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Às seis da manhã em ponto, o som da tranca eletrônica ecoou como um tiro no quarto silencioso. S/N não havia dormido; suas pálpebras estavam pesadas, mas sua mente estava em alerta máximo. Hana entrou, mas não trazia a bandeja de prata ou o olhar de dúvida do dia anterior. Seus movimentos eram mecânicos, desprovidos de qualquer humanidade.

Sem dizer uma palavra, Hana puxou o cobertor de seda negra.

— Levante-se — ordenou.

Ela não esperou que S/N se movesse. Hana segurou o robe cor de vinho e o arrancou dos ombros de S/N, deixando-a exposta ao ar condicionado gelado. Em seguida, jogou sobre a cama um conjunto de algodão cinza, áspero e sem corte, com o número da unidade impresso em preto no peito.

— O Sr. Min revogou seu status de hóspede. Você agora é parte do inventário comum. Vista-se.

S/N vestiu o uniforme. O tecido grosso irritava a pele ainda sensível pelos hematomas e pela primeira noite. O relógio prateado foi retirado de seu pulso com um puxão brusco. Agora, ela não tinha mais tempo; tinha apenas ordens.

A descida no elevador de serviço foi silenciosa. Quando as portas se abriram no Nível 2, o som de centenas de talheres batendo contra pratos de porcelana e o murmúrio de vozes baixas atingiu S/N como uma onda física. O refeitório era vasto e, apesar de ser destinado às submissas, mantinha o padrão estético de Yoongi: colunas de mármore, mesas longas e comida de alta qualidade. Mas o ambiente era pesado, sufocante.

Hana empurrou S/N para a fila. Assim que ela pisou no salão, o silêncio começou a se espalhar a partir do centro, como uma mancha de óleo na água. Mulheres — de todos os níveis — pararam de comer para encarar a “Favorita Caída”.

— É ela? — o sussurro de uma garota do Nível 3 foi audível. — Ela parece um fantasma.

— Dizem que ela tentou matar ele no quarto e por isso ele a jogou aqui embaixo — outra murmurou, as vozes subindo de tom.

S/N pegou uma bandeja, mas seu estômago estava fechado. O cheiro da comida, por mais refinada que fosse, a enjoava. Ela caminhou até o canto mais isolado do refeitório, uma mesa pequena perto das sombras das colunas, e sentou-se sozinha. Ela não tocou nos talheres. Ficou apenas ali, olhando para o vazio, sentindo o peso de cada par de olhos cravado em suas costas.

Longe dali, em seu santuário tecnológico, Min Yoongi estava inclinado sobre a mesa, os olhos fixos em um dos monitores que transmitia o refeitório em 4K. Ele segurava um copo de café preto, a expressão ilegível. Ele viu S/N sentada no canto, a postura rígida, a recusa em comer.

— Você acha que o isolamento vai te proteger, boneca? — ele murmurou para a tela. — Aqui embaixo, o silêncio é o convite para o ataque.

Ele queria ver até onde ela aguentaria antes de implorar para voltar para o seu quarto.

O burburinho no refeitório atingiu o ápice quando três mulheres do Nível 1 — as “veteranas” que se sentiam ameaçadas pela presença de S/N — se levantaram. Lideradas por uma mulher alta e de olhar cruel chamada Elena, elas caminharam em direção à mesa isolada.

Elena carregava uma tigela de sopa de missô fumegante. Ela parou diante de S/N, que nem sequer levantou a cabeça.

— Então este é o grande tesouro do Sr. Min? — Elena disse, atraindo a atenção de todo o salão. — Você cheira a derrota, novata. Ouvi dizer que você foi tão ruim na cama que ele teve que chamar a 02 para limpar o gosto de você da boca dele.

S/N continuou em silêncio. Sua apatia pareceu irritar Elena ainda mais.

— Eu estou falando com você! — Elena gritou.

Em um movimento rápido e maldoso, Elena inclinou a tigela. O líquido quente e pastoso caiu diretamente sobre a cabeça de S/N, escorrendo pelos seus cabelos, pelo rosto e sujando o uniforme cinza impecável. Pedaços de tofu e algas ficaram presos em seus ombros.

Uma onda de risadas cruéis ecoou pelo refeitório.

S/N fechou os olhos, sentindo o calor da sopa contra sua pele. Ela não gritou. Não se limpou. Apenas continuou ali, sentada, enquanto a humilhação escorria por seu corpo.

Na sala de monitoramento, Yoongi apertou o copo de café com tanta força que a cerâmica estalou. Ele viu S/N abrir os olhos através da tela, e o que ele viu não foi medo, mas um vazio profundo e perigoso.

— Reaja — Yoongi sibilou para a tela, seus músculos retesados. — Reaja ou elas vão te despedaçar.

O calor do líquido atingiu o couro cabeludo de S/N, descendo como lava pelo pescoço e pelas costas. A sopa estava quente o suficiente para avermelhar a pele instantaneamente, mas a dor física era um sussurro perto do grito ensurdecedor que ecoava dentro de sua cabeça.

As palavras de Yoongi se repetiam em um looping cruel, martelando seu crânio a cada batida do coração.

“Nada mais que um buraco onde eu descarrego meu estresse…”

Uma das cozinheiras, uma senhora de mãos calejadas que ainda guardava um resquício de humanidade, soltou um grito de horror ao ver a cena. Ela largou a concha e tentou correr com um pano úmido para socorrer a garota, mas foi barrada por duas mulheres do Nível 3, que cruzaram os braços com sorrisos de escárnio.

— Deixe a favorita tomar o café da manhã dela — uma delas zombou, empurrando a cozinheira de volta para a bancada.

S/N permanecia estática. O caldo pastoso escorria por seus cílios, embaçando sua visão, mas ela não se limpou. Naquele momento, ela não sentia o cheiro da comida ou o ardor da queimadura. Ela sentia apenas o peso da invisibilidade.

Yoongi estava de pé, a centímetros da tela. Ele viu quando a pele do pescoço de S/N começou a ficar em um tom de rosa vivo pela temperatura do líquido. Viu as outras mulheres rindo, a cozinheira sendo impedida de ajudar e, principalmente, viu a imobilidade de S/N.

— Por que você não se mexe? — ele rosnou, a voz falhando em uma mistura de fúria e uma ansiedade que ele se recusava a nomear. — Lute, porra!

Ele queria que ela fosse a mulher que puxou seu cabelo. Queria que ela fosse a mulher que abriu sua camisa e desafiou seus segredos. Ver aquela casca vazia, permitindo que submissas de baixo nível a humilhassem, era como ver sua propriedade mais valiosa ser pisoteada na lama. Isso feria o orgulho dele. Isso o enojava.

Elena, vendo que não obtinha reação, inclinou-se sobre a mesa, o rosto a centímetros do de S/N. O cheiro de sopa de missô e maldade era sufocante.

— O que foi? O gato comeu sua língua ou o patrão fodeu sua vontade de viver junto com a sua virgindade? — Elena riu, pegando uma colher da bandeja de S/N e batendo levemente na bochecha suja da garota. — Olhe para mim quando eu estiver te transformando em lixo, sua cadela.

Lentamente, S/N levantou o olhar.

Mas não havia lágrimas. Não havia o brilho de medo que Elena esperava. Os olhos de S/N estavam opacos, como dois poços de águas paradas e profundas. Dentro dela, a voz de Yoongi finalmente silenciou, dando lugar a uma conclusão gélida: Se eu sou apenas um buraco para o estresse dele, então eu não tenho nada a perder. E quem não tem nada a perder, não precisa ter medo de queimar.

— Você terminou? — S/N perguntou. A voz não tremeu. Estava morta, desprovida de qualquer inflexão.

Elena piscou, pega de surpresa pela audácia do tom monocórdico.

— O quê?

S/N moveu a mão. Não foi um tapa. Foi um movimento preciso e desesperado. Ela agarrou a borda da própria bandeja de metal e, com toda a força que o ódio lhe proporcionava, jogou-a contra o rosto de Elena. O som do metal atingindo o nariz da mulher ecoou como um tiro no salão.

Elena caiu para trás, o sangue espirrando no mármore branco enquanto ela gritava, segurando o rosto.

O refeitório congelou. As risadas morreram.

S/N levantou-se lentamente, a sopa ainda pingando de seu uniforme cinza. Ela ignorou as outras mulheres que se afastaram em choque. Caminhou em direção à saída, deixando um rastro de sopa e silêncio por onde passava.

Na sala de monitoramento, Yoongi soltou o ar que nem sabia que estava segurando. Um sorriso sombrio, quase imperceptível, surgiu em seus lábios.

— Aí está você — ele sussurrou.

20 Comentários

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  1. Anne
    Feb 2, '26 at 3:26 pm

    — Dizem que ela tentou matar ele no quarto e por isso ele a jogou aqui embaixo — outra murmurou, as vozes subindo de tom.

    Cada coisa que elas inventam

  2. Anne
    Feb 2, '26 at 3:27 pm

    — Por que você não se mexe? — ele rosnou, a voz falhando em uma mistura de fúria e uma ansiedade que ele se recusava a nomear. — Lute, porra!

    Ele quer alguém que lute que enfrente

  3. Anne
    Feb 2, '26 at 3:27 pm

    — Aí está você — ele sussurrou.

    Ele pode até ter mandando ela para baixo como as outras. Mas ainda assim é ela quem ele quer

    1. Nathy
      @AnneFeb 3, '26 at 11:05 pm

      S/N moveu a mão. Não foi um tapa. Foi um movimento preciso e desesperado. Ela agarrou a borda da própria bandeja de metal e, com toda a força que o ódio lhe proporcionava, jogou-a contra o rosto de Elena. O som do metal atingindo o nariz da mulher ecoou como um tiro no salão.

      É uma delícia só de imaginar a bandeira batendo na cara dessa fdp

      1. Luana
        @NathyFeb 21, '26 at 3:54 pm

        S/N fez exatamente oque eu faria kkkkk

  4. IASMINE
    Feb 2, '26 at 7:51 pm

    S/N moveu a mão. Não foi um tapa. Foi um movimento preciso e desesperado. Ela agarrou a borda da própria bandeja de metal e, com toda a força que o ódio lhe proporcionava, jogou-a contra o rosto de Elena. O som do metal atingindo o nariz da mulher ecoou como um tiro no salão.

    Toma distraída.. a bicha agora não tem mais nada a perder

  5. Karine
    Feb 2, '26 at 9:56 pm

    — Dizem que ela tentou matar ele no quarto e por isso ele a jogou aqui embaixo — outra murmurou, as vozes subindo de tom.

    Kkkkkkk

  6. Karine
    Feb 2, '26 at 10:00 pm

    — Por que você não se mexe? — ele rosnou, a voz falhando em uma mistura de fúria e uma ansiedade que ele se recusava a nomear. — Lute, porra!

    Parece q alguém está preocupado

  7. Karine
    Feb 2, '26 at 10:02 pm

    S/N moveu a mão. Não foi um tapa. Foi um movimento preciso e desesperado. Ela agarrou a borda da própria bandeja de metal e, com toda a força que o ódio lhe proporcionava, jogou-a contra o rosto de Elena. O som do metal atingindo o nariz da mulher ecoou como um tiro no salão.

    Aaaah ela reagiu

  8. Karine
    Feb 2, '26 at 10:02 pm

    — Aí está você — ele sussurrou.

    Predador

  9. Nathy
    Feb 3, '26 at 11:04 pm

    Caracaaaa, S/N é mais foda do que eu imaginei.

  10. Nathy
    Feb 3, '26 at 11:06 pm

    Ver ele ansioso para que ela se mexesse foi tudo.

    1. Luana
      @NathyFeb 21, '26 at 3:53 pm

      Foi tudoooo mesmo

  11. Sheila
    Feb 19, '26 at 9:42 pm

    Invejas dessas mulheradas!!! Gostam de apanhar e ser submissas!!! Apesar que é o Yoongi né ?! Kkkk

  12. Sheila
    Feb 19, '26 at 9:43 pm

    SN é foda!!! Sente dor mas não deixa barato não!!! Arrasou!!!

  13. Sheila
    Feb 19, '26 at 9:44 pm

    — Aí está você — ele sussurrou.

    Admirando a sua mulher né?? Ela é foda mesmo!!! Kkkk

  14. Luana
    Feb 21, '26 at 3:52 pm

    Da na cara dessas S/N kkkkk

  15. Thamiris
    Mar 17, '26 at 10:14 am

    Longe dali, em seu santuário tecnológico, Min Yoongi estava inclinado sobre a mesa, os olhos fixos em um dos monitores que transmitia o refeitório em 4K. Ele segurava um copo de café preto, a expressão ilegível. Ele viu S/N sentada no canto, a postura rígida, a recusa em comer.

    Kk, nunca tira os olhos dela

  16. Thamiris
    Mar 17, '26 at 10:17 am

    — Reaja — Yoongi sibilou para a tela, seus músculos retesados. — Reaja ou elas vão te despedaçar.

    Vai lá,salva ela

  17. Thamiris
    Mar 17, '26 at 10:21 am

    S/N moveu a mão. Não foi um tapa. Foi um movimento preciso e desesperado. Ela agarrou a borda da própria bandeja de metal e, com toda a força que o ódio lhe proporcionava, jogou-a contra o rosto de Elena. O som do metal atingindo o nariz da mulher ecoou como um tiro no salão.

    Não era reação que ele queria

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