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A música ambiente tocava baixo, o som das anilhas batendo ao fundo. Lia respirava fundo enquanto puxava o peso, concentrada. Estava acostumada a escolher horários em que a academia ficava quase vazia, tudo para não cruzar com Jisoo e evitar confusão.

O suor escorria pela têmpora, ela ajeitava os fones, decidida a ignorar qualquer pensamento que a levasse de volta ao passado.

Mas, do outro lado, Jisoo entrava pela porta principal, avisada por uma amiga sobre o “horário alternativo” de Lia. O salto do tênis dela ecoou no chão como se fosse de propósito, chamando atenção. Ela não foi direto até Namjoon. Não — os olhos dela miraram em Lia, mas o sorriso doce que carregava era só fachada.

Lia percebeu, respirou fundo, mas não desviou o olhar do aparelho. Fingiu que não se importava.

Foi quando um dos instrutores — o mesmo que já tinha ajudado ela outro dia — se aproximou com um sorriso simpático. Ele era alto, corpo definido, expressão leve.

— Ei, Lia… — ele disse, um pouco tímido, mas direto. — Eu tava pensando… você toparia sair comigo qualquer dia desses? Um jantar, talvez?

Lia ficou surpresa por um instante. Olhou para ele, para o sorriso genuíno, e pensou que talvez fosse bom dizer sim. Talvez fosse a chance de começar a esquecer.

— Tá… eu aceito — respondeu, com um sorrisinho discreto, ajeitando o cabelo atrás da orelha.

Foi nesse exato momento que Namjoon entrou no espaço. Ele tinha acabado de sair da sala de musculação e parou na porta, a toalha pendurada no ombro. O olhar dele encontrou Lia… e o instrutor. Encontrou o sorriso dela ao aceitar.

O corpo dele enrijeceu. Ele não disse nada, mas a mandíbula travou, a respiração ficou pesada. O peito subia e descia mais rápido.

A cena bateu nele como um soco. O estômago revirou.

Por fora, ele manteve o silêncio. Mas os olhos — escuros, firmes — estavam cravados nela, denunciando cada pedaço de ciúme que ele não queria admitir.

Jisoo, que observava tudo de longe, sorriu vitoriosa, escondendo a satisfação atrás da garrafa de água.

Minutos depois…

Namjoon ficou imóvel por alguns segundos, o coração martelando no peito. O reflexo de Lia no espelho parecia uma punhalada certeira — os olhos marejados, a expressão despedaçada, a lágrima escorrendo sozinha. Aquele era o rosto que ele nunca tinha visto antes. Nunca. Ela sempre mascarava tudo com aquele sorriso irritantemente leve, como se nada no mundo fosse capaz de atingi-la.

“Merda…” ele sussurrou, a respiração falhando. As mãos ainda seguravam a cintura de Jisoo, mas ele não conseguia mais se mover. Sentiu-se sujo, pequeno, covarde.

O estalo só veio quando Tae fechou a porta, levando Lia dali. O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor.

Namjoon afastou-se de Jisoo bruscamente, puxando a calça às pressas. O olhar dele, antes confuso, agora ardia de raiva contida.

— Você… sabia que ela estava ali? — a voz saiu rouca, quase um rosnado. — Por que não disse nada?

Jisoo apenas ergueu a cabeça, ajeitando o cabelo desgrenhado com um ar de calma ensaiada. O sorriso vitorioso ainda estava ali, estampado no rosto.

— Claro que sabia — respondeu, como se fosse a coisa mais natural do mundo. — Ela precisava ver. Precisava entender que você é meu. 

Namjoon engoliu seco, sentindo o estômago revirar. A mente gritava que algo estava errado, que Jisoo estava ultrapassando todos os limites, mas ele não conseguia articular a avalanche de pensamentos. O peito apertava.

Ele passou a mão pelo rosto, tentando se recompor, mas só conseguia repetir mentalmente a imagem de Lia parada, imóvel, quebrada diante dele.

— Você não faz ideia do que acabou de fazer… — murmurou, quase para si mesmo, mas com a voz carregada de fúria e arrependimento.

— Não faço ideia? — Jisoo rebateu, a voz quase em um grito sufocado pela emoção fingida. As lágrimas escorriam, mas dessa vez não eram só fingimento; ela mesma parecia perder o controle. — Namjoon, você chamou o nome dela enquanto dormia! Depois de transarmos… você… — a respiração dela se embolou, e ela se encolheu no sofá, puxando o lençol para se cobrir com pressa, como se tentasse se proteger dele. — Você chamou por outra depois de um momento nosso.

Ela fungou, levando a mão ao rosto. — Você disse que gosta daquela vadia… aquela vadia que você comeu quando… — a voz falhou, cortada de repente. Jisoo parou ali, como se tivesse revelado mais do que queria.

Namjoon recuou mais um passo, a mão ainda enterrada nos cabelos, como se quisesse arrancar da cabeça aquilo que não fazia sentido. O peito arfava, cada respiração mais pesada que a anterior.

— Merda… — repetiu, a voz arrastada, quase sem força.

Ele ergueu os olhos para Jisoo, o olhar turvo de raiva e vergonha misturados. Mas, enquanto a encarava, uma lembrança latejou na mente dele como um soco no estômago.

Um flash, nítido demais para ser negado: ele acariciando o rosto dela, mas não era Jisoo que ele enxergava. Era Lia. O sorriso suave, o calor que não devia estar ali. A voz dele, mais doce do que pretendia, sussurrando:

“Eu gosto de você.”

Namjoon piscou rápido, tentando afastar a lembrança, mas quanto mais tentava, mais clara ela ficava. O arrepio na nuca, o deslize do nome que não era o da noiva.

O ar escapou dos pulmões dele em um sussurro rouco:

— Não… não pode ser.

Ele fechou os punhos, como se pudesse esmagar a própria mente, como se quisesse negar o óbvio.

“Não foi real. Eu tava sonhando. Foi só um sonho.”

Engoliu em seco, os olhos voltando para Jisoo, que ainda se encolhia no sofá, chorando.

— Jisoo… — ele murmurou, a voz quebrada, quase implorando a si mesmo. Ele se aproximou e, com a mão trêmula, acariciou o rosto dela. O gesto era mecânico, desesperado, como se quisesse se agarrar àquilo que era certo, ao que deveria ser. — Você é minha noiva. Você é a minha escolha.

Mas no fundo, cada toque parecia uma farsa, como se os dedos dele tocassem uma pele que não era a que seu coração queria. A cada movimento, o fantasma de Lia se infiltrava, sorrindo nas frestas da memória.

Namjoon respirou fundo, forçando-se a focar em Jisoo, repetindo em silêncio como um mantra:

“Ela é a certa. Ela é a certa. Ela é a certa…”

Mas, mesmo se convencendo, a voz dele no sonho ecoava, cruel e inapagável:

“Eu gosto de você, Lia.”

O contraste o corroía por dentro. E ainda assim, ele se forçou a beijar a testa de Jisoo, como se aquele gesto pudesse apagar o deslize, como se pudesse convencer a si mesmo de que não havia nada além dela.

Só que, pela primeira vez, Namjoon não acreditava nas próprias palavras.

Na sala de Tae, o clima era pesado. Lia chorava de soluçar, o rosto escondido nas mãos, o corpo inteiro tremendo. Era a primeira vez que ela deixava a dor escapar em público. Tae, aflito, andava de um lado para o outro sem saber como agir. Por fim, pegou o celular e mandou mensagem para Jungkook, explicando tudo em detalhes, já que Yoo-na estava em sala de aula e não podia ser interrompida.

Pouco depois, Jungkook apareceu discretamente na porta da sala de Yoo-na. Aproximou-se e murmurou:

— Amor, aconteceu uma coisa. A Lia… ela tá mal, muito mal. — suspirou fundo. — Vai lá ficar com ela, eu seguro a sua aula.

O coração de Yoo-na disparou. Sem hesitar, deixou tudo com Jungkook e saiu correndo.

Quando entrou na sala de Tae, encontrou Lia encolhida no sofá, o rosto molhado de lágrimas. Yoo-na foi até ela sem pensar, se ajoelhou ao lado e puxou a amiga para o colo, abraçando forte.

— Ei… calma… tô aqui, respira comigo — murmurava, acariciando os cabelos dela.

Lia tentava falar, mas a voz falhava, os soluços engoliam as palavras. Então, Yoo-na a embalou como se fosse uma criança, firme e protetora.

Revoltada, sem conseguir segurar a indignação, ela sussurrou contra o topo da cabeça da amiga:

— Por que você não diz o que essa mulher faz quando sai daqui, hein? Por que você engole tudo?

Lia balançou a cabeça fraca, os olhos marejados, a voz quase um sussurro:

— Não… não fala nada, Yoo-na. Isso não diz respeito a vocês…

— Como não? — Yoo-na apertou o abraço, furiosa. — Se mexem com você, mexem comigo também.

Mas Lia não respondeu. Cansada, esgotada, acabou adormecendo no colo da amiga, o rosto ainda molhado de lágrimas.

Foi assim que Jungkook encontrou as duas, quando terminou a aula. Ele entrou devagar, olhando primeiro para Lia, depois para Yoo-na, e então para Tae, que estava encostado na parede com os braços cruzados, claramente abalado.

— E aí? — Jungkook perguntou, baixando a voz.

Tae respirou fundo e contou:
— A Jisoo… ela tava olhando pra Lia e sorrindo. Isso não é atitude de quem foi pega no flagra, sabe? Ela queria que a Lia tivesse ali. Eu ouvi quando chamaram, dizendo que o Namjoon queria vê-la. Fui atrás porque já suspeitava… e foi isso que aconteceu.

O maxilar de Jungkook se contraiu, a expressão endurecendo. Ele passou a mão pelos cabelos e murmurou, seco:

— Nunca gostei dessa garota. Nunca. Sempre achei ela falsa demais.

Yoo-na ergueu os olhos para ele. O rosto dela estava tenso, mas o sorriso frio que apareceu denunciava a fúria que queimava por dentro. Os olhos brilhavam de sangue.

— O que é dela, tá guardado — disse, com a calma perigosa de quem já sabia o que iria fazer.

Jungkook reconheceu imediatamente aquele olhar. Conhecia bem a namorada e sabia que aquilo não acabaria em conversa. Ele a encarou firme e perguntou:

— O que você vai fazer, Yoo-na?

Ela ergueu o queixo, o sorriso ainda nos lábios, mas a voz saiu carregada de veneno:

— Vou acabar com essa garota.

Tae, ouvindo aquilo, arregalou os olhos e se escondeu meio-brincando atrás de Jungkook:

— Eu tô com medo da sua namorada…

Jungkook não conseguiu segurar a risada curta, balançando a cabeça. Olhou para Yoo-na com um meio sorriso cúmplice e falou:

— Então me diz… no que eu posso ajudar?

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