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Índice do Capítulo

Do alto do terraço do edifício comercial em obras localizado do outro lado da avenida, a silhueta de Kim Taehyung misturava-se à estrutura de aço e concreto inacabada. Vestindo um casaco escuro com o capuz puxado sobre os cabelos castanhos e óculos de proteção industrial pendurados no pescoço, ele parecia apenas mais um projetista inspecionando o canteiro.

Mas suas mãos seguravam um binóculo de alta precisão focal.

Lentes antirreflexo apontavam diretamente para a vidraça do estúdio de arquitetura do último semestre. Através do círculo de aproximação, ele a viu. Karine estava sentada, com os dedos longos envolvendo o copo térmico que Jennie havia acabado de entregar. Taehyung prendeu a respiração quando a viu dar o primeiro gole no chá de hibisco com limão e mel. Ele conhecia cada microexpressão daquele rosto. Viu a confusão tomar conta de suas feições, o leve vinco que se formou entre suas sobrancelhas ao reconhecer o sabor exato das madrugadas que haviam compartilhado no passado.

Ele abaixou o binóculo por um segundo, sentindo o peito apertar. O plano de fazê-la engolir aquela mentira de que ele estava feliz em Tóquio havia sido o maior sacrifício de sua vida, uma moeda de troca exigida por Ji-a e pelo poder de Namjoon para manter seus pais seguros. Mas agora, os pais estavam longe, protegidos sob céus europeus, e ele não precisava mais ser o peão de ninguém.

A poucos metros dali, no recuo do portão três, o celular de Jennie vibrou no bolso de sua calça. Ela atendeu no primeiro toque, olhando nervousnessamente para os lados.

— Eu já entreguei — Jennie sussurrou, a voz tensa. — Ela ficou desconfiada, Taehyung. Ela não é boba. Perguntou o tempo recorde que levei e a marca do doce. Tive que inventar que abriu uma loja nova na calçada de fora.

Ela aceitou? — A voz de Taehyung veio através da linha, arrastada pelo vento do terraço, mas carregada de uma urgência genuína.

— Bebeu o chá. Mas ela está estranha hoje, Tae. Está murcha, cabisbaixa… veio da Kim Global com uma cara de quem foi atropelada por um caminhão. O que está acontecendo entre ela e o chefe?

Taehyung apertou o metal do binóculo com mais força. Ele olhou para a avenida e avistou, três quadras abaixo, o utilitário preto blindado da Kim Global cruzando o sinal vermelho com o giroflex apagado. O cerco de Namjoon estava se fechando mais rápido do que ele previra.

— Continue perto dela, Jennie. Não mude a sua rotina. Se o Namjoon tentar isolá-la ou tirá-la do campus antes de sexta-feira, você me avisa no mesmo segundo — Taehyung ordenou, a voz fria, assumindo uma postura de confronto que ele nunca imaginou ter. — O tempo dele de brincar de Deus com a vida da Karine acabou.

No início da tarde, a atmosfera no setor de arquitetura da Kim Global estava densa. Karine havia retornado ao seu posto físico — sua própria mesa, localizada no grande salão aberto dos projetistas, e não mais no casulo privado da sala da presidência onde passara as últimas setenta e duas horas. A divisória de vidro fosco que separava sua mesa dos demais funcionários parecia, agora, uma barreira intransponível de realidade.

Ela tentava se concentrar na plotagem dos memoriais de Busan, mas o som do telefone interno de sua mesa a fez dar um sobressalto.

— Senhorita Min — a voz da secretária executiva soou formal. — O presidente solicita sua presença na sala dele imediatamente.

Karine engoliu em seco, ajeitou a gola do blazer de alfaiataria que ainda usava e caminhou em direção ao elevador privativo. Suas mãos estavam frias. Quando cruzou o portal da presidência, a primeira coisa que notou foi a ausência do aparelho de telefone celular sobre a mesa de jacarandá; em seu lugar, havia apenas uma fina linha de poeira e um arranhão recente na parede texturizada de concreto atrás da cadeira.

Namjoon estava de pé, de costas para a porta. Ele havia retirado o paletó do terno cinza-chumbo, restando apenas o colete ajustado que marcava a largura impressionante de seus ombros. As mangas da camisa branca estavam dobradas até os antebraços, revelando as veias saltadas e a tensão contida em seus pulsos.

— Feche a porta, Karine — ele disse, sem se virar.

Ela obedeceu, o clique magnético ecoando como uma sentença de tribunal.

— O projeto de Busan já foi encaminhado para a prefeitura — ela começou, tentando usar o tom corporativo que ele mesmo havia exigido horas antes. — As assinaturas do comitê executivo foram recolhidas e…

— Esqueça o projeto por cinco minutos — Namjoon a cortou, virando-se lentamente.

A expressão no rosto dele fez o estômago de Karine dar um nó. Não havia resquício do “monstro de platina” frio da reunião de diretoria, mas também não havia o amante possessivo da cobertura. Havia um homem acuado, cujos olhos escuros oscilavam entre a obsessão e um pavor profundo que ele tentava mascarar com sua imponência física.

Namjoon caminhou até ela, parando a uma distância que permitia que ela sentisse o calor de seu corpo, mas ele não estendeu a mão para tocá-la. Ele a estudou, descendo o olhar pelo blazer, pela gola alta, tentando decifrar se a pureza com que ela o olhava na sexta-feira ainda estava ali.

— Se eu fui duro com você na sala de conferências… — ele começou, a voz barítona saindo mais rouca do que o normal, travando na garganta por um segundo. — Havia motivos de segurança que exigiam a minha atenção imediata. Você não deve levar para o lado pessoal.

— Motivos de segurança que fazem você me tratar como uma desconhecida após o fim de semana que tivemos? — Karine deu um passo à frente, a mágoa que guardara desde a manhã transbordando em seu tom de voz. — Você me mandou voltar para a minha mesa como se eu fosse um erro de cálculo que você precisava esconder dos diretores. Qual é o status disso aqui, Namjoon? O que nós somos quando a porta daquela cobertura se abre?

Namjoon fechou os olhos por um breve instante, as palavras dela golpeando exatamente na sua maior fraqueza. Ele queria puxá-la pela cintura, prensá-la contra a porta e lembrá-la de quem mandava em seu corpo, mas o fantasma da mensagem de Taehyung estava ali, destruindo seu discernimento. O medo de que ela simplesmente sumisse de sua vida se soubesse a verdade o paralisava. Ele não sabia como dizer que o passado que ele mesmo arquitetou estava batendo à porta.

Tentando desesperadamente sondar a reação dela, Namjoon recuou um passo, adotando uma postura analítica, mascarando seus sentimentos atrás de uma metáfora de negócios — a única linguagem em que ele se sentia seguro para negociar.

— Vamos fazer uma análise de gerenciamento de crise, Senhorita Min — ele disse, a voz subitamente formal, os olhos fixos nos dela, buscando qualquer sinal de hesitação. — Imagine que a Kim Global feche uma parceria de longo prazo com um fornecedor estratégico. Um contrato de exclusividade. Tudo corre perfeitamente, os resultados são impecáveis e a confiança mútua é estabelecida.

Karine franziu o cenho, completamente confusa com a mudança repentina de assunto.

— Do que você está falando?

— Apenas responda, é um exercício de conformidade corporativa — ele insistiu, a mandíbula travando. — Digamos que, meses depois do sucesso da operação, você descubra que, no início de tudo, muito antes de o contrato ser assinado, esse mesmo fornecedor utilizou meios… ortodoxos e obscuros para conseguir informações sobre a sua vida. Digamos que ele tenha subornado alguém próximo a você, alguém em quem você confiava no passado, apenas para mapear as suas fraquezas e garantir que você assinasse com ele.

Namjoon deu mais um passo na direção dela, a respiração curta, a intensidade de seu olhar quase sufocando o ambiente.

— Se você descobrisse que a fundação dessa parceria de sucesso foi construída em cima de uma transação financeira oculta desse tipo… você rasgaria o contrato e sumiria da empresa? Ou você pesaria o valor do que vocês construíram no presente e perdoaria o erro inicial do investidor?

Karine ficou estática. O silêncio na sala tornou-se tão pesado que o zumbido do ar-condicionado parecia ensurdecedor. Ela olhou para as mãos de Namjoon, que estavam ligeiramente trêmulas nas laterais do corpo, e depois para a profundidade sombria de seus olhos.

Havia algo de muito errado naquela analogia. A mente de Karine, sempre lógica, tentou conectar as peças: o objeto de cerâmica fosca na cobertura dele, a mudança drástica de humor na reunião de manhã, o lanche milagrosamente idêntico aos hábitos de Taehyung que Jennie trouxera no campus, e agora aquela sondagem bizarra disfarçada de caso de negócios.

— Namjoon… por que você está me perguntando isso com essa cara? — a voz dela diminuiu de volume, uma pontada de incerteza e desconfiança rastejando por sua espinha. — Isso não me parece um problema com fornecedores. Isso parece que você está tentando me contar algo que fez e não tem coragem de assumir.

O coração de Namjoon deu um solavanco violento contra as costelas. O pânico de que ela estivesse prestes a desvendar o jogo antes que ele pudesse interceptar Taehyung o fez recuar imediatamente para trás de sua mesa, acionando suas defesas mais frias.

— É apenas um estudo de caso sobre o Complexo de Busan, Senhorita Min. Quero testar a sua maturidade perante crises éticas no mercado — ele mentiu, a voz voltando a ser uma lâmina de gelo, embora por dentro ele estivesse desmoronando ao perceber que ela não daria uma resposta fácil. — Pode voltar para a sua mesa. Nós terminamos por hoje.

Karine permaneceu imóvel por alguns segundos, observando o homem que poucas horas atrás a possuía com uma paixão avassaladora transformar-se novamente em uma muralha intransponível de segredos. Sentindo o estômago revirar de incerteza, ela deu as costas e saiu da sala, deixando Kim Namjoon sozinho com os pedaços estraçalhados de seu controle espalhados pelo chão.

15 Comentários

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  1. Thamiris
    Jul 21, '26 at 4:31 pm

    Havia algo de muito errado naquela analogia. A mente de Karine, sempre lógica, tentou conectar as peças: o objeto de cerâmica fosca na cobertura dele, a mudança drástica de humor na reunião de manhã, o lanche milagrosamente idêntico aos hábitos de Taehyung que Jennie trouxera no campus, e agora aquela sondagem bizarra disfarçada de caso de negócios.

    Não é atoa que ela é um genio

  2. Thamiris
    Jul 21, '26 at 4:29 pm

    — Vamos fazer uma análise de gerenciamento de crise, Senhorita Min — ele disse, a voz subitamente formal, os olhos fixos nos dela, buscando qualquer sinal de hesitação. — Imagine que a Kim Global feche uma parceria de longo prazo com um fornecedor estratégico. Um contrato de exclusividade. Tudo corre perfeitamente, os resultados são impecáveis e a confiança mútua é estabelecida.

    Mais é muito filho de uma égua mesmo

  3. Thamiris
    Jul 21, '26 at 4:22 pm

    — Continue perto dela, Jennie. Não mude a sua rotina. Se o Namjoon tentar isolá-la ou tirá-la do campus antes de sexta-feira, você me avisa no mesmo segundo — Taehyung ordenou, a voz fria, assumindo uma postura de confronto que ele nunca imaginou ter. — O tempo dele de brincar de Deus com a vida da Karine acabou.

    A coisa vai ficar feia pro lado do Nam

  4. Marcela
    Jun 26, '26 at 6:28 pm

    [quote]— É apenas um estudo de caso sobre o Complexo de Busan, Senhorita Min. Quero testar a sua maturidade perante crises éticas no mercado — ele mentiu, a voz voltando a ser uma lâmina de gelo, embora por dentro ele estivesse desmoronando ao perceber que ela não daria uma resposta fácil. — Pode voltar para a sua mesa. Nós terminamos por hoje.

    Mentindo mais uma vez … A situação só piora

  5. Marcela
    Jun 26, '26 at 6:18 pm

    [quote]— Namjoon… por que você está me perguntando isso com essa cara? — a voz dela diminuiu de volume, uma pontada de incerteza e desconfiança rastejando por sua espinha. — Isso não me parece um problema com fornecedores. Isso parece que você está tentando me contar algo que fez e não tem coragem de assumir.

    A mente dele trabalhou rápido, e já se ligou que algo não tá certo nesse babado

  6. Marcela
    Jun 26, '26 at 6:12 pm

    [quote]— Motivos de segurança que fazem você me tratar como uma desconhecida após o fim de semana que tivemos? — Karine deu um passo à frente, a mágoa que guardara desde a manhã transbordando em seu tom de voz. — Você me mandou voltar para a minha mesa como se eu fosse um erro de cálculo que você precisava esconder dos diretores. Qual é o status disso aqui, Namjoon? O que nós somos quando a porta daquela cobertura se abre?

    Isso msm Karine, fica calada não

  7. Iasmine
    Jun 7, '26 at 8:20 pm

    — É apenas um estudo de caso sobre o Complexo de Busan, Senhorita Min. Quero testar a sua maturidade perante crises éticas no mercado — ele mentiu, a voz voltando a ser uma lâmina de gelo, embora por dentro ele estivesse desmoronando ao perceber que ela não daria uma resposta fácil. — Pode voltar para a sua mesa. Nós terminamos por hoje.

    Perdeu a oportunidade de falar a verdade

  8. Iasmine
    Jun 7, '26 at 8:19 pm

    Havia algo de muito errado naquela analogia. A mente de Karine, sempre lógica, tentou conectar as peças: o objeto de cerâmica fosca na cobertura dele, a mudança drástica de humor na reunião de manhã, o lanche milagrosamente idêntico aos hábitos de Taehyung que Jennie trouxera no campus, e agora aquela sondagem bizarra disfarçada de caso de negócios.

    Ela ja entendeu, mas vai continuar se fazendo de desentendida pq a verdade dói

  9. Iasmine
    Jun 7, '26 at 8:18 pm

    — Se eu fui duro com você na sala de conferências… — ele começou, a voz barítona saindo mais rouca do que o normal, travando na garganta por um segundo. — Havia motivos de segurança que exigiam a minha atenção imediata. Você não deve levar para o lado pessoal.

    Uhum segurança pra não descobrir sua farsa

  10. Iasmine
    Jun 7, '26 at 8:17 pm

    — Continue perto dela, Jennie. Não mude a sua rotina. Se o Namjoon tentar isolá-la ou tirá-la do campus antes de sexta-feira, você me avisa no mesmo segundo — Taehyung ordenou, a voz fria, assumindo uma postura de confronto que ele nunca imaginou ter. — O tempo dele de brincar de Deus com a vida da Karine acabou.

    Espero que tu consiga interver nesse role aí

  11. Karine
    Jun 6, '26 at 2:01 pm

    Karine permaneceu imóvel por alguns segundos, observando o homem que poucas horas atrás a possuía com uma paixão avassaladora transformar-se novamente em uma muralha intransponível de segredos. Sentindo o estômago revirar de incerteza, ela deu as costas e saiu da sala, deixando Kim Namjoon sozinho com os pedaços estraçalhados de seu controle espalhados pelo chão.

    Aaaaah Namjooon assim não dá, aí que dó de vcs

  12. Karine
    Jun 6, '26 at 1:56 pm

    — Se eu fui duro com você na sala de conferências… — ele começou, a voz barítona saindo mais rouca do que o normal, travando na garganta por um segundo. — Havia motivos de segurança que exigiam a minha atenção imediata. Você não deve levar para o lado pessoal.

    E os sentimentos ficam onde ?? 🙁

  13. Karine
    Jun 6, '26 at 1:54 pm

    Namjoon estava de pé, de costas para a porta. Ele havia retirado o paletó do terno cinza-chumbo, restando apenas o colete ajustado que marcava a largura impressionante de seus ombros. As mangas da camisa branca estavam dobradas até os antebraços, revelando as veias saltadas e a tensão contida em seus pulsos.

    A visão do paraíso

  14. Karine
    Jun 6, '26 at 1:53 pm

    — Continue perto dela, Jennie. Não mude a sua rotina. Se o Namjoon tentar isolá-la ou tirá-la do campus antes de sexta-feira, você me avisa no mesmo segundo — Taehyung ordenou, a voz fria, assumindo uma postura de confronto que ele nunca imaginou ter. — O tempo dele de brincar de Deus com a vida da Karine acabou.

    Isso, lutem por mim kkkkk

  15. Karine
    Jun 6, '26 at 1:51 pm

    Lentes antirreflexo apontavam diretamente para a vidraça do estúdio de arquitetura do último semestre. Através do círculo de aproximação, ele a viu. Karine estava sentada, com os dedos longos envolvendo o copo térmico que Jennie havia acabado de entregar. Taehyung prendeu a respiração quando a viu dar o primeiro gole no chá de hibisco com limão e mel. Ele conhecia cada microexpressão daquele rosto. Viu a confusão tomar conta de suas feições, o leve vinco que se formou entre suas sobrancelhas ao reconhecer o sabor exato das madrugadas que haviam compartilhado no passado.

    Outro obcecado kkkk

Nota

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