa acesa projetava sombras longas pela parede. S/N levantou-se e tentou se sentar para estudar. Pegou a caneta, abriu o livro de biologia na página marcada, mas as linhas impressas transformavam-se em borrões incompreensíveis.
Como ele tivera a audácia de tocá-la daquela forma? Por que ele continuava aparecendo em cada esquina de sua vida? A raiva queimava em seu peito por ter ficado paralisada, por não ter reagido antes, por ter permitido que um estranho quebrasse sua compostura com tanta facilidade.
A noite passou sem que ela conseguisse pregar os olhos por mais de vinte minutos seguidos. Sempre que fechava as pálpebras, sentia a pressão da parede contra suas costas e a aproximação perigosa daquele rosto.
Para piorar o cenário, o amanhecer trouxe o prenúncio do fim da trégua dentro de casa.
Quando S/N saiu do quarto por volta das seis da manhã para usar o banheiro, encontrou seu pai sentado à mesa da cozinha. O homem não estava consertando nada, nem limpando o recinto. Ele segurava um espelho de mão barato e tirava, com a ajuda de uma tesourinha cega, o último ponto do corte no lábio inferior.
O curativo sumira. A cicatrização estava concluída. E o brilho opaco e irritadiço nos olhos fundos do homem anunciava que o período de sobriedade forçada chegara ao fim.
— Não tem café pronto? — ele resmungou, sem sequer olhar para ela, a voz carregada de uma ranzinza antiga que precedia suas idas ao bar.
S/N não respondeu. Ela apenas caminhou até a pia, encheu um copo de água e voltou para o quarto para se arrumar para o trabalho. A calmaria artificial acabara. Ele voltaria a beber naquela mesma noite. A violência, os gritos e o perigo iminente retornariam à rotina da casa com força total. O tempo de S/N naquele lugar estava se esgotando rapidamente, e ela sabia que não suportaria permanecer ali por muito mais tempo sem enlouquecer ou ser destruída.
Ela precisava agir.
A primeira decisão foi imediata: ela não podia encarar aquele homem de jaqueta de couro novamente. Não saberia como olhá-lo nos olhos, o que dizer ou como reagir se ele tentasse se aproximar outra vez. A mera ideia de cruzar com ele no beco perto da cafeteria ou nas esquinas do bairro fazia seu estômago dar nós dolorosos.
S/N decidiu alterar drasticamente toda a sua rota diária.
Naquela mesma manhã, ela mudou os trajetos. Em vez de utilizar a rua comercial secundária — que era mais rápida, porém deserta e escura —, passou a caminhar por avenidas mais largas, mesmo que isso significasse andar quinze minutos a mais sob o vento da manhã. Ela alterou os horários em que saía do trabalho e os caminhos até a biblioteca comunitária. Evitou qualquer travessa que pudesse servir de atalho e passou a andar sempre perto de pontos de ônibus movimentados.
Sua mente, no entanto, estava focada no objetivo principal: a transferência definitiva para a Universidade St. Jude e a conquista de um espaço longe daquela casa.
No meio da tarde, aproveitando o intervalo entre o término do expediente na Mallow’s Coffee e o início de seu turno na biblioteca, S/N caminhou até o campus da St. Jude. O ar acadêmico da instituição era um contraste gritante com a pobreza e o caos de seu bairro. Prédios de tijolos à vista, gramados bem cuidados e alunos caminhando com pastas e notebooks criavam um universo ao qual ela desesperadamente desejava pertencer.
Ela se dirigiu ao prédio da secretaria de assistência estudantil. O corredor era silencioso, cheirando a papel impresso e cera de piso. S/N aguardou sua vez na fila até ser chamada por uma funcionária de óculos que atendia no guichê de madeira.
— Pois não? — perguntou a mulher, sem erguer totalmente os olhos do computador.
S/N apoiou as mãos trêmulas no balcão, ajeitando a alça da mochila no ombro.
— Boa tarde. Eu gostaria de informações sobre o processo de solicitação para os dormitórios universitários — disse S/N, tentando manter a voz firme e objetiva. — Eu fui aprovada para o próximo semestre e preciso saber quais são os requisitos para conseguir uma vaga na moradia estudantil.
A funcionária finalmente ergueu o rosto, ajustando os óculos sobre o nariz enquanto analisava a postura compenetrada da garota. Ela puxou uma gaveta e retirou uma ficha impressa, juntamente com um folheto informativo com o timbre da universidade.
— A moradia é destinada prioritariamente a alunos de baixa renda ou que residem em outras cidades — explicou a mulher com um tom burocrático. — Você precisa preencher esta ficha de avaliação socioeconômica, anexar os comprovantes de renda de todos os membros da sua família e a declaração de matrícula. As vagas são limitadas e a comissão analisa a urgência de cada caso.
S/N pegou os papéis, encarando os campos de preenchimento com atenção quase sagrada.
— E quanto aos custos? — perguntou S/N, o coração apertado. — Existe alguma taxa de manutenção?
— Para alunos que comprovam vulnerabilidade total, a taxa é isenta ou coberta pelo programa de permanência estudantil — respondeu a funcionária. — Porém, os dormitórios exigem dedicação e frequência acadêmica rigorosa. Se suas notas caírem abaixo da média, você perde o benefício. Além disso, as regras de convivência são estritas. Horários de recolhimento, proibição de visitas fora do horário e vistorias nos quartos.
S/N guardou os formulários dentro de uma pasta plástica com o maior cuidado do mundo. Aquela folha de papel era o seu passaporte de fuga. Era a chance de ter um teto onde pudesse trancar a porta sem o medo constante de ter suas coisas roubadas por Min-jae ou de ser arrancada da cama por um pai embriagado e violento.
No entanto, a realidade prática logo começou a pesar em seus cálculos mentais enquanto ela caminhava de volta para a rua.
Morar no dormitório significava estar dentro do campus, mas a vida não se resumia a um teto gratuito. Ela ainda precisava pagar por sua alimentação, transporte, materiais de estudo e as despesas básicas do irmão e da casa que não conseguiria cortar totalmente de imediato. Para manter tudo funcionando, ela precisava continuar trabalhando.
A matemática era impiedosa. Conciliar a carga horária pesada das aulas de graduação na St. Jude com dois trabalhos de meio período era fisicamente impossível. Não havia horas suficientes no dia, nem energia humana que resistisse a essa rotina sem um colapso.
S/N parou em um ponto de ônibus, encostando a cabeça contra o vidro do abrigo enquanto observava o trânsito da tarde.
Ela precisaria fazer uma escolha dolorosa. Teria que pedir demissão de um dos empregos.
A biblioteca pagava um salário ligeiramente menor, mas o trabalho era puramente braçal e silencioso — arrumar prateleiras, estocar caixas e contar mercadorias —, o que permitia que sua mente descansasse um pouco. A cafeteria Mallow’s Coffee, por outro lado, oferecia gorjetas diárias em dinheiro vivo que salvavam suas economias no fim do mês, mas a expunha constantemente ao público, ao cansaço de servir mesas e, pior de tudo, à probabilidade de cruzar com o homem de jaqueta preta, que frequentava o local de tempos em tempos.
Qual dos dois sacrifícios valeria mais a pena? Abrir mão da renda garantida da cafeteria para se afastar da vista dele e ter mais paz, ou aguentar a pressão financeira e arriscar encontros indesejados para não ver suas economias minguarem?
S/N tirou um pequeno bloco de anotações do bolso do casaco e uma caneta esferográfica. Na folha pautada, dividiu duas colunas: de um lado, os horários do curso e do dormitório; do outro, os ganhos estimados de cada trabalho. Seus dedos apertavam a caneta com tanta força que os nós ficaram brancos.
Ela estava no limite de suas forças, equilibrando-se na corda bamba entre a urgência de fugir do inferno doméstico e a necessidade de não passar fome. Cada linha traçada naquele bloco representava uma batalha pela própria sobrevivência.
Ela guardou o bloco no bolso e olhou para o horizonte escurecido pela aproximação da noite. As luzes da cidade começavam a se acender uma a uma. S/N sabia que, ao retornar para casa naquela noite, encontraria o pai bêbado e a atmosfera envenenada pela violência habitual. Mas, desta vez, ela trazia os formulários da St. Jude dobrados dentro da mochila.
Ela não olharia para trás. Não permitiria que a presença sufocante daquele desconhecido perigoso ou a decadência de sua família a desviassem do único caminho que a levaria para fora daquele abismo.
Ate eu to besta com esse beijo aleatório kkkkk
Viiiish bem limitado ein… boa sorte
Não é possível que ela odeia ele tanto assim..
[quote]Ela sentiu o toque gelado da prata do piercing no lábio inferior dele e o gosto metálico e Inconfundível de sangue que pontuava o contato. Era o resultado da violência com que ele acabara de derrubar o homem no beco. A mente de S/N vacilou em um curto-circuito absoluto, incapaz de processar a audácia descabida daquele ato, a invasão territorial brutal e a sensação quente que reverberava por todo o seu peito.
É SN, estamos incrédula com a audácia dele