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A poeira amarelada que flutuava sob as lâmpadas fluorescentes da Mallow’s Coffee parecia assentada em um ritmo frenético e sufocante. S/N segurava o bloco de pedidos com tanta força que as pontas de seus dedos permaneciam esbranquiçadas, a respiração presa no peito a cada batida metálica da porta de vidro.

O sininho acima da entrada tocara exatamente doze vezes na última hora. A cada badalo agudo, os ombros de S/N enrijeciam de forma automática. Ela prendia o fôlego, virava o rosto devagar e inspecionava quem cruzava o patamar, com os olhos bem abertos e a postura armada para o choque.

Após colocar na ponta do lápis os custos de vida, a mensalidade reduzida dos materiais e o valor estimado que precisaria para se manter no dormitório universitário, a escolha pelo trabalho fora inevitável e amarga. Ela precisara pedir demissão da biblioteca comunitária. A biblioteca oferecia um ambiente calmo e distante das ruas movimentadas, mas o salário fixo era curto. A cafeteria, por outro lado, com suas gorjetas diárias em dinheiro vivo e o fluxo constante de clientes, era a única fonte financeira capaz de mantê-la de pé.

Permanecer ali significava pagar o preço da paranoia constante.

Ela sabia que ele frequentava a cafeteria. Sabia que a jaqueta de couro escura, os olhos pretos e penetrantes e o piercing de prata no lábio poderiam surgir no balcão a qualquer momento. O sabor amargo e metálico daquele beijo na calçada ainda parecia gravado na sua memória recente, uma invasão que a deixara enfurecida e sem dormir por noites seguidas.

Ao fim do expediente, por volta das dezoito horas, S/N retirou o avental com pressa, guardou o dinheiro das gorjetas no fundo do bolso interno da mochila e saiu pelos fundos. Ela continuava mantendo sua nova rota: contornava a praça central, evitava os becos comerciais e caminhava pelas avenidas iluminadas, onde o trânsito pesado de ônibus garantia uma segurança ilusória.

No entanto, o verdadeiro inferno de S/N não estava nas ruas, mas atrás da porta de sua própria casa.

Como previra ao ver o último ponto ser retirado do lábio de seu pai, o período de sobriedade forçada chegara ao fim de maneira devastadora. Naquela mesma noite, a atmosfera da residência voltou a ser sufocante. O cheiro azedo de bebida impregnava a sala de estar, misturado ao fumo que o pai dela queimava sem parar.

Ele estava jogado no sofá rasgado, com a garrafa pela metade entre as pernas, murmurando ofensas desconexas para a televisão ligada em um volume ensurdecedor. Min-jae, por sua vez, transitava pela casa como uma sombra arisca. O irmão, desesperado por dinheiro para cobrir dívidas que acumulava no bairro, tentara forçar a tranca do guarda-roupa de S/N durante a madrugada. A briga entre os dois fora inevitável — gritos abafados na cozinha, acusações cruzadas e a ameaça do pai de quebrar as cadeiras caso eles não calassem a boca.

Para sobreviver àquele caos e manter a mente sã, S/N transformou o campus da Universidade St. Jude em seu verdadeiro refúgio.

Sempre que saía do trabalho na cafeteria, ela não voltava para casa. Caminhava direto para a biblioteca central da universidade, um prédio imponente de alvenaria antiga com corredores silenciosos e mesas compridas de madeira escura. Ali, ela passava horas a fio. Estudava até que os olhos queimassem pelo cansaço, revisava os cadernos e organizava com cuidado quase religioso os papéis da solicitação do dormitório.

A exaustão física era visível. Olheiras profundas e arroxeadas moldavam o contorno de seus olhos, a pele estava pálida e os movimentos de suas mãos revelavam o cansaço de quem dormia pouquíssimas horas por noite.

Naquela tarde, S/N reunira a pasta plástica com todos os documentos exigidos e dirigira-se ao prédio da secretaria de atendimento estudantil da St. Jude. O corredor estava movimentado por alunos do último ano e calouros que buscavam resolver pendências de matrícula.

Ao chegar ao guichê, a mesma funcionária de óculos olhou a documentação de S/N com um olhar clínico e burocrático.

— Formulário socioeconômico preenchido, declaração de renda, cópia do comprovante de residência… — a mulher folheou as páginas com uma lentidão exasperante. De repente, parou, franzindo o cenho. — Está faltando a firma reconhecida na declaração de isenção do seu responsável legal.

S/N sentiu o sangue fugir de seu rosto.

— O quê? — a voz dela saiu baixa, trêmula. — Mas na ficha informativa não constava a necessidade de firma reconhecida em cartório para essa folha específica.

— É uma norma interna atualizada neste semestre para pedidos de vaga no dormitório — a funcionária respondeu sem demonstrar qualquer empatia, devolvendo a pasta pela metade sobre o balcão. — Sem o carimbo do cartório na declaração do seu pai, o sistema recusa a inscrição automaticamente. E o prazo final para o envio dos envelopes da comissão encerra-se amanhã, às cinco da tarde.

— Amanhã? — S/N apoiou as duas mãos na borda de madeira do guichê, o peito apertado por um pânico gelado. — Eu não tenho como conseguir essa assinatura e ir ao cartório até amanhã às cinco! Meu pai trabalha durante o dia e o cartório do bairro fecha cedo! Não tem como abrir uma exceção?

— Não abrimos exceções. Próximo da fila, por favor.

S/N pegou a pasta plástica contra o peito, a garganta fechada por um nó doloroso. Ela deu passos lentos para fora da secretaria, sentindo as pernas pesadas como chumbo. Se perdesse o prazo para o dormitório, teria que suportar mais tempo morando sob o mesmo teto que o pai bêbado e o irmão. A ideia de ver seu plano ruir por conta de um carimbo burocrático fazia suas mãos tremerem de raiva e impotência.

Ela caminhou até o pátio externo do prédio de ciências humanas, um local cercado por árvores altas e bancos de concreto. O ar do final de tarde estava frio. S/N sentou-se na extremidade de um dos bancos, colocou a pasta sobre os joelhos e cobriu o rosto com as mãos, tentando conter a respiração desregulada.

Ela estava exausta. O cansaço acumulado, a tensão violenta de sua casa e a constante sensação de estar sendo observada pareciam ter atingido o limite absoluto.

— Você devia parar de encarar esses papéis como se eles fossem pegar fogo.

A voz grave, baixa e profunda ecoou a poucos passos de distância, cortando o barulho das folhas secas balançadas pelo vento.

S/N sobressaltou-se no banco. Ela removeu as mãos do rosto com rapidez e ergueu os olhos, a guarda subindo em um reflexo instantâneo.

Em pé ao lado do canteiro de flores, com a jaqueta de couro preta aberta sobre uma camiseta escura e as mãos afundadas nos bolsos da calça jeans, estava ele. O rapaz encarava S/N com a fisionomia rígida, a expressão séria e o olhar escuro fixo na pasta que ela segurava com força.

A presença dele ali, no meio do campus da St. Jude, fez o coração de S/N dar um salto violento no peito.

— O que você tá fazendo aqui? — a voz dela saiu cortante, carregada de defensiva, enquanto ela se levantava do banco com rapidez. — Você me seguiu até dentro da faculdade?

O homem não se moveu um centímetro. Não havia vestígio de deboche em sua postura. Ele apenas manteve a cabeça erguida, analisando as olheiras profundas no rosto dela e a palidez de sua pele.

— Eu não preciso seguir ninguém para andar por aqui — respondeu ele, com o tom frio e pausado. — Eu estudo neste lugar.

S/N travou. A informação caiu sobre ela como um balde de água fria. Ela piscou duas vezes, tentando processar o fato de que aquele rapaz — o mesmo que derrubara seu pai com um soco na calçada e jogara um bêbado desacordado em um beco — transitava pelos mesmos corredores acadêmicos da St. Jude.

O homem deu um passo lento à frente, os olhos baixando por uma fração de segundo para os papéis timbrados que sobressaiam da pasta de S/N. Ele notara o brasão da universidade e a folha de inscrição do curso.

— Então é isso… — ele disse, a voz descendo um tom, mantendo o olhar fixo no dela. — Você vai estudar na mesma faculdade que eu.

S/N recolheu a pasta com rapidez, escondendo-a atrás do próprio corpo, o orgulho ferido pela intromissão dele.

— O que eu faço ou deixo de fazer da minha vida não é da sua conta — ela disparou, mantendo o queixo erguido apesar do cansaço visível que fazia sua voz falhar levemente. — Já não basta você aparecer em cada esquina do bairro, agora vai me perturbar aqui também?

— Você mudou o caminho — ele afirmou, ignorando o ataque dela e mantendo a feição absolutamente séria. — Mudou os horários da rua, parou de passar pela travessa comercial e agora tá andando igual uma tonta dando volta no quarteirão inteiro pra chegar nos lugares.

A constatação direta dele fez o rosto de S/N queimar.

— Eu ando por onde eu quiser! — ela retrucou, dando um passo para trás para aumentar a distância entre eles. — Eu não quero você perto de mim. Não quero que você fale comigo, não quero você se metendo no que eu faço e odeio o fato de você achar que tem algum direito de me seguir!

O rapaz apertou a mandíbula devagar, os nós de seus dedos marcando o tecido do jeans dentro dos bolsos. A reação arisca dela não o surpreendia mais, mas a teimosia cega com que ela tentava carregar tudo sozinha começava a irritá-lo de uma forma profunda.

— Você tá caindo de sono em pé — ele disse, a voz dura, sem qualquer concessão. — Tá magra, tá com a cara péssima e mal consegue segurar essa pasta sem tremer as mãos. E ainda acha que tá no controle de alguma coisa.

— Calado! — S/N deu um passo à frente, a fúria faiscando em seus olhos cansados. — Você não sabe nada sobre mim! Não sabe do que eu preciso, não sabe da minha vida e não tem o menor direito de falar do meu estado! Eu não te pedi nada! Nunca te pedi nada!

— É, você nunca pede — ele rebateu, a voz mantendo uma gravidade pesada que parecia silenciar o vento ao redor. — Mas continua fazendo besteira e achando que resolve tudo sozinha.

Ele deu mais um passo na direção dela. A diferença de altura entre os dois tornava a presença dele avassaladora, mas S/N recusou-se a dar outro passo para trás. Ela manteve o olhar cravado nos olhos pretos dele, o peito subindo e descendo rápido pelo pico de adrenalina.

— Se você aparecer na minha frente de novo… se você tentar encostar em mim como fez daquela vez… — a voz de S/N tremeu, carregada de uma ameaça impotente, mas feroz.

O homem encarou a boca dela, lembrando-se do beijo daquela noite, mas não sorriu. Apenas sustentou o olhar denso sobre o rosto irritado da garota.

— Você vai fazer o quê? — ele perguntou, o tom baixo, quase um sussurro ríspido. — Vai me xingar de novo?

S/N apertou a pasta plastificada com tanta força que o plástico estalou sob seus dedos. A raiva, a frustração com o carimbo do cartório e a presença sufocante daquele rapaz se misturaram em um nó insuportável no seu peito.

— Eu odeio você — ela sussurrou entre os dentes, a voz embargada pela exaustão.

— Eu sei — ele respondeu de imediato, sem desviar os olhos dos dela por um único segundo. — Mas você vai ter que me aguentar neste campus. Porque eu não vou para lugar nenhum.

Sem dar a ela a chance de disparar outra réplica ou tentar empurrá-lo, o rapaz virou o corpo com movimentos calmos e firmes. Ele caminhou a passos largos na direção do prédio principal da universidade, as mãos afundadas nos bolsos da jaqueta de couro, sem olhar para trás nem uma única vez.

S/N permaneceu parada no pátio de concreto, sob o vento frio que começava a soprar mais forte com a chegada da noite. O peito dela descia e subia em compasso desordenado, as pernas trêmulas pela descarga de raiva e o olhar fixo nas costas largas do homem que desaparecia entre as portas de vidro da instituição.

5 Comentários

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  1. Iasmine
    Sep 22, '26 at 9:25 pm

    Ele estava jogado no sofá rasgado, com a garrafa pela metade entre as pernas, murmurando ofensas desconexas para a televisão ligada em um volume ensurdecedor. Min-jae, por sua vez, transitava pela casa como uma sombra arisca. O irmão, desesperado por dinheiro para cobrir dívidas que acumulava no bairro, tentara forçar a tranca do guarda-roupa de S/N durante a madrugada. A briga entre os dois fora inevitável — gritos abafados na cozinha, acusações cruzadas e a ameaça do pai de quebrar as cadeiras caso eles não calassem a boca.

    Nossa essa casa ai é um inferno pqp

  2. Iasmine
    Sep 22, '26 at 9:26 pm

    — Formulário socioeconômico preenchido, declaração de renda, cópia do comprovante de residência… — a mulher folheou as páginas com uma lentidão exasperante. De repente, parou, franzindo o cenho. — Está faltando a firma reconhecida na declaração de isenção do seu responsável legal.

    Era a cereja do bolo que faltava pqp mano… que pesadelo

  3. Iasmine
    Sep 22, '26 at 9:27 pm

    — Você devia parar de encarar esses papéis como se eles fossem pegar fogo.

    Mas é claro que eles estudam na mesma faculdade kkkkkkkkk coisa boa quero ver o que vem pela frente

  4. Iasmine
    Sep 22, '26 at 9:27 pm

    — Se você aparecer na minha frente de novo… se você tentar encostar em mim como fez daquela vez… — a voz de S/N tremeu, carregada de uma ameaça impotente, mas feroz.

    Quero ver ate onde vai esse odio dela

  5. Iasmine
    Sep 22, '26 at 9:28 pm

    — Eu sei — ele respondeu de imediato, sem desviar os olhos dos dela por um único segundo. — Mas você vai ter que me aguentar neste campus. Porque eu não vou para lugar nenhum.

    Chupa sn kkkkkkkkk engula essa sua chatona

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