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O Dr. Aris trabalhou por horas a fio. O quarto de Yoongi, antes um santuário de minimalismo e poder, transformara-se em uma unidade de terapia intensiva de luxo. O som rítmico dos aparelhos de monitoramento era a única música que preenchia o ambiente. S/N continuava pálida, envolta em bandagens brancas que contrastavam violentamente com o edredom negro.

Yoongi permanecia em um canto, as mãos cruzadas, observando cada movimento do médico. Ele não havia limpado o sangue seco de suas mãos; era como se aquela sujeira fosse um lembrete de que ele ainda tinha o controle das vidas ali dentro.

— Terminei por agora — disse o Dr. Aris, recolhendo seus instrumentos por volta das três da manhã. — Ela está sedada. A fratura na costela foi estabilizada e o braço está imobilizado. O corte na cabeça foi profundo, mas a tomografia portátil não mostrou hematomas internos graves. Ela deve dormir até amanhã, Yoongi. O corpo dela precisa desse desligamento para começar a cicatrizar.

Yoongi apenas assentiu, a mandíbula travada.

— Vou deixar duas das minhas melhores enfermeiras aqui — continuou o médico, sinalizando para as mulheres que preparavam as medicações intravenosas. — Elas vão monitorar os sinais vitais e a dor. Se houver febre ou alteração na respiração, elas me chamam imediatamente.

— Elas ficam no quarto ao lado — Yoongi decretou, a voz soando como um metal arrastado. — Eu ficarei aqui.

O médico hesitou, conhecendo o temperamento do amigo, mas apenas inclinou a cabeça em respeito e saiu.

As enfermeiras se instalaram discretamente, entrando apenas para trocar os soros ou verificar a temperatura de S/N. Yoongi não se deitou. Ele puxou uma poltrona de couro para o lado da cama e ali ficou.

A luz da lua filtrava-se pelas janelas de vidro à prova de balas, iluminando o rosto de S/N. Sem o fogo do desafio nos olhos ou o peso do silêncio em seus lábios, ela parecia terrivelmente jovem. Terrivelmente humana.

Yoongi estendeu a mão, mas parou a milímetros de tocar o rosto dela. Ele sentia uma repulsa estranha por si mesmo. Ele a jogara no isolamento para “quebrá-la”, para provar que ela era descartável, mas o resultado fora quase o seu fim. Se ela morresse, ele não perderia apenas uma unidade ou uma dívida; ele sentia, no fundo de seu peito gelado, que perderia o único espelho que ainda refletia sua própria existência.

FLASHBACK:

Enquanto o bipe do monitor cardíaco preenchia o vácuo do quarto, a mente de Yoongi foi tragada pelo passado, para uma Seul que não tinha o brilho do mármore, mas o cheiro de asfalto molhado e desespero.

Ele tinha quinze anos, e o peso da herança do clã Min já começava a endurecer seus ombros. Naquela tarde de chuva cinzenta, ele estava parado na esquina de um bairro periférico. Do outro lado da rua, um pequeno e miserável cortejo fúnebre passava. No centro dele, uma menina de dez anos, pequena demais para o luto que carregava, segurava contra o peito o porta-retrato com a foto da mãe — a moldura típica, com as fitas pretas cruzando o rosto de uma mulher que parecia ter desistido da vida muito cedo.

Atrás dela, um homem cambaleava. O pai de S/N. Ele não chorava; ele exalava o cheiro azedo do Soju e uma fúria covarde.

Yoongi observou da loja de conveniência em frente à casa deles. Ele viu o exato momento em que entraram no quintal. O pai de S/N, tomado por um delírio alcoólico, arrancou o porta-retrato das mãos da menina.

— Ela nos deixou! — o homem rugiu. — E você tem a cara dela!

O som do vidro estraçalhando contra o chão de concreto ecoou no peito de Yoongi. O homem desferiu o primeiro tapa, jogando a criança sobre os cacos da foto da própria mãe.

Yoongi não pensou. Ele ainda não era o monstro calculado da máfia; era apenas um jovem que reconhecia a injustiça por trás da violência. Ele atravessou a rua correndo, empurrou o homem bêbado com tanta força que ele caiu sobre as latas de lixo e puxou a menina para longe. As mãos dela sangravam, cortadas pelos cacos de vidro da foto.

Naquela noite, em um beco escondido, Yoongi limpou as feridas de S/N com a própria camiseta e comprou para ela um pão de leite na lojinha. Ela não disse nada, apenas o olhou com aqueles olhos que, mesmo aos dez anos, já pareciam ter visto o fim do mundo.

Os anos passaram, e a observação tornou-se um vício silencioso. Yoongi cresceu sob o treinamento brutal de seu pai, aprendendo a matar sem remorso, mas seus pés sempre o levavam de volta àquela rua.

Quando ele tinha dezoito e ela treze, o destino cobrou um preço mais alto.

Ele chegou em uma noite de verão abafado. O portão da casa estava escancarado. O pai de S/N saiu tropeçando, uma garrafa de Soju quebrada na mão e a camisa branca manchada de um vermelho que Yoongi reconheceu instantaneamente. Era sangue. Muito sangue.

Yoongi entrou na casa como uma tempestade. O cenário era um necrotério em vida. S/N estava jogada no canto da cozinha, o corpo miúdo coberto de hematomas e cortes. Ela estava quase morta, a respiração tão superficial que ele achou que a alma dela já tinha partido.

A fúria que nasceu em Yoongi naquela noite foi o que consolidou o mafioso que ele é hoje. Ele discou para a ambulância anonimamente, mas não esperou para ver o socorro. Ele reuniu três capangas de seu pai — homens que o temiam — e encontrou o pai de S/N em um bar de esquina.

Eles não o mataram. Yoongi queria que ele vivesse para sentir cada osso do corpo ser moído. Ele mesmo desferiu os golpes, quebrando as mãos que ousaram tocar nela, até que o homem fosse apenas um amontoado de carne e choro.

Desde então, ele a observou de longe. Cada escola que ela frequentou, cada emprego, cada dívida que o pai dela acumulava nos cassinos do clã Min.

PRESENTE

Yoongi piscou, voltando para o quarto iluminado pela luz da lua. Ele olhou para as próprias mãos, as mesmas que cuidaram dela aos dez anos e que a torturaram na noite anterior.

— Acorde — ele sussurrou para o nada, sua voz misturando-se ao som do oxigênio. — Você me deve um olhar de desprezo, S/N. Não ouse me deixar com esse silêncio vazio.

As horas se arrastaram. O sol começou a surgir no horizonte de Seul, pintando o céu de um laranja sangrento que lembrava o refeitório da noite anterior. Yoongi viu quando o efeito dos sedativos pesados começou a diminuir, mas S/N continuava em um sono profundo, o corpo lutando contra o trauma físico.

Hana entrou silenciosamente com uma bandeja de café, mas Yoongi nem sequer olhou para ela.

— Ela não acordou, senhor? — Hana perguntou em um sussurro.

— Não.

— O café está aqui. O senhor precisa comer algo…

— Saia, Hana.

A governanta recuou imediatamente. O clima na cobertura era de um velório iminente. Ninguém ousava falar alto. Ninguém ousava respirar perto de Yoongi.

Ele voltou a focar em S/N. Ele via as marcas roxas subindo pelo pescoço dela, desaparecendo sob a atadura onde a sopa a queimara. Ele via o braço imobilizado. A cada detalhe da destruição dela, o ódio por Elena e pelas outras crescia, mas era o ódio por si mesmo que mais o sufocava.

Ele esperaria o tempo que fosse necessário. Ele era o Dono da Noite, e se o dia tivesse que parar até que ela abrisse os olhos, ele faria o mundo parar.

O sol já atingia o centro do quarto, cortando a penumbra com lâminas de luz que faziam a poeira dançar no ar. O efeito dos sedativos estava se dissipando, deixando para trás uma névoa espessa e o gosto metálico de remédios na boca.

S/N sentiu a consciência retornar como uma maré lenta e dolorosa. A primeira coisa que registrou não foi a visão, mas o peso. O peso do próprio corpo parecia ter triplicado. Cada centímetro de sua pele latejava em uma sinfonia de agonia: o ardor agudo no pescoço, a pressão sufocante na costela fraturada e a dor sorda e pulsante em seu braço imobilizado.

Seus cílios tremeram. Ela soltou um gemido baixo, um som quebrado que mal saiu de sua garganta seca.

Lentamente, as pálpebras se abriram. A luz feriu seus olhos, obrigando-a a piscar várias vezes até que o teto familiar da cobertura entrasse em foco. O mármore, os detalhes em gesso… ela estava de volta ao topo. De volta à gaiola de ouro.

Ela tentou se mexer, mas um grito de dor ficou preso em sua garganta quando a costela protestou contra o movimento.

— Não tente se levantar.

A voz era um barítono arrastado, vindo da lateral da cama. S/N virou o rosto com dificuldade, sentindo a pontada dos pontos em sua têmpora.

Lá estava ele.

Yoongi não parecia o homem impecável que a jogara no isolamento. Ele ainda usava a camisa preta, agora amassada, com as mangas dobradas. Seus olhos estavam cercados por olheiras profundas, e a mandíbula exibia uma sombra de barba por fazer. Ele estava sentado na poltrona, inclinado para a frente, observando-a com uma intensidade que beirava a loucura.

S/N encarou-o. Por um longo minuto, o único som no quarto era o bipe constante do monitor cardíaco, que acelerou sutilmente quando os olhos dela encontraram os dele.

— Onde… — ela começou, mas a voz falhou, transformando-se em um sussurro rouco.

Yoongi estendeu a mão e pegou um copo de água com um canudo sobre a mesa de cabeceira. Ele se aproximou, sentando-se na borda da cama. S/N tentou recuar, um reflexo instintivo de medo, mas a dor a paralisou, fazendo-a soltar um arquejo sofrido.

— Beba — ele ordenou. Não era um pedido, mas o tom não tinha a crueldade de antes. Havia algo mais ali… algo que parecia possessividade misturada com uma culpa que ele se recusava a nomear.

Ela bebeu apenas o suficiente para molhar a garganta, desviando o rosto logo em seguida. O silêncio voltou a reinar, pesado como chumbo. S/N olhou para o próprio braço engessado e para as bandagens em seu corpo. A memória da surra no Nível 1 voltou em flashes violentos: os chutes de Elena, o riso das outras, o escuro da cela.

— Elas… — S/N tentou falar, os olhos se enchendo de uma raiva fria.

— Elas não vão mais incomodar você — Yoongi a interrompeu, a voz gélida. — Eu cuidei disso. Pessoalmente. Elas estão onde deveriam estar, pagando por cada centímetro de pele que ousaram tocar sem a minha permissão.

S/N soltou um riso seco, que terminou em uma careta de dor. Ela olhou diretamente para Yoongi, e o desprezo em seus olhos era tão afiado quanto uma lâmina.

— Por que me trouxe de volta? — ela perguntou, a voz ganhando força. — Você disse que eu era apenas um buraco. Um troféu. Por que não me deixou morrer naquela cela? Teria sido uma dívida quitada, não seria?

Yoongi travou a mandíbula. Ele se levantou abruptamente, caminhando até a janela e olhando para a cidade lá fora, de costas para ela. Seus ombros estavam tensos.

— Você não tem o direito de morrer até que eu decida que você não tem mais utilidade — ele respondeu, voltando à sua máscara de indiferença, embora suas mãos estivessem fechadas em punhos. — Você é minha propriedade, S/N. E eu não permito que destruam o que me pertence.

S/N fechou os olhos, sentindo as lágrimas de frustração queimarem. Ela estava viva, mas o preço era estar sob o teto do homem que era a causa de todo o seu sofrimento.

— Você é o pior deles, Yoongi — ela sussurrou, alto o suficiente para que ele ouvisse. — Elas me bateram porque me odiavam. Mas você… você me salva só para poder me quebrar de novo.

Yoongi virou-se lentamente. Ele caminhou de volta até a cama e inclinou-se sobre ela, as mãos apoiadas em cada lado do corpo dela, cercando-a. O cheiro de tabaco e sândalo a envolveu.

— Talvez — ele murmurou, o rosto a centímetros do dela. — Mas enquanto você estiver nesta cama, você está segura do resto do mundo. O único monstro que você precisa temer aqui… sou eu.

15 Comentários

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  1. IASMINE
    Feb 2, '26 at 10:51 pm

    Agora tudo faz total sentido.. esse homem ama ela ja tem anos e anos pqp

  2. Karine
    Feb 2, '26 at 10:55 pm

    — Acorde — ele sussurrou para o nada, sua voz misturando-se ao som do oxigênio. — Você me deve um olhar de desprezo, S/N. Não ouse me deixar com esse silêncio vazio.

    Agora ta começando a fazer sentido kkkk

  3. Marcela
    Feb 2, '26 at 11:20 pm

    Naquela noite, em um beco escondido, Yoongi limpou as feridas de S/N com a própria camiseta e comprou para ela um pão de leite na lojinha. Ela não disse nada, apenas o olhou com aqueles olhos que, mesmo aos dez anos, já pareciam ter visto o fim do mundo.

    Eles se conheciam

  4. Marcela
    Feb 2, '26 at 11:26 pm

    Yoongi entrou na casa como uma tempestade. O cenário era um necrotério em vida. S/N estava jogada no canto da cozinha, o corpo miúdo coberto de hematomas e cortes. Ela estava quase morta, a respiração tão superficial que ele achou que a alma dela já tinha partido.

    Ele sabia exatamente quem ela era, quando o pai dela a entregou como pagamento. Tou passada

  5. Anne
    Feb 3, '26 at 6:51 am

    Yoongi não pensou. Ele ainda não era o monstro calculado da máfia; era apenas um jovem que reconhecia a injustiça por trás da violência. Ele atravessou a rua correndo, empurrou o homem bêbado com tanta força que ele caiu sobre as latas de lixo e puxou a menina para longe. As mãos dela sangravam, cortadas pelos cacos de vidro da foto.

    Ele já a conhecia antes de tudo

  6. Anne
    Feb 3, '26 at 6:52 am

    Desde então, ele a observou de longe. Cada escola que ela frequentou, cada emprego, cada dívida que o pai dela acumulava nos cassinos do clã Min.

    Ele ficou espetando até o momento em que o pai dela fizesse merda

  7. Anne
    Feb 3, '26 at 6:53 am

    — Talvez — ele murmurou, o rosto a centímetros do dela. — Mas enquanto você estiver nesta cama, você está segura do resto do mundo. O único monstro que você precisa temer aqui… sou eu.

    Bem, já entendemos que de alguma forma ele te uma obsessão por ela

  8. Nathy
    Feb 3, '26 at 11:57 pm

    Pqp Yooungi!
    Você ama ela desde menoooor, não creioooooo

  9. Nathy
    Feb 3, '26 at 11:57 pm

    Eu sabia que essa obsessão não era atoa! Por isso você aceitou ela como pagamento. Aaaaaaaaaaaáah

  10. Nathy
    Feb 3, '26 at 11:58 pm

    Porque vc é assim, cara? Aí q ódio de vc Yoongi.

  11. Luana
    Feb 21, '26 at 5:14 pm

    Mds ele já conhecia ela. Ele é bem durão viu . Ama ela mais não quer admitir!

  12. Luana
    Feb 21, '26 at 5:16 pm

    Ele quer ela já tem muito tempo .

  13. Thamiris
    Mar 18, '26 at 6:11 am

    As enfermeiras se instalaram discretamente, entrando apenas para trocar os soros ou verificar a temperatura de S/N. Yoongi não se deitou. Ele puxou uma poltrona de couro para o lado da cama e ali ficou.

    Que nem um cão de guarda

  14. Thamiris
    Mar 18, '26 at 6:14 am

    Ele tinha quinze anos, e o peso da herança do clã Min já começava a endurecer seus ombros. Naquela tarde de chuva cinzenta, ele estava parado na esquina de um bairro periférico. Do outro lado da rua, um pequeno e miserável cortejo fúnebre passava. No centro dele, uma menina de dez anos, pequena demais para o luto que carregava, segurava contra o peito o porta-retrato com a foto da mãe — a moldura típica, com as fitas pretas cruzando o rosto de uma mulher que parecia ter desistido da vida muito cedo.

    Ah mentira
    Ele conhece ela desde de adolescência ‍

  15. Thamiris
    Mar 19, '26 at 10:23 am

    — Você não tem o direito de morrer até que eu decida que você não tem mais utilidade — ele respondeu, voltando à sua máscara de indiferença, embora suas mãos estivessem fechadas em punhos. — Você é minha propriedade, S/N. E eu não permito que destruam o que me pertence.

    Como consegue ser tão idiota ein?!

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