Capítulo 4 – O Eco no Asfalto
por FanfiqueiraS/N continuou caída de joelhos no asfalto frio, o corpo rijo, a respiração presa no peito. Os olhos pretos e profundos do desconhecido perfuravam a névoa de pavor que cobria seu cérebro. A mão grande estendida em sua direção — marcada por traços escuros de tinta que subiam pelo pulso — parecia um enigma indecifrável. Ninguém jamais estendera a mão para ela. Ninguém jamais se colocara entre ela e a violência de seu pai. Para S/N, cuja sobrevivência sempre dependera de se virar sozinha e não dever nada a ninguém, aquele gesto não parecia apenas um socorro; parecia uma nova ameaça, uma incógnita perigosa.
Sua mente, acostumada ao modo de defesa absoluto, travou. Ela não sabia como reagir, o que dizer ou como aceitar algo que nunca recebera.
O silêncio tenso da rua foi subitamente quebrado por uma janela sendo aberta com ignorância no segundo andar do prédio da esquina.
— Eu chamei a polícia! A polícia tá vindo, seus bêbados! — berrou a voz grave de um vizinho, ecoando pela calçada vazia.
O som da palavra polícia acionou um alarme estridente no sistema nervoso de S/N. Se a polícia chegasse, haveria perguntas, registros e escândalo. Seu pai, jogado no chão com a boca sangrando, seria levado ou voltaria para casa espancado, furioso e buscando vingança direta contra ela e contra o irmão. Todo o ecossistema frágil de silêncio e ocultamento que ela construíra para sobreviver desmoronaria em minutos.
Em um impulso cego, impulsionado pelo pavor de ter seu mundo destruído, S/N não pensou. Ela simplesmente estendeu a mão trêmula, agarrou os dedos frios e firmes do desconhecido e se impulsionou para cima.
— Corre! — a palavra saiu raspando por sua garganta.
Sem dar tempo para ele processar, S/N disparou. Puxando a mão dele com toda a força que seus braços debilitados conseguiam exercer, ela começou a correr pelo asfalto irregular.
O homem congelou por uma fração de segundo. A surpresa de ser agarrado por uma garota machucada, trêmula e visivelmente apavorada fez seus pés hesitarem por um único passo. Ele olhou para baixo, encarando a mão pequena e firme presa à dele, e depois para o rosto dela, pálido e coberto de suor frio. Não fazia o menor sentido. Ele acabara de derrubar um agressor para salvá-la, e agora era puxado por uma garota que corria desesperadamente da própria salvação.
Mesmo sem entender absolutamente nada do que estava acontecendo, a visão daquela menina assustada arrastando-o pela calçada fez seu corpo responder. Ele ajustou a passada e começou a correr ao lado dela.
Eles dobraram a primeira travessa em disparada. Os passos rápidos das solas de borracha de S/N ecoavam em ritmo desordenado, enquanto os sapatos dele batiam no chão de forma firme e controlada. Ele acompanhava a corrida com uma facilidade quase insultuosa, mantendo a postura ereta enquanto olhava de canto para o rosto tenso da jovem.
Duas quadras adiante, longe dos gritos do vizinho e do ruído distante de qualquer viatura, o homem decidiu que já era o suficiente. Ele firmou os pés no chão de maneira brusca, usando sua força e peso para obrigá-la a parar.
O impulso fez S/N tropeçar nos próprios pés. Ela foi puxada de volta e colidiu levemente contra a parede de concreto de uma loja fechada, mantendo as mãos apoiadas nos joelhos enquanto tentava puxar o ar de volta para os pulmões. O joelho esquerdo rasgado queimava como se estivesse em carne viva, e o peito subia e descia em espasmos dolorosos.
O desconhecido cruzou os braços sobre a jaqueta de couro preta, encarando-a do alto com uma expressão indecifrável. A iluminação fraca de um letreiro distante recortava as linhas afiadas de seu rosto e o brilho discreto do piercing em seu lábio.
— Por que diabos a gente tá correndo? — a voz dele veio baixa, grave e arrastada, carregada de uma perplexidade contida.
S/N ergueu o rosto devagar, afastando os fios de cabelo grudados na testa suada. Ela olhou para a esquerda, para a direita, encarando as paredes escuras da travessa comercial como se procurasse uma explicação lógica no ar.
— Eu… eu não sei — respondeu ela, ofegante, a voz quase falhando. — Eu não sei.
Ele piscou, soltando um arfar curto pelo nariz. Um esboço de sorriso incrédulo ameaçou surgir no canto de seus lábios, mas ele manteve a mandíbula travada, contendo a reação. Ele olhou ao redor, analisando a rua vazia até que seus olhos notaram a fachada acesa de uma farmácia vinte e quatro horas do outro lado do cruzamento.
— Fica aí — ordenou ele, usando um tom baixo que não dava margem para questionamentos. — Não sai do lugar. Vou buscar algo pra esse seu joelho.
S/N piscou, ainda tentando recuperar o fôlego, e viu o homem atravessar a rua com passos largos e tranquilos. A figura alta sumiu para dentro do estabelecimento.
Assim que as portas automáticas de vidro se fecharam atrás dele, o instinto básico de S/N assumiu o controle total de seu corpo. A lógica das ruas onde cresceu era implacável: Nunca dependa de estranhos. Ajuda de graça não existe.
Ela não podia ficar ali. Não podia aceitar que um desconhecido comprasse curativos para ela, não podia permitir que ele fizesse perguntas ou tentasse levá-la para casa. Ajustou a alça rasgada da mochila sobre o ombro machucado, virou as costas e sumiu na penumbra da travessa, correndo em direção à sua casa antes que ele pudesse retornar.
Minutos depois, o homem saiu da farmácia segurando uma sacola parda com gaze, antisséptico e faixas. Ele parou na calçada e olhou para a parede onde a deixara.
Estava vazia.
Ele caminhou até o local, olhou para a esquerda, para a direita, vasculhando a iluminação precária do quarteirão. Nem sinal da garota. Ela simplesmente evaporara.
Ele olhou para a sacola em sua mão, soltou um riso baixo e seco pelo nariz e balançou a cabeça devagar.
— Que garota maluca… — murmurou para si mesmo, um pequeno sorriso involuntário surgindo nos lábios antes que ele fechasse a expressão e se perdesse na noite.
Quatro dias se passaram.
O movimento na Mallow’s Coffee estava incomumente calmo no meio da tarde de segunda-feira. S/N limpava o balcão de inox pela quarta vez consecutiva, usando a rotina mecânica para tentar afastar a dor persistente no joelho e o peso da exaustão acumulada.
O sininho da porta de entrada tocou com um estalo suave.
— Eu tô te falando, cara, esse é o único café decente desse lado do bairro — dizia uma voz jovem e animada. — Você precisa parar de tomar essa água de batata que você faz no seu apartamento.
— Tanto faz, Lee. Tanto faz — veio uma segunda voz, baixa, profunda e inconfundível.
S/N travou imediatamente. O pano de microfibra congelou sobre a superfície espelhada do balcão.
Ela ergueu os olhos devagar. Cruzando a porta acompanhado por um rapaz de cabelos claros e jaqueta jeans, estava ele. Vestia uma camiseta escura sob um casaco solto, os fios pretos caindo suavemente sobre a testa e os piercings brilhando sob as luzes quentes do estabelecimento.
O coração de S/N deu um baque tão violento contra as costelas que suas mãos perderam a firmeza. O pavor e o nervosismo a atingiram em cheio.
O homem caminhou até a fila do balcão sem prestar muita atenção aos arredores. Porém, quando seus olhos subiram para a atendente atrás do caixa, ele estancou.
S/N tentou desesperadamente manter a fachada de profissionalismo, mas o tremor em seus dedos tornou-se incontrolável. Ao tentar alcançar um copo de acrílico para preparar um pedido anterior, seus dedos escorregaram. O plástico caiu, batendo na bandeja de metal e fazendo um barulho estridente que ecoou por todo o ambiente.
— Me desculpe! Meu Deus, desculpe — murmurou ela rapidamente, abaixando-se para recolher o copo com as mãos trêmulas e quase derrubando a tampa da máquina no processo.
Ao tentar ajustar o moedor de café, ela errou o botão duas vezes, fazendo a máquina emitir um ronco alto e estridente. Ela estava completamente desajeitada, errando tarefas banais que realizava de olhos fechados todos os dias.
O homem apoiou o antebraço no balcão de madeira, acompanhando cada movimento atrapalhado e desesperado dela. A cena da garota tentando parecer durona enquanto quase destruía o estoque de copos fez um sopro de riso escapar por entre seus lábios. Foi uma risadinha curta, genuína e baixa.
O amigo ao lado parou de falar no mesmo instante, virando a cabeça devagar para encará-lo com os olhos arregalados.
— O quê? — o amigo piscou, incrédulo. — Você tá rindo? Desde quando você ri, cara? Eu nunca vi você soltar um sorriso na vida!
O homem recuperou a postura rígida no mesmo segundo, fechando o rosto em uma máscara fria e impassível.
— Que rindo o quê? Pirou? Não ri de nada — respondeu ele, a voz dura e cortante, encarando o amigo com severidade.
— Riu sim! Eu vi! Você deu uma risadinha! O mundo vai acabar hoje, não é possível
O amigo continuou a gesticular e falar alto, mas a mente do homem se desligou completamente do falatório. Seus olhos pretos continuaram fixos em S/N, observando enquanto ela tentava se concentrar em encher um copo com gelo, com as bochechas coradas de vergonha e pavor. Ele não desviou o olhar por um único segundo.
Aquele dia exigiu mais de S/N do que o normal. A funcionária responsável pelo turno da noite teve uma emergência familiar, e a Sra. Kang pediu para que S/N fechasse a cafeteria.
Às vinte e uma horas e quinze minutos, as luzes internas da Mallow’s Coffee foram apagadas. S/N girou a chave pesada na fechadura da porta principal, abaixou a grade de proteção de ferro e testou o cadeado duas vezes para ter certeza de que estava bem trancado.
Quando ela se virou para pegar o caminho de casa, seu corpo inteiro enrijeceu.
Encostado contra o poste de iluminação a poucos metros da entrada, estava ele. As mãos estavam afundadas nos bolsos da jaqueta preta, a postura ereta e os olhos cravados diretamente nela, exatamente como se estivesse à sua espera.
S/N deu um passo atrás, assustada com a proximidade súbita.
— Você… o que você tá fazendo aqui? — perguntou ela, a guarda subindo em uma defesa automática.
O homem se desencostou do poste com calma, dando dois passos lentos na direção dela.
— Você sumiu na quinta-feira — disse ele, a voz grave cortando o vento frio da noite. — Me deixou falando sozinho com um pacote de gaze na mão.
— Eu não pedi para você comprar nada — S/N deu mais um passo para trás, mantendo a distância. — Eu sou grata por você ter me ajudado naquela hora, de verdade. Mas você não tinha que ter ido atrás de nada e não tem que estar aqui agora.
Ele franziu o cenho levemente, a postura orgulhosa e impaciente transparecendo na forma como curvou os ombros, embora um vinco de preocupação estivesse oculto entre suas sobrancelhas.
— Aquele cara da calçada… — ele começou, o tom de voz ficando mais baixo e perigoso. — Quem era ele? Ele fez alguma coisa com você de novo?
A pergunta atingiu em cheio a ferida mais exposta de S/N. A vergonha da sua realidade doméstica era um fardo que ela jamais exporia a um estranho.
— Isso não é da sua conta — respondeu ela, ríspida, ajustando a alça da mochila no ombro. — Você não me conhece, eu não te conheço. O que acontece na minha vida não diz respeito a você.
Ele a encarou por longos segundos. A mandíbula travou com força, e por um momento pareceu que ele daria uma resposta ríspida, mas apenas soltou um suspiro pesado pelo nariz.
— Como quiser — disse ele, virando o corpo e começando a caminhar na mesma direção que ela precisava ir.
S/N começou a andar, mantendo vários passos de distância. No entanto, após duas quadras, percebeu que ele continuava avançando exatamente pelo mesmo trajeto, caminhando um pouco à sua frente, mas mantendo a velocidade perfeitamente ajustada aos seus passos.
A sensação de estar sendo acompanhada fez a irritação de S/N atingir o limite. Ela parou no meio da calçada deserta.
— Dá pra você parar de me seguir? — gritou ela, a voz ecoando pela rua fria. — Isso tá ficando assustador! Eu vou começar a gritar, vou chamar a polícia!
O homem parou de andar. Ele se virou devagar, encarando-a com uma sobrancelha levemente erguida e um toque de deboche no olhar.
— Chamar a polícia? — ele soltou uma risada curta e sem humor. — Se você soubesse se defender ou chamar a polícia de verdade, não teria deixado aquele cara te arrastar pelo cabelo na quinta-feira.
O golpe verbal foi direto e doloroso, fazendo S/N dar um passo involuntário para trás, os lábios entreabertos em choque.
— Eu tô indo pelo meu caminho — continuou ele, apontando com o queixo para a rua escura à frente. — Essa é a rua que eu uso. Se você tá incomodada por eu estar andando no mesmo sentido que você, o problema é seu, não é meu. Mude de caminho você.
Ele virou as costas e voltou a andar sem esperar qualquer réplica.
S/N mordeu o lábio inferior, furiosa com a arrogância dele, mas sem nenhuma outra rota segura para voltar para casa àquela hora da noite. Ela continuou caminhando, mantendo os olhos fixos nas costas dele. O que ela não notou foi como o olhar dele percorria cada travessa escura, cada sombra entre os prédios e cada figura suspeita na calçada, garantindo que o caminho permanecesse limpo.
Ao chegarem à quadra da casa de S/N, ela apressou os passos, passou por ele sem direcionar um único olhar e abriu o portão de ferro com pressa, trancando a porta principal atrás de si com um baque seco.
O homem caminhou mais alguns metros pela calçada, parou sob a sombra de uma árvore do outro lado da rua e retirou um cigarro do bolso, acendendo-o em silêncio.
Ele deu uma tragada lenta, os olhos fixos na fachada humilde da casa.
Não se passaram nem trinta segundos desde a entrada dela até que a luz amarelada do quarto no segundo andar se acendesse no topo da escada.
O homem diminuiu o ritmo da respiração, acompanhando a claridade na janela. Ninguém chega em casa depois de um dia exaustivo de trabalho e corre direto para o quarto no segundo andar sem passar pela cozinha ou pela sala. A menos que estivesse se escondendo de algo — ou de alguém — que estivesse no andar de baixo.
Ele jogou a bituca do cigarro no asfalto e a pisou com a sola do sapato.
Errada não ta ne… vai saber quem é esse doido
Aaaah então ele é carrancudo…. olha que loucura
É o caminho dele mesmo? Eis a questão, fiquei curiosa
Caraca ele ta observando a vida dela.. desde quando?
Sem dar tempo para ele processar, S/N disparou. Puxando a mão dele com toda a força que seus braços debilitados conseguiam exercer, ela começou a correr pelo asfalto irregular.
Essa pobi vive em alerta 24 horas por dia
Nem pensa direito, só faz
[quote]— Fica aí — ordenou ele, usando um tom baixo que não dava margem para questionamentos. — Não sai do lugar. Vou buscar algo pra esse seu joelho.
Não é possível que agora eu vou querer o JK também
[quote]Assim que as portas automáticas de vidro se fecharam atrás dele, o instinto básico de S/N assumiu o controle total de seu corpo. A lógica das ruas onde cresceu era implacável: Nunca dependa de estranhos. Ajuda de graça não existe.
Tou com pena da SN reaaaaal
[quote]— O quê? — o amigo piscou, incrédulo. — Você tá rindo? Desde quando você ri, cara? Eu nunca vi você soltar um sorriso na vida!
Desde quando ele viu a garota, ué
O amor n se explica, meu caro amigo
[quote]S/N mordeu o lábio inferior, furiosa com a arrogância dele, mas sem nenhuma outra rota segura para voltar para casa àquela hora da noite. Ela continuou caminhando, mantendo os olhos fixos nas costas dele. O que ela não notou foi como o olhar dele percorria cada travessa escura, cada sombra entre os prédios e cada figura suspeita na calçada, garantindo que o caminho permanecesse limpo.
Ele fazendo a vistoria pra ela passar kkk
[quote]O homem diminuiu o ritmo da respiração, acompanhando a claridade na janela. Ninguém chega em casa depois de um dia exaustivo de trabalho e corre direto para o quarto no segundo andar sem passar pela cozinha ou pela sala. A menos que estivesse se escondendo de algo — ou de alguém — que estivesse no andar de baixo.
E as peças do quebra cabeça começa a se juntar na cabeça dele