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A manhã havia começado com uma suavidade enganosa. O sol ainda nem tinha vencido a neblina de Seul quando Jungkook entrou no quarto de S/N, movendo-se como uma sombra cuidadosa. Ele se inclinou sobre a cama, o perfume cítrico do pós-barba misturando-se ao calor dos lençóis, e depositou um beijo demorado em sua testa.

— Tenho que ir. A entrevista é em outra cidade e o trânsito vai estar um caos — ele sussurrou contra a pele dela. — Volto para o jantar. Me espera.

S/N apenas murmurou uma concordância sonolenta, sentindo o rastro do carinho dele antes de ouvir a porta fechar. O resto da manhã seguiu o roteiro de uma domesticidade que ela começava a amar: o cheiro de torradas, a luta leve para fazer Minjae vestir o uniforme e a trilha sonora de desenhos animados ao fundo. O caminho até a escola foi tranquilo, preenchido pelas histórias inventadas pelo pequeno no banco de trás.

Duas horas após ter voltado para a cobertura, o silêncio da casa foi rompido pelo toque estridente do celular. Era Jungkook.

Ao atender, o primeiro som que S/N ouviu não foi a voz dele, mas o rugido ensurdecedor de um motor de alto desempenho. O som do vento cortando o microfone indicava que ele estava acelerando — e muito.

— S/N? — A voz dele estava carregada de uma urgência que fez o sangue dela gelar. — A escola ligou. O Minjae se machucou no recreio. Parece que caiu de algum lugar… eu não sei, eles não me deram detalhes, só disseram que ele está na enfermaria esperando.

Jungkook soltou um palavrão baixo entre dentes, e ela ouviu o som do pneu cantando em uma curva.

— Droga, eu esqueci de atualizar a ficha! Esqueci de dar o seu número para emergências e o Namjoon não atende. Eu estou tentando chegar, mas estou a quilômetros de distância…

— Jungkook, para! — S/N interrompeu, sua voz agindo como um freio de mão na ansiedade dele. — Eu estou a dez minutos da escola. Eu vou agora. Vou pegar ele, ver o que aconteceu e te ligo assim que estiver com ele nos braços.

Houve um breve silêncio do outro lado da linha, interrompido apenas pelo som do motor diminuindo gradualmente de rotação. S/N pôde quase visualizar Jungkook soltando o ar que prendia nos pulmões, os ombros relaxando contra o banco de couro do carro.

— Você vai? — O tom dele mudou instantaneamente. A agressividade na voz deu lugar a um alívio tão profundo que beirava a exaustão. — Obrigado… Deus, obrigado, S/N. Eu estava prestes a voar baixo naquela rodovia.

— Volte com calma — ela ordenou, já pegando as chaves do carro e a bolsa. — Não adianta você sofrer um acidente tentando chegar. Eu cuido de tudo. Ele está comigo, Jungkook.

— Eu sei que está — ele sussurrou, e havia uma nota de devoção naquelas palavras que nenhuma briga sobre o passado poderia apagar. — Dirija com cuidado. Eu vou voltar direto para casa. Por favor, me avise de qualquer coisa… eu confio em você. Mais do que em qualquer um.

S/N desligou o telefone e correu para o elevador. A sensação de ser a “peça de reposição” que a assombrara no dia anterior foi momentaneamente varrida por algo muito mais forte: a responsabilidade e o laço invisível que agora a prendia não só ao piloto, mas ao filho dele.

O ar condicionado do corredor da escola parecia carregar partículas de gelo. S/N caminhava com passos rápidos, o som de seus saltos ecoando no piso polido, mas parou abruptamente diante do balcão da secretaria. As duas funcionárias trocaram olhares confusos, segurando fichas de papel.

— Sinto muito, senhorita, mas não estamos entendendo — disse a secretária, franzindo o cenho. — O Sr. Jeon não nos atendeu e então ligamos para o contato de emergência. A pessoa chegou há menos de cinco minutos e já está com o Minjae na enfermaria.

S/N sentiu um solavanco no peito. A avó? Não, ela estava em Busan. Uma tia? Ele nunca falara de parentes próximos em Seul.

— Eu sou a responsável pelo Minjae na ausência do pai — S/N afirmou, mantendo a voz firme, embora suas mãos estivessem geladas. — O Sr. Jeon me enviou pessoalmente. Por favor, eu quero vê-lo.

Uma das enfermeiras, que saía da sala de registros com um prontuário, fez um sinal para que S/N a acompanhasse. Enquanto caminhavam pelo corredor estreito, o coração de S/N martelava contra as costelas.

— Quem é a pessoa que está com ele? — S/N perguntou, tentando manter a casualidade.

A enfermeira abriu a porta da enfermaria com a naturalidade de quem anuncia o óbvio.

— É a Ana. Ela sempre esteve na ficha como o primeiro contato — a enfermeira respondeu, virando-se para S/N com um olhar curioso. — E você, quem é?

S/N abriu a boca, mas as palavras ficaram presas na garganta. O mundo pareceu girar em câmera lenta.

Dentro da sala, sentada na beira da maca, estava uma mulher de cabelos impecáveis e expressão doce. Ela envolvia Minjae em um abraço protetor, e o menino, com o rosto banhado em lágrimas e um curativo no cotovelo, apertava a camisa dela com força.

— Está tudo bem, meu amor… a mamãe está aqui — a mulher sussurrou, beijando o topo da cabeça do menino.

Mamãe.

A palavra atingiu S/N como uma chicotada física. Ela estacou na porta, os pés colados ao chão, sentindo-se subitamente como uma intrusa em uma cena que não lhe pertencia. Ana não era apenas “a menina da administração”. Ela não era apenas a ex. Ela era a figura que o menino reconhecia como porto seguro.

Ana sentiu a presença de alguém e ergueu os olhos. Sua expressão mudou de preocupação para uma curiosidade polida e analítica ao ver S/N parada ali, pálida e em choque. Ela soltou Minjae levemente, embora mantivesse uma mão protetora em seu ombro, e se levantou com uma elegância que exalava autoridade.

— Você deve ser a nova funcionária de quem o Namjoon me falou — Ana disse, sua voz era melodiosa, mas carregava um tom de posse que fez o sangue de S/N ferver e gelar ao mesmo tempo. — S/N, certo?

Ela deu um passo à frente, diminuindo a distância, e inclinou levemente a cabeça, observando S/N como se fosse um objeto fora de lugar.

— Sinto muito que você tenha tido o trabalho de vir até aqui — continuou Ana, com um sorriso mínimo que não chegava aos olhos. — Mas, como você pode ver, a família já está cuidando disso. Você pode voltar para a cobertura e avisar ao Jungkook que o filho dele está em boas mãos.

O impacto da palavra “mamãe” ainda reverberava nos ouvidos de S/N, mas o feitiço foi quebrado por uma voz pequena e embargada.

— Noona! — Minjae exclamou, os olhinhos inchados brilhando ao vê-la. Ele tentou descer da maca, estendendo os bracinhos em direção a S/N.

S/N sentiu o ar voltar aos pulmões. Ela ignorou o olhar gélido de Ana e caminhou decidida até o menino, ignorando a sensação de ser uma intrusa. Ela acariciou o rosto de Minjae, conferindo o curativo no cotovelo com uma ternura que nasceu do instinto.

— Oi, meu amor. Eu estou aqui — ela sussurrou, a voz firme apesar do turbilhão interno. Ela se virou para a enfermeira, ignorando a presença da outra mulher. — O que exatamente aconteceu?

A enfermeira suspirou, fechando o prontuário. — Uma briga no pátio. Um amiguinho disse que o Minjae não tinha uma mãe, e ele não gostou nada disso… acabou se descontrolando e caiu durante a discussão.

S/N sentiu um aperto no coração, mas antes que pudesse dizer algo, a voz de Ana cortou o ambiente como uma lâmina afiada.

— Isso é um absurdo — Ana disse, aproximando-se da maca e colocando-se entre S/N e o menino. Ela tocou o ombro de Minjae, forçando um sorriso protetor enquanto olhava para a enfermeira. — Ele não tem por que ouvir esse tipo de maldade. Eu sempre estive aqui. O Minjae sabe que, desde que a mãe dele se foi, eu sou o mais próximo de uma mãe que ele tem. Não é, filho?

Ela enfatizou a palavra com uma posse deliberada, lançando um olhar de soslaio para S/N que transbordava vitória.

— Vem cá com a mamãe, querido. Deixa que a funcionária do seu pai ajude com a papelada, eu cuido de você.

S/N estacou. A audácia de Ana em “tomar” o lugar da falecida mãe de Minjae para validar sua posição na vida de Jungkook era de uma crueldade técnica impecável. O silêncio na sala ficou insuportável, carregado pela tensão entre a mulher que reivindicava um título por histórico e a mulher que o conquistava por afeto.

Foi então que o som de passos pesados e apressados ecoou pelo corredor. A porta da enfermaria foi aberta com força, e Jungkook surgiu no batente. Ele estava pálido, o cabelo bagunçado pelo vento e a respiração tão descompassada que parecia ter corrido uma maratona.

Seus olhos saltaram de Minjae para S/N, e então, como se tivesse visto um fantasma, eles travaram em Ana.

— Jungkook! — Ana exclamou, abrindo os braços com uma naturalidade teatral. — Ainda bem que você chegou. Eu vim assim que a escola ligou para o meu número.

Jungkook não se moveu. Ele não sorriu. A expressão dele era uma mistura de horror e puro pânico. Seus olhos encontraram os de S/N, que permanecia imóvel ao lado da maca, e ele percebeu, no mesmo segundo, que o castelo de cartas que ele tentara proteger havia desmoronado da pior forma possível.

— O que você está fazendo aqui, Ana? — a voz de Jungkook saiu baixa, mas carregada de uma vibração que fez a enfermeira recuar um passo.

— Eu vim cuidar do nosso menino, ora essa — Ana respondeu, mantendo a mão no ombro de Minjae. — A escola me ligou… afinal, eu ainda sou o contato de emergência oficial, não sou?

Jungkook sentiu o chão sumir. Ele olhou para S/N, buscando uma saída, um perdão, qualquer coisa que não fosse o vazio que via nos olhos dela agora.

— Papai… — a voz infantil cortando o silêncio com a honestidade brutal que apenas uma criança possui. — Eu não gosto quando a tia Ana me chama de filho. A minha mamãe está no céu. E… — ele olhou para S/N com os olhos brilhando por trás das lágrimas — se eu puder ter mais uma mamãe, a Noona pode ser a minha mamãe?

O rosto dela empalideceu, perdendo todo o viço. O título que ela vinha tentando ostentar como uma medalha de honra foi arrancado pela própria criança que ela usava como escudo. Ela abriu a boca para contestar, para repreender o menino, mas a vergonha de ser rejeitada na frente de Jungkook e da “substituta” a deixou sem voz. Seus olhos faiscaram de ódio em direção a S/N.

S/N sentiu o coração falhar uma batida. A náusea que sentia foi subitamente substituída por uma emoção tão forte que seus olhos arderam. Não era apenas sobre o papel que ela ocupava na vida do pai; era sobre o lugar que ela já havia conquistado na alma daquele menino. Ela quis abraçá-lo, mas seus pés pareciam colados ao chão pela gravidade do que ele acabara de pedir.

Jungkook parecia ter levado um golpe físico no estômago. O pânico de ser pego na omissão foi atropelado por uma revelação que ele não esperava. Ele olhou para o filho, depois para S/N, e a realização de que ele estava desperdiçando algo genuíno por medo de enfrentar o passado o atingiu como uma colisão frontal.

— Minjae… — Jungkook começou, a voz falhando, carregada de uma emoção crua.

Ele deu um passo à frente, ignorando Ana completamente, como se ela tivesse se tornado invisível. Ele parou diante da maca, mas seus olhos estavam fixos em S/N.

— Ana, vá embora — ele sentenciou, sem desviar o olhar de S/N. A voz era fria, definitiva, o tom de um homem que acabara de decidir qual caminho seguir. — Saia da escola, saia da nossa ficha de emergência e não ouse usar o nome da mãe dele novamente para se validar.

Ana soltou uma risada nervosa, quase histérica. — Jungkook, você não pode estar falando sério! Depois de tudo o que vivemos, e o que eu fiz por você… por esse menino…

— Você fez por você, Ana. Para se manter por perto — ele cortou, finalmente olhando para ela com um desprezo que a fez recuar. — O Minjae acabou de dizer o que sente. E eu finalmente estou ouvindo. Saia. Agora.

Ana pegou sua bolsa com mãos trêmulas, lançando um último olhar venenoso para S/N antes de sair da enfermaria, batendo a porta com força.

O silêncio que ficou era diferente. Mais limpo, mas ainda carregado. Minjae continuava olhando para o pai e para S/N, esperando uma resposta para a pergunta que mudaria tudo. Jungkook deu mais um passo, parando entre a maca e S/N, dividindo sua atenção entre os dois amores de sua vida.

— Filho… — Jungkook disse, a voz trêmula, enquanto pegava a mão pequena de Minjae e, com a outra, buscava a mão de S/N. — A Noona é a pessoa mais importante que já entrou na nossa casa. E se ela quiser… se ela puder me perdoar por ser um idiota que não soube contar a verdade… ela pode ser o que o seu coração quiser que ela seja.

Ele olhou para S/N, os olhos suplicando por uma chance que ele sabia que talvez não merecesse.

— E o que eu mais quero no mundo — ele sussurrou apenas para ela — é que ela seja a última mulher que eu precise apresentar a você.

12 Comentários

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  1. Marcela
    Apr 14, '26 at 10:07 pm

    [quote]— É a Ana. Ela sempre esteve na ficha como o primeiro contato — a enfermeira respondeu, virando-se para S/N com um olhar curioso. — E você, quem é?

    Pronto, agora lascou tudo de vez

    1. Luana
      @MarcelaApr 21, '26 at 4:18 pm

      Mais que poraaaaa JK

  2. Marcela
    Apr 14, '26 at 10:10 pm

    [quote]— Está tudo bem, meu amor… a mamãe está aqui — a mulher sussurrou, beijando o topo da cabeça do menino.

    Olha que nojenta, querendo de todo jeito ocupar (a força ) lugar da mãe dele

  3. Marcela
    Apr 14, '26 at 10:15 pm

    [quote]— Sinto muito que você tenha tido o trabalho de vir até aqui — continuou Ana, com um sorriso mínimo que não chegava aos olhos. — Mas, como você pode ver, a família já está cuidando disso. Você pode voltar para a cobertura e avisar ao Jungkook que o filho dele está em boas mãos.

    “A família”
    Mulherzinha ridícula essa

  4. Marcela
    Apr 14, '26 at 10:51 pm

    [quote]— Papai… — a voz infantil cortando o silêncio com a honestidade brutal que apenas uma criança possui. — Eu não gosto quando a tia Ana me chama de filho. A minha mamãe está no céu. E… — ele olhou para S/N com os olhos brilhando por trás das lágrimas — se eu puder ter mais uma mamãe, a Noona pode ser a minha mamãe?

    Minjae acabando com a alegria da cobra haha
    Amei

  5. Iasmine
    Apr 17, '26 at 7:38 pm

    — É a Ana. Ela sempre esteve na ficha como o primeiro contato — a enfermeira respondeu, virando-se para S/N com um olhar curioso. — E você, quem é?

    Meu deuuuuuss lascou agora

  6. Iasmine
    Apr 17, '26 at 7:39 pm

    — Isso é um absurdo — Ana disse, aproximando-se da maca e colocando-se entre S/N e o menino. Ela tocou o ombro de Minjae, forçando um sorriso protetor enquanto olhava para a enfermeira. — Ele não tem por que ouvir esse tipo de maldade. Eu sempre estive aqui. O Minjae sabe que, desde que a mãe dele se foi, eu sou o mais próximo de uma mãe que ele tem. Não é, filho?

    Que puta vadia, aiiiii juro.. eu dava um murro na boca dela

  7. Iasmine
    Apr 17, '26 at 7:40 pm

    — Papai… — a voz infantil cortando o silêncio com a honestidade brutal que apenas uma criança possui. — Eu não gosto quando a tia Ana me chama de filho. A minha mamãe está no céu. E… — ele olhou para S/N com os olhos brilhando por trás das lágrimas — se eu puder ter mais uma mamãe, a Noona pode ser a minha mamãe?

    To gag kkkkkkk o menino botou ela no lugar dela kkkkkk

    1. Luana
      @IasmineApr 21, '26 at 4:19 pm

      Tomaaaaa kkkkk

  8. Iasmine
    Apr 17, '26 at 7:41 pm

    Ana soltou uma risada nervosa, quase histérica. — Jungkook, você não pode estar falando sério! Depois de tudo o que vivemos, e o que eu fiz por você… por esse menino…

    Aiii cala boca mona, ta passando vergonha

  9. Iasmine
    Apr 17, '26 at 7:41 pm

    — Filho… — Jungkook disse, a voz trêmula, enquanto pegava a mão pequena de Minjae e, com a outra, buscava a mão de S/N. — A Noona é a pessoa mais importante que já entrou na nossa casa. E se ela quiser… se ela puder me perdoar por ser um idiota que não soube contar a verdade… ela pode ser o que o seu coração quiser que ela seja.

    Aiiii socorro finalmente ele se declarando

    1. Luana
      @IasmineApr 21, '26 at 4:20 pm

      Que dia é o casamento?

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