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O som das máquinas foi substituído pelo silêncio vigilante de Yoongi, que agora se recusava a deixar o quarto por mais de dez minutos. Ele era como um fantasma pairando sobre o leito de S/N, alternando entre a frieza de um carcereiro e o zelo perturbador de alguém que não suporta ver sua posse mais preciosa se deteriorar.

Nos dias que se seguiram, a suíte de luxo tornou-se um território de tensão silenciosa. As enfermeiras cuidavam dos remédios, mas Yoongi impôs uma regra absoluta: ninguém a tocava para a higiene ou para a alimentação sem que ele estivesse presente.

Ele se sentava ao lado dela, observando as enfermeiras limparem as feridas com o mesmo olhar clínico com que analisava seus registros de tortura. Às vezes, ele mesmo tomava a esponja das mãos delas, passando-a com uma delicadeza bruta pela pele de S/N, limpando o suor da febre.

S/N alternava entre o sono e breves momentos de lucidez. Em sua mente febril, as imagens do passado se fundiam com o presente.

Na terceira noite, a febre de S/N subiu. Ela se contorcia nos lençóis de seda, sussurrando palavras desconexas. Yoongi, que cochilava na poltrona, despertou instantaneamente. Ele se aproximou, colocando a mão em sua testa. Estava escaldante.

— O pão… — ela murmurou, a voz rouca e infantil. — Onde está o pão de leite? Está chovendo… pai, não quebra a foto…

Yoongi congelou. O toque de sua mão em sua testa vacilou por um milésimo de segundo. Ela estava lá. No dia em que ele a ajudou pela primeira vez. Ele pegou uma toalha úmida e fria, pressionando-a contra o rosto dela com uma paciência que Hana jamais acreditaria que ele possuísse.

— O pão acabou, S/N — ele sussurrou, a voz tão baixa que mal ultrapassava o som da própria respiração. — A chuva parou. Ninguém vai quebrar nada aqui.

Ela abriu os olhos lentamente. A visão estava embaçada, mas ela viu os traços de Yoongi sob a luz da luminária. Por um momento, a máscara de monstro dele desapareceu na névoa da febre dela. Ela viu o menino de quinze anos.

— Você voltou… — ela balbuciou, estendendo a mão trêmula e boa, tocando o rosto dele. — Você sempre volta…

O peito de Yoongi se apertou de uma forma que o irritou profundamente. Ele segurou o pulso dela, mas não a afastou. Ele permitiu que os dedos dela traçassem sua mandíbula, sentindo o calor da febre dela contra sua pele fria.

— Eu nunca fui embora — ele respondeu, a voz recuperando a dureza. — Eu sempre estive aqui, mesmo quando você não via, minha pequena tangerina…

Na manhã seguinte, a febre baixou, e com ela, a doçura do delírio. S/N acordou com a mente clara e a dor nos ossos mais presente do que nunca. Yoongi estava sentado à mesa lateral, tomando café e revisando relatórios em seu tablet, como se a noite anterior nunca tivesse acontecido.

Ele percebeu que ela acordou e sinalizou para uma das enfermeiras trazer a bandeja de café da manhã.

— Coma tudo — ele disse, sem desviar os olhos da tela. — O médico disse que se você não ganhar peso, vai demorar mais para a costela consolidar. E eu tenho planos para você que exigem que você esteja de pé.

S/N olhou para ele, o desprezo voltando a brilhar em suas pupilas. A memória de ter tocado o rosto dele durante a noite parecia um pesadelo distante.

— Que planos? — ela perguntou, a voz ainda fraca. — Mais isolamentos? Mais surras?

Yoongi desligou o tablet e caminhou até a cama. Ele se inclinou sobre ela, pegando uma colher com mingau de aveia e levando-a até os lábios dela.

A última colherada de mingau foi engolida em um silêncio tenso. Por um breve e perigoso milésimo de segundo, S/N viu as sobrancelhas de Yoongi relaxarem. O vinco de preocupação que estivera gravado em sua testa desde a noite do massacre no Nível 1 pareceu suavizar. Ele estava aliviado. Ela estava comendo. Ela estava sobrevivendo.

Mas, assim que ele percebeu que ela o observava, a máscara de mármore voltou a cair sobre seu rosto. Ele sentiu o peso do próprio alívio como se fosse uma fraqueza imperdoável.

— Você come como um animal ferido, S/N — ele soltou, a voz saindo mais áspera do que o pretendido, uma tentativa desesperada de recuperar sua autoridade. — Com pressa para se curar apenas para poder me enfrentar de novo.

Ele largou a tigela de cerâmica sobre a mesa de cabeceira com um estalo seco, quase a quebrando. Levantou-se bruscamente, limpando as mãos em um lenço de linho como se o contato com ela o tivesse contaminado de alguma forma.

— Enfermeiras! — ele chamou, sem olhar para trás. — Terminem de servi-la. O cheiro de fraqueza neste quarto está me dando náuseas.

Ele saiu a passos largos, a porta fechando-se com um impacto que fez os aparelhos de monitoramento apitarem.

S/N ficou imóvel, as enfermeiras aproximando-se com cuidado. Ela nem desconfiava que, enquanto tentava processar a confusão de sentimentos que aquele homem lhe causava, Yoongi não havia ido longe.

Yoongi não foi para o escritório. Ele entrou na sala de controle anexa à suíte principal, um espaço onde apenas ele tinha a senha. O ambiente era escuro e frio. Ele se sentou diante do console central e ligou o monitor que transmitia o feed exclusivo da câmera oculta no dossel da cama.

Lá estava ela, em alta definição.

Ele a viu encostar a cabeça no travesseiro, os olhos perdidos no teto. Viu quando uma das enfermeiras ajustou o soro no braço imobilizado dela e como S/N estremeceu com a dor. Ele sentiu uma pontada de fúria por não ter sido ele a ajustar aquele soro, seguida por uma onda de ódio por estar sentindo aquilo.

Ele passou a mão pelo rosto, sentindo a barba por fazer. Yoongi estava obcecado. Ele a vigiava para garantir que ela não fugisse, dizia a si mesmo. Mas a verdade era que ele a vigiava porque não conseguia mais respirar o mesmo ar que ela sem sentir que o menino de quinze anos, aquele que limpou o sangue das mãos dela com uma camiseta velha, estava tentando assumir o controle do monstro que ele se tornara.

— Por que você não quebra logo de uma vez? — ele sussurrou para a tela, vendo S/N fechar os olhos e deixar uma única lágrima escorrer pela têmpora. — Se você quebrasse, eu poderia parar de olhar.

O quarto estava mergulhado naquele silêncio estéril de hospital. Yoongi havia saído como um furacão, e as enfermeiras se moviam como sombras, ajustando os aparelhos. S/N mantinha os olhos fechados, mas sua audição estava aguçada. Foi então que ouviu o sussurro.

— Ele não vai voltar tão cedo — murmurou a enfermeira mais jovem, acreditando que S/N dormia. — Ele parecia exausto. Ficou três dias sem sentar no próprio escritório.

— Nunca vi o Senhor Min assim — a mais velha respondeu, trocando o frasco do soro com um ruído plástico. — Ele não deixou a gente encostar nela para nada além das injeções. Ele mesmo limpou as feridas dela, o tempo todo… lembra? Ele não saía do lado da cama. Parecia que, se ele piscasse, ela pararia de respirar.

S/N sentiu o coração falhar uma batida. Ele? O monstro que a humilhara, que a chamara de buraco, tinha passado as noites em claro cuidando de sua pele queimada? A revelação queimava mais do que a sopa de missô.

— E agora ele foge como se estivesse com medo — a jovem completou. — Homens como ele não sabem o que fazer quando começam a se importar.

Aquelas palavras ficaram ecoando na mente de S/N, mas a realidade dos dias seguintes foi o oposto do que ela esperava. Yoongi não voltou.

Na primeira semana, S/N ainda esperava o som da porta se abrindo e a aura pesada dele invadindo o quarto. Mas apenas Hana aparecia com as refeições, e as enfermeiras faziam o trabalho técnico. O “zelo” de Yoongi havia evaporado tão rápido quanto o delírio da febre.

Na segunda semana, ela já conseguia se sentar sozinha. A costela ainda doía, mas a cor voltava ao seu rosto. Ela perguntou por ele uma única vez, tentando soar indiferente.

— Onde está o seu mestre, Hana? Ele desistiu de cuidar do “troféu”?

Hana nem sequer levantou os olhos da bandeja. — O Senhor Min está ocupado com os negócios em Busan e no Japão. Ele deixou ordens claras: você deve se recuperar e não sair da cobertura. Ele não tem tempo para distrações agora.

Distração. Era isso que ela era.

Três semanas se passaram. O gesso foi retirado, deixando o braço de S/N magro e pálido, mas funcional. As cicatrizes da sopa no pescoço estavam diminuindo, tornando-se marcas rosadas que contavam uma história de horror.

S/N andava pela cobertura, sentindo-se como um fantasma em um castelo vazio. Ela olhava para a porta do escritório de Yoongi, que permanecia trancada. Ela sabia que ele estava na casa — ouvia o som do carro chegando tarde da noite, ouvia os passos pesados no corredor — mas ele nunca entrava. Ele a evitava como se ela fosse uma doença contagiosa.

Longe dali, na sala de monitoramento, Yoongi a observava. Ele via S/N parada diante da janela, olhando para a cidade, e sentia um aperto no peito que descontava quebrando cinzeiros de cristal. Ele estava se forçando a ficar longe. Cada vez que ele chegava perto, o “menino de 15 anos” tentava assumir o controle, e isso era perigoso para os negócios.

Ele precisava que ela voltasse a ser apenas uma dívida. Mas, quanto mais ele se afastava, mais ele percebia que o silêncio dela o estava enlouquecendo mais do que os gritos de Elena.

19 Comentários

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  1. Anne
    Feb 6, '26 at 12:05 pm

    — O pão acabou, S/N — ele sussurrou, a voz tão baixa que mal ultrapassava o som da própria respiração. — A chuva parou. Ninguém vai quebrar nada aqui.

    Ela lembrou dele

  2. Anne
    Feb 6, '26 at 12:06 pm

    Ele precisava que ela voltasse a ser apenas uma dívida. Mas, quanto mais ele se afastava, mais ele percebia que o silêncio dela o estava enlouquecendo mais do que os gritos de Elena.

    Quero ver o que ele vai fazer quando ela continuar do mesmo jeito. Em silêncio

  3. Anne
    Feb 6, '26 at 12:06 pm

    Hana nem sequer levantou os olhos da bandeja. — O Senhor Min está ocupado com os negócios em Busan e no Japão. Ele deixou ordens claras: você deve se recuperar e não sair da cobertura. Ele não tem tempo para distrações agora.

    Ele tenta de todas as formas afastar ela

  4. Anne
    Feb 6, '26 at 12:07 pm

    Mas ele não consegue. Está sempre ali

  5. Iasmine
    Feb 6, '26 at 8:25 pm

    S/N sentiu o coração falhar uma batida. Ele? O monstro que a humilhara, que a chamara de buraco, tinha passado as noites em claro cuidando de sua pele queimada? A revelação queimava mais do que a sopa de missô.

    Pois é minha consagrada, ele fez isso

  6. IASMINE
    Feb 6, '26 at 8:26 pm

    Longe dali, na sala de monitoramento, Yoongi a observava. Ele via S/N parada diante da janela, olhando para a cidade, e sentia um aperto no peito que descontava quebrando cinzeiros de cristal. Ele estava se forçando a ficar longe. Cada vez que ele chegava perto, o “menino de 15 anos” tentava assumir o controle, e isso era perigoso para os negócios.

    Noossa que situação gente… ela de um lado querendo ele e ele querendo o dobro mas não sabendo como fazer

  7. Nathy
    Feb 6, '26 at 11:03 pm

    Pelo amor de Deus, homem, vai atrás dessa mulher logo

  8. Nathy
    Feb 6, '26 at 11:03 pm

    Um se quer e o outro tbm, e fica nisso.

  9. Nathy
    Feb 6, '26 at 11:04 pm

    Gente, me ajuda a ajudar vcs meus queridos

  10. Luana
    Feb 21, '26 at 5:32 pm

    Se renda logo homem vai ser feliz !

  11. Luana
    Feb 21, '26 at 5:33 pm

    Não vejo a hora dele se render e acabar com essa pose de durão kkk

  12. Karine
    Feb 24, '26 at 2:39 pm

    Ela abriu os olhos lentamente. A visão estava embaçada, mas ela viu os traços de Yoongi sob a luz da luminária. Por um momento, a máscara de monstro dele desapareceu na névoa da febre dela. Ela viu o menino de quinze anos.

    Lindo o pequeno Yoongi de 15 anos

  13. Karine
    Feb 24, '26 at 2:41 pm

    — Coma tudo — ele disse, sem desviar os olhos da tela. — O médico disse que se você não ganhar peso, vai demorar mais para a costela consolidar. E eu tenho planos para você que exigem que você esteja de pé.

    Aah o muro de gelo

  14. Karine
    Feb 24, '26 at 2:42 pm

    — Enfermeiras! — ele chamou, sem olhar para trás. — Terminem de servi-la. O cheiro de fraqueza neste quarto está me dando náuseas.

    aah cavalo

  15. Karine
    Feb 24, '26 at 2:47 pm

    S/N andava pela cobertura, sentindo-se como um fantasma em um castelo vazio. Ela olhava para a porta do escritório de Yoongi, que permanecia trancada. Ela sabia que ele estava na casa — ouvia o som do carro chegando tarde da noite, ouvia os passos pesados no corredor — mas ele nunca entrava. Ele a evitava como se ela fosse uma doença contagiosa.

    Homem é bicho besta né kkkk

  16. Thamiris
    Mar 19, '26 at 10:34 am

    — Eu nunca fui embora — ele respondeu, a voz recuperando a dureza. — Eu sempre estive aqui, mesmo quando você não via, minha pequena tangerina…

    Ah meu Deus
    Ele sempre cuidou dela,do jeito dele,mais cuidou

  17. Thamiris
    Mar 19, '26 at 10:40 am

    — Enfermeiras! — ele chamou, sem olhar para trás. — Terminem de servi-la. O cheiro de fraqueza neste quarto está me dando náuseas.

    Que babaca do krlh,que raiva

  18. Thamiris
    Mar 19, '26 at 7:36 pm

    Ele a viu encostar a cabeça no travesseiro, os olhos perdidos no teto. Viu quando uma das enfermeiras ajustou o soro no braço imobilizado dela e como S/N estremeceu com a dor. Ele sentiu uma pontada de fúria por não ter sido ele a ajustar aquele soro, seguida por uma onda de ódio por estar sentindo aquilo.

    Mais bipolar que eu,só ele

  19. Thamiris
    Mar 19, '26 at 7:44 pm

    Ele precisava que ela voltasse a ser apenas uma dívida. Mas, quanto mais ele se afastava, mais ele percebia que o silêncio dela o estava enlouquecendo mais do que os gritos de Elena.

    Acho que tá mais fácil ela te quebrar,do que o contrário

Nota

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