Capítulo 17 – O Eco do Trauma
por FanfiqueiraO anúncio ecoou pelas paredes do auditório como um veredito que Karine não estava pronta para processar. Enquanto o reitor discursava sobre a importância de ter um “visionário” como Kim Namjoon no palco, o resto da turma irrompeu em aplausos e burburinhos entusiasmados. Para eles, era um prestígio; para Karine, era a invasão do seu último reduto de sanidade.
Ela sentiu o peso da agenda em suas mãos e a visão ficou levemente turva por um segundo. Não era raiva, ela conhecia a influência de Namjoon e sabia que a universidade faria qualquer coisa para tê-lo ali. O que a atingiu foi o puro e simples nervosismo técnico.
— Amiga, você tá pálida — Jennie cochichou, cutucando seu ombro. — Imagina o seu chefe te entregando o canudo na frente de todo mundo!
— É exatamente isso que eu estou tentando não imaginar, Jen — Karine respondeu, a voz baixa.
Karine recostou-se na cadeira, fechando os olhos por um breve momento. Durante meses, ela usou a faculdade como seu “espaço de respiração”. A Kim Global era o território dele, o subsolo dos arquivos era o domínio dele, e até o escritório da presidência agora era o lugar onde ela vivia sob a mira constante daqueles olhos escuros. A formatura era o único lugar onde ela pensava que teria paz. O único evento onde ela seria apenas Karine, a estudante, e não a “assistente estratégica” ou o “recurso” de Namjoon.
“Eu só queria uma noite sem o peso da presença dele”, ela pensou, sentindo um frio na barriga que não tinha nada de romântico. “Eu vou tropeçar. Eu tenho certeza que vou tropeçar naquele palco.”
A insegurança começou a florescer. Karine já conseguia visualizar a cena: ela subindo os degraus com o vestido longo e o salto agulha, sentindo o olhar clínico de Namjoon avaliando sua postura, seu equilíbrio, sua dignidade. Receber o diploma da mão do homem que corrigia seus relatórios com uma caneta implacável transformava o momento de glória em um exame final de vida.
Quando ela voltou para a empresa, a atmosfera parecia ter mudado, embora nada fisicamente tivesse saído do lugar. Ela entrou na sala da presidência e encontrou Namjoon imerso em uma planta de corte transversal. Ele não disse uma palavra, mas Karine sentiu que o silêncio dele agora tinha uma textura diferente.
Ela sentou-se em sua mesa, abriu os arquivos de Busan, mas sua mente voltava para o palco do auditório. Ela olhou para Namjoon de soslaio. Ele parecia tão imperturbável, tão senhor de si, que a ideia dele discursando para centenas de jovens parecia a coisa mais natural do mundo.
— O senhor vai ser o orador — ela disse, finalmente, quebrando o silêncio. Não foi uma acusação, foi uma constatação quase resignada.
Namjoon levantou os olhos dos papéis. Ele não sorriu, mas houve um brilho de reconhecimento em seu olhar.
— A notícia corre rápido no campus — ele comentou, a voz calma. — A reitoria insistiu bastante. Acredito que será uma noite interessante para observar o futuro da arquitetura coreana.
Karine soltou um suspiro curto, tentando disfarçar a ansiedade.
— Eu só… eu não esperava. Achei que teria um descanso da sua supervisão por pelo menos algumas horas durante a festa.
Namjoon soltou a caneta e recostou-se na poltrona, observando a tensão nos ombros dela.
— Você está preocupada com o fato de que eu serei a pessoa a validar o fim da sua jornada acadêmica?
— Estou preocupada em não cair no palco — ela admitiu, com uma honestidade que a surpreendeu. — É muita pressão ter o meu chefe ali, assistindo a cada passo meu fora da empresa. Eu achei que a faculdade era o único lugar onde o senhor ainda não estava.
Namjoon inclinou a cabeça, mantendo o olhar fixo no dela. Havia algo de protetor e, ao mesmo tempo, de dominador na forma como ele a encarava.
— Considere isso como uma extensão do seu treinamento. Se você consegue manter a compostura sob o meu olhar aqui, conseguirá cruzar aquele palco sem hesitar. — Ele fez uma pausa, e sua voz baixou um tom. — E não se preocupe com o resto. Naquela noite, todos estarão olhando para o orador.
Karine voltou sua atenção para o computador, o coração batendo um pouco mais rápido. Ela se sentia exposta. O último santuário havia caído. Agora, Kim Namjoon não era apenas seu empregador ou seu mentor; ele era a moldura de cada momento importante da sua vida.
E, enquanto ela digitava, a imagem dela tropeçando começou a ser substituída por outra, muito mais perturbadora: a imagem de Namjoon sorrindo discretamente enquanto apertava sua mão no palco, o diploma entre eles como um novo contrato de posse que ela nem sabia que tinha assinado.
O silêncio que se seguiu à fala de Karine foi denso, preenchido apenas pelo som do sistema de ventilação do escritório. Namjoon girou a caneta entre os dedos, um movimento calculado que denunciava sua inquietação interna. Ele a observou por cima do monitor, os olhos semicerrados, como se estivesse lendo as entrelinhas do cansaço dela.
— E quem ocupará o lugar ao seu lado na mesa principal? — ele perguntou, a voz soando casual demais para ser honesta. — O Sr. Taehyung conseguiu permissão da filial de Tóquio para retornar por um final de semana? Ou ele pretende negligenciar a formatura da “melhor amiga”?
Karine sentiu uma pontada no peito. Ela não sabia que a pergunta de Namjoon era carregada de uma satisfação cruel e oculta.
Flashback: Três dias antes da partida de Taehyung
O escritório estava mergulhado na penumbra da noite quando Taehyung bateu à porta de Namjoon. Ele estava pálido, com as mãos escondidas nos bolsos do casaco para ocultar o tremor.
— Senhor… sobre a transferência para o Japão — Taehyung começou, mantendo o olhar no tapete. — A formatura da Karine é em duas semanas. Eu gostaria de solicitar um adiamento de apenas alguns dias na minha partida. Ou, se não for possível, uma autorização para voar de volta apenas para a cerimônia. Eu arcarei com todos os custos.
Namjoon nem sequer levantou a cabeça dos documentos. Ele assinou um papel com uma força desnecessária, quase rasgando a fibra.
— Negado, Taehyung.
— Mas senhor, é o momento mais importante da vida dela. Nós prometemos desde o primeiro ano que…
— As promessas da sua vida pessoal não têm liquidez nesta empresa — Namjoon o cortou, a voz gélida. — A filial de Tóquio precisa de um coordenador agora, não depois de uma festa universitária. Se você priorizar um baile em detrimento das obrigações que aceitei lhe dar, considerarei sua renúncia imediata. E você sabe o que acontece com a reputação de um arquiteto que abandona um cargo de liderança antes mesmo de começar.
Taehyung engoliu em seco, o nó na garganta impedindo-o de protestar. Namjoon finalmente levantou o olhar, um brilho de aviso queimando nas pupilas.
— Se você realmente se importa com o futuro dela, sairá deste país sem olhar para trás. Não dê a ela esperanças de uma presença que você não pode manter. Seja homem o suficiente para deixá-la focar no que importa: a carreira que eu estou oferecendo a ela.
Presente: O Escritório da Presidência
Karine soltou um suspiro pesado, sem imaginar que o homem à sua frente era o único responsável pelo “vazio” na cadeira ao lado dela.
— Não, ele não vem — ela respondeu, tentando manter a voz estável enquanto fingia revisar uma legenda no projeto de Busan. — O Taehyung está muito ocupado com a logística em Tóquio. Ele disse que não seria prudente pedir folga logo no início.
Namjoon sentiu um prazer sombrio percorrer sua espinha. A mentira de Taehyung havia funcionado perfeitamente; Karine acreditava que ele escolhera o trabalho em vez dela.
— Uma escolha pragmática — Namjoon comentou, recostando-se na poltrona. — Então você irá sozinha? Certamente será mais produtivo. Menos distrações para o orador observar do palco.
Karine hesitou, mordendo o lábio inferior. Ela lembrou-se da insistência de Jennie e do áudio já enviado para o tal Minho.
— Na verdade… não — ela disse, finalmente encontrando os olhos de Namjoon. — A minha amiga achou que seria deprimente eu ficar sobrando na mesa enquanto ela está com o namorado dela. Ela insistiu muito para um encontro às cegas. Um primo do namorado dela, um médico que acabou de chegar de Londres.
O ar no escritório da presidência tornou-se subitamente rarefeito. A palavra “médico” não apenas entrou nos ouvidos de Namjoon; ela colidiu contra ele com a força do caminhão desgovernado que, anos atrás, havia encerrado seu futuro em um cruzamento escuro.
Namjoon sentiu uma pontada aguda e fantasmagórica percorrer seu braço direito. Por um segundo, a mão que segurava a caneta perdeu a força, e o objeto de luxo rolou pela mesa, caindo no tapete persa com um baque surdo. Ele não ouviu o som. Ele ouvia apenas o metal retorcido, o estilhaçar de vidros e o silêncio mortal do hospital onde acordou sabendo que nunca mais seguraria um bisturi.
A raiva, que vinha sendo mantida sob um controle gélido, voltou com uma ferocidade vulcânica. Namjoon sentiu o gosto amargo do sangue em sua boca. Naquele momento, ele não via Karine como a sua arquiteta promissora, mas como a razão indireta de sua ruína. Foi por causa dela, da distração que ela causava em seus pensamentos e do caos que a família dela trouxe para sua vida, que ele estava dirigindo naquela noite.
E agora, ela trazia para o seu domínio justamente o que ele teve que sacrificar.
— Um médico — ele repetiu. A voz saiu rouca, carregada de um veneno que fez Karine recuar na cadeira. — Você realmente tem um talento perverso para a ironia, Senhorita Min.
Namjoon levantou-se lentamente. Ele não usou o braço direito para se apoiar na mesa; manteve-o rígido ao lado do corpo, uma lembrança constante da sua limitação. Ele caminhou até a borda da escrivaninha dela, cercando o espaço dela.
— Você acha que um médico é um par adequado? — Ele inclinou o corpo, o olhar fixo nos olhos dela, queimando com uma mágoa que Karine não conseguia decifrar. — Você acha que a estabilidade de um hospital ou o prestígio de um diploma compensam a fragilidade de um homem que pode perder tudo em um único segundo de distração?
— Sr. Kim, eu não entendo por que o senhor está tão alterado… — Karine sussurrou, sentindo a opressão daquela fúria.
— Você não entende porque você não sente o peso do que é perdido! — ele explodiu, a voz ecoando como um trovão na sala fechada. — Médicos são seres arrogantes que acreditam ter o controle sobre a vida, até que o destino decide quebrar suas mãos. Levar um homem desses para a sua formatura é um insulto à realidade que você vive aqui.
Namjoon fechou os olhos por um breve momento, tentando conter o tremor que subia pelo seu braço. A memória de Karine pedindo distância após o acidente, a sugestão de que ele era “perigoso” ou “instável” naquela época, latejava em sua mente. Ele havia se tornado o monstro que ela temia justamente porque ela o abandonou quando ele mais precisava de um motivo para continuar.
Namjoon parou a poucos centímetros dela. O silêncio que se seguiu não era de paz, mas a calmaria que precede um desastre natural. Ele sentia o braço direito latejar, uma dor fantasmagórica que parecia queimar sob o tecido da camisa, vinda diretamente dos nervos que nunca cicatrizaram totalmente.
A menção ao “médico” foi como se Karine tivesse, sem saber, cravado um bisturi exatamente na cicatriz que ele passou anos tentando esconder sob camadas de poder e aço.
Namjoon inclinou-se ainda mais. Ele não a tocou, mas sua presença era esmagadora. Ele fixou os olhos nos dela, mergulhando naquelas pupilas com uma intensidade desesperada e cruel. Ele buscava algo. Um lampejo de culpa, uma sombra de remorso, qualquer sinal de que, lá no fundo, ela soubesse que a menção àquela profissão era um insulto pessoal.
Ele procurava o vestígio daquela Karine que, segundo o que ele acreditava, o havia descartado como “perigoso” quando ele perdeu as mãos que salvariam vidas.
— Um médico — ele repetiu, a voz agora num sussurro gélido, testando a palavra como se fosse veneno. — É fascinante, Senhorita Min. De todas as pessoas no mundo, de todos os títulos e carreiras… você escolhe exatamente esse para caminhar ao seu lado.
Karine sustentou o olhar, mas seu rosto era um mapa de confusão genuína. Seus olhos piscavam, perdidos na agressividade desproporcional do chefe. Ela não entendia o peso daquela palavra; para ela, era apenas uma profissão honrosa, um par seguro que Jennie havia escolhido. Não havia remorso no olhar dela, apenas um pavor crescente pela instabilidade dele.
Essa pureza na confusão dela — a prova de que ela talvez nem pensasse mais no que aconteceu, ou que o passado dele fosse irrelevante para ela — foi o que mais o feriu.
Namjoon sentiu um espasmo involuntário nos dedos da mão direita e, num movimento brusco para ocultar a fraqueza, ele se afastou. Ele pegou o paletó que estava no encosto da cadeira usando apenas a mão esquerda, jogando-o sobre os ombros com uma agilidade técnica, quase coreografada, para disfarçar a imobilidade parcial do outro braço.
Ele caminhou até a porta, mas parou com a mão na maçaneta. Ele não podia proibi-la de levar quem quisesse a um evento acadêmico — ele não era o dono da vida civil dela, por mais que desejasse ser —, mas ele precisava deixar uma marca.
— Divirta-se na sua celebração, Karine — ele disse, sem olhar para trás, usando o nome dela de uma forma que soou como uma sentença. — Leve o seu doutor. Deixe que ele segure sua mão e que ele acredite que pode curar qualquer ferida.
Ele apertou a maçaneta com força, sentindo a frieza do metal.
— Só espero que ele seja melhor em salvar momentos do que os outros são em salvar a si mesmos. Porque no palco, diante de mim, você perceberá que nem toda a medicina pode proteger você do mundo que eu construí ao seu redor.
A porta bateu com uma violência que fez os vidros do escritório vibrarem e o café na xícara de Karine oscilar.
Karine ficou imóvel, as mãos tremendo levemente sobre o projeto de Busan. Ela nunca o vira assim. Ela olhou para a caneta de Namjoon jogada no chão e sentiu um calafrio percorrer sua espinha.
Lá fora, no corredor deserto, Namjoon pressionava o braço direito contra o peito, os dentes cerrados até a mandíbula doer. Ele odiava o médico que ainda não conhecia, mas odiava ainda mais o fato de que, por um segundo, ao olhar nos olhos confusos de Karine, ele quis que ela lembrasse. Ele queria que ela soubesse o que a existência dela havia custado a ele. O ódio, que ele acreditava estar sob controle, acabara de ganhar uma nova e perigosa razão para queimar.
[quote]— Amiga, você tá pálida — Jennie cochichou, cutucando seu ombro. — Imagina o seu chefe te entregando o canudo na frente de todo mundo!
Essa é a parte ruim kkk
[quote]Karine recostou-se na cadeira, fechando os olhos por um breve momento. Durante meses, ela usou a faculdade como seu “espaço de respiração”. A Kim Global era o território dele, o subsolo dos arquivos era o domínio dele, e até o escritório da presidência agora era o lugar onde ela vivia sob a mira constante daqueles olhos escuros. A formatura era o único lugar onde ela pensava que teria paz. O único evento onde ela seria apenas Karine, a estudante, e não a “assistente estratégica” ou o “recurso” de Namjoon.
1 dia de paz, essa criatura não tem
[quote]— E quem ocupará o lugar ao seu lado na mesa principal? — ele perguntou, a voz soando casual demais para ser honesta. — O Sr. Taehyung conseguiu permissão da filial de Tóquio para retornar por um final de semana? Ou ele pretende negligenciar a formatura da “melhor amiga”?
Ele provoca deeeemais. Depois depois
[quote]O ar no escritório da presidência tornou-se subitamente rarefeito. A palavra “médico” não apenas entrou nos ouvidos de Namjoon; ela colidiu contra ele com a força do caminhão desgovernado que, anos atrás, havia encerrado seu futuro em um cruzamento escuro.
Eu acho é boooom,.adooorei
Karine ficou imóvel, as mãos tremendo levemente sobre o projeto de Busan. Ela nunca o vira assim. Ela olhou para a caneta de Namjoon jogada no chão e sentiu um calafrio percorrer sua espinha.
Ela sem entender nada, do que tinha acabado de acontecer
Mas é convencido né kkkkk
Jogo baixo
Aah filho da mãe
Puts merda, só espera o estrago
Alguém salva ela kkk
Ela não sabia meu fii, não escutou ela dizendo q foi a amg que arrumou?
Céus que pesadelo kkkkk
Eu sabia que tinha dedo dele nesse angu
Nossa vei era tudo o que ele não esperava.. que ironia do destino
A real é a Karine não fazia ideia de quem ele era e muito menos do acidente dele
Nem é convencido né
Seria cômico,se não fosse trágico
Mais aí é loucura
Culpar ela,por algo que nem ela sabe