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A terça-feira na Kim Global nasceu sob um céu de chumbo. Karine cruzou o saguão com os dedos apertando a alça da pasta de couro, onde os documentos assinados por Namjoon repousavam como um troféu de uma batalha silenciosa. Ela não sabia o que esperar. O Namjoon que ela vira na noite anterior — pálido, vulnerável, com os olhos injetados de febre e a guarda baixa — parecia uma alucinação causada pelo cansaço.

Quando o elevador abriu no 55º andar, o silêncio era diferente do dia anterior. Não havia a música suave de Seokjin, nem o cheiro de café gourmet. O ar estava saturado com o perfume amadeirado e denso de Namjoon.

Ele estava lá.

Sentado atrás de sua mesa, impecável em um terno azul-marinho, com a gravata perfeitamente ajustada. Ele revisava uma planta digital no monitor, a expressão tão rígida que parecia esculpida em granito. Ele não levantou os olhos quando ela entrou.

— Quatro minutos adiantada, Senhorita Min — ele disparou, a voz profunda e estável, sem qualquer rastro da rouquidão da noite anterior. — Espero que o relatório de Busan esteja tão pronto quanto sua pontualidade.

Karine parou diante da mesa, observando-o. Era como se a cena na cobertura de Hannam-dong nunca tivesse acontecido. Como se ela não o tivesse visto de moletom, como se não tivesse forçado uma sopa goela abaixo de um homem que parecia prestes a desabar.

— Está aqui, Sr. Kim. Assinado e revisado — ela disse, colocando a pasta sobre a mesa.

Namjoon finalmente levantou o olhar. Seus olhos encontraram os dela por um segundo longo demais. Ele buscou nela algum sinal de complacência ou de fofoca, mas Karine manteve o rosto neutro. Ele pegou a pasta com a mão esquerda e, por um breve instante, Karine viu um frasco de comprimidos — o mesmo que ela comprara na farmácia — escondido discretamente atrás do seu porta-canetas de cristal.

Ele pigarreou, ajustando a posição dos papéis. O silêncio entre eles não era mais o silêncio do ódio, mas o silêncio de algo que não tinha nome.

— O trabalho de Seokjin ontem foi… aceitável — ele começou, a voz caindo um tom. — Mas ele tem o hábito de exagerar situações. Eu estava apenas com uma indisposição leve devido ao excesso de café e poucas horas de sono. Nada que exigisse… intervenções externas.

Ele fez uma pausa, os dedos da mão esquerda tamborilando levemente sobre o couro da pasta.

— No entanto — ele continuou, sem olhar diretamente para ela, fingindo interesse súbito em um gráfico de custos —, a sopa estava tecnicamente bem temperada. E os supressores de febre cumpriram sua função química. Evitaram que eu perdesse mais um dia de produtividade.

Karine sentiu o canto da boca repuxar. Aquele era o modo Namjoon de dizer “obrigado por não me deixar morrer sozinho”. Era um agradecimento embrulhado em termos técnicos e arrogância corporativa, mas era, sem dúvida, um agradecimento.

— Fico feliz que a “química” tenha funcionado, Sr. Kim — ela respondeu, com uma suavidade que o fez travar os movimentos. — Pensei que o senhor preferisse o sabor do isolamento.

Namjoon a encarou, uma faísca de desafio brilhando naqueles olhos escuros.

— O isolamento não tem gosto, Senhorita Min. É apenas eficiente. Agora, foco no projeto. Temos quarenta e oito horas para a entrega final ao conselho. Não quero um único erro de cálculo estrutural.

Ela assentiu e retirou-se para sua mesa lateral. Enquanto abria os arquivos, seus pensamentos começaram a girar de forma perigosa. Ela olhava para as costas largas de Namjoon e a revelação de Ji-a da noite anterior martelava em seu crânio.

Ele era médico. O melhor. E ele perdeu tudo por causa de um encontro marcado com a minha irmã.

A náusea voltou. Karine começou a ligar os pontos. O ódio desproporcional que ele sentia por ela, a forma como ele a tratava como se sua simples presença fosse um pecado, a fúria cega quando ela mencionou um médico…

Será que ele me tratava assim porque pensava que eu era a “Senhorita Min” que o abandonou no hospital? Será que ele descontou em mim o que a Ji-a e a minha madrasta fizeram com ele?

Ela sentiu o coração apertar. Se Namjoon a odiava por engano, toda aquela crueldade nos últimos meses ganhava um contorno trágico. Mas logo a lógica prática de Karine retomou o controle. Ela balançou a cabeça negativamente, focando nos diagramas de Busan.

Não… Namjoon é um profissional antes de ser qualquer outra coisa — ela pensou, tentando se convencer. — Ele jamais colocaria em risco projetos de bilhões de won, nem confiaria a arquitetura principal da Kim Global na mão de alguém que ele odeia por motivos pessoais. Se ele me mantém aqui, é porque o meu talento é real. Ele pode ser um ogro, mas ele não é burro.

Mas, ao olhar para ele novamente, ela viu Namjoon levar a mão esquerda à nuca, em um gesto de cansaço que ele raramente mostrava. Ela deu um sorrisinho quase imperceptível, voltando para o computador.

Ele não era um monstro comum. Ele era um homem quebrado tentando se reconstruir através do poder, e Karine, sem saber, acabara de se tornar a única pessoa que vira as rachaduras por trás da fachada de CEO.

— Senhorita Min? — a voz dele a chamou, sem desviar os olhos da tela.

— Sim, Sr. Kim?

— Menos sorrisos para a tela do computador e mais atenção aos pilares de sustentação. O mundo lá fora é pesado demais para estruturas frágeis.

— Entendido, senhor — ela respondeu, mas o sorriso não desapareceu totalmente.

O relógio digital na parede de vidro da sala de reuniões marcava 23:45. O ar condicionado trabalhava silenciosamente, mas o clima no 55º andar era sufocante. O projeto de Busan, a joia da coroa da Kim Global, havia acabado de atingir um beco sem saída técnico: um erro no cálculo de solo que ameaçava colapsar toda a estrutura da asa leste.

A equipe de engenheiros seniores estava exausta. Rostos pálidos, gravatas frouxas e olhos vermelhos de tanto encarar telas de LED.

Namjoon levantou-se da cabeceira da mesa. Sua postura, antes rígida, agora carregava o peso da derrota. Ele olhou para os gráficos vermelhos que piscavam no projetor.

— Chega — a voz de Namjoon ecoou, mas não com autoridade, e sim com uma resignação gélida. — Não vamos resolver isso hoje. O solo é instável demais e as variáveis não fecham. Vão para casa. Descansem.

— Mas Sr. Kim, o pregão é em menos de trinta e seis horas… — um dos engenheiros começou.

— Eu sei — Namjoon o interrompeu, fechando os olhos por um segundo. — Mas manter vocês aqui com os cérebros fritando só vai gerar mais erros. Eu vou pensar em uma saída… ou em uma forma de mitigar o prejuízo no próximo mês. Agradeço o esforço de todos. Estão dispensados.

Um a um, os funcionários recolheram seus pertences, murmurando agradecimentos baixos e saindo com os ombros caídos. Namjoon permaneceu estático, observando a cidade lá fora, as luzes de Seul alheias ao desastre iminente.

Ele pensou que estava sozinho, até ouvir o som de um notebook sendo aberto novamente.

— O que você ainda está fazendo aqui, Karine? — ele perguntou, sem se virar.

— O senhor vai continuar aqui, não vai? — ela respondeu, a voz calma, mas cortante.

Namjoon virou-se. Karine estava sentada no meio da mesa de reuniões, rodeada de plantas impressas e réguas de cálculo. Ela não parecia cansada; parecia em transe.

— Isso não é problema seu. Vá para o seu dormitório. Você tem a reta final da faculdade, ensaios, aquela… celebração.

Karine levantou os olhos, fixando-os nos dele com uma determinação que o fez travar.

— Eu já passei em tudo, Sr. Kim. Meus créditos estão completos e minha entrega final foi aprovada com louvor. A faculdade não é mais uma preocupação. E eu não vou a lugar nenhum enquanto houver uma falha estrutural no meu projeto. Se o senhor fica, eu fico.

Namjoon soltou um suspiro pesado, mas não a expulsou. Ele caminhou até a mesa e sentou-se ao lado dela. Pela primeira vez em meses, eles não eram chefe e subordinada; eram dois arquitetos diante de um abismo.

As horas começaram a se fundir. O silêncio do prédio vazio era preenchido apenas pelo som do grafite no papel e o clique do mouse. A temperatura da sala parecia subir à medida que o cansaço físico era substituído por uma adrenalina intelectual puramente bruta.

— Se mudarmos o ângulo de torção do pilar C4… — Karine murmurou, inclinando-se sobre a planta.

— O peso esmagaria a base de concreto — Namjoon rebateu, aproximando-se para apontar um ponto no desenho.

Nesse movimento, a mão esquerda de Namjoon deslizou pelo papel e seus dedos tocaram as costas da mão de Karine. Foi um toque elétrico. Nenhum dos dois recuou imediatamente. O contato durou três, quatro segundos a mais do que o necessário. Namjoon sentiu o calor da pele dela, tão diferente da frieza do mármore de sua mesa. Ele retirou a mão lentamente, mas o rastro do toque permaneceu no ar.

Duas da manhã.

Eles estavam debruçados sobre o mesmo monitor de 32 polegadas, tentando recalcular a pressão hidrostática. Karine esticou o braço para ajustar o zoom, e seu ombro roçou no peito de Namjoon. Ele não se afastou. Pelo contrário, ele inclinou-se mais, o perfume amadeirado dele envolvendo os sentidos dela como uma névoa.

— Tente aqui — ele disse, a voz sussurrada perto do ouvido dela.

Ele colocou a mão sobre a dela que segurava o mouse. O toque era firme. Namjoon guiou o movimento da mão de Karine pela tela, os dedos dele entrelaçando-se sutilmente nos dela para manter a precisão. O coração de Karine disparou. Ela conseguia ouvir a respiração dele, pesada e próxima. Era uma intimidade perigosa, nascida do cansaço e da obsessão mútua pela perfeição.

— Encontrei — Karine sussurrou, a voz falhando. — Se usarmos uma estrutura de compensação em treliça… o peso se distribui.

Namjoon não soltou a mão dela. Ele olhou para a tela, depois para o perfil do rosto de Karine. Ela estava desgrenhada, com uma mecha de cabelo caindo sobre o rosto, mas nunca parecera tão brilhante.

— Você é brilhante, Karine — ele disse, e desta vez não havia sarcasmo, nem ódio. Havia uma admiração crua.

Ela virou o rosto para ele. Eles estavam a centímetros de distância. O cansaço havia derrubado as defesas de Namjoon, e a verdade sobre a inocência dela começava a corroer as paredes que ele construiu. Ele queria dizer algo sobre o médico, sobre a Ji-a, sobre como ele se sentia um idiota por tê-la tratado como um alvo.

Mas ele apenas apertou a mão dela um pouco mais forte antes de se afastar bruscamente, como se tivesse se queimado.

— Termine de plotar esses novos cálculos — ele ordenou, a voz subitamente rouca. — Eu vou buscar café. Se pararmos agora, o sono nos pega.

Karine observou-o sair da sala. Suas mãos ainda formigavam onde ele as tocara. Ela pensou na “química” da sopa, no Namjoon de moletom e no Namjoon que acabara de segurar sua mão como se ela fosse a única coisa sólida em um mundo desabando.

Ele não é o monstro que imaginei que fosse, ela pensou, os dedos voltando ao teclado com uma energia renovada. E eu não vou deixar que ele caia sozinho.

A madrugada avançou, e entre toques acidentais em xícaras de café e olhares prolongados sobre mapas de cálculo, a fundação entre Kim Namjoon e Karine Min começou a mudar. O solo ainda era instável, mas eles estavam aprendendo a construir sobre as rachaduras.

…CONTINUA …

13 Comentários

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  1. Karine
    May 10, '26 at 3:10 pm

    Sentado atrás de sua mesa, impecável em um terno azul-marinho, com a gravata perfeitamente ajustada. Ele revisava uma planta digital no monitor, a expressão tão rígida que parecia esculpida em granito. Ele não levantou os olhos quando ela entrou.

    Azul é a cor dele <3

  2. Karine
    May 10, '26 at 3:12 pm

    Ele pigarreou, ajustando a posição dos papéis. O silêncio entre eles não era mais o silêncio do ódio, mas o silêncio de algo que não tinha nome.

    Silêncio de T

  3. Karine
    May 10, '26 at 3:15 pm

    Não… Namjoon é um profissional antes de ser qualquer outra coisa — ela pensou, tentando se convencer. — Ele jamais colocaria em risco projetos de bilhões de won, nem confiaria a arquitetura principal da Kim Global na mão de alguém que ele odeia por motivos pessoais. Se ele me mantém aqui, é porque o meu talento é real. Ele pode ser um ogro, mas ele não é burro.

    Aai, nem te conto

  4. Karine
    May 10, '26 at 3:19 pm

    Nesse movimento, a mão esquerda de Namjoon deslizou pelo papel e seus dedos tocaram as costas da mão de Karine. Foi um toque elétrico. Nenhum dos dois recuou imediatamente. O contato durou três, quatro segundos a mais do que o necessário. Namjoon sentiu o calor da pele dela, tão diferente da frieza do mármore de sua mesa. Ele retirou a mão lentamente, mas o rastro do toque permaneceu no ar.

    Eles não são arquitetos, são pintores, pq tá pintando um clima entre eles kkkkkk

  5. Karine
    May 10, '26 at 3:21 pm

    Ele colocou a mão sobre a dela que segurava o mouse. O toque era firme. Namjoon guiou o movimento da mão de Karine pela tela, os dedos dele entrelaçando-se sutilmente nos dela para manter a precisão. O coração de Karine disparou. Ela conseguia ouvir a respiração dele, pesada e próxima. Era uma intimidade perigosa, nascida do cansaço e da obsessão mútua pela perfeição.

    Vou me retirar, To atrapalhando alguma coisa?

    1. Marcela
      @KarineMay 11, '26 at 12:48 am

      [quote]Ele colocou a mão sobre a dela que segurava o mouse. O toque era firme. Namjoon guiou o movimento da mão de Karine pela tela, os dedos dele entrelaçando-se sutilmente nos dela para manter a precisão. O coração de Karine disparou. Ela conseguia ouvir a respiração dele, pesada e próxima. Era uma intimidade perigosa, nascida do cansaço e da obsessão mútua pela perfeição.

      Huuum, a intimidade perigosa é a melhor parte kkk

  6. Marcela
    May 11, '26 at 12:36 am

    [quote]— No entanto — ele continuou, sem olhar diretamente para ela, fingindo interesse súbito em um gráfico de custos —, a sopa estava tecnicamente bem temperada. E os supressores de febre cumpriram sua função química. Evitaram que eu perdesse mais um dia de produtividade.

    Pois bem, cadê o obg ?? N fala né? Kkk

  7. Marcela
    May 11, '26 at 12:42 am

    [quote]Será que ele me tratava assim porque pensava que eu era a “Senhorita Min” que o abandonou no hospital? Será que ele descontou em mim o que a Ji-a e a minha madrasta fizeram com ele?

    Já começou a ligar os pontos

  8. Marcela
    May 11, '26 at 12:45 am

    [quote]— Eu já passei em tudo, Sr. Kim. Meus créditos estão completos e minha entrega final foi aprovada com louvor. A faculdade não é mais uma preocupação. E eu não vou a lugar nenhum enquanto houver uma falha estrutural no meu projeto. Se o senhor fica, eu fico.

    Dedicada é elaaa.
    Tá mais dedicada ainda, quando o assunto tá sendo ele kkkk

  9. Iasmine
    May 17, '26 at 10:37 pm

    Namjoon finalmente levantou o olhar. Seus olhos encontraram os dela por um segundo longo demais. Ele buscou nela algum sinal de complacência ou de fofoca, mas Karine manteve o rosto neutro. Ele pegou a pasta com a mão esquerda e, por um breve instante, Karine viu um frasco de comprimidos — o mesmo que ela comprara na farmácia — escondido discretamente atrás do seu porta-canetas de cristal.

    Sentindo uma tensão aqui ein

  10. Iasmine
    May 17, '26 at 10:38 pm

    — Menos sorrisos para a tela do computador e mais atenção aos pilares de sustentação. O mundo lá fora é pesado demais para estruturas frágeis.

    A bicha ta começando a sentir algo por ele

  11. Iasmine
    May 17, '26 at 10:40 pm

    Ela virou o rosto para ele. Eles estavam a centímetros de distância. O cansaço havia derrubado as defesas de Namjoon, e a verdade sobre a inocência dela começava a corroer as paredes que ele construiu. Ele queria dizer algo sobre o médico, sobre a Ji-a, sobre como ele se sentia um idiota por tê-la tratado como um alvo.

    Jesus amado ta ali…mas nenhum dos dois tem coragem de tomar atitude

  12. Iasmine
    May 17, '26 at 10:40 pm

    A madrugada avançou, e entre toques acidentais em xícaras de café e olhares prolongados sobre mapas de cálculo, a fundação entre Kim Namjoon e Karine Min começou a mudar. O solo ainda era instável, mas eles estavam aprendendo a construir sobre as rachaduras.

    hummmm ta começando a surgir o romance

Nota

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