You have no alerts.
Header Background Image

O lounge VIP era um aquário de vidro e luxo suspenso sobre a reta principal do autódromo. O isolamento acústico transformava o rugido brutal do Porsche GT3 de Jungkook em um ronco abafado, quase hipnótico. S/N estava de pé, com as mãos pressionadas contra o vidro frio, observando o carro prata e preto cortar o asfalto como um bisturi. Minjae estava sentado em uma poltrona de couro ao lado, focado em um tablet, mas a mente de S/N estava a trezentos por hora, ainda processando o peso das palavras “a babá” que Jungkook usara lá embaixo.

— Ele está forçando a entrada na curva três. O acerto ainda não está perfeito — uma voz grave ecoou atrás dela.

S/N virou-se e deu de cara com Namjoon. Ele tinha um tablet de telemetria em uma das mãos e uma expressão indecifrável. Ele se aproximou, parando ao lado dela e observando o carro na pista.

— Prazer, sou Namjoon. Chefe de equipe e o cara que impede o Jungkook de se matar por excesso de confiança — ele se apresentou, com um meio sorriso que parecia amigável, mas analítico.

— S/N — ela respondeu de forma polida, tentando manter a postura. — Por que o Jungkook nunca mencionou você com detalhes? Ele fala da equipe como um bloco, mas você parece ser o cérebro por trás de tudo.

Namjoon soltou uma risada curta, os olhos ainda fixos no carro prata lá embaixo.

— O Jeon é foda, S/N. Ele guarda as melhores coisas só para ele. Informação, estratégia… e, pelo visto, as pessoas também. Ele é um cofre difícil de abrir.

S/N sentiu um aperto no peito. A frase de Namjoon “guarda as melhores só para ele” soou como um elogio, mas para ela, naquele momento, parecia uma condenação ao isolamento. Ela olhou para Minjae e depois voltou para Namjoon, decidindo que a curiosidade era um risco que ela precisava correr.

— E a Ana? — Ela soltou o nome como se estivesse testando o peso de uma peça de motor. — Você mencionou ela lá embaixo. Ela era… a babá anterior?

Namjoon desviou o olhar da pista para S/N. Ele percebeu a hesitação no tom de voz dela.

— Não. A Ana era da administração aqui do circuito. Uma garota eficiente. Ela ficava com o Minjae nos boxes quando o Jungkook precisava de foco total. — Ele fez uma pausa, coçando o queixo. — Ela meio que fazia o papel de “faz-tudo” na vida dele por um tempo.

S/N sentiu uma pontada de ciúme que tentou desesperadamente esconder sob uma máscara de indiferença profissional.

— Ela saiu faz muito tempo? — S/N perguntou, a voz saindo um pouco mais seca do que pretendia. — Digo, para o Jungkook precisar de uma nova “babá” de forma tão urgente?

Namjoon deu um passo à frente, diminuindo a distância, e falou em um tom mais baixo, para que Minjae não ouvisse.

S/N sentiu um nó amargo se formar na garganta, uma náusea que vinha da percepção do calendário. A viagem para a Alemanha não tinha sido apenas um compromisso de trabalho para Jungkook; tinha sido o divisor de águas. Foi naquele exato período, quando ele apertou a agenda e exigiu que ela passasse a morar na cobertura, que a transição aconteceu.

Enquanto ela passava noites em claro, andando de um lado para o outro na sala e vigiando o relógio à espera dele, Jungkook estava encerrando um ciclo para abrir outro. Ele a trouxera para sua casa e para sua vida no exato momento em que a “vaga” de Ana parecia ter sido declarada aberta. Será que ela era apenas a nova peça de reposição, instalada estrategicamente para garantir que o motor dele não fundisse sob a pressão da temporada?

— Ele é um piloto de elite, S/N — Namjoon continuou, a voz baixa, quase como se lesse a dúvida estampada no rosto dela. — Ele precisa de estabilidade para vencer. Se ele escolheu você para estar aqui hoje, no lounge privado dele, cuidando do Minjae e ocupando esse espaço… é porque você é a peça que faltava para ele correr em paz. Só tente não se machucar se ele decidir acelerar demais.

Namjoon se afastou, voltando sua atenção para os monitores repletos de telemetria, deixando S/N sozinha com o eco das próprias inseguranças e a visão de Jungkook dominando a pista com uma agressividade impecável.

Ela o queria — o toque dele ainda parecia queimar em sua pele —, mas a sombra da ex-alguma coisa dele e a rapidez com que ele a inserira naquela rotina de “família” a assustavam. S/N se perguntava, com o coração apertado, se ela estava sendo a cura genuína para o caos de Jungkook ou apenas o próximo descarte planejado antes que a próxima temporada começasse.

O som da porta de vidro do lounge deslizando foi o único aviso da chegada de Jungkook. Ele entrou exalando o cheiro metálico da pista, o macacão amarrado na cintura e a camiseta preta colada ao corpo pelo suor. Seus olhos varreram o ambiente, buscando imediatamente o porto seguro que S/N representava, mas o que encontrou foi uma barreira de gelo que ele não reconheceu.

— Noona! O papai foi muito rápido! — Minjae correu até ela, mas parou no meio do caminho, olhando para um pequeno boneco de ação que trouxera na mochila. — Noona, esse aqui foi o boneco que a Ana me dei, ele caiu no chão. Você conserta?

O nome “Ana” flutuou no ar como um gás inflamável. Jungkook travou por um milésimo de segundo, sua expressão endurecendo sob o suor. Ele pegou o brinquedo das mãos do filho, mas seu olhar estava fixo em S/N, que permanecia de costas, fingindo observar o horizonte do autódromo.

— Depois, campeão. Agora o papai precisa falar com a equipe — ele disse, a voz mais baixa e rouca do que o normal, sentindo o peso do silêncio dela.

S/N finalmente se virou. Ela sentia a presença de Jungkook como uma massa de calor a poucos metros, mas a revelação de Namjoon e a menção casual do brinquedo de Minjae criaram uma névoa de desconfiança que ela não conseguia dissipar.

— O treino foi produtivo, Sr. Jeon? — ela perguntou, a voz saindo cortante, formal e desprovida de qualquer vestígio da intimidade que haviam compartilhado na madrugada.

Jungkook franziu o cenho. O uso do título profissional diante de Namjoon e dos mecânicos que entravam no lounge foi como um tapa. Ele deu um passo em direção a ela, mas S/N se esquivou sutilmente, caminhando até Namjoon, que ainda analisava os dados no tablet.

— Namjoon, esses gráficos de telemetria… — ela começou, inclinando-se levemente para ver a tela, ignorando Jungkook completamente. — Você disse que a entrada na curva três estava forçada. Isso afeta o batimento cardíaco dele tanto quanto a suspensão?

Namjoon, percebendo a voltagem estática no ambiente e o olhar predatório de Jungkook sobre eles, pigarreou, desconfortável. — Bem, S/N, afeta o foco. Mas o Jeon é resiliente. Ele sabe quando acelerar.

— Interessante — ela sorriu para Namjoon, um sorriso que Jungkook sabia que era reservado apenas para ele. — Acho que precisamos de mais dados sobre essa “estabilidade” que você mencionou. É raro encontrar alguém tão… focado.

Jungkook sentiu o estômago dar um solavanco. Ver S/N — a mulher que, horas antes, se declarava rendida em seus braços — distribuindo aquela intimidade visual para seu chefe de equipe era pior do que uma batida a 300 km/h. O ciúme subiu por sua garganta, amargo e quente, misturado ao pânico gelado que a menção sobre a Ana havia causado.

O que o Namjoon disse para ela?, ele pensou, as mãos fechando-se em punhos ao lado do corpo suado.

Ele não aguentou ver a proximidade dos dois, as cabeças quase se tocando sobre o tablet. Jungkook caminhou até eles, colocou a mão no ombro de Namjoon, um gesto que parecia amigável para quem via de longe, mas que carregava uma tensão de aço.

— Nam… uma palavra. No escritório dos boxes. Agora — ele disse, a voz num tom perigosamente baixo.

Ele nem olhou para S/N. Precisava entender o tamanho do estrago antes de confrontar a mulher que agora o tratava como um estranho.

Namjoon, percebendo que o clima de “equipe feliz” tinha acabado, entregou o tablet para um assistente e seguiu Jungkook até a sala reservada nos fundos do lounge. Assim que a porta se fechou, Jungkook se virou, a mandíbula travada.

— Que porra foi aquela, Namjoon? — Jungkook soltou, a voz rouca de adrenalina e irritação. — O Minjae falando da Ana e, de repente, a S/N me trata como se eu fosse um pedaço de sucata e sorri para você como se fossem melhores amigos? O que você disse para ela?

Namjoon cruzou os braços, observando o estado de nervos do piloto. Ele nunca tinha visto Jungkook tão desestabilizado por uma “funcionária”.

— Eu não disse nada que não fosse verdade, Jeon. Ela perguntou, eu respondi. — Namjoon respondeu, mantendo a calma, mas com um brilho de dúvida nos olhos.

— Você não tinha o direito de comentar sobre a Ana! — Jungkook deu um passo à frente, a respiração pesada.

— E você não tem o direito de agir como um adolescente ciumento se ela é “apenas a babá”, como você mesmo disse lá embaixo — Namjoon rebateu, a voz ganhando peso. Ele deu um passo em direção a Jungkook, sondando-o. — O que está acontecendo aqui, Jeon? Ela é só a babá do seu filho mesmo? Ou você está fazendo com ela exatamente o mesmo que fez com a Ana? Usando a proximidade para preencher o vazio e depois descartar quando a pista ficar quente demais?

Jungkook recuou como se tivesse levado um soco físico. O silêncio na sala ficou pesado, cortado apenas pelo som distante dos motores na pista.

— Não é a mesma coisa — Jungkook sussurrou, mas a incerteza em sua própria voz o traiu. — Com a S/N… é diferente.

— Então prova para ela — Namjoon disse, abrindo a porta para sair. — Porque do jeito que você a apresentou para a equipe e do jeito que você esconde o passado, para ela, você só trocou uma peça de reposição por outra mais nova. E pelo olhar que ela te deu agora há pouco… ela não vai aceitar ser o seu plano B.

Jungkook ficou sozinho na sala, o suor esfriando em sua pele. Ele olhou para a porta, sabendo que S/N estava lá fora, armada com o silêncio e a mágoa, e que a próxima “corrida” seria a mais difícil da sua vida.

9 Comentários

Aviso! Seu comentário ficará invisível para outros convidados e assinantes (exceto para respostas), inclusive para você, após um período de tolerância. Mas se você enviar um endereço de e-mail e ativar o ícone de sino, receberá respostas até que as cancele.
  1. Marcela
    Mar 29, '26 at 8:30 pm

    [quote]— Prazer, sou Namjoon. Chefe de equipe e o cara que impede o Jungkook de se matar por excesso de confiança — ele se apresentou, com um meio sorriso que parecia amigável, mas analítico.

    Huuum, ele já chegou ali pelas beiradas, como se não quisesse nada

  2. Marcela
    Mar 29, '26 at 8:35 pm

    [quote]— Não. A Ana era da administração aqui do circuito. Uma garota eficiente. Ela ficava com o Minjae nos boxes quando o Jungkook precisava de foco total. — Ele fez uma pausa, coçando o queixo. — Ela meio que fazia o papel de “faz-tudo” na vida dele por um tempo.

    Aí fica a questão kkk
    O faz de tudo é só na vida do menino, ou do pai TB ?

  3. Marcela
    Mar 29, '26 at 8:42 pm

    [quote]— Interessante — ela sorriu para Namjoon, um sorriso que Jungkook sabia que era reservado apenas para ele. — Acho que precisamos de mais dados sobre essa “estabilidade” que você mencionou. É raro encontrar alguém tão… focado.

    Mais vê msm, tá querendo fazer jungkook surtar

  4. Marcela
    Mar 29, '26 at 8:50 pm

    — E você não tem o direito de agir como um adolescente ciumento se ela é “apenas a babá”, como você mesmo disse lá embaixo — Namjoon rebateu, a voz ganhando peso. Ele deu um passo em direção a Jungkook, sondando-o. — O que está acontecendo aqui, Jeon? Ela é só a babá do seu filho mesmo? Ou você está fazendo com ela exatamente o mesmo que fez com a Ana? Usando a proximidade para preencher o vazio e depois descartar quando a pista ficar quente demais?

    Essa pergunta, nem ele vai saber responder

  5. Marcela
    Mar 29, '26 at 8:51 pm

    [quote]— Então prova para ela — Namjoon disse, abrindo a porta para sair. — Porque do jeito que você a apresentou para a equipe e do jeito que você esconde o passado, para ela, você só trocou uma peça de reposição por outra mais nova. E pelo olhar que ela te deu agora há pouco… ela não vai aceitar ser o seu plano B.

    Pois é. Exatamente isso

  6. Iasmine
    Apr 1, '26 at 9:30 am

    — O Jeon é foda, S/N. Ele guarda as melhores coisas só para ele. Informação, estratégia… e, pelo visto, as pessoas também. Ele é um cofre difícil de abrir.

    Oh mai gaaa como assim Nam????? To em choque

  7. Iasmine
    Apr 1, '26 at 9:32 am

    — Não. A Ana era da administração aqui do circuito. Uma garota eficiente. Ela ficava com o Minjae nos boxes quando o Jungkook precisava de foco total. — Ele fez uma pausa, coçando o queixo. — Ela meio que fazia o papel de “faz-tudo” na vida dele por um tempo.

    Meu deus do céu que bomba to gag

  8. Iasmine
    Apr 1, '26 at 9:33 am

    O nome “Ana” flutuou no ar como um gás inflamável. Jungkook travou por um milésimo de segundo, sua expressão endurecendo sob o suor. Ele pegou o brinquedo das mãos do filho, mas seu olhar estava fixo em S/N, que permanecia de costas, fingindo observar o horizonte do autódromo.

    Gente que reviravolta é essa socorro

  9. Iasmine
    Apr 1, '26 at 9:33 am

    — Então prova para ela — Namjoon disse, abrindo a porta para sair. — Porque do jeito que você a apresentou para a equipe e do jeito que você esconde o passado, para ela, você só trocou uma peça de reposição por outra mais nova. E pelo olhar que ela te deu agora há pouco… ela não vai aceitar ser o seu plano B.

    Gente??? Como assim ele substituiu? To em colapso

Nota