Capítulo 24 – O Vácuo entre Dois Corpos
por FanfiqueiraO couro do banco do passageiro nunca pareceu tão frio. S/N mantinha o olhar fixo na janela, observando os borrões cinzentos da rodovia passarem em uma velocidade que, ironicamente, parecia lenta demais para o seu desejo de estar longe dali. No banco de trás, Minjae já havia sucumbido ao cansaço do dia de pista, dormindo abraçado ao boneco que fora o estopim de toda aquela tensão.
O silêncio dentro do carro era denso, quase sólido. Não era um silêncio de paz, mas um vácuo de palavras não ditas que torturava Jungkook mais do que qualquer motor fundido. Ele apertava o volante com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos, seus olhos alternando entre a estrada e o perfil de S/N, que parecia esculpido em gelo.
Ele precisava que ela falasse. Que gritasse, que o xingasse, que exigisse explicações. Mas o “Sr. Jeon” que ela lançara no lounge ainda ecoava em seus ouvidos como um aviso de que a intimidade da madrugada fora revogada.
Jungkook pigarreou, tentando quebrar a barreira invisível.
— A temperatura está boa para você? — ele perguntou, a voz saindo mais rouca do que pretendia. — Posso ajustar o ar-condicionado.
S/N nem sequer piscou. — Está ótima.
Ele bufou pelo nariz, a frustração começando a borbulhar. Ele mudou a estação do rádio, buscando uma melodia que pudesse suavizar o clima, mas cada música parecia errada, melancólica demais ou alegre demais para o desastre que acontecia dentro daquela cabine.
— O Minjae adorou hoje — ele tentou novamente, lançando um olhar pelo retrovisor para o filho. — Ele não parava de falar como você explicou bem sobre os dinossauros no caminho para a pista. Você tem um jeito especial com ele, S/N.
— É o meu trabalho, Sr. Jeon — ela respondeu, a voz desprovida de qualquer emoção. — Fui contratada para isso.
Jungkook sentiu um soco no estômago. Ele reduziu a marcha bruscamente, o motor roncando em protesto, e entrou em uma rota alternativa, mais longa, apenas para ganhar tempo. Ele estava fazendo de tudo: ajustou o banco dela eletronicamente para que ela ficasse mais confortável, abriu o teto solar para que o ar fresco entrasse, até parou em um drive-thru de conveniência para comprar o doce favorito dela que ele vira na despensa da cobertura.
— Aqui — ele disse, estendendo o pacote para ela quando pararam em um sinal vermelho. — Você não comeu nada desde o almoço.
S/N olhou para o doce e depois para ele. Seus olhos estavam nublados, uma mistura de mágoa e uma dignidade que o fazia se sentir minúsculo. — Obrigada. Mas perdi o apetite.
— S/N, pelo amor de Deus… — Jungkook soltou o volante, virando o corpo para ela, ignorando o sinal que acabara de abrir. — O que você quer que eu faça? Eu estou tentando… eu estou tentando equilibrar tudo aqui.
— Você está tentando evitar o inevitável, Jungkook — ela finalmente o olhou, e o uso do nome dele sem o título foi como um choque elétrico. — Você está girando em círculos para não ter que olhar para o que deixou no acostamento.
Jungkook travou. Ele sabia exatamente do que ela estava falando. Sabia que a sombra de Ana estava sentada no banco de trás, invisível, mas presente. Sabia que a viagem à Alemanha era o fantasma que Namjoon despertara. Mas ele não conseguia. A simples ideia de validar que ela poderia ser uma “peça de reposição” o aterrorizava tanto que ele preferia morrer em silêncio a admitir que o passado era o seu maior adversário.
— Eu só quero que as coisas voltem a ser como eram hoje cedo — ele sussurrou, a voz carregada de uma vulnerabilidade crua, sua mão tateando a dela sobre o console, buscando desesperadamente o toque que ela lhe negava. — Por favor. Não me olha como se eu fosse um estranho.
S/N puxou a mão de volta, o movimento sendo mais doloroso do que qualquer rejeição física que ele já sofrera. — Hoje cedo eu não sabia que ocupava uma vaga que acabou de ser esvaziada. Dirija, Jungkook. O Minjae vai acordar.
Ele engoliu em seco, a garganta queimando. Voltou a olhar para a estrada, acelerando o carro com uma agressividade que denunciava sua impotência. Ele estava perdendo a corrida mais importante, e a única coisa que ele sabia fazer — correr — era exatamente o que o afastava dela.
A cobertura, que costumava parecer um refúgio de luxo, agora tinha a atmosfera de uma câmara de isolamento. O único som audível era o clique rítmico dos sapatos de Jungkook no mármore enquanto ele carregava o corpo pesado e adormecido de Minjae em direção ao andar de cima. S/N não olhou para trás. Ela caminhou direto para a cozinha, as mãos trêmulas encontrando apoio na bancada de granito frio.
Ela precisava de ordem. Precisava de algo que pudesse controlar, já que seus sentimentos eram um caos que ela não conseguia organizar.
Com movimentos mecânicos e precisos, ela começou a tirar os ingredientes da geladeira. O som da faca batendo contra a tábua de madeira — tack, tack, tack — era o único metrônomo que mantinha sua sanidade no lugar. Ela cortava os legumes com uma concentração quase feroz, os olhos fixos na lâmina, recusando-se a pensar no lounge, no Namjoon ou no sorriso que Jungkook dava para a “tal Ana” que o filho tanto gostava.
Dez minutos depois, ela sentiu a presença dele. Jungkook não fez barulho ao descer, mas o ar na cozinha mudou. O cheiro de asfalto e suor que emanava dele parecia preencher cada centímetro do espaço.
Ele parou na entrada da cozinha, observando-a. S/N estava de costas, mexendo uma panela com uma intensidade que denunciava que ela não estava apenas cozinhando, mas tentando exorcizar algo.
— Ele nem se mexeu — Jungkook disse, a voz suave, tentando tatear o terreno. — O dia na pista acabou com ele.
S/N continuou mexendo o ensopado. — Crianças precisam de rotina, Sr. Jeon. O excesso de estímulo cansa o sistema nervoso.
Jungkook suspirou, fechando os olhos por um segundo. Ele se aproximou da ilha da cozinha, ficando do lado oposto ao dela, tentando buscar o olhar de S/N, mas ela parecia subitamente fascinada pelo vapor que subia da panela.
— S/N… pare com isso. Pare de me chamar assim.
— Estou preparando o almoço e a janta de uma vez — ela o interrompeu, a voz firme e monótona. — Assim, se o senhor precisar sair para resolver pendências da “administração” ou da “equipe”, a comida do Minjae já estará pronta.
Jungkook sentiu a alfinetada. Ele estendeu a mão sobre a bancada, tentando tocar a mão dela que segurava a colher, mas S/N se afastou rapidamente para pegar um tempero no armário alto.
— Eu não vou a lugar nenhum — ele declarou, a voz subindo um tom. — Eu estou aqui. Com você.
— Estar presente fisicamente não é o mesmo que estar aqui, Jungkook — ela disse, finalmente parando e encarando-o. Os olhos dela estavam vermelhos, não de choro, mas de um cansaço emocional profundo. — Você está agindo como se pudesse consertar o que está acontecendo com um doce de conveniência e um ajuste de ar-condicionado. Mas você não consegue nem dizer o nome dela em voz alta sem travar.
Jungkook abriu a boca para rebater, mas as palavras pareceram morrer em sua garganta. Ele deu a volta na bancada, invadindo o espaço dela. S/N tentou se afastar, mas ele a cercou entre o fogão e seu corpo, as mãos apoiando-se no mármore atrás dela, prendendo-a em seu campo de gravidade.
— Eu não falo dela porque ela não importa! — ele sibilou, o rosto a centímetros do dela. — O que eu tive com a Ana foi… funcional. Foi um erro de percurso antes de eu saber que existia alguém como você.
— E quanto tempo demora para eu me tornar “funcional” também, Jungkook? — ela perguntou, o queixo erguido. — Quanto tempo até a próxima viagem para a Alemanha, onde você decide que o meu ajuste já não serve mais para o seu motor?
O silêncio que se seguiu foi cortado apenas pelo som da água fervendo. Jungkook a olhou com uma dor tão crua que, por um segundo, a armadura de S/N vacilou. Ele não tinha argumentos lógicos, apenas aquele desejo desesperado de não deixá-la escapar.
— Eu não sou o homem que você pensa que eu sou — ele sussurrou, encostando a testa no ombro dela, o peso do cansaço finalmente o vencendo. — Eu só não sei como ser diferente sem quebrar tudo no processo.
O calor que emanava do corpo de Jungkook era uma afronta à tentativa de S/N de se manter gélida. Quando ele encostou a testa em seu ombro, ela sentiu o primeiro golpe em sua armadura, mas foram os beijos que vieram a seguir que começaram a desmantelar tudo.
Eles eram castos, a princípio. Toques sutis dos lábios dele contra o tecido fino de sua blusa, subindo para a pele nua do pescoço. S/N estremeceu, um choque elétrico percorrendo sua coluna, mas ela apertou a colher de madeira com força, os nós dos dedos brancos.
— Isso não… isso não muda nada, Jungkook — ela murmurou, a voz saindo mais falha do que pretendia, tentando desesperadamente agarrar-se à raiva que a protegera até agora. — Você não pode simplesmente… me ganhar no cansaço.
Jungkook não parou. Ao sentir o estremecimento dela, ele soube que tinha uma abertura. O beijo no ombro tornou-se mais profundo, mais molhado, a pressão de seus lábios reivindicando cada centímetro de pele. Suas mãos, grandes e ainda ásperas da adrenalina da pista, abandonaram a bancada e começaram a passear pelas costelas dela, subindo lentamente, possessivas.
— Eu não quero te ganhar no cansaço, S/N — ele sussurrou contra a curva do pescoço dela, a voz vibrando diretamente em seus ossos.
O rastro de beijos subiu, quente e úmido, traçando a linha da mandíbula dela até encontrar o ponto sensível logo abaixo da orelha. S/N soltou um suspiro pesado, a cabeça pendendo levemente para o lado, cedendo espaço ao invasor que ela jurara manter fora de seus muros.
— Eu quero que você sinta — ele continuou, a respiração quente provocando arrepios por todo o corpo dela — que não existe espaço para mais ninguém aqui. Não existe Ana, não existe passado… só existe esse barulho que o meu coração faz quando eu estou perto de você. Você consegue ouvir?
Ele a girou nos braços, prensando-a contra a ilha da cozinha. S/N agora estava de frente para ele, os olhos nublados por uma mistura de mágoa e desejo. O fogo no fogão ainda estalava, o cheiro do tempero preenchia o ar, mas o único aroma que importava para ela era o dele — suor, couro e aquela masculinidade crua que a rendia.
— Você é um mentiroso — ela disse, mas suas mãos já estavam subindo pelo peito dele, agarrando o tecido da camiseta preta. — Você esconde as coisas nas curvas… e eu não sei se consigo correr nesse ritmo.
— Então não corra — Jungkook murmurou, selando a distância entre seus lábios em um beijo que começou lento e exploratório, mas que logo se transformou em algo faminto, uma conversa sem palavras sobre posse e medo de perda. — Apenas fique. Fique comigo no meio do caos.
As mãos de Jungkook desceram para a cintura dela, içando-a para cima da bancada de mármore, entre os legumes cortados e o vapor das panelas. Ali, no centro da casa que ele construíra como uma fortaleza, ele estava finalmente deixando as defesas caírem, usando o único idioma que sabia que ela não conseguiria ignorar.
Pegou no ponto fraco, ele é muito esperto vei kkkk ou ele ta muito cheio de tesao kkkk
Manoo kkkkk ela ta possessa e com toda a razão
Putz que lapada seca da porra
Vacilou feio
[quote]— Eu não falo dela porque ela não importa! — ele sibilou, o rosto a centímetros do dela. — O que eu tive com a Ana foi… funcional. Foi um erro de percurso antes de eu saber que existia alguém como você.
Aí complica kkk
erro de percurso foi foda
[quote]S/N puxou a mão de volta, o movimento sendo mais doloroso do que qualquer rejeição física que ele já sofrera. — Hoje cedo eu não sabia que ocupava uma vaga que acabou de ser esvaziada. Dirija, Jungkook. O Minjae vai acordar.
Ele se lascou bonitooo
[quote]— É o meu trabalho, Sr. Jeon — ela respondeu, a voz desprovida de qualquer emoção. — Fui contratada para isso.
As palavras certas, pra matar ele do coração