Capítulo 5 – O Lado Certo da Curva
por FanfiqueiraEram oito da manhã e o apartamento de Jungkook parecia um campo de guerra.
O som do choro estridente de Minjae ecoava pelas paredes de mármore, misturado ao barulho da TV ligada em um desenho animado que ninguém estava assistindo. Jungkook estava na cozinha, a camisa branca de botões aberta e amassada, o cabelo úmido grudado na testa e uma colher de mingau na mão que ele usava quase como uma bandeira de rendição.
— Minjae, só três colheradas. O papai tem treino na pista hoje, o carro já está esperando lá embaixo — ele pedia, a voz oscilando entre a autoridade e o desespero.
— Não quero! Quero a vovó! — o menino gritava, empurrando a tigela e sujando o balcão de granito.
Foi nesse exato momento que a campainha tocou. Jungkook soltou um suspiro que foi mais um lamento e caminhou até a porta, arrastando os pés. Quando ele abriu, deu de cara com S/N.
Ela estava impecável. Usava uma calça de alfaiataria e uma blusa leve, os cabelos presos em um coque despojado e um semblante que exalava uma paz ofensiva para quem estava no meio de um furacão doméstico. Seus olhos percorreram Jungkook — o peito exposto pela camisa aberta, os pés descalços e uma mancha de mingau de aveia bem no ombro.
— Bom dia, Sr. Jeon. Vejo que a pista de hoje é de obstáculos — ela disse, com um meio sorriso que era puro sarcasmo.
Jungkook nem teve forças para rebater a provocação. Ele deu passagem, passando a mão pelo rosto exausto. — Ele não quer comer. Não quer vestir o sapato. Eu estou trinta minutos atrasado e meu engenheiro vai me matar. Entra, por favor. Se você conseguir fazer ele parar de gritar, eu te dou um aumento antes mesmo de você começar.
S/N entrou calmamente, deixando a bolsa no aparador. Ela não foi até Jungkook, nem tentou falar com ele. Seus olhos foram direto para o pequeno vulto chorando na cadeira da mesa de jantar. Ela caminhou devagar, sem pressa, e sentou-se na cadeira ao lado de Minjae, ignorando completamente a presença de Jungkook.
Ela esperou alguns segundos até que o menino diminuísse o volume do choro por curiosidade. Então, ela se inclinou e sussurrou algo no ouvido dele. Jungkook ficou estático, a dois metros de distância, tentando ouvir, mas ela era boa demais em manter segredos.
— Um segredo? — Minjae perguntou entre soluços, os olhinhos brilhando.
— Um segredo de gente grande — S/N confirmou, mantendo a voz baixa e cúmplice. — Se você deixar o papai ir trabalhar agora, sem barulho, eu e você podemos ir ao parque à tarde. E tem mais… se você comer tudo, a gente pode escolher o maior sorvete de morango daquela loja colorida perto da praça. Mas o papai não pode saber, senão ele vai querer ir também e vai acabar com todo o sorvete. Combinado?
Minjae parou de chorar instantaneamente. Ele olhou para S/N, depois para o pai, e limpou o rosto com a manga da blusa. — Promete?
— Promessa de segredo — ela disse, estendendo o dedo mindinho.
O menino entrelaçou o dedinho no dela, deu um pulo da cadeira e, sem dizer uma única palavra, correu em direção às escadas para o andar de cima.
Jungkook ficou parado no meio da cozinha, a colher de mingau ainda na mão, olhando para o vazio. O silêncio repentino era quase ensurdecedor. Ele piscou algumas vezes, tentando processar a transição do caos absoluto para a paz mundial em menos de sessenta segundos.
— O que… o que você fez? — ele perguntou, voltando-se para S/N. — Ele estava gritando há uma hora. Eu tentei de tudo. Usei psicologia, usei suborno, usei até a técnica do “olha o aviãozinho”.
S/N levantou-se calmamente e começou a recolher a louça suja da mesa, como se fosse a coisa mais natural do mundo. — O senhor tentou negociar como um piloto, Sr. Jeon. Tentou vencer pela persistência. Eu negociei como uma aliada. As crianças não querem ordens, elas querem sentir que têm algum poder sobre a própria rotina.
Ela parou e o olhou de cima a baixo novamente, detendo-se no peito dele por um milésimo de segundo a mais do que o necessário antes de desviar o olhar com um brilho divertido.
— E, se me permite a sugestão profissional… termine de se vestir. O senhor está parecendo tudo, menos um campeão mundial de corrida. A menos que a nova moda na Fórmula seja dirigir de camisa aberta e manchas de aveia.
Jungkook olhou para baixo, percebendo o estado deplorável em que se encontrava. Ele sentiu o rosto esquentar — e não era de ressaca dessa vez.
— Eu estava… enrolado — ele justificou, fechando os botões com pressa, os dedos batendo uns nos outros.
— Eu percebi. Agora vá — ela disse, apontando para a porta. — Eu cuido do Minjae.
Jungkook subiu as escadas quase tropeçando nos próprios pés, a mente em um turbilhão. Entrou no quarto, arrancou a camisa manchada e jogou-a em qualquer canto, vestindo uma peça limpa com uma rapidez que nem nos boxes da Fórmula ele costumava ter. Terminou de calçar os tênis, ajeitou o cabelo no espelho de forma desajeitada e deu uma última conferida no rosto. Ele ainda parecia um pouco cansado, mas a adrenalina de ser “colocado em seu lugar” por S/N o tinha despertado melhor do que qualquer café.
Quando desceu os degraus, o cenário na cozinha já era outro. Minjae estava sentado no degrau da escada, calçando os sapatinhos em silêncio, enquanto S/N estava perto da bancada, fechando um pequeno pacote de papel pardo.
— O Minjae já está quase pronto — ela disse, sem se virar, apenas pelo som dos passos dele. — E o senhor também, ao que parece.
Jungkook parou diante dela, pegando as chaves do carro. Ele ia dizer que estava saindo, mas ela foi mais rápida. Ela estendeu o pacote de papel para ele. Estava morno e exalava um cheiro suave de pão tostado e café fresco.
— O que é isso? — ele perguntou, surpreso, sentindo o peso do lanche na mão.
— O café da manhã que o senhor não tomou porque estava ocupado demais sendo derrotado por um mingau — S/N respondeu, com aquele tom calmo que beirava a insolência. — É um sanduíche leve e um termo com café. Coma no caminho. Não é seguro pilotar uma máquina de milhões de dólares com o estômago vazio e o humor de quem não dormiu.
Jungkook segurou o pacote, olhando para o papel e depois para ela. Ninguém, além de sua mãe, tinha feito algo tão simples e atencioso por ele em anos. A maioria das pessoas apenas esperava que ele estivesse pronto, que ele vencesse, que ele fosse o “Jeon Jungkook”. Ninguém se importava se ele tinha comido.
— Obrigado, S/N. Eu… não esperava por isso.
Ela apenas assentiu, cruzando os braços e dando um passo para trás, restabelecendo a distância profissional que ela fazia questão de manter.
— É meu trabalho garantir que a casa funcione para o Minjae estar bem. E o Minjae só está bem se o pai dele não desmaiar na pista.
Ela caminhou até a porta e a segurou aberta para ele, com um gesto educado, mas finalizador.
— Tenha um bom dia, Senhor Jeon. Tente não bater em nada.
Jungkook passou por ela, sentindo novamente aquele rastro de lavanda. Ele parou na porta, olhou para o filho, que deu um tchauzinho animado com a mão, e depois para ela.
— Tenha um bom dia, S/N.
Ele saiu pelo corredor, ouvindo o clique suave da porta se fechando atrás de si. Enquanto caminhava para o elevador, ele abriu o pacote e deu a primeira mordida no sanduíche ainda quente. Estava perfeito.
Jungkook sorriu sozinho dentro do elevador. Ele tinha a nítida impressão de que, pela primeira vez em muito tempo, a sua “equipe de apoio” em casa era muito mais poderosa do que a que ele tinha no autódromo.
Tenta voltar vivo pro seu menino
É por isso q a profissional aq sou eu, Sr Jeon
Q queridice, nm parece o birrento
Opa, é pra já, patrão
Cadê a educação? Misericórdia
Depois de ser rejeitado, ainda foi derrotado por um mingau kkkkkkkkk
Aiiin que gracinha
Ele deve ter pensado: passado, chocado
Kkkkkkkkk te entendo JK
Ele foi derrotado pelo filho no café da manhã