Entre o silêncio e a confissão
por FanfiqueiraNamjoon manteve os olhos cravados em Jisoo, mas sua voz soou como uma sentença fria, cortando o ar pesado da academia.
— Independente do que eu sinta ou deixe de sentir… você era minha noiva. — o timbre grave ecoava firme. — E eu não sabia que você me traía.
Ele respirou fundo, tentando manter o controle, mas o rancor transbordava em cada palavra.
— Quando a gente começou a transar como um casal de verdade, eu pensei que a gente poderia ter algo além do que já tivemos. Mas… — o olhar dele se desviou por um instante para Lia, só para depois voltar a Jisoo. — Aos poucos, eu não parava de pensar nela. Isso já não é mais segredo. Eu não conseguia parar de ver a Lia quando a gente transava.
O rosto de Jisoo se deformou em fúria.
— Então era por isso? — ela cuspiu as palavras, irada. — Era por isso que você fazia aquelas posições, aquelas coisas todas, que nunca tinha feito comigo antes?
Namjoon fechou os olhos, tentando forçar concentração, equilíbrio, um resquício da paz que já não existia mais dentro dele. O maxilar trincado denunciava a raiva que crescia. Quando abriu os olhos de novo, estavam tomados por um brilho sombrio.
— Sai daqui. — disse, a voz carregada de ódio contido. — Procura outra academia. Procura outro idiota pra enganar. Eu não quero nem mais sentir o seu cheiro.
Jisoo empalideceu, os olhos marejando, mas ele não parou.
— O noivado acabou. Mais tarde eu passo na casa dos seus pais pra encerrar isso de uma vez.
— Não… não, Namjoon, meus pais não podem saber… — a voz dela tremeu, desesperada. — Eles não sabem, você não pode falar nada, por favor…
Ele arqueou um canto da boca num sorriso cínico, cruel.
— Pode deixar. Eu não vou falar pros seus pais que você é uma puta. — murmurou, o sarcasmo cortante. — Mesmo você não merecendo, pelos seus pais, eu vou manter a integridade que eles acham que você tem.
Ele deu um passo à frente, firme, imponente, os olhos fixos nela como lâminas.
— Mas se você chegar perto da Lia de novo, pode ter certeza que vai pagar muito caro.
Virou-se, como se fosse encerrar ali. Mas algo pareceu se encaixar na mente dele — uma peça final no quebra-cabeça. O corpo congelou, e lentamente ele olhou por cima do ombro, o semblante sombrio.
— Aquele dia… — disse baixo, mas cada sílaba ecoava gelada. — Aquele dia que você me chamou pra transar no escritório. Pela primeira vez. Você sabia que a Lia estava assistindo, não sabia?
O silêncio pairou por um instante, tenso. Até que Tae, sempre boca aberta, largou sem pensar:
— Mas foi ela que chamou, Namjoon. — apontou com a cabeça pra Jisoo. — Com certeza sabia. Eu ouvi tudo. Foi ela que chamou.
Namjoon girou de vez, o olhar tomado por raiva quase assassina. As veias do pescoço saltavam, o punho cerrado como se ele tivesse que se controlar pra não explodir fisicamente.
Tae continuou, sem perceber o peso do que dizia:
— A Lia chorou muito aquele dia, hyung. Chorou tanto que acabou dormindo de tanto chorar.
— Tae! — Jihye interveio rápido, batendo no braço dele, puxando-o pra trás com força. — Já chega!
Namjoon ficou imóvel, mas o peito subia e descia com violência. A raiva que sentia por Jisoo se misturava agora a outra coisa: a revelação.
Ele olhou para Lia. Pela primeira vez em muito tempo, encarou-a de verdade. As peças, enfim, se encaixavam. A dor dela, o afastamento, o silêncio. Não era indiferença. Nunca tinha sido. Ela também tinha sentido.
Yoo-na engoliu o último grito, os olhos faiscando como uma lâmina. A voz saiu baixa, gelada:
— Ou você some daqui agora, Jisoo, ou eu vou ter que botar uma luva e te jogar porta afora. Não quero que minha mão fique com cheiro ruim.
Jisoo empalideceu, os dedos cerrados na alça da bolsa. Por um segundo houve desafio no rosto dela — depois, o medo de se tornar o ridículo público venceu. Namjoon deu um passo à frente, a voz tão seca quanto a lâmina de Yoo-na:
— Sai. Agora. Ou eu ligo pros seus pais neste exato momento.
O rosto de Jisoo alternou entre humilhação e raiva, mas ela entendeu que ali não havia trégua possível. Sem olhar para mais ninguém, recolheu as coisas e saiu em passos rápidos, como se fugisse de um incêndio. Namjoon a acompanhou com o olhar até que a porta se fechou atrás dela.
— O show acabou — murmurou ele, alto o bastante para que todos ouvissem.
Tae e Jihye já estavam a caminho para a saída. Jungkook e Yoo-na se mantinham próximos, vigilantes, como sentinelas.
Namjoon se virou então para Lia. Havia um peso nas palavras que não permitia meias medidas.
— Eu não vou pedir desculpas — disse, firme, cruel de tão claro. — Pelo que eu fiz com você, não existe perdão à altura.
Aquelas palavras cortaram o ar. Lia sentiu a cabeça rodar, os olhos marejando; por fração de segundo cedeu ao impulso de correr, de escapar daquele labirinto de vergonha e dor. Mas algo na entonação dele — um pedido que não se parecia com orgulho — a fez hesitar.
— Por favor — Namjoon continuou, baixando a voz, despindo a arrogância por um instante. — Me deixe conversar com você.
Ela ficou indecisa. Havia raiva, havia medo, havia o orgulho ferido; mas havia também a fome de entender por que aquilo tudo havia acontecido. Namjoon, percebendo seu vacilar, propôs:
— Vem. Vamos no meu carro. Eu te levo pra casa.
Tae e Jihye já haviam saído; a academia retomava um silêncio. Yoo-na, a princípio, ficou como quem não confia em nada nem ninguém, mas a preocupação por Lia falou mais alto. Ela aproximou-se, se aproximou do Namjoon e disse:
— Vai. Mas ó… Se você fizer mais alguma coisa com minha amiga… eu juro que acabo com você!
O tom era uma mistura de ameaça e promessa: não toleraria ver Lia ser pisoteada outra vez.
Namjoon encolheu os ombros, uma expressão conflituosa com uma expressão no rosto: surpresa, culpa, talvez um pouco de respeito por aquela fúria protetora. Não disse nada na hora; sabia que o melhor era não responder a uma provocação que vinha do amor de outra pessoa.
Jungkook, que observava a cena com o olhar calmo, respirou e deixou escapar um pequeno riso contido — como se dissesse essa é a minha garota.
Lia olhou para Yoo-na, deu um aceno curto — mais um acordo silencioso do que um agradecimento — e, com passos lentos, seguiu Namjoon até o carro.
O som da porta do carro se abrindo ecoou no estacionamento vazio. Namjoon inclinou-se um pouco, segurando a maçaneta, como se quisesse garantir que Lia tivesse espaço e tempo para decidir entrar. Ela hesitou por um segundo, mas acabou cedendo.
Entrou no carro devagar, ajeitando a bolsa no colo. Assim que o cinto de segurança clicou, o peso das lembranças a atingiu como uma onda gelada. O banco, o cheiro do carro, o modo como o painel iluminava a noite… tudo era um gatilho.
A última vez que estivera ali Namjoon dirigindo em silêncio, a mandíbula travada, até parar em frente ao salão dela. O beijo, a noite quando dormiram juntos, o sexo intenso que tiveram…
De volta a realidade, Lia respirou fundo, fechou os olhos e virou o rosto em direção à janela, evitando encarar Namjoon. A cidade passava em vultos iluminados pelos postes, e ela preferiu mergulhar no silêncio.
Namjoon percebeu. Ele ajeitou as mãos no volante, os olhos fixos na estrada. Deixou que alguns minutos escorressem, como se testasse o próprio autocontrole, até que, por fim, puxou ar fundo e quebrou o silêncio:
— Lia…
Namjoon a olhou de relance, a curva do maxilar dela contra a claridade da rua, o silêncio pesado. Ele mordeu o lábio inferior, os dedos apertando o volante até os nós ficarem brancos.
— Eu sei que você não quer me ouvir agora… — ele murmurou, a voz grave, quase um sussurro, tentando não romper de forma brusca o silêncio dela.
Lia não respondeu. O silêncio foi a única reação, quase cruel, mas necessária pra ela mesma.
Ele inspirou fundo, desviando os olhos de volta para a pista.
— Mas… eu preciso falar.
O carro seguiu, e ela continuava imóvel, sem lhe dar sequer o consolo de um olhar.
O carro virou à direita, o som das setas ainda ecoando no painel, e Lia estranhou o caminho. O corpo dela se moveu instintivamente, o cenho se fechando enquanto enfim desviava os olhos da janela para ele.
— Meu apartamento fica pra lá… — disse, a voz baixa, carregada de desconfiança.
Namjoon não tirou os olhos da rua, os dedos firmes no volante. — Eu sei. — respondeu com calma, mas havia um peso por trás das palavras. — Só que eu quero conversar com você. No seu apartamento, provavelmente suas amigas vão estar te esperando, e… não quero plateia.
Ela prendeu a respiração por um instante, os olhos fixos nele, avaliando. O coração acelerou, mas em vez de discutir, soltou apenas um suspiro contido e voltou o rosto para a janela, o vidro frio contra a pele.
O silêncio dela cortou mais fundo do que qualquer resposta. Namjoon desviou o olhar por um segundo, rápido, para ela. Viu o maxilar contraído, a teimosia no jeito como evitava encará-lo. Apertou o volante outra vez, engolindo seco.
Dentro dele, um misto de alívio por ela não ter pedido pra descer, e uma dor latente pela barreira invisível que Lia tinha erguido. Ainda assim, continuou a dirigir, decidido, mas com o peito pesado pela distância que ela deixava entre eles.
Namjoon meu amor você foi um babaca com ela, não espere menos que isso