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SN fechou a porta do táxi atrás de si, a chuva escorrendo pelo capuz do casaco. Cada passo até o apartamento parecia afundar no peso do mundo, o coração acelerado, mas ainda martelando lembranças do encontro com Jungkook. Esperava chegar em casa e encontrar pelo menos algum alívio, mas a realidade a atingiu como um soco no estômago.

O apartamento estava revirado. Móveis tombados, objetos quebrados, papéis rasgados espalhados pelo chão. O cheiro de álcool misturado a sangue e destruição impregnou o ar. Seu pai estava desmaiado no meio da sala, manchas de sangue manchando a pele e a camisa rasgada. SN engoliu em seco, a visão deixando seu estômago embrulhado.

Antes que pudesse se aproximar, as vozes surgiram. Pesadas, ameaçadoras, cortantes.

– Onde está o dinheiro? – exigiu um deles, o tom carregado de pressa e violência. – Queremos ser pagos!

SN levantou as mãos, engolindo o medo, mas antes que pudesse falar, um dos homens avançou com brutalidade. Agarrou-a pelo pescoço, levantando-a do chão com força suficiente para deixar marcas vermelhas na pele macia.

– Escuta bem – rosnou ele, os dentes cerrados, o corpo tenso, a respiração quente. – Se você quer que ele continue respirando, você vai pagar agora. E se tentar me enganar, eu acabo com você aqui mesmo.

Com dificuldade, controlando o tremor da voz:

– Eu… eu tenho dinheiro. – disse SN, a garganta arranhando. – Pode pegar, por favor.

O homem a soltou, mas o impacto da pressão deixara marcas visíveis no pescoço e a respiração ainda saía entrecortada. Ela caiu de joelhos por um instante, sentindo o corpo latejar, mas rapidamente correu até o celular, acessou a conta e transferiu todo o dinheiro disponível para eles. Cada cifra enviada era um pequeno alívio, mas a tensão não diminuiu.

– Isso só cobre os juros – disse o homem, examinando a tela com desdém. – Ainda precisamos do restante. Mas por enquanto, não vamos quebrar nada seu. – Ele se afastou, conduzindo os outros dois pelo corredor com passos pesados e ameaçadores.

SN permaneceu imóvel por alguns segundos, respirando fundo, o corpo latejando, pescoço marcado e dolorido, as mãos ainda trêmulas. A visão do pai desmaiado no chão pressionava cada decisão que ela tomava. Ela não conseguia acreditar como tudo era sempre assim, como o caos parecia ser a única constante em sua vida.

Correu até ele, verificando pulsos, limpando o sangue do rosto, chamando a ambulância sem nem perceber a gravidade das marcas em seu próprio corpo.

– Socorro! – gritou, voz carregada de urgência – meu pai! Ele está desmaiado e sangrando!

Enquanto falava com o atendente, acariciava o braço dele, mantendo o controle apenas o suficiente para que ele não morresse ali. O caos não a deixava ter paz nem mesmo dentro de casa, o lugar que deveria ser um refúgio sempre se transformando em um campo de batalha.

O som das sirenes aproximando-se trouxe um alívio momentâneo, mas SN sabia que a vida nunca seria tranquila ali. Cada passo que ela dava, cada respiração, era um lembrete de que aquele mundo – de dívidas, violência e segredos – era tudo que ela conhecia.

O carro deslizou até a esquina. Jungkook reduziu a marcha e parou o veículo com precisão. Namjoon abriu a porta sem pressa, o vento frio da madrugada entrando no carro.

– A gente se fala depois. – disse Namjoon, ainda intrigado com a história que ouvira durante o trajeto.

Jungkook apenas assentiu, firme, e voltou a engatar a marcha. Assim que Namjoon fechou a porta, ele seguiu pelas ruas até o hospital. O prédio imponente iluminava a noite, janelas refletindo a lua em um brilho quase clínico.

Assim que estacionou e atravessou a entrada principal, um dos coordenadores da emergência o interceptou com passos rápidos.

– Doutor Jeon, chegou um chamado… caso de urgência. – A voz estava firme, mas o olhar carregava preocupação.

– O que houve? – Jungkook perguntou, ajustando o jaleco branco que a enfermeira já lhe entregava no corredor.

- O que houve? - Jungkook perguntou, ajustando o jaleco branco que a enfermeira já lhe entregava no corredor

– O mesmo de sempre – suspirou a enfermeira mais velha, Jihye, que o acompanhava desde a residência. – O senhor Kang foi trazido de novo.

Jungkook arqueou as sobrancelhas, descrente, mas não surpreso. – Toda semana a mesma coisa…

Jihye murmurou: – O homem parece ter feito um pacto com a própria morte. Sempre chega espancado, quebrado, ensanguentado.

Jungkook suspirou, os olhos gelados. – Eu tenho pena da filha dele.

– Já viu ela? – Jihye perguntou, curiosa.

– Só de longe. Ela sempre vem buscá-lo. – Jungkook manteve o tom impessoal, mas as palavras carregavam peso. – O que foi dessa vez?

– Não sabemos ainda. Estão a caminho na ambulância.

Ele apenas assentiu, apressando os passos até a sala de trauma. O ambiente tinha aquele cheiro ácido de antisséptico misturado ao metal frio das macas. Sons de máquinas, monitores, vozes de enfermeiros organizando materiais. Tudo pulsava em um ritmo frenético.

As portas automáticas se abriram com um estrondo. A maca entrou empurrada pelos paramédicos. O corpo de Kang estava ali, imóvel, sangue escorrendo da cabeça, o braço torto em um ângulo errado.

– Traumatismo contuso, fratura de úmero, possível costela comprometida! – gritou um dos paramédicos, passando o relatório às pressas.

Jungkook assumiu a liderança com autoridade imediata. – Pressão arterial? Saturação?

– Quarenta por cento de oxigênio, pressão baixa! – respondeu a enfermeira.

– Vamos estabilizar agora. Intubação se necessário. Prepara raio-x e tomografia. – Jungkook deu ordens rápidas, cada gesto preciso.

Foi então que, enquanto se aproximava da maca, seus olhos captaram uma figura ao fundo. Uma mulher parada, ofegante, a máscara de oxigênio refletindo nas luzes brancas, mas não nela. Ela.

A garota que ele tinha visto mais cedo, saindo do hotel. Roupas decentes, cabelo úmido da chuva, o corpo rígido em choque.

Era ela. A filha de Kang.

Mas havia mais. Jungkook percebeu imediatamente as marcas roxas e avermelhadas no pescoço dela. Impressões digitais de mãos que haviam apertado forte demais. Seus olhos se estreitaram, mas o rosto manteve a neutralidade clínica.

– Alguém cuide dela. Agora. – ordenou, a voz firme, autoritária. – Lesões visíveis no pescoço, risco de trauma na traqueia. Examinem antes que piore.

SN piscou, surpresa. Não estava acostumada a alguém perceber, muito menos a dar atenção. Ela tentou protestar, mas duas enfermeiras já se aproximavam, guiando-a para a sala ao lado.

Jungkook voltou ao leito. – Costelas comprometidas. O braço está claramente fraturado. Vamos imobilizar. Preparem o acesso venoso, analgésico de imediato. –

Enquanto falava, analisava cada detalhe. O som seco do monitor cardíaco preenchia a sala, a respiração dos profissionais era ritmada como um coro ensaiado. Kang gemia, mas já estava semiconsciente.

– Colapso parcial. – disse o radiologista, trazendo os primeiros exames. – Duas costelas quebradas, risco de perfuração.

Jungkook franziu a testa, os olhos gelados fixos no papel. – Ele precisa de cirurgia. Sala dois. Agora.

A equipe se moveu com precisão. Eles sabiam que quando Jungkook assumia, cada segundo valia. Ele não deixava nada escapar. O braço foi imobilizado, o oxigênio ajustado, o soro corria pela veia. O corpo de Kang foi levado rapidamente em direção ao centro cirúrgico, enquanto Jungkook caminhava firme ao lado, como se carregasse sozinho a responsabilidade daquele destino.

Antes de desaparecer pelas portas, ele ainda lançou um último olhar para trás. Para ela.

SN, agora sentada em uma maca improvisada no canto da emergência, o pescoço marcado, as mãos trêmulas no colo, observava tudo. Seus olhos encontraram os dele por um instante. Intensos. Penetrantes. Mas sem revelar nada além do frio profissionalismo.

SN piscou, a respiração presa na garganta.
“Eu já vi esses olhos antes.”

O coração acelerou de forma estranha, como se algo nela tivesse sido sacudido. Mas antes que pudesse aprofundar a sensação, o celular em seu bolso vibrou. Ela o retirou discretamente, e a tela iluminada trouxe um choque frio:

[Mensagem recebida – Jungkook]
“Te espero amanhã. 18h. Local enviado. Não se atrase.”

Ela engoliu seco, guardando o celular de volta no bolso e desviando o olhar para a porta por onde levaram seu pai. Precisava sair dali, precisava se recompor. Voltou para casa ainda com o pescoço latejando como um lembrete do caos em que estava mergulhada.

Do outro lado, Jungkook deslizou o dedo pela tela antes de guardar o celular no bolso interno do paletó. Tinha dado suas ordens. Amanhã ela seria dele de novo. Um músculo em sua mandíbula repuxou.

Ele queria encontrar ela antes, sem ter que esperar por muito tempo. Mas agora… agora tinha um hospital inteiro para comandar, uma cirurgia emergencial, e precisava se controlar. A espera era inevitável.

Droga. O pensamento veio ríspido. Odeava sentir que algo fugia do controle. Precisava de algumas horas para descansar, mas a situação não lhe dava o luxo. Aquilo o irritava, fazia o sangue ferver em silêncio.

– Doutor Jeon, estamos prontos – a voz de uma enfermeira o chamou de volta à realidade.

Ele puxou o ar fundo, limpou as mãos com movimentos mecânicos e precisos, ajeitou a máscara cirúrgica. Tudo o que era externo, emocional, foi trancado atrás da sua disciplina. O foco voltava a ser absoluto.

Sem mais distrações, Jungkook entrou na sala de cirurgia.

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