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O rugido dos motores ecoava no peito de Jeon Jung kook como um segundo coração.

Luzes piscavam ao longe, transformando o circuito de Seul em um borrão de néon e adrenalina. A pista brilhava sob a chuva fina, refletindo os faróis como um espelho negro e traiçoeiro. Jung kook mantinha as mãos firmes no volante; os dedos enluvados ajustavam cada curva com uma precisão quase cruel. Ele não dirigia apenas; ele ditava as regras para a física. Cada fração de segundo importava. Cada decisão era a linha tênue entre a glória do pódio e o desastre do metal retorcido.

O mundo, ali dentro, se resumia ao traçado da pista, ao cheiro inebriante de gasolina de alta octanagem e ao som grave que subia pelo assoalho do carro até vibrar na base de sua espinha. Ele vivia para aquilo — para o controle absoluto no meio do caos. No cockpit, não havia cobranças, não havia luto, não havia a solidão de um apartamento grande demais. Havia apenas a máquina.

“Mais dois giros, Jungkook. Mantém o ritmo. O segundo colocado está forçando a chicane, não dá espaço.” A voz do engenheiro de corrida estalou no rádio, fria e calculista.

Ele apenas respondeu com um “hm” seco. Não havia espaço para conversas triviais. O suor escorria por baixo do capacete, pinicando a pele, mas seus olhos não piscavam. Só havia ele, o carro e a linha de chegada.

O velocímetro subia: 240, 260, 280 km/h. A pista molhada exigia mais do corpo, mais da mente. Ele sentia o pulso acelerar em sincronia com as rotações do motor, o corpo inclinando junto com o carro nas curvas G-force, como se fossem um único organismo de fibra de carbono e osso. E, por um instante, nada mais existia.

Nada… até a imagem que sempre vinha, inevitável, como um fantasma doce no meio da velocidade: um par de olhos pequenos, amendoados e sonolentos, esperando por ele no fim do dia. Minjae.

A última curva veio como um soco de adrenalina. Ele jogou o carro para dentro, sentindo a traseira querer desgarrar, mas controlou a derrapagem com a maestria de quem nasceu para o asfalto. No instante seguinte, a bandeira quadriculada cortou o ar sob as luzes da reta principal.

Vitória.

O público nas arquibancadas explodiu em um clamor que abafava o próprio motor. Flashes disparavam como estrelas cadentes, o rádio gritava parabéns frenéticos — mas ele já estava com a mente a quilômetros dali, em um bairro silencioso de Seul.

Horas depois, o ronco ensurdecedor havia sido substituído pelo barulho baixo de um aquecedor e pelo chiado melancólico da chuva contra o vidro da cobertura. Jungkook entrou em casa no “modo silencioso”, uma habilidade que desenvolvera nos últimos três anos. O cheiro de combustível e borracha queimada ainda estava impregnado em sua jaqueta de couro da equipe de corrida.

— Papai… — A voz pequena e embargada pelo sono veio do canto da sala.

Um pequeno vulto apareceu, arrastando um cobertor azul felpudo pelo chão de madeira. Jungkook sentiu o coração desarmar instantaneamente. Ele se ajoelhou, ignorando a dor nos joelhos causada pela tensão da corrida, e abriu os braços. O corpo pequeno de Minjae se aninhou contra ele, um encaixe perfeito.

— Ei, campeão. — Ele sorriu, um gesto suave que não existia nas pistas, um brilho nos olhos que só aquele garotinho conseguia arrancar. — O que faz acordado? Tava me esperando?

— Tive um pesadelo… o monstro roubou meus carrinhos — murmurou o menino, esfregando os olhos com as mãos gordinhas.

Jungkook o pegou no colo, sentindo o cheiro de shampoo infantil de morango, que afastava qualquer resquício do cheiro de asfalto.

— Não se preocupa. O papai é o motorista mais rápido do mundo, lembra? Eu alcanço qualquer monstro e pego os carrinhos de volta.

Foi então que ele notou a sra. Han, a babá, parada perto da cozinha com uma expressão desconfortável. Jungkook suspirou internamente. Ele já conhecia aquele olhar.

— Sr. Jeon… parabéns pela vitória. Eu vi pela TV — ela começou, mas sua voz não tinha o entusiasmo de uma fã. — Podemos conversar um minuto?

Jungkook colocou Minjae sentado no sofá por um momento, dando-lhe seu boné da equipe para distraí-lo. Ele se aproximou da sra. Han, já sentindo o peso do que viria.

— Eu sinto muito, de verdade — disse ela, as mãos nervosas mexendo no avental. — Mas vou precisar me mudar para Busan no mês que vem. Minha filha vai ter bebê e ela precisa de mim. Não vai ser hoje, mas quero te avisar agora para que o senhor tenha tempo de organizar tudo.

Jungkook sentiu uma pontada de desespero. De novo não. Enquanto pagava o bônus da noite e se despedia da sra. Han, sua mente vagou pelos últimos três anos. A lista de babás era um desastre. Houve as mais novas, que pareciam mais interessadas em tirar selfies na sua sala ou tentar chamar sua atenção com roupas curtas do que em cuidar de uma criança. Teve as senhoras mais velhas, que não aguentavam a energia inesgotável de Minjae e pediam demissão em uma semana, alegando que o menino “dava trabalho demais”. A sra. Han era a única que tinha passado de um mês. Ela estava ali há quase um ano. Era o único porto seguro de Minjae além dele.

“Tudo facilitaria se meu trabalho fosse perto da casa da minha mãe em Busan…”, pensou ele com amargura, fechando a porta atrás da babá. Mas a sede da sua equipe, os patrocinadores e as pistas principais estavam em Seul. Ele estava preso à capital.

Subindo as escadas com Minjae no colo, o peso do cansaço finalmente o atingiu. No quarto do filho, decorado com naves espaciais e miniaturas de carros de corrida, o ritual começou.

— Conta a história do coelho que queria voar, papai? — Minjae pediu, já se enfiando debaixo dos lençóis.

Jungkook sentou-se na beirada da cama e começou a narrar, mudando a voz para os personagens, sentindo os olhos do filho pesarem aos poucos. Antes que a história terminasse, a respiração de Minjae ficou pesada e rítmica. Jungkook, exausto demais para se levantar, acabou deitando a cabeça ao lado da do filho, o braço protegendo o pequeno. O sono o levou em segundos.

Vrrrr… Vrrrr…

O celular no bolso da calça vibrou, arrancando-o de um sonho sem imagens. Era meia-noite. Ele atendeu sem ver quem era, a voz rouca.

— Alô? — O campeão de Seul finalmente acordou ou ainda está comemorando com champanhe e modelos? — A voz de Yugyeom, seu melhor amigo e também piloto, soou alta do outro lado. — Shh… fala baixo, o Minjae tá dormindo — sussurrou Jungkook, saindo do quarto na ponta dos pés. — O que você quer, Yug? — Quero que você pare de ser um eremita. Amanhã à noite, bar do distrito de Gangnam. Só os amigos próximos. Sem imprensa, sem drama. — Você sabe que eu não saio, Yugyeom. Desde que… — ele hesitou — desde a morte dela, eu não tenho clima pra isso. É trabalho, treino e Minjae. Só. — Justamente por isso! — Yugyeom insistiu. — Faz dois anos, cara. Você está virando uma máquina, igual ao seu carro. Se você não sair pra respirar, vai acabar batendo em um muro, e não vai ser na pista. Só uma noite. Por favor.

Jungkook olhou para a porta do quarto do filho. O silêncio da casa parecia esmagador de repente. Talvez Yugyeom tivesse razão.

— Vou ver o que posso fazer.

Na manhã seguinte, Jungkook ligou para a mãe. Ela morava em outra cidade, a algumas horas de distância, mas era a única pessoa em quem ele confiava plenamente.

— Mãe? O Minjae pode ficar com a senhora de sexta para sábado? Eu… eu tenho um compromisso de trabalho. — Ele omitiu o bar; não queria explicações. — Mas é claro, meu filho! — A voz dela brilhou do outro lado da linha. — Traga-o o quanto antes. Morro de saudades do meu netinho. Sabe que minha casa está sempre aberta para vocês.

Jungkook desligou o telefone e encarou o horizonte de Seul através da janela de vidro. Ele tinha um pressentimento estranho. Como se aquela saída, algo tão simples, fosse o início de uma curva fechada que ele não tinha mapeado no seu GPS mental.

Ele estava prestes a descobrir que, às vezes, as corridas mais perigosas não acontecem a 300 km/h, mas sim em um olhar cruzado em um bar lotado.

10 Comentários

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  1. Karine
    Jan 3, '26 at 5:14 pm

    — Papai… — A voz pequena e embargada pelo sono veio do canto da sala.

    Aannnw, iti malia

  2. Karine
    Jan 3, '26 at 5:18 pm

    Ele estava prestes a descobrir que, às vezes, as corridas mais perigosas não acontecem a 300 km/h, mas sim em um olhar cruzado em um bar lotado.

    O sexto sentindo haha

  3. Karine
    Jan 3, '26 at 5:21 pm

    Essas fotos deles estão ótimas

  4. VingançaNamutted
    Jan 3, '26 at 9:03 pm

    Hora de ler “Voltas por vc”…de novo

  5. VingançaNamutted
    Jan 3, '26 at 9:05 pm

    Pelo início parece q vai estar melhor, tá mais detalhado o primeiro capt

  6. Daniela
    Jan 3, '26 at 10:22 pm

    Amei, casa detalhe

  7. Daniela
    Jan 3, '26 at 10:24 pm

    Será que JK vai encontrar ela no bar? Torcendo por isso kkk

  8. IASMINE
    Jan 29, '26 at 10:49 pm

    Ele estava prestes a descobrir que, às vezes, as corridas mais perigosas não acontecem a 300 km/h, mas sim em um olhar cruzado em um bar lotado.

    ele assim: que sensação estranha

  9. Sheila
    Mar 5, '26 at 8:54 pm

    — Não se preocupa. O papai é o motorista mais rápido do mundo, lembra? Eu alcanço qualquer monstro e pego os carrinhos de volta.

    — Ei, campeão. — Ele sorriu, um gesto suave que não existia nas pistas, um brilho nos olhos que só aquele garotinho conseguia arrancar. — O que faz acordado? Tava me esperando?

    Que paizão é esse?! Carinhoso e dedicado!!! Lindo!!!

  10. Sheila
    Mar 5, '26 at 8:57 pm

    Ele estava prestes a descobrir que, às vezes, as corridas mais perigosas não acontecem a 300 km/h, mas sim em um olhar cruzado em um bar lotado.

    Curtir um pouco é necessário né JK!!!!

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